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19 março 2016

Ala dos Namorados - Águas-Furtadas

Duas lágrimas deixadas na hora da despedida
São duas águas-furtadas num céu onde não há escadas,
O último andar da vida.

Quem lá sobe diz que alcança tudo o que a vida lhe deu,
Tudo o que deixou de herança, desde os sonhos de criança,
São janelinhas no céu.

Ninguém parte em boa hora, tu partiste adiantado,
Deixaste a chave onde mora a saudade, foste embora,
Deixaste ficar o fado.

Naquelas águas-furtadas onde a vista não tem fim,
São as últimas moradas, subiste sem ter escadas,
E o fado leva-me a mim.

Ninguém parte em boa hora, tu partiste adiantado,
Deixaste a chave onde mora a saudade, foste embora,
Deixaste ficar o fado.

Aquelas águas-furtadas onde a vista não tem fim
São as últimas moradas. Tu subiste sem ter escadas
E o fado leva-me a mim.

(Ala dos Namorados. Letra de João Monge, música de Manuel Paulo)


25 fevereiro 2016

Pai

Pai, Dizem-me que Ainda Te Chamo

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.

(Maria do Rosário Pedreira, in 'Nenhum Nome Depois')

25 fevereiro 2015

Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

Maria do Rosário Pedreira

25 fevereiro 2014

Ficou vazio o teu lugar à mesa.
Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio,
as visitas são desejadas apenas
a outras mesas.
Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.

No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.

(Maria do Rosário Pedreira)

24 fevereiro 2014

Há seis anos

Neste dia, há seis anos, vi o meu Pai pela última vez. Nem eu nem ele imaginávamos que era a última vez. No dia seguinte ele já não acordou e eu também não, porque nessa noite não dormi. O Sol nasceu como todos os dias, era segunda-feira e as filas formaram-se à entrada de Lisboa, como todos os dias, milhões de pessoas levantaram-se para ir trabalhar como todos os dias, as lojas abriram, as ruas encheram-se de gente, nasceram crianças, apaixonados viram-se pela primeira vez, namorados desentenderam-se, casais divorciaram-se, houve quem começasse nesse dia um novo emprego ou se despedisse para começar uma nova vida noutro lado. As ameixoeiras começaram a dar flôr nesse dia, os pássaros reuniram-se a chilrear, nos ramos das árvores, às cinco tarde como nos outros dias, a vida seguiu o seu curso normal sem que ninguém percebesse que havia menos uma pessoa nessa azáfama diária. Há seis anos, no dia de hoje, estive com o meu Pai pela última vez. Quando compreendi que não voltaria a vê-lo tentei visualizar os próximos dez, vinte, trinta anos, talvez mais até e tentei visualizar esses anos todos sem ele. Outro tanto tempo que já tinha vivido. Metade da minha vida. Toda uma história por partilhar. Todas as coisas de que não falava com mais ninguém ou que não falava da mesma maneira. Há seis anos, neste dia, falei com o meu Pai pela última vez. Conversas que não acabavam ou que continuavam sempre no encontro seguinte. A mesma conversa em contínuo, retomada no ponto em que tinha sido deixada. Conversas que não vou retomar. Há seis anos, neste dia, beijei o meu Pai pela última vez. Como se fosse ontem. Como se fosse hoje. O tempo não passou.

25 fevereiro 2013

Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria
(1971-1999)

25 fevereiro 2012

Sei que dormes em paz

Deste-me o nome e a lua
A lua não tem morada
Alumia qualquer rua
Mas só a mim me foi dada

Não entendo onde tu estás
Nem porque chegaste ao fim
Não entendo onde tu estás
Mas sei que dormes em paz
Descansas dentro de mim

Já nasci com a saudade
Nada mais herdei de ti
Deste-me o nome e a idade
Da lua quando nasci

Não sei se há lugar no céu
À minha espera ao teu lado
Não sei se há lugar no céu
O lugar que Deus me deu
Para viver é o Fado

("Fado da herança". Poema de João Monge para música de Alfredo Marceneiro)

