Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

15 setembro 2008

Na batalha de La Albuera


Este fim-de-semana estive em La Albuera (Badajoz) a convite dos meus amigos "Voluntários Reais das Linhas de Torres" a participar da recriação histórica de um acampamento militar do período das invasões francesas.


A recriação foi uma iniciativa da "Asociación Napoleonica Batalla de La Albuera" e incluíu a montagem de um acampamento militar, barracas de artesãos e aulas de esgrima. Também pude ver armas da época ou réplicas exactas - magistralmente executadas por Henrique Silva, restaurador de armas antigas e Comandante dos "Voluntários Reais". É notável o rigor histórico com que são executados todos os pormenores dos trajos, do armamento e dos objectos do quotidiano.

















10 setembro 2008

A Setôra Susana

Penso muitas vezes em professores que tive, de quem gostei e com quem aprendi muito do que sei. Hoje, que se fala tanto mal e tanto bem dos professores, que se faz deles ora os culpados ora as vítimas do sistema, decidi que vou falar e deixar registadas para a posteridade as memórias dos meus professores do Externato Luís de Camões (que já não existe), na Avenida Almirante Reis, por cima da Pastelaria Delta.

Começo pela Setôra Susana. No meu tempo, ainda se estudava o francês como primeira língua estrangeira e a Dr.ª Susana foi a minha primeira professora de francês. Na altura achava-a velhíssima. Na verdade, talvez nem tivesse 60 anos. Recordo-a (com que rigor?) de cabelo completamente branco (ou seria grisalho?), ligeiramente anilado como as senhoras usavam nessa altura. Se tivesse 60 anos, teria mais 50 do que eu. Tinha, certamente, idade para ser minha avó. Se ainda viver, terá hoje uns 90 anos.

Os alunos não sabiam muito bem se haviam de gostar dela ou não. Eu gostava embora não o soubesse. Era uma mulher severa, conservadora, autoritária. Não temia pegar num rapagão de 15 anos pelas orelhas e arrastá-lo pelo corredor até ao gabinete do Director, se fosse preciso. O rapagão, claro, não se atrevia a reagir. Nessa altura, por volta de 1976, as coisas começavam a aquecer bastante e a rebeldia juvenil era uma novidade em Portugal. Ela não se deixava intimidar. Era uma excelente professora, gostava dos seus alunos, acho que quanto mais rebeldes mais ela gostava deles. Se hoje me prezo de bons conhecimentos de francês devo-o, em primeiro lugar, a ela.

Lembro-me, como se fosse ontem, dos sapatos dela, beiges, brancos, castanhos, pretos mas sempre do mesmo modelo muito antiquado (entretanto já voltaram a usar-se e já deixaram de se usar pelo menos duas vezes). Trazia as aulas preparadas num bloquinho pequeno, escrito com uma letra muito densa e que, afirmava-o com orgulho, nunca passava de um ano para o outro: «todos os anos preparo de novo as minhas aulas e tenho em casa todos os blocos de todos os anos». Perto de 40 anos de aulas em bloquinhos "Castelo"!

Quando entrava na sala dizia Bonjour, mes elèves! e nós tinhamos que nos levantar e dizer Bonjour, Madame. Ela respondia Assiez vous e nós sentávamo-nos dizendo Je m'assie.
Depois vinham o Monsieur e a Madame Dupont, o Robert e a Nicole e o cão Patapouf. Só tinhamos um livro, o «Je commence» que trazia uma máscara para tapar as palavras de modo a olharmos só para as imagens enquanto ouvíamos e repetíamos: Je suis Nicole, Je suis Robert, C'est Papatapouf, Patapouf est un chien. Não tínhamos livro de exercícios (os exercícios eram feitos no caderno) e... aprendíamos!

Voltei a tê-la como professora de português, no 9º ano (a que, por falta de hábito, toda a gente ainda chamava 5º ano). Foi com ela que dei Os Lusíadas (que ela parecia saber de cor) e os contos de Eça de Queirós.

Procurei, anos mais tarde, a Dr.ª Susana (nunca soube o apelido dela). Ouvi dizer que lanchava numa pastelaria da Av. de Madrid e cheguei a passar lá, uma ou duas vezes, por volta das cinco da tarde, para a encontrar. Nunca lhe agradeci. Agradeço agora:
- Obrigada, Setôra Susana.

04 setembro 2008

América Antiga (2)

Em complemento ao post anterior, sugiro a primeira audição moderna da ária Beatissimae Virginis, dos Responsórios da Imaculada Conceição (a 4 vozes e orquestra) de Marcos Portugal, executados a partir dos manuscritos existentes na Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal. O maestro Ricardo Bernardes esteve em Lisboa, este Verão, a consultar e copiar estes manuscritos e a 27 de Agosto já estava em Washington a executar a obra. Um exemplo a seguir!

02 setembro 2008

America Antiga

Recomendo vivamente aos visitantes da Biblioteca de Jacinto o canal Americantiga criado recentemente pelo musicólogo e maestro brasileiro Ricardo Bernardes. Uma oportunidade para ter um primeiro contacto com a música de compositores portugueses e luso-brasileiros da transição do séc. 18 para o séc. 19: Marcos Portugal (Lisboa, 1762 — Rio de Janeiro, 1830), António Leal Moreira (Abrantes, 1758 – Lisboa, 1819) e Pe. José Maurício Nunes Garcia (Rio de Janeiro, 1767 – 1830).
A seu tempo, outros serão incluídos.
As gravações são amadoras mas, neste caso, isso é o menos importante.
A não perder.

14 agosto 2008

08 agosto 2008

Assalto ao BES de Campolide

Não é todos os dias que se tem Hollywood a 700m da porta de casa!
Dirigi-me para o local do crime de Olympus em punho, na esperança, sei lá, de dar de caras com o George Clooney e o Brad Pitt... ou de ver cá fora o Gene Hackman a negociar com os bandidos. Mas népia. A realidade não é bonita nem empolgante.
Já agora, a minha vénia para o impecável trabalho da Polícia cujos agentes devem ter passado algumas das horas mais difíceis das suas carreiras - em particular, o atirador cujos sangue-frio e pontaria permitiram evitar uma tragédia. Não consigo sequer imaginar o que pode ter sentido, momentos antes do disparo, sabendo que um erro milimétrico poderia custar vidas inocentes.
Quanto aos bandidos, sei que não é politicamente correcto dizê-lo, mas não tenho pena nenhuma deles.

As fotos, essas, são o que se podem arranjar...









Preparando a reportagem

Ditando a reportagem





Um telemóvel não chega...




Será que fiquei bem?...










Directo!

Impasse...



O pior já passou...



É a isto que se chama trabalhar por objectivas...

28 julho 2008

Fotografias da Biblioteca de Arte da FCG

Desde o dia 22, a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian começou a divulgar as suas colecções de fotografia no FLICKR.
Das 180 colecções de fotografias (algumas com milhares de fotos) sobre artes visuais em Portugal, a Biblioteca divulgará as que não estejam protegidas por direitos de autor ou direitos conexos.
Agradeço ao Paulo Leitão esta informação que divulgo com todo o gosto e com um aplauso pela iniciativa.

A minha preferência vai para a colecção Estúdio Mário Novais e, em especial, para os álbuns Cinemas de Lisboa, Transportes marítimos, Gare Marítima de Alcântara e Rocha do Conde de Óbidos e Exposição do Mundo Português (1940).

APOSTILA (em 29 de Julho): o site está a ser permanentemente actualizado. Desde que escrevi este post já foram acrescentados novos álbuns, dos quais destaco os das Casas comerciais e o da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Excelentes!

21 julho 2008

Modernices de linguagem: Deletar

Esta é uma modernice de linguagem que, felizmente, ainda não se vulgarizou na forma escrita, pelo menos deste lado do Atlântico. Na linguagem oral, porém, é cada vez mais usada.
Na origem da tecla "Del" está a palavra deleatur (do latim, apague-se)

símbolo de revisão tipográfica usado para indicar a supressão de uma palavra ou frase.
Deleatur é a 3ª pessoa do singular do presente do conjuntivo passivo do verbo latino deleo, que significa suprimir, destruir, apagar (Houaiss).
Quem não conhece a famosa frase (digna do Irão no seu melhor) Delenda Carthago! (Cartago tem de ser eliminada!) com a qual Catão terminava todos os seus discursos?

O mais curioso é que as pessoas que dizem "deletar" desconhecem que existe uma forma portuguesa para a palavrinha abreviada na tecla "Del" do teclado do seu computador: o inglês delete pode (e, no meu entender, deve) ser traduzido por "delir" (Houaiss).

Vá lá, não custa nada. Tem menos letras, é mais rápido de dizer e é português do melhor.

Conjugação do verbo delir.

18 julho 2008

Raginis para o fim-de-semana

TAGORE, Sourindro Mohun - Fifty stanzas in sañskrita. Calcutta : I.C. Bose & Co., 1875. Sânscrito e notação musical hindu (Biblioteca Nacional, C.N. 710 V.)

