Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.
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28 agosto 2009

Mais luz!

Gostei!

(Tirada daqui)

Nunca tinha pensado nisso mas é o que somos, realmente.

08 maio 2009

Babel bibliotecária

«No princípio Deus criou o bibliotecário.

«Disse Deus:
«- Funda bibliotecas por todo o mundo, selecciona os documentos de melhor qualidade, organiza a informação, presta serviços de excelência e vela pelo interesse dos utilizadores.
«- Mantém actualizado o catálogo e confortável a sala de leitura.
«- Porém, presta atenção, não escutes a Voz da Ignorância porque, se o fizeres, confundir-te-ás e desaparecerás profissionalmente.

«O bibliotecário fez tudo quanto Deus lhe pediu. Ergueu bibliotecas em belos edifícios e nelas colocou todo tipo de documento criado pelo homem para registar a informação: tabuinhas de argila, rolos de papiro, códices de pergaminho ou papel, livros, revistas, diários e boletins impressos e toda a gama de documentos iconográficos, audiovisuais, tridimensionais e legíveis por computador, incluindo os disponíveis na Internet.
«Inventou e reinventou o catálogo (e com ele a recuperação da informação), que evoluiu desde as antigas bibliotecas sumérias até as bibliotecas no ciberespaço.
«O mesmo sucedeu com múltiplas ferramentas e métodos de trabalho: regras de catalogação, sistemas de classificação, vocabulários controlados, análise por facetas e indexação pré e pós-coordenada, o serviço de referência e o de circulação, incluindo o empréstimo inter-bibliotecas e a comutação bibliográfica.
«Instruiu as pessoas em tudo o que é necessário para aceder à informação.
«Adoptou normas de qualidade e definiu indicadores de desempenho específicos para as bibliotecas, com o fim de avaliar e melhorar seus processos, produtos e serviços.
«Para tudo isto, utilizou a tecnologia de ponta disponível em cada época e em cada lugar, desde a punção requerida para a escrita cuneiforme até o computador e as telecomunicações do século XXI.
«Ergueu sua voz contra a censura e em defesa do direito de todos à informação.
«Elevou a sua carreira aos mais altos graus universitários, convertendo-a numa profissão útil, nobre, digna e respeitada.

«Entretanto, numa manhã, enquanto o bibliotecário realizava suas tarefas habituais, ouviu uma voz rouca e tenebrosa que o chamava:
«- Vem, aproxima-te.

«O bibliotecário voltou a cabeça e percebeu, entre incrédulo e surpreendido, a visão de uma árvore seca e retorcida, de tronco negro e negros ramos.

«A voz insistiu:
«- Vem, aproxima-te.

«Temeroso mas cheio de curiosidade, o bibliotecário aproximou-se com precaução. Uma sensação sobrenatural apoderou-se dele e o negro manto da noite cobriu o local, em pleno dia.

«- Vem, aproxima-te, não tenhas medo - voltou a escutar.

«- É a Voz da Ignorância? - perguntou o bibliotecário com ingenuidade. - Deus recomendou-me que não te escute.

«- Não digas disparates! Dialoguemos e verás que esta conversa te interessa - disse a Voz.

«O bibliotecário aproximou-se da estranha planta, o suficiente para ver as víboras que, arrastando-se pelo solo, começavam a enroscar-se no tronco.

«- Quem é? - perguntou intrigada a Víbora Primeira, mostrando sua venenosa língua de duas pontas.

«- Sou o bibliotecário - respondeu este com segurança.

«- Ha, ha, ha!... Pobre... Em que mundo vives? Não sabes que agora te chamas documentalista?

«- Que estás a dizer? - interveio a Víbora Segunda - O correcto é "especialista da informação" ou "cientista da informação".

«- "Gestor de informação", querida, os outros termos já eram! - interrompeu a Víbora Terceira.

«- Eu prefiro em inglês, information manager - opinou a Víbora Quarta – e, se for chefe, chief information officer ou "CIO".

«- Pois eu prefiro gestor do conhecimento, knowledge manager ou chief knowledge officer - ajuntou a Víbora Quinta, com ar de quem sabe tudo.

«- Mas - balbuciou confuso o bibliotecário - com esses títulos ninguém vai saber quem eu sou e o que faço.

«- Precisamente, é disso que se trata - informou a Víbora Sexta – todo o mundo vai perguntar o que faz essa pessoa e, como ninguém gosta de passar por ignorante, limitar-se-ão a dizer "Ahhh... que interessante...".

«- Bibliotecário! - troçou com desprezo a Víbora Sétima - Não existes! Desapareceste com o meteoro que extinguiu os dinossauros!

