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12 novembro 2007

1985

Por vezes, a propósito desta loucura terrorista, anti-terrorista e terrorista-anti-terrorista que estamos a viver desde o malfadado 11 de Setembro de 2001, lembro-me de uma música que há muito tempo não ouvia. Ouvi-a há dias, na RFM, quando ia para a Biblioteca.
Corria o ano de 1985, ano extraordinário. 1985 foi um daqueles anos raros em que se sentiu a História a acontecer. Tal como sentiram os que viveram o ano de 1939 e todos sentimos em 2001.
Mikhail Gorbachev assumia o puder supremo do Império Soviético e lançava a Perestroika. Nada seria como dantes e nós percebemos isso.
Elton John compunha Nikita, aquela canção deliciosamente banal que andou nos ouvidos e na boca de toda agente. Nikita era aquela moça de olhos transparentes que guardava uma fronteira, mas era também o nome próprio de Krushov... «Oh Nikita you will never know, anything about my home... And if there comes a time Guns and gates no longer hold you in And if you're free to make a choice Just look towards the west and find a friend».
E o Live Aid! Esse concerto único, acompanhado gulosamente pela televisão, em que uma geração de adolescentes que crescia já em liberdade e pouco dada a ideais, teve o seu momento idealista, o seu cheirinho de anos 60, de peace and love, de Woodstock.
Eu, caloira em História, vivia a crise da Livre (a única universidade privada de então) e tentava concentrar-me para as frequências, enquanto os alunos das públicas - principalmente da Clássica - não tinham mais que fazer que manifestações contra o ensino superior privado. Eles, que podiam passar oito ou dez anos nos copos a fingir que faziam o curso porque, nessa época, não o pagavam, ao contrário de nós que pagávamos os nossos e os deles. Adiante, o que lá vai, lá vai...

Esquerda e Direita, Leste e Ocidente, «Progresso» e «Reacção», era essa a dicotomia neste já longínquo ano de 1985. Os russos - essa diabólica ameaça! - invadiam países estrangeiros para lhes imporem governos favoráveis. Nada que aconteça hoje, não senhor.

Realmente, eu fui daqueles que respiraram de alívio, que viram uma luz ao fundo do túnel, que imaginaram um futuro risonho, um longo período de paz e prosperidade para a espécie humana, quando finalmente caísse o Império Soviético.
Enquanto isso, Sting lembrava que os nossos «inimigos» também amam os seus filhos. Mas alguém se lembra disso?...

15 novembro 2006

Nos tempos da Livre

Livre

Tenho saudades da Universidade Livre. Não sei se era do ambiente intelectual, em pleno Chiado perto das Belas Artes, da Brasileira e do São Carlos. Ou se era da localização, num autêntico miradouro sobre o Tejo. Da sala de aula podíamos avistar o rio e a ponte, os cacilheiros a desenharem na água um trajecto de vai-vem e o sol a pôr-se detrás do Cristo-Rei.

Talvez fosse do edifício do Século XIX, do bar no sótão - onde passei mais tempo do que nas aulas - com os vigamentos à vista e as janelas em água-furtada. Não sei se era dos amigos que aí fiz e que mantenho preciosamente. Ou talvez fosse dos 17 anos e eu tenha saudades dos 17 anos... Era de tudo no conjunto.

Fico lamechas quando me lembro da Livre. Livre. Até o nome é bonito. Ao pé de Livre, nomes como independente, autónoma ou seja lá o que for soam patéticos. Livre! Não pode haver nome mais belo para uma instituição que se dedica ao ensino e à propagação do saber. O saber é uma fonte de liberdade e a liberdade é condição para o saber. Pertenço a uma geração marcada pela palavra Liberdade. Crescemos a ouvir falar de Liberdade. Ouvimo-la da boca de toda a gente. Uns empunhavam-na como um machado de guerra, outros deitavam as mãos à cabeça e gritavam "libertinagem" como se fosse um exorcismo. Foi usada e abusada por todos. E nós, com sete, oito, nove anos, ouvíamos e não percebíamos. Mas a palavra foi entrando por osmose. Para nós não é uma palavra vã. Soa, ecoa, reverbera. Independentemente da cor política, independentemente do que somos hoje, mais ou menos aburguesados, com casas, carros, telemóveis, computadores e "nets", crescemos a ouvir que a Liberdade é o maior dos valores, crescemos a acreditar que a Liberdade é condição para a escolha, logo para a responsabilidade, e que tudo aquilo que formos, de bom, mau ou nem por isso, só faz sentido se o formos em Liberdade.
Talvez por isso esta palavra me diga tanto. E talvez por tudo isto eu sinta tanta nostalgia quando passo hoje na Vítor Cordon e olho para a placa dourada - que ainda lá está - a dizer Universidade Livre.


(Este texto foi escrito por mim, há vários anos, em outro site. Transcrevo-o aqui por causa de um contacto, que recebi, de um velho amigo, colega da Livre, que já não via há anos)