16 julho 2008

General Boum

Aqui pela biblioteca de Jacinto aparecem, de quando em quando, umas personagens dignas de nota. Este é o meu querido amigo, General Boum.

GARCÍA VILAMALA, Francisco - General Boum : tango para piano. Personagem da opereta de Offenbach "La Grande-Duchesse de Gérolstein" (Biblioteca Nacional, C.N. 132 A.)

11 julho 2008

Modinhas do tempo de D. João VI

«O cravista Mário Trilha e a soprano Isabel Alcobia gravaram em CD modinhas, tocatas e sonatas que se escutavam na Corte de D. João VI e Carlota Joaquina no Brasil.
«João Cordeiro da Silva, João de Sousa Carvalho, José Maurício, Marcos Portugal, David Perez, Corricelli, António Leal Moreira e José Nunes Garcia foram os compositores escolhidos para CD, intitulado "Música para D. João VI e D. Carlota".

«O álbum, editado pela Numérica, foi gravado na Sala de Lavor do Museu Regional de Aveiro "por as suas características se aproximarem das existentes na época: sala de talha de madeira dourada". Para Mário Trilha, que utilizou um instrumento cópia de um cravo Blanchet de 1733, "estas características são essenciais, pois reflectem-se na acústica e aproxima-nos do som da época".

«Alguns dos temas escolhidos foram gravados pela primeira vez, casos da tocata em dó maior de Cordeiro da Silva "Dona Maria Anna de Portugal", dedicada à irmã do Rei. Trilha salientou que "este excelente compositor, que viveu entre 1735 e 1808, é ainda muito pouco conhecido" e dele se gravaram também pela primeira vez 12 minuetos.

«Também gravada pela primeira vez foi a única modinha conhecida de Corricelli, "Moda nova d`hum ingrato abandonada". Corricelli, um compositor pouco conhecido, terá visitado Lisboa na década de 1790.
«Entre as várias modinhas gravadas, uma em particular, "pela sua natureza, pode ser escutada como um antepassado do moderno fado". Trata-se de "Que fiz eu a natureza?" de José Maurício, também registada pela primeira vez.

MAURÍCIO, José - Que fiz eu à natureza. In: Jornal de Modinhas, A. 4, n.º 7 (Biblioteca Nacional, M.P.P. 119//7 V.)

«O CD inclui ainda uma tocata de David Perez, o compositor escolhido para inaugurar a Real Ópera do Tejo, no reinado de D. José, com "Alessandro nelle Indie".


«Uma das fontes musicais utilizadas por Mário Trilha foi o Jornal das Modinhas, cujas cópias estão depositadas na Biblioteca Nacional de Lisboa. Desta biblioteca foram também utilizadas cópias de manuscritos. Relativamente às peças do padre José Maurício Nunes Garcia, "Fantazia 4º" e "Lição 5º", foram utilizadas cópias do original depositado na Biblioteca da Escola de Música da Universidade Federal Rio de Janeiro.

«Mário Trilha é diplomado em piano pela Universidade de Música do Rio de Janeiro e concluiu em 1999 o mestrado como instrumentista de cravo na Hochschule für Musik Karlsruhe. Frequentou em 2000 o curso de cravo dirigido por Olivier Blaumont no Conservatório de Rueil-Malmaison (Paris), tendo obtido a Medalha de Ouro por unanimidade.

«Isabel Alcobia estudou no Conservatório de Lisboa e como bolseira do Governo de Espanha na Escola Superior de canto, em Madrid. A soprano tem actuado em vários palcos internacionais, apresentando-se tanto como solista como integrando elencos operáticos. Venceu os concursos de canto de Cleveland International Einsteddfod em Inglaterra e do Three Arts Scholarship de Cincinnati (Ohio).»

(Fonte: Lusa/RTP)

04 julho 2008

Olhares (2)

Já devem ter reparado que, nos últimos quatro meses, tenho sentido alguma dificuldade em exprimir-me por palavras. Quem visita habitualmente a Biblioteca de Jacinto sabe o que aconteceu há quatro meses e compreende. As palavras não têm sido generosas para mim, têm-me faltado, falhado, fugido.
Ultimamente, sinto-me mais confortável sem as palavras. Prefiro as imagens. E os meus amigos, que não me têm abandonado e têm batido à porta desta biblioteca com uma perseverança discreta e confiante, merecem um sinal de que vou estando viva... mais ou menos.
Por isso, aqui vos deixo algumas das minhas inclusões em Olhares.com