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08 maio 2007

Madeleine

O país está em alvoroço por causa do misterioso desaparecimento de uma menina inglesa num condomínio de férias no Algarve. Quem lê os jornais online, quer os portugueses, quer os britânicos, vê também os comentários que os seus leitores, sempre muito opinativos, fazem a este acontecimento e às suas circunstâncias. Como em casa onde não há pão, onde todos ralham e ninguém tem razão.
A minha opinião é que os pais da menina falharam redondamente nas suas responsabilidades. Além do risco de acidentes não provocados como uma fuga de gás, um curto-circuito ou uma inundação, é de elementar bom senso não deixar três crianças pequenas sozinhas em casa, numa idade em que já conseguem correr pela casa - e uma casa desconhecida é sempre uma aventura de exploração - mas ainda não têm a noção dos riscos inerentes a uns dedinhos na ficha eléctrica, a uma frigideira em cima da bancada, a uma queda de um banco ou - tão comum nestas idades - um pequeno objecto levado à boca. Já para não falar do raptor que entra pela janela, em que normalmente ninguém pensa. Para um português isto é óbvio. Mas também compreendo que o comportamento destes pais é considerado normal na Europa setentrional. As crianças são entregues a si mesmas desde tenra idade para se tornarem independentes desde cedo. Aqueles pais fazem com os seus filhos o mesmo que os seus próprios pais fizeram com eles e os avós com os seus pais. Não têm a noção de terem negligenciado as crianças. Podemos pôr em causa a mentalidade que está subjacente a este comportamento e é essa mentalidade que eu ponho em causa, não este comportamento em particular.

Outra questão são as críticas à actuação da Polícia Judiciária (aliás, aproveitadas pela imprensa britânica) que não considero justas. Parece que toda a gente sabe como a polícia deveria actuar. Toda a gente menos a polícia, claro. De treinadores de bancada, os portugueses passaram, nos últimos dias, a detectives de sofá. Eu tenho por hábito e por princípio, confiar nos profissionais. Em todos os profissionais. Parto sempre do princípio de que, se uma pessoa recebeu formação para exercer uma determinada profissão e se a exerce não sou eu que vou dizer, precipitadamente, que essa pessoa não sabe o que está a fazer. Isto não invalida que, numa avaliação distanciada, se possa vir a perceber que houve erros e que determinado profissional não agiu correctamente, ou seja, de acordo com o que deveria ser o seu procedimento enquanto profissional. Mas essa avaliação deve ser feita a posteriori e deve ser feita por outros profissionais. Seja como for, as críticas têm sido apontadas a toda a actuação da própria Polícia Judiciária o que é gratuito. Alguém acha realmente que a PJ está a dizer tudo? E alguém acha isso desejável? Quem nos garante que as informações avançadas pela imprensa relativas a zonas vigiadas e a métodos utilizados correspondem à realidade? Isso, sim, seria de uma ingenuidade amadora. Não tenho a mínima dúvida de que a Polícia sabe mais do que declara, faz mais do que conta e usa métodos que não revela. E os detectives do sofá deveriam, no mínimo, estar calados porque deve ser terrivelmente desanimador para os profissionais da Polícia estarem a dar o seu melhor (há quantas noites não dormem nem comem decentemente?) e a ouvir as criticazinhas mordazes e mesquinhas de quem só sabe dizer mal. Sinto muitas vezes que alguns portugueses preferem que as coisas corram mal só para depois dizerem que tinham razão. Vejo isso no futebol, vejo isso na política, vejo isso quando há incêndios e desastres naturais e, por incrível que pareça, vejo isso agora, quando está em risco a segurança e a vida de uma criança. Também esta é uma questão de mentalidade e é um aspecto da mentalidade portuguesa que me desgosta particularmente.

Educação à inglesa

«Vilaça, sem óculos, um pouco arrepiado, passava a ponta da toalha molhada pelo pescoço, por trás da orelha, e ia dizendo: - Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é ele quem governa... mimos e mais mimos, naturalmente... Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desiludiu o sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizia S. S.ª? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gear lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às arvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.» (In: Eça de Queirós - Os Maias)