A festa do Corpus Christi ou Corpo de Deus é, talvez, uma das festas católicas menos compreendidas por crentes e por não crentes. Aparentemente desgarrada do tempo pascal, aparece sempre a uma Quinta Feira, quase sempre em Junho. Os católicos vão à Missa neste dia mas aposto que a grande maioria nem sabe porquê. Os não católicos esfregam as mãos de contentes e aproveitam para ir à praia. Eu, que não vou à Missa nem à praia, explico o que é o Corpus Christi:
O princípio fundamental da fé cristã é a divindade de um homem que viveu na Palestina há cerca de 2000 anos, de nome Jesus, cognominado Cristo (o Ungido) pelos seus seguidores. Este homem, que terá morrido no dia anterior ao Sábado e, para os cristãos, ressuscitado no dia a seguir ao Sábado, teria deixado instruções no sentido de ser periodicamente (ele não especificou a periodicidade) realizada uma cerimónia em que o pão e o vinho fossem abençoados e distribuídos aos crentes numa celebração daquela que ficaria conhecida por Última Ceia e que se teria realizado na véspera da sua crucifixão.
Os cristãos sempre acreditaram que, nesta ceia fundadora, Jesus teria transformado de factu (e não apenas simbolicamente) o pão e o vinho no seu corpo e no seu sangue como antecipação do seu próprio sacrifício. Ao fazê-lo, instituía o sacramento da Eucaristia e os cristãos acreditam também que, de cada vez que repetem este gesto, repetem essa transformação à qual dão o nome de "transubstanciação" (ou seja, transformação de uma substância em outra).
Acontece que a teologia cristã teve os seus altos e baixos durante os primeiros séculos do cristianismo, surgiram muitas "variantes" da doutrina oficial da Igreja e a Igreja tratou de, por diversos meios, uns mais inóquos que outros, fazer valer a sua versão da doutrina. Um desses meios foi a instituição dos dogmas. Os dogmas são crenças que, uma vez estabelecidas, não se discutem mais, deixam de estar sujeitas ao debate teológico. De uma maneira geral, os dogmas só foram estabelecidos como resposta às versões "desviantes" ou seja, às versões consideradas heréticas pela Igreja Católica: temos como exemplos, o dogma da Santíssima Trindade (posto em causa por Ario), o da Virgindade Perpétua de Maria (posto em causa por várias tradições cristãs) e... o da transubstanciação. Pois, esse mesmo. O da transformação real do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus durante a celebração da Eucaristia. Este dogma (que ainda não era dogma) é posto em causa pelo teólogo Berengário de Tours (999-1086). Apesar de se ter retratado no fim da vida, deixou seguidores - os Berengários - e a Igreja sentiu necessidade de reforçar a crença na transubstanciação, tanto mais que esta era a base do sacramento da Eucaristia. E fê-lo em 1264, pela mão do Papa Urbano IV, com a bula Transiturus a qual instituíu a festa do Corpus Christi, com missa e ofício próprios. Celebra-se no 60º dia após a Páscoa e calha sempre a uma Quinta Feira para acentuar a relação com a Última Ceia, celebrada a Quinta Feira Santa.
E pronto, agora que já sabem porque é têm ordem de soltura na Quinta Feira do Corpo de Deus... que não venha o pessoal do Bloco agora dizer que isto é um estado laico e patati patatá porque eu também gosto de ficar a dormir até mais tarde, mesmo sem ir à Missa nem à praia.
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08 junho 2007
Corpus Christi
Etiquetas:
Cristianismo,
Dogmas,
Igreja Católica
28 setembro 2006
Vamos lá a resolver os nossos diferendos
Saramago propõe pacto entre Islão e Cristianismo
O Nobel da Literatura José Saramago propôs hoje um «pacto de não agressão» entre o Islão e o Cristianismo, que vá mais além da Aliança das Civilizações, uma proposta da Europa que considerou insuficiente [...]
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Ora, eu até gosto do Saramago-escritor mas o Saramago-opinador tem cada saída! Que eu saiba, para haver um pacto de não-agressão tem de haver dois agressores. Ora, estamos a falar de Islão e Cristianismo, ou seja, de duas religiões. Se o Islão é agressor ou não, as opiniões dividem-se, embora eu me incline mais para não confundir o Islão com os islamitas. Basta deitar o canto do olho ao retrovisor da História para ver como, durante séculos, a actuação de muitos que se diziam cristãos teve pouco a ver com o Cristianismo. E mesmo hoje... Adiante.
Do que não há dúvidas é que o Cristianismo, enquanto religião e enquanto fé, não é agressor de ninguém, nunca foi e nunca será enquanto durar.
Propor um pacto de não-agressão entre um agressor e um não agressor é cobarde, é hipócrita e patético. Principalmente quando se fala pelo lado do não agressor. Se eu fôr assaltada na rua vou virar-me para o assaltante e dizer-lhe «Eh, pá, somos pessoas inteligentes e civilizadas, ora vamos lá a resolver os nossos diferendos de forma pacífica» ou dou-lhe uma joelhada e piro-me? Que achará o Sr. Saramago que eu devo fazer?
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Do que não há dúvidas é que o Cristianismo, enquanto religião e enquanto fé, não é agressor de ninguém, nunca foi e nunca será enquanto durar.
Propor um pacto de não-agressão entre um agressor e um não agressor é cobarde, é hipócrita e patético. Principalmente quando se fala pelo lado do não agressor. Se eu fôr assaltada na rua vou virar-me para o assaltante e dizer-lhe «Eh, pá, somos pessoas inteligentes e civilizadas, ora vamos lá a resolver os nossos diferendos de forma pacífica» ou dou-lhe uma joelhada e piro-me? Que achará o Sr. Saramago que eu devo fazer?
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