«Ressoavam ainda na sua mente as gargalhadas de zombaria dos répteis, quando o bibliotecário se deu conta de que, repentinamente, a visão havia desaparecido. Invadido pelo temor, ocultou-se entre as estantes do depósito. Dali escutou a voz de Deus que o chamava:
«- Bibliotecário, onde estás? Que fazes aí? Por que te escondes?

«- Porque sinto vergonha que me vejam nesta profissão de idiota que tenho - respondeu o bibliotecário, sem se atrever a levantar a cabeça do chão.

«- Quem te fez pensar que é uma profissão de idiota? Acaso prestaste atenção à Voz da Ignorância?" - perguntou Deus.

«- As víboras chamaram-me com insistência e não pude evitar... - murmurou cobardemente.

«Então, Deus enfureceu-se com o bibliotecário e pronunciou o seu severo castigo:
«- Por teres escutado a Voz da Ignorância viverás para sempre na confusão e falta de identidade.
«- Tirar-te-ão a direcção da Biblioteca que será ocupada por outros, de outras profissões, ainda que não saibam nada de bibliotecas.
«- Ocupar-te-ás apenas das tarefas técnicas e todos te farão sentir que só serves para fazer fichas.
«- Quando solicitares um ajudante catalogador, enviar-te-ão alguém sem qualificação ou em tratamento psiquiátrico e nunca te comprarão um thesaurus actualizado.
«- Apesar de teres mais habilitações do que a maioria dos teus colegas, ganharás o mesmo (se não menos) do que eles e nunca conseguirás um estatuto profissional que te proteja.
«- Qualquer um virá e te dirá "não se diz utilizador e sim, cliente" e tu repetirás como um papagaio, ainda que tenhas dedicado a vida a satisfazer o utilizador. Ou então dir-te-ão "o paradigma da biblioteca não é a conservação mas o acesso" e tu impressionar-te-ás com a frase, embora tenhas passado séculos a facilitar o acesso.
«- O teu lugar de trabalho será chamado "centro de documentação", "centro de materiais didácticos", "centro de informação" ou "centro de gestão do conhecimento" e, quando a confusão entre todas estas organizações, - que, afinal, fazem a mesma coisa - for incontrolável, chamar-lhes-ás "unidades de informação" ou UI. É claro que a sociedade não será capaz de diferenciá-las e continuará a chamá-las bibliotecas.
«- Todos te dirão como deves fazer o teu trabalho e acharão que o fazem melhor do que tu.
«- Víboras-informáticas e víboras-gestoras nacionais e estrangeiras proporão cursos inúteis nos quais aprenderás apenas que catalogação se chama agora "representação descritiva" ou "descrição bibliográfica" e que a classificação passou a ser "organização do conhecimento"; termos novos para coisas que tu mesmo inventaste.
«- Pagarás estes cursos a preço de ouro, terás formadores que sabem menos do que tu e sairás deles sabendo o mesmo que sabias antes de te inscreveres.
«- Porei inimizade entre os bibliotecários universitários e os das bibliotecas públicas.
«- Farei proliferar pseudo-licenciaturas de três anos em "tecnologias da informação", "ciência da informação", "gestão de informação", "bibliotecas disto e daquilo", as quais conduzirão aos mesmos cargos e salários que o teu, apesar de tu teres estudado seis ou sete anos na universidade; deste modo, permanecerão eternamente divididos e frustrados.
«- Por causa desta disparidade na formação, virão víboras-políticas que considerarão que a tua profissão não tem qualquer saber específico que a distinga de outras e a tua carreira será extinta. Então, qualquer um poderá exercer a tua profissão em pé de igualdade contigo, apesar de a ti ter sido exigida formação pós-graduada e de tu teres necessitado de concorrer ao lugar que ocupas em paridade com outros tão habilitados como tu.
«- Chegará, então, o dia em que avaliarás seriamente tua profissão, avaliar-te-ás a ti mesmo e aos numerosos bibliotecários que têm oferecido a sua criativa contribuição para que, durante milénios, os seres humanos tenham podido aceder à informação.
«- Tu e os outros verdadeiros bibliotecários unir-se-ão em defesa da dignidade e qualidade técnica e científica da tua profissão.
«- Então, se assim o fizeres e compreenderes, eu te perdoarei.»

