Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

04 janeiro 2013

A Cidade de Ulisses - Teolinda Gersão

Um dos últimos livros que li em 2012 foi «A Cidade de Ulisses» de Teolinda Gersão. Li antes e depois várias críticas em blogues, que se debruçam sobre diferentes aspectos do romance, desde a relação edipiana de Paulo Vaz com o Pai até à crítica política - implícita e explícita - nas incursões que a autora faz pela História de Lisboa e de Portugal, mas, para mim, «A Cidade de Ulisses» é, antes de mais, um poema ao Amor. Depois de o acabar, as personagens ainda me acompanharam alguns dias, enquanto eu já lia outro romance.
«A Cidade de Ulisses» é, tão simplesmente, uma história de amor. Um homem e uma mulher conhecem-se e amam-se em Lisboa, sem dramas e sem arrebatamentos, amam-se porque sim e não há nada que explicar. É um amor feliz recordado na primeira pessoa pelo homem que o viveu e que escreve para a mulher que amou e, por duas vezes, perdeu. É uma história sobre a perda, sobre a oportunidade desperdiçada (a única que a vida nos dá) e, embora a palavra não ocorra, sobre a saudade.
Paulo Vaz é um artista plástico convidado a fazer uma exposição sobre Lisboa. Perante este convite, recorda Cecília, a mulher com quem vivera, durante quatro anos, o grande amor da sua vida. Nos anos oitenta, ele era professor e ela aluna. Apaixonaram-se sem saberem nada um sobre o outro, apenas porque trocaram o olhar durante as aulas. Amaram-se sem se conhecerem como Nausica amou Ulisses quando o viu, náufrago, atirado à praia. Durante esses quatro anos percorreram a Cidade de Ulisses, as suas ruas e vielas, os seus bairros e monumentos.
Um dia, um mal entendido, um gesto impensado, separa-os de forma irreconciliável e Cecília parte para sempre mas, no fim - não vou contar o fim - percebemos que esta separação física não representou uma verdadeira separação sentimental. Ainda que nunca mais se falem, ainda que nunca mais se vejam, o que há entre eles não acaba.
Quando ele percebe que a perdeu para sempre, Lisboa desaparece num terramoto simbólico. Desaparece porque ela a levou consigo ao partir e teceu-a de novo para ele devolvendo-a em dezenas de retalhos, os seus pequenos cadernos de apontamentos. Cecília é Nausica, que ama Ulisses sem o conhecer, mas é também Penélope, que tece uma tapeçaria ao longo de anos para ele: uma exposição sobre Lisboa. É isso que a liga a ele durante os mais de vinte anos de separação absoluta e lhe dá, como um fio de Ariane, um caminho de regresso ao passado feliz.
Há um ambiente trágico em todo o livro - ou não fosse permanentemente marcado pelo imaginário Grego - o sentimento de que a vida é permanentemente condicionada por factores que não controlamos e por gestos e decisões cujas consequências não podemos prever e nos ultrapassam inexoravelmente. O final feliz é mais o final possível do que o final desejado. O grande amor, aquele que parece único e irrepetível é, afinal, como disse Florbela Espanca, o mesmo amor de toda a gente.

LEIGHTON, Frederic - Nausica

27 dezembro 2012

2012

2012 está a acabar. Foi um ano muito cheio mas que pouco partilhei convosco, visitantes desta vossa biblioteca. Já devem ter reparado que tenho tentado recuperar um pouco o hábito perdido de aqui escrever. O Facebook, com o seu imediatismo voraz, acabou por levar muitas vezes coisas que ficariam muito melhor aqui, onde todos podem entrar à vontade sem terem de pedir licença, sentar-se, tirar uns livros da prateleira e folheá-los a seu bel-prazer, na pacatez destas poltronas sempre prontas para vos receber. Mas estou de volta, espero. Recomecei a ler (ando novamente com um livro na mala, hábito havia muito perdido) e a escrever. Dizia-vos que este ano foi muito cheio mas vós não sabeis porquê. Foi cheio de acontecimentos e de emoções, quase todos relacionados com música, coisas que aconteceram por fora de mim mas, principalmente, coisas que aconteceram dentro de mim.

O Grupo Vocal Arsis participou num Festival Internacional de Canto Coral, em Barcelona, e todo o ano foi uma azáfama de preparativos: escolher repertório, conceber programas, organizar viagens, ensaiar, ensaiar, ensaiar... e, depois, lá em Barcelona, apresentar dois concertos diferentes - um sacro e um profano - e preparar intensivamente, em apenas cinco tardes de ensaios, o Requiem de Mozart para ser cantado no grande concerto final, no Palau de la Musica Catalana. Para mim, que não passo de uma amadora, foi a realização de um sonho de longos anos cuja emoção se prolongou por semanas depois do regresso. Não consigo explicar-vos a emoção! Cantar é, provavelmente, a coisa que eu mais gosto de fazer na vida. Nada me transporta a um tal estado de absoluta felicidade e é em coro que me sinto mais completamente feliz a fazer música. É como se eu fosse mais Eu quando deixo de contar como eu para só fazer sentido no Todo. É uma coisa quase religiosa que não se consegue explicar. Lembro-me como se fosse ontem, em pé no meio daqueles coralistas todos, aquela sala linda, o público na obscuridade, o Maestro, a orquestra e eu a pensar «isto está mesmo a acontecer, eu estou mesmo aqui e estou a realizar um sonho», a pensar no meu Pai a quem finalmente, fiz a minha homenagem... naquela noite, sem que ninguém soubesse, no silêncio do meