Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.
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31 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação (4)

O texto do Adalberto aqui... a que se seguiu o meu:

A Biblioteca de Jacinto

A inspiração

«A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caramânia até ao tecto de onde alternadamente, através de cristais, o sol e a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma - continha vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o bibliotecário apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezassete!
Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando este economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência - e mesmo da estupidez. E o único inconveniente deste monumental armazém do saber era que todo aquele que lá penetrava inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o Corpo encontrava logo, para mal do Espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de um leito.» (A civilização)

A frase lapidar

«Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o bibliotecário apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezassete!»

Está cá tudo: a exaustividade, a pertinência e a especificidade; a gestão de recursos; a imparcialidade.

Mas há mais. Todas as questões actuais associadas às novas tecnologias (da época) e à informação estão presentes no conto e na novela de Jacinto, designadamente aquilo que nós consideramos ser uma característica dos nossos dias como o excesso de informação, a poluição informativa ligada à globalização:

«Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. [...]. Nesse instante rompeu de outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no telefone:
«— Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr.
«E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria!
«Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o prejudicava directamente aquela avaria da Azoff.
«— Da Azoff?... A avaria? A mim?... Não! É uma notícia.» (A cidade e as serras)

A biblioteca de Jacinto é, assim, no espírito e na forma, o meu imaginário de biblioteca. Fascinou-me logo, desde a primeira vez que li a «Civilização», teria 9 ou 10 anos. Que me desculpem os colegas das bibliotecas públicas, a mim nunca atraíram as estantes coloridas e os pufes. Em criança eu gostava de mistério. Gostava de sítios escuros onde tivesse de entrar pé ante pé, espreitando atrás de cada porta ou de cada estante. Gostava de imaginar que, por detrás de um armário de madeira escura, fazendo deslizar um painel, podia encontrar um túnel secreto. Gostava de palácios e de casas antigas. Adorava o corredor sombrio, em chão de tábua, por detrás do guichet de madeira escura – cujo tampo me dava pelo queixo – da Conservatória do Registo Civil do meu bairro, ao qual (corredor) eu não conseguia ver o fundo: uma Conservatória que me veio imediatamente à memória ao ler «Todos os Nomes», de Saramago.
Passava horas a ler, enfiada no sótão da casa de campo dos meus pais, enquanto o Sol brilhava cá fora e a minha Mãe me chamava «está um dia tão lindo, porque é que não vais lá para fora brincar?».

Mas a biblioteca de Jacinto é, simultaneamente, o contrário do ideal de biblioteca:

«- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
«- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
«- Não sei.
«Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta.» (A cidade e as serras)

Se o bibliotecário de Jacinto, com a sua «justa prudência», tentara a gestão óptima do espaço e do saber, esse saber ficara fechado, armazenado, falhara a comunicação.

A biblioteca de Jacinto, «monumental armazém do saber» «formidavelmente abastecido [...] de todas as obras essenciais da inteligência - e mesmo da estupidez» é assim um microcosmos. Tem tudo o que, de bom e de mau, uma biblioteca pode ter e isso torna-a tremendamente real.

Os bibliotecários e os blogues

Tenho-me interrogado – e levantei essa questão no painel do Congresso BAD, em Ponta Delgada – o que leva tantos bibliotecários a terem blogues? Se os sites e páginas pessoais não fascinaram tantos bibliotecários quanto os blogues, qual será a razão? E porquê tantos bibliotecários e tão poucos arquivistas? E o que é que caracteriza os blogues dos bibliotecários, o que os distingue dos outros (se é que algo os distingue)? Haverá uma forma própria de se ser um blogueiro bibliotecário?
Para um bibliotecário, o fenómeno blogue não é uma coisa assim tão nova. Na verdade, é algo muito familiar. Talvez por isso os bibliotecário se sintam tão “em casa” nos blogues.
A edição privada, de carácter "artesanal", existe desde os primeiros tempos da tipografia. A publicação de textos críticos ou de intervenção social, com carácter panfletário, tem, pelo menos, dois séculos. Um óptimo exemplo disso é «As farpas» de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão:
«Nesta jornada, longa ou curta, vamos sós. Não levamos bandeira nem clarim. Pelo caminho não leremos A Nação nem o Almanach das Cacholetas. Vamos conversando um pouco, rindo muito. [...] Assim vamos. E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal.»

Este “blogue” avant la lettre durou de 1871 até 1883. Se Eça de Queirós e Ramalho Ortigão tivessem tido acesso à tecnologia actual, teriam, seguramente, publicado as suas Farpas num blogue.
A estrutura cronológica do blogue é um retorno à lógica linear do livro impresso (ou até do rolo) que contraria a ideia difundida há alguns anos, de que a estrutura hipertextual era o futuro e que a lógica linear tinha os dias contados.
Outro aspecto curioso em relação aos blogues tem a ver com a ideia mais ou menos difundida de que vêm substituir alguma coisa. Há uns anos perguntava-se se a imprensa on-line iria substituir a imprensa escrita. Antes perguntava-se se o CD e a Internet iriam substituir os livros. Mas antes disso perguntou-se se o cinema iria substituir o teatro, se a fotografia iria substituir a pintura e, séculos antes, perguntou-se se a tipografia iria substituir a escrita manual. Na antiga Grécia houve quem acreditasse que a escrita iria eliminar a tradição oral. Tudo tem o seu lugar e a sua função. E os bibliotecários sabem disso muito bem.
É certo que a Internet se tornou, nos últimos anos, um meio privilegiado de comunicação e um espaço de liberdade de expressão individual e colectiva. Neste meio, os blogues têm assumido particular relevo, se não pela qualidade (a maioria das vezes, duvidosa) certamente pela sua ampla acessibilidade. Se «não há cão nem gato» que não tenha um blogue, hoje em dia, também é certo que nunca, como neste meio, a selecção se fez tanto pelo lado do "mercado" pois, livres dos constrangimentos comerciais, os blogues estão todos igualmente acessíveis a quem usa a Internet e a sua consulta depende única e exclusivamente do interesse que despertam nos cibernautas.