(Texto de autor não identificado, lançado na rede em castelhano por Ana María Martínez Tamayo. Versão livre adaptada à realidade portuguesa a partir de uma tradução para português do Brasil de Maria das Mercês Apóstolo. Recebido por correio electrónico)

20 fevereiro 2009

Fados

Quando olho para trás (e já tenho vinte anos de vida activa), nunca, durante os meus estudos universitários, eu pensei em ser bibliotecária.
Pensei em ser uma espécie de Indiana Jones, viajando pelo mundo a encontrar tesouros incalculáveis; pensei em ser fotógrafa da National Geographic; pensei em ser adida cultural e organizar actividades sobre cultura portuguesa em países exóticos; pensei (mais realisticamente) em trabalhar no pelouro cultural de uma câmara municipal e organizar eventos culturais.
Entrei para a Biblioteca Nacional no projecto de Inventário do Património Cultural Móvel em que tinha três opções: bibliotecas, arquivos e museus. Museus foi a minha primeira opção e bibliotecas a última mas foi aquela em que acabei por ser admitida.

Agora, o que é curioso é que, afinal, descobri que este mundo (que eu não escolhi verdadeiramente) acabou por me dar muito do que eu procurei noutras actividades: não ando pelo mundo a encontrar tesouros incalculáveis mas descobri o valor extraordinário de trazer ao conhecimento dos investigadores os tesouros desconhecidos que se encontram nas bibliotecas; não sou adida cultural mas posso contribuir, com o meu trabalho de bastidores, para a divulgação da nossa cultura; não organizo eventos culturais mas ajudo à sua realização.

Já me tenho queixado da falta de vantagens laborais (carreira, vencimento, etc.) mas da grande compensação em termos de realizações. Descobri que realmente o mais importante é sermos bons naquilo que fazemos, trabalharmos com perfeccionismo e desfrutar o prazer de ver o nosso trabalho reconhecido por quem é, realmente, importante: os nossos colegas e os nossos leitores.

Hoje, digo-o sem qualquer desdém, não trocaria esta profissão por nenhuma outra.

Se ganhasse o euromilhões, talvez deixasse este emprego pelas desvantagens que apresenta em termos de horários e carreira. Mas abriria uma livraria especializada, daquelas que têm obras que mais ninguém tem porque não são rentáveis mas que são procuradas pelos leitores mais atentos que vão lá, de propósito, procurar um determinado livro, fazer uma encomenda ou pedir ajuda para obter uma edição esgotada.
Tal como faço agora, faria um atendimento personalizado, conversaria com os clientes e faria amigos entre eles; sairia todos os dias tarde abrindo ainda a porta se algum aparecesse depois da hora de fecho e atendendo-o com a mesma atenção com que os atendo aqui.

Com a idade, percebemos que a nossa vida nunca é como imaginámos aos 10, aos 15 ou aos 20 anos. Nunca. Para o melhor e para o pior.

O nosso destino não depende de nós. Mas aquilo que fazemos com o que o destino nos reserva, isso sim, só nós podemos decidir.

14 fevereiro 2008

Nada contra os carteiros...

Vi no Entre Estantes. Fui confirmar. Não que eu não acredite no Bruno. Não acreditei foi nos meus olhos.
Mas é verdade. Eu vi bem. Na página de pesquisa de ofertas de emprego do IEFP, uma das opções é "Empregados de biblioteca, carteiros e trabalhadores similares".




E eu perguntei-me: o que serão os trabalhadores similares?!?... Eis a resposta, na opção "Ajuda" do mesmo site:

«Os empregados de biblioteca, carteiros e trabalhadores similares asseguram serviços de biblioteca; classificam e organizam espécies bibliográficas; separam e distribuem cartas, encomendas e outros tipos de correspondêcia; codificam informações; corrigem provas tipográficas; coordenam outros trabalhadores.
«As profissões deste sub-grupo estão classificadas nos seguintes grupos base:
«4.1.4.1 - Empregados de biblioteca e classificadores arquivistas
«4.1.4.2 - Carteiros e trabalhadores similares
«4.1.4.3 - Codificadores, revisores de provas e similares»


Vivendo e aprendendo!
Isto explica porque é que eu nunca recebi o aviso para ir levantar o reembolso do IRS: o endereço não trazia CDU...

25 janeiro 2008

Gerações

Este texto foi publicado por mim em Dezembro 2003, no blogue Bibliotecários sem Fronteiras.

Passados mais de quatro anos, depois do vendaval que têm sido as reformas de ensino "à bolonhesa" está mais actual ainda do que na altura em que o escrevi. Por isso, partilho-o de novo, com os visitantes da Biblioteca de Jacinto.

«Nos últimos tempos têm-se reformado várias bibliotecárias com quem aprendi muito do que sei. Senhoras da antiga geração que fizeram o curso no tempo em que disciplinas como o latim, a paleografia e a numismática eram consideradas essenciais. Pouco percebem de computadores e não têm hábitos de pesquisa na net. Vêm de tempos em que ser bibliotecário era sinónimo de ser culto, até erudito.

«Hoje não está na moda ser culto. Eu diria que parece mal. Falo contra a minha própria geração, claro, uma geração inculta na qual me incluo e cujos defeitos assumo. Uma geração que ainda foi a tempo de correr para se agarrar à última carruagem do combóio da tecnologia e saltar lá para dentro. Uma geração que acabou a licenciatura no tempo do DOS, que ainda passou os trabalhos da faculdade à máquina mas que teve a sorte de ser ainda suficientemente jovem para se adaptar a uma maquineta com que os miúdos de agora crescem em casa.

«Da geração a seguir à minha nem falo. O mundo deles é outro. Não sei como seria se tivesse a idade deles, provavelmente seria igual. Não cresci bombardeada com vinte e quatro horas diárias de televisão. No meu tempo havia a tele-escola durante a tarde, a partir das seis os desenhos animados e era uma festa conseguir ficar acordada para ainda ver a bandeira e ouvir o hino nacional quando a televisão pública (a única que havia) encerrava a emissão, por volta da meia-noite.
«Não havia macdonalds, as pizzas eram comida exótica e só conhecíamos o jogo da glória e a batalha naval.

«Não sou saudosista, mesmo nada. Gosto da época em que vivo, gosto de ter antibióticos, analgésicos e contraceptivos, gosto de ter telemóvel e carro, gosto de ter a Rússia, o Brasil e a Austrália à distância de um “clic”. Adoro a Internet e sinto-me absolutamente privilegiada por ter todas as facilidades com que os meus pais nunca sonharam sequer. Mas tenho pena que a minha geração, que ainda conheceu algumas das coisas boas que hoje se perderam, esteja completamente deslumbrada com este admirável mundo novo de reality shows, computadores e comida rápida, como se antes disto tivéssemos vivido na “Idade das Trevas”.

«A minha geração de bibliotecários e arquivistas vive deslumbrada com a tecnologia. Pesquisou nos catálogos manuais, roeu com os dedos as fichinhas de cartão nas gavetas da Biblioteca Nacional, tirou apontamentos até lhe doer a mão.
«Hoje prepara sofisticados instrumentos de pesquisa para os investigadores de hoje e do futuro. Que lindo!
«Acho bem. O que eu não acho mesmo nada bem é que tenham feito tábua rasa de tudo o que estava para trás e esqueçam que o conteúdo dos catálogos não é gerado pelos computadores tal como o leite não é produzido pelos pacotes “Tetra Pak”.

«Voltando às bibliotecárias reformadas.
«Estas senhoras levam com elas, para o sossego dos seus lares, para o afago dos seus netos, um conhecimento que já ninguém tem. Levam-no porque não têm a quem o deixar. Ninguém quer saber. A minha geração é superior a isso. Saber identificar um fragmento de um manuscrito? Não interessa para nada! Saber reconhecer um incunábulo escondido numa encadernação? Para quê?!? Conhecer a liturgia própria do tempo de Pentecostes? Isso só interessa aos padres!!!

«O que queremos é perceber de programação, de digitalização, os códigos todos, os campos e os sub-campos, o hipertexto, os protocolos de troca de dados, o XML ou o que vier depois.

«São semelhantes a um cozinheiro que se dedicasse a conhecer profundamente a tecnologia dos microondas, dos fornos eléctricos, das placas de indução, das batedeiras e dos frigoríficos no frost mas não soubesse cozinhar. Tem de saber usá-los? Claro. O conhecimento culinário é essencial para o desenvolvimento destas tecnologias? Sem dúvida. Estas tecnologias contribuem para o desenvolvimento da arte e da técnica culinária? Com certeza.
«Mas o cozinheiro tem de saber cozinhar, seja num microondas, seja num forno a lenha. O seu saber específico é a culinária, não é a tecnologia de microondas.

«Actualmente não conheço qualquer curso de Ciências Documentais em Portugal que ensine a catalogar um impresso do século 17. Há jovens bibliotecários que não sabem o que é um incunábulo, não querem saber e têm raiva de quem sabe. Latim, então, nem vê-lo. O grecus est non legitur dos escolásticos aplica-se perfeitamente aos actuais especialistas da informação, só que agora o que não se lê é o latim. Quanto à paleografia, existe em um ou dois cursos e está reservada aos que seguem arquivo como se os bibliotecários não precisassem desse conhecimento. História do Livro existe nos cursos mais antigos, é uma disciplina semestral, passada a correr, os nomes dos impressores e os locais onde se desenvolveu a tipografia percorridos como numa ladaínha, sem contexto, sem aplicação, como se fosse uma disciplina do passado que é preciso ter porque não se pode reformar o professor à pressa, coitado.

«Poderia alguém menos prevenido sugerir que, enfim, talvez já estivesse tudo inventariado, já estivesse tudo feito, já estivesse tudo estudado… mas não. Está TUDO por fazer! Há milhares e milhares de impressos antigos, códices e documentos arrumados para um canto em bibliotecas e arquivos e ninguém lhes toca porque ninguém sabe o que fazer com eles. São dois e não um os conhecimentos que se perdem: o conhecimento de como tratar esses documentos e o conhecimento que esses documentos contêm.

«O conhecimento necessário para tratar esses documentos está na mente, na cultura, na memória dessas senhoras que agora o levam consigo. São conhecimentos que se transmitem bouche-oreille, no paciente trabalho do dia a dia, no contacto com as espécies, no seu manuseamento, na consulta das obras de referência. Quanto conhecimento que não passa!
«Quem quer aprendê-lo na voragem destes dias tecnológicos?
«Quem o vai recuperar?
«À porta de quem vamos bater agora, quando não soubermos identificar o fragmento manuscrito?
«Quem vai responder, depois de uma breve e atenta observação: «Hum… isto é do Santoral. Esta frase aqui pertence à Antífona da Degolação de São João Baptista só que não tem o início. Veja no Liber Usualis, em Da mihi in disco… para confirmar».
«Quem vai continuar estes conhecimentos?

«Boas e queridas "bibliotecárias de cabelo apanhado e óculos na ponta do nariz": perdoem-nos!»

(17 Dezembro 2003)

17 abril 2007

Paper Music

Acabo de criar uma rede social de bibliotecários e arquivistas de música. Chama-se Paper Music e está sediada na Ning. O meu objectivo é pôr em contacto bibliotecários e arquivistas de música bem como outras pessoas que, não tendo formação académica ou profissional em Ciências Documentais, trabalham, no seu dia a dia com documentação musical e com património musical. Agora é como uma árvore: esperar que cresça.

27 dezembro 2006

Conto de Natal à minha maneira

Com um agradecimento à Paula Azevedo Macedo, futura bibliotecária, que divulgou este pequeno conto na lista "Bibliotecários". Um grande futuro para ela!

Conto de Natal à minha maneira / Ignácio de Loyola Brandão. In: O Estado de São Paulo (22/12/2006)

«Liliani viu quando ele entrou, foi até os fundos, fingiu olhar os livros, virou-se para ela, desviou o olhar, apanhou uma revista e folheou, a contemplá-la com o rabo dos olhos. Disfarça mal, ela pensou. Era a quarta vez na semana que ele surgia na hora do almoço, momento silencioso na biblioteca, os alunos saíam das classes e no restaurante encontravam pais, amigos, professores ou iam jogar alguma coisa, namorar. Ela se aproximou sorrateiramente, gostava dessa palavra sorrateira.
«- Então?
«Ele se assustou, como se tivesse sido pego em uma transgressão. Devia ter 18 anos, conservava o desajeitamento da adolescência.
«- Quer ajuda?
«- Nem sei o que quero.
«- Quer um livro, imagino. Por isso está na biblioteca. Ou não?
«Quando tinha fome, como agora, tornava-se irônica.
«- Quero uns livros para ler nos feriados de Natal.
«- Feriados? No Natal estaremos todos em férias.
«- Posso levar alguns livros para ler durante as férias?
«- Gosta de ler?
«- Gosto. E você, gosta de quem lê?
«- Sou bibliotecária, livros são minha paixão. Um dia ainda abro uma livraria.
«- Você admira quem lê?
«Liliani não entendeu bem o porquê da pergunta. Deixou passar batido. Seria aluno do colégio? Por que vinha com tanta freqüência, fingia que olhava os livros e ia embora?
«- O que gostaria que eu lesse?
«- Ler é uma decisão pessoal.
«- É...
«Ele parecia sem assunto e, ao mesmo tempo, dava a sensação de que estava ansioso para falar, a boca tremia, os lábios secos. Nesse momento um garotão colocou a cabeça na porta, gritou:
«- Pronta, Liliani? Vamos almoçar?
«- Num minuto, Bruno! Estou atendendo uma pessoa! Vai na frente!
«Ela podia jurar que uma expressão de desapontamento ensombreou o rosto do garoto, suas mãos tremeram, ele umedeceu os lábios com a língua.
«- Teu namorado?
«Em um segundo, Liliani compreendeu, as mulheres são intuitivas, rápidas. Comoveu-se. Riu, mesmo considerando que a pergunta invadia seu espaço. Quando ela ria, seu corpo inteiro acompanhava, como se fosse uma explosão, seus olhos ficavam generosos.
«- Não tenho namorado!
«- É casada?
«- Não, sou solteira!
«A resposta estilhaçou toda a tensão que sufocava o corpo dele, o jovem respirou, o ar veio de dentro com força, como se mil mãos tivessem feito uma massagem com pedras quentes.
«- Não quer voltar depois do almoço? Preciso comer e reabrir a biblioteca à tarde. Ou, melhor, quer almoçar comigo?
«Surpreendido, ele emudeceu de alegria e de temor. Liliani estava achando divertido, queria estender a situação, ver aonde chegava. Percebia que ele estava travado, é sempre assim quando se quer alguém. As mulheres conhecem os mecanismos do coração, os meandros misteriosos da alma, dizia o professor de lógica. Outro amigo, por quem ela tinha sido apaixonada, costumava definir: 'Teus olhos têm uma dose enorme de loucura, deixam as pessoas inquietas, são uma aventura.' O último namorado vivia dizendo: 'Quando você ri, o mundo vira de ponta cabeça.' E ela, com a ironia que a marcava, e às vezes prejudicava, porque os homens são crianças que não sabem brincar com a vida, se leva muito a sério: 'O mundo vira de ponta cabeça? Conte a verdade? Quem vira de ponta cabeça é você.' Lembrou-se também do namorado que perdera porque tinha deixado de usar sandálias de salto agulha, ele a queria o dia inteiro com aquele salto que quase quebrava a espinha, ainda que torneassem sensualmente suas pernas. Liliani se sabia bonita, insinuante, conhecia o fascínio que despertava a cor de sua pele, de um moreno que dava a sensação de ela estar saindo da praia.
«- Não posso almoçar, agora. Não posso, me desculpe, disse ele.
«- Almoçamos outro dia.
«- Como você se chama? Liliana?
«- Liliani. O i no lugar do a. Meu pai quis assim, para ficar um nome único, diferente.
«- Liliani é bonito, tem um ritmo. Meu professor de português diz que cada pessoa faz o seu próprio nome. O que significa Liliani?
«- O mesmo que Liliana. Ou Liliam. Meu pai disse que significa lírio, e lírio é pureza, inocência... O lírio está em algumas das pinturas mais famosas da Antiguidade. Nas Anunciações de Leonardo da Vinci, de Rafael e de Guido Reni. Anjos trazem lírios a Maria, mãe de Deus.
«Ele se espantou, admirou-a mais. Gostou. Como ela sabe coisas, pensou. Não percebeu que ela mudava o tom do sério ao gaiato, ainda que fosse verdade.
«- Lindo... lírio... inocência...
«- Mas não sou tão inocente assim, olhe lá!... Mas, decidiu o livro? Hoje é o último dia antes das férias, antes do Natal. Acho que você pode levar dois ou três, faço um cadastro, vou confiar em você. Estou boazinha esta semana.
«- Me diz uma coisa. Quem leu mais livros aqui?
«- Quem leu mais?
«- O campeão, o recordista.
«Tudo hoje são recordes, números, ela pensou.
«- Tem uma menina, a Mônica, que lê um livro por dia. Uma vez desconfiamos, fizemos testes, ela lê de verdade. Cabeça incrível.
«- Você admira essa mulher?
«- Claro. Uma pessoa assim tem outra cabeça.
«- Admira muito?
«- Vou dizer que sim. É alguém que tem onde se refugiar para fugir da mesmice, desta vida chata, rotineira, às vezes...
«- Puxa! Admira essa pessoa.
«- Tem gente que desde cedo mostra que ser vai diferenciada.
«- Se eu lesse muitos livros? Você me admiraria?
«- Claro que sim.
«- Quantos livros eu teria de ler?
«- Nunca pensei nisso.
«- Pois vou ler esta biblioteca inteira. Depois vou passar por todas as outras bibliotecas de São Paulo, do Brasil. Onde tiver livro, estarei lendo...
«Ele se encaminhou para a porta, voltou-se.
«- Por você vou ler 1 milhão de livros. Um bilhão. E aí você vai me admirar.
«Quase disse 'gostar de mim', se conteve, apenas pensou que ela veria quanto uma paixão move um homem.
«- Vou ler 1 trilhão de livros, vou ler todos os livros do mundo.
«Liliani fez um aceno de cabeça e pensou: tomando-se a média de 120 páginas por livro e imaginando que ele demore três minutos para ler uma página, lerá um livro a cada 360 minutos, ou seja seis horas. Seis trilhões de horas, calculando por baixo, significam 250 bilhões de dias. Mais ou menos uns 70 bilhões de anos. Acho que não vou esperar, concluiu. Estou com fome. E saiu para o almoço.»