25 fevereiro 2010

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

(Sophia de Mello Breyner Andersen)

14 abril 2008

Retrato

Era um homem extraordinário mas, precisamente por isso, difícil de compreender. Contraditório, incoerente, pragmático e quixotesco, inteligente e casmurro. Frio e metódico em questões de trabalho, nas coisas que o apaixonavam perdia a frieza e tornava-se teimoso e fundamentalista.
Não se desviava um milímetro quando achava que tinha razão, mesmo que essa teimosia o viesse a prejudicar; e tantas vezes o prejudicou. Tantas vezes o ouvi dizer «maldito feitio o meu!».

Profundamente crente, nunca, até ao fim da vida, desistiu de tentar conciliar Fé e Razão porque, se a razão lhe dizia que a fé apenas pela crença é imprópria de um ser pensante, o coração lhe dizia que a existência sem Deus seria um absurdo incompatível com a razão.

A injustiça revoltava-lhe as entranhas. Ficava transtornado a ver o telejornal. Desligava a televisão e punha música. Não queria ver notícias de crianças raptadas, de pessoas que morriam a caminho do hospital porque tinham fechado a urgência mais próxima, não queria ver os encontros de políticos, com caterings de luxo, onde se discutia a redução da fome daqui a vinte anos.

Revoltava-o a injustiça mas também a hipocrisia a estupidez e a boçalidade que encontrava, em doses variáveis mas sem excepção, em todos os quadrantes políticos. Votava por descargo de consciência. Detestava todos os políticos porque não podia conceber que, mais de 30 anos depois do 25 de Abril, ainda houvesse aldeias sem saneamento básico e ainda houvesse necessidade de emigrar. Ele, que tinha crescido no tempo da Segunda Guerra, que tinha vivido o racionamento, que tinha começado a trabalhar aos doze anos e que tinha acreditado que os problemas do país eram culpa do Salazar, sentia-se defraudado pela política e pelos políticos.

Era convictamente republicano mas tinha espírito autoritário. A democracia, a tolerância, a conciliação soavam-lhe a fraqueza, a incompetência, a incerteza. Tinha muitas certezas que o tornavam frequentemente intolerante. Discordávamos muito e ele, rindo, dizia «pois, eu sei, tu achas que eu sou preconceituoso». O autoritarismo dele vinha das certezas que tinha e da convicção de que, enquanto se discute a melhor solução, o mundo não para à espera das decisões. Acreditava, porém, que a autoridade só devia ser praticada ao serviço do bem comum; a tirania era-lhe insuportável. Muitas das nossas discussões tinham por base essa ténue linha divisória entre autoridade e tirania.

Tinha um apurado sentido de honra e de dever. Não tolerava o laxismo, a pouca-vergonha, a falta de palavra, o dito-por-não-dito, a tibieza, a preguiça, a irresponsabilidade, o parasitismo. Era exigente, em primeiro lugar, consigo próprio.

Adorava música, era a sua maior paixão, mas a sua personalidade muito especial sempre o impediu de pensar sequer em viver da música, embora tenha tido essa oportunidade.

Era naturalmente bem disposto. O sentido de revolta não o tornava amargo nem triste. Amava a vida, adorava estar vivo, adorava tudo o que a vida tem de bom e valorizava sempre o lado bom de tudo. Amava a família, viveu para a família, a família era tudo para ele. Tudo o que fez, tudo o que deixou de fazer, tudo foi sempre a pensar na família. Nada lhe dava maior prazer do que estar em casa, numa grande almoçarada, rodeado do seu clã, todos a falar muito alto, todos a falar ao mesmo tempo. Casa de italianos, dizia a brincar, em alusão ao avô italiano, figura quase lendária que ele nunca chegou a conhecer mas sempre evocada nos anais familiares.
Foi assim que esteve, horas antes de partir. Sem que o soubesse (e o soubéssemos) estava a despedir-se. Partiu de surpresa, depressa e sem hesitação.
As olaias floriam.