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18 setembro 2007

Hipócritas!

Bruxelas está preocupada com a concorrência desleal.
Pasme-se! Bruxelas está preocupada com a concorrência desleal... da Microsoft!
Sim, eu li bem. Li duas vezes e li bem. A Microsoft faz concorrência desleal porque inova onde os outros não conseguem e porque oferece software. E isso é concorrência desleal.

A China não! Oni soit qui mal y pense...
Direitos laborais? Eles estão habituados a trabalhar 16 horas, sempre foi assim.
Trabalho infantil? Não interessa! Os putos chineses têm bom corpo para trabalhar.
A Europa tem de permanecer limpa dessas abominações, claro, em nome da sacrossanta «Civilização Ocidental». Agora, os outros não. Os outros não precisam disso. Sempre viveram assim, que diferença faz? Mais escravo menos escravo. Mais chinês menos chinês. Eles já são tantos!

Quem é que se interessa, no conforto dos sofás de Bruxelas, nos frescos gabinetes com ar condicionado, se todos os anos milhares de crianças de olhos em bico são roubadas à miséria das suas choupanas, em aldeias cujo nome ninguém consegue pronunciar, para serem lançadas à pazada (a forquilha podia danificar o material) em fábricas de brinquedos, de tecidos, de componentes eléctricos, de tapetes, de roupas, de sapatos... Isso interessa a quem?!? Na baiuca minguavam com meia tijela de arroz. Na fábrica minguam com uma tijela de arroz. Minguam menos.

Podiam, no entanto, estes senhores de Bruxelas, que comem números ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar (o que prova um fenómeno nutricional curioso: os numeros engordam!) podiam estes senhores de Bruxelas, estar preocupados com a concorrência desleal: menos direitos laborais, preços mais baixos, prejuízo para as empresas europeias. Podiam até estar preocupados com o controlo de qualidade, com as famosas normas europeias que espartilham o trabalho das nossas fábricas até à obsessão em nome da qualidade, da saúde pública, da segurança. Mas não. Os senhores de Bruxelas só se preocupam com a segurança dos produtos produzidos dentro da Europa.

Resumindo, podiam os senhores de Bruxelas - já que não se preocupam com os outros - estar ao menos preocupados com o bem estar, a prosperidade e a felicidade dos cidadãos europeus que lhes pagam os ordenados. Mas não. Aos senhores de Bruxelas isso não interessa para nada.
Há muito empresário europeu a quem convém que na China - e em outros países onde não se respeitam os direitos humanos, onde os salários (quando há salários) são despudoradamente baixos, onde os direitos laborais são inexistentes - a quem convém, dizia, que a situação se mantenha para poderem, precisamente, fazer lá (aos desgraçados que não têm onde caír mortos e a quem uma tijela de arroz é uma benção do céu) o que não podem fazer cá, aos europeus, porque Bruxelas não deixa, porque parece mal, porque isso não é civilizado. Na pior das hipóteses, por cá mandam-se umas famílias para o desemprego mas isso é o menos porque o Estado social não deixa ninguém morrer à fome.

A bem dizer, os senhores de Bruxelas estão-se nas tintas (tintas sem chumbo e certificadas por uma ISO qualquer, claro!) para a concorrência desleal. A bem dizer, a concorrência desleal é um pretexto desconchavado que eles inventam para enganar os papalvos.
Deviam cobrir-se de alcatrão e penas, estes senhores de Bruxelas.

«Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, fingidos! Tão cuidadosos em polir o copo por fora, enquanto que por dentro está todo sujo de roubos e de cobiça!»
(Mt. 23, 25-26)