05 dezembro 2006

Entrevista no KØNTRÅSTËS

O blogue KØNTRÅSTËS, do João Ferreira Dias, está a publicar um conjunto de conversas informais mantidas via e-mail com os mais diversos bloggers. O objectivo é, nas palavras do seu autor, «conhecer um pouco mais do blogger que dá vida ao blogue e abrir uma cortina para o que move cada autor de blogue». No dia 2 foi publicada a entrevista com a minha humilde pessoa.

A ideia das entrevistas foi importada, pelo KØNTRÅSTËS, do Miniscente , do Luís Carmelo - que eu já aqui tinha referido e que vale sempre a pena continuar a acompanhar.
Quanto à minha entrevista, não a transcrevo, porque acho que devem mesmo visitar o KØNTRÅSTËS.

23 novembro 2006

Uma questão de grau...

Este texto já é antigo (18 de Maio de 2005) mas, quando saíu em The chronicle of higher education, "A biblioteca de Jacinto" ainda não existia...
Os negritos são meus.

«If you're a Ph.D. in the humanities, do you need a master's degree in library and information science to pursue a career as an academic librarian or as a curator of special collections?
«That question has lately generated impassioned arguments among Ph.D.'s who seek to enter the field of librarianship, as well as among librarians and curators concerned over the integrity of their profession.
«My qualified answer is yes, the library-science credential is essential - unless the Ph.D. really, truly, and demonstrably has the equivalent experience. Before I elaborate, let me review my own background: I'm a Ph.D. in English who switched gears in the face of an abysmal faculty-job market, earned a master's in library science, and landed on my feet as an academic librarian at Yale University.
«Admittedly, Ph.D.'s who attend library school may or may not acquire such earth-shaking skills and wide-ranging theoretical knowledge as will justify the seemingly unreasonable outlay of time, effort, and expense required of one who has already endured the tribulations of a doctoral program. That is, at least in part, the motivation and justification for a new fellowship program and other recent initiatives that promise to set humanities Ph.D.'s on the fast (and free or low-cost) track to academic librarianship while bypassing most if not all library-school requirements.
«Still, the M.L.I.S., short for master's in library and information science (it's also known in some quarters as the M.L.S., for master's of library science), continues to serve as both a practical and an intellectual entreé into professional librarianship. What's more, the M.L.I.S. protects the library profession from becoming degraded in the way that teaching has been in academe.
[...]
«Equally damaging, hiring too many Ph.D.'s who skipped the M.L.I.S. training could create a glass ceiling for librarians who have that degree but no Ph.D. They would become (in status terms) the nurses to these doctors - even though this particular breed of doctors is not qualified to give orders to such nurses. In fact, the nurses would wind up teaching the doctors their jobs while still being held in lower esteem, a bitter irony that would force library morale down the tubes. And of course the library would then be run by those with the least experience in the profession.
«Irrespective of such potential dire consequences, we must consider the question of professional standards. What exactly have M.L.I.S.-trained librarians learned that those with Ph.D.'s haven't? Analytical, descriptive, physical, and textual bibliography. The history of books and printing. Issues in cataloging library materials. The book trade - current, rare, out of print, or all of those, including how best to manage vendors, approval plans, and standing orders. How to identify appropriate collecting levels for different subjects in different kinds and sizes of libraries. How to analyze a given library collection for purposes of, say, transfer to remote storage, filling in gaps, or preservation. How to analyze the pros and cons of a given electronic database or reference resource. How to manage acquisitions and other budgets. Digital library inititatives. The composition and scope of the essential bibliographic utilities like WorldCat, Eureka, and ESTC. How best to search any of the myriad electronic databases licensed by the modern library. What archivists do, how they do it, and why. You get the idea.
[...]
«Some Ph.D.'s who wish to be librarians doubtless have some of the training and experience necessary (particularly those who possess the aptitude to be librarians and are well-versed in bibliography), but they most certainly do not have enough of either to be taken seriously as library professionals. To argue that because you have spent years in libraries you are qualified to run one strikes me as claiming that because you have been visiting the dentist and brushing and flossing your teeth all your life you can perform a root canal.
«The creation of the profession of librarianship was an innovation of the late 19th century, by which point libraries had become too complicated to be run by dilettantes from academic departments. Hiring such people now to run our libraries - which are vastly more complicated than those that gave rise to our profession - sets us back over a hundred years. Indeed, the notion that we need professional librarians to run a modern library is even more valid today than it was in Melville Dewey's age.
[...]
«So while you might luck out and land one of those quirky plum jobs, if you hope to stay mobile in the library profession over the long term, you simply must earn the M.L.I.S.»

Todd Gilman é bibliotecário de Literatura em Língua Inglesa na Sterling Memorial Library da Yale University.

14 novembro 2006

Pensavam que era só cá, pensavam?...

Desculpem mas não me apetece traduzir e o italiano não é assim tão difícil... os destaques são meus. Tirado daqui

«Infermieri, centralinisti, archivisti, impiegati, [aggiungo bibliotecari] sono diventati tutti lavoratori co.co.co, a progetto, interinali, noleggiati a ore, esternalizzati. Lavoratori pagati trecento, cinquecento, o se sono fortunati, ottocento euro al mese. E senza avere diritto alle ferie, ai giorni di malattia, e neppure alla pensione. [...]. Solo nella Pubblica Amministrazione sono 350 mila gli esternalizzati.[...] Spesso questi precari sono i soci lavoratori delle centinaia di cooperative che forniscono infermieri, ausiliari, cuochi, personale delle pulizie e quello per l’amministrazione.
La legge Biagi aveva, tra le altre cose, l’intenzione di trasformare il lavoratore a contratto di collaborazione continuativa, il cosiddetto co.co.co, in un lavoratore con compiti più delineati e con più garanzie. Nasceva così il lavoro a progetto. La sua applicazione é stata però un fallimento, che in alcuni casi ha aumentato la precarietà e ha pure portato a un’ evasione del versamento dei contributi. Ufficialmente si esternalizzano i servizi per risparmiare.
Alla fine si scopre che se questi lavoratori fossero internalizzati si risparmierebbe in alcuni casi fino al 40 % . Alla fine il lavoratore esternalizzato costa di più, e ha meno diritti di prima. Ma allora chi ci guadagna?
»

30 outubro 2006

Não havia necessidade...

Encontrei aqui uma ligação para Ms Dewey, um motor de busca em que a pesquisa é "conduzida" por uma bibliotecária (?!?!?) virtual que nos acolhe e nos convida a pesquisar. Convidar, neste caso, é um eufemismo. A senhora tem o sugestivo nome de Ms. Dewey (não sei o que Mr. Dewey pensará disso, lá onde estiver...) e - não obstante a velha imagem da bibliotecária de carrapito e óculos na ponta do nariz já ser do passado - bom... a questão é: precisavam de pôr uma mistura de Bond girl com Anjo de Charlie ao balcão virtual da biblioteca? Uma pessoa até fica a temer pela própria integridade física se não fizer uma pesquisa já, rapidamente e em força... Não havia necessidade.

23 outubro 2006

A informação vista pelos bibliotecários

Como eu disse no meu primeiro post, «este é um site de uma bibliotecária mas não necessariamente um site sobre bibliotecas».
Por essa razão - e imitando a biblioteca do Jacinto - procuro abordar aqui todas as temáticas que eu considero actuais ou importantes - ou apenas interessantes - mas sempre com alguma neutralidade de opinião. Nós, bibliotecários, somos treinados a abordar todos os temas com distanciamento profissional. A mim, em particular, enquanto bibliotecária, interessa-me muito mais abordar os temas sob todas as suas facetas, tentar perceber se os problemas estão bem colocados e se a informação disponível é tratada com imparcialidade. Aquilo que nos separa dos jornalistas é muito mais o carácter "oportunista" da notícia do que a forma como tratamos - ou devemos tratar - a informação. Para nós, uma informação que interesse a cem pessoas é tão importante como a que interessa apenas a uma. E temos a plena consciência de que uma informação que interessa a poucas pessoas hoje pode vir a interessar a muitas amanhã. Para nós não há «a ordem do dia». Por essa razão nós não lidamos com o conceito de "importância" mas sim com os conceitos de "relevância", "pertinência" e "exaustividade".

03 outubro 2006

Um post interessante

O Miniscente está a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios.
Hoje a convidada é: Maria Gabriela Rocha, bibliotecária, 58 anos

19 setembro 2006

A sabedoria do bibliotecário

«Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o bibliotecário apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezassete!»

Eis um exemplo de erudição aliada à boa gestão de informação... isto é que era um bibliotecário!