Acho que subjacente à criação de um blogue há sempre uma certa petulância, mesmo que inconsciente. O que me leva a pensar que tenho alguma coisa de interessante para dizer?!? Seja como meio de escape, seja como oportunidade para conhecer pessoas com interesses afins, seja como espaço de debate e de troca de informações, a criação de um blogue tem sempre uma carga voluntarista muito forte e, algures entre o consciente e o inconsciente, revela sempre uma vontade de espreitar o mundo (por detrás do balcão?...) e de perguntar «Está aí alguém?».

30 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação (3)

Parabéns à ESEIG!
O III Encontro "Web 2.0 e a Ciência da Informação" do curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (CTDI), correu muitíssimo bem, as comunicações foram muito interessantes e a organização impecável. Impressionante a dinâmica e o empenhamento de professores e alunos do curso. Tudo foi feito para tornar o mais agradável possível esta naturalmente cansativa "maratona", desde o transporte de e para Vila do Conde, ao alojamento, passando pelo almoço servido nas instalações da ESEIG. Uma palavra de especial apreço para o Júlio Anjos, que se esteve nisto de corpo e alma. Nada podia ter corrido melhor. Perfeito é a palavra. Muito, muito obrigada por tudo!

28 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação (2)

Estou de partida para Vila do Conde, para participar no III Encontro do curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (CTDI) da ESEIG, subordinado ao tema "Web 2.0 e a Ciência da Informação". É amanhã. Lá para as três e tal da tarde vou apresentar o texto do Adalberto Barreto «O blogue pessoal/profissional como escape terapêutico = Silly library blogs worldwide» e vou também dar a minha achega a este tema. Vou falar da Biblioteca de Jacinto, claro, mas também deste mundo dos blogues, do que tem de novo e do que nem por isso. E porque é que nós, os bibliotecários, gostamos tanto de blogues. Porque será?...

04 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação

«O III Encontro do curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (CTDI) da ESEIG (Vila do Conde), subordinado ao tema "Web 2.0 e a Ciência da Informação", pretende dar continuidade a uma iniciativa organizada, pela primeira vez, em 2005, tendo, então, assumido uma periodicidade anual.

«O êxito das edições anteriores deste evento reforçou a vontade de prosseguirmos com o objectivo então traçado: a partilha de saberes e experiências diversificadas, no âmbito das Ciências e Tecnologias da Informação, de modo a proporcionar o debate, a difusão e o desenvolvimento do conhecimento na matéria.

«Os Encontros têm como público alvo os actuais e futuros Profissionais da Informação bem como gestores de empresas.

«O Tema deste III Encontro, Web 2.0, é encarado por nós como verdadeiramente actual e pertinente pois vem realçar ainda mais a importância da Ciência da Informação, neste mundo em que o cidadão comum, ao invés de mero consumidor, se torna actor não só na produção de informação, como na sua distribuição e relevância, por virtude de novas aplicações e da, cada vez maior, ubiquidade de mecanismos e locais de acesso. Assim, qualquer cidadão pode ser também produtor com uma facilidade até agora nunca vista.

«A emergência do paradigma do "utilizador como conteúdo" é apenas uma das revoluções criadas pela adopção destas ferramentas a nível global: muitos outros novos desafios se colocam aos Profissionais da Informação, seja na projecção dos seus serviços na blogosfera, seja na avaliação da qualidade da informação agora disponível, seja na sempre crescente necessidade de dotar o cidadão das competências necessárias para aferir a relevância, autoridade e qualidade da informação recuperada.

«Por outro lado, as novas esferas de comunicação humana, desde a blogosfera aos mundos virtuais, passando pelas comunidades online, apresentam desafios aos Profissionais da Informação que, apesar de estarem perfeitamente contemplados nos referenciais de competências com que foram dotados no seu percurso académico, urge revisitar: Qual o nosso papel na web 2.0? Como acrescentar-lhe valor? Como expressar a nossa relevância? Como avaliar o valor? Como tornar os nossos serviços relevantes para os utilizadores nativos digitais? Como adaptar a docência da Ciência da Informação e mesmo a produção científica Web 2.0?

«Se não para responder a tudo isto, pelo menos para fazer novas perguntas, convidamos pois, todos os interessados, a estarem connosco no dia 29 de Maio.

«Para o curso de CTDI, Web 2.0 significa "a Web somos nós!".»

Quanto à bibliotecária da Biblioteca de Jacinto - Moi - vai ter uma modesta (mas divertida, espero) participação. Ainda não escrevi nada (se calhar vai de improviso) mas vou falar sobre a minha experiência n'A biblioteca de Jacinto, como o facto de ser bibliotecária profissional influencia a minha atitude enquanto blogger e também da minha participação em redes sociais (Bibliotecários 2.0, Librarians, Library 2.0) e da rede Paper Music, que criei para pôr em contacto bibliotecários e arquivistas de música em todo o mundo bem como todas aquelas pessoas que, não sendo bibliotecários nem arquivistas profissionais, trabalham com documentação e com património musical e têm experièncias a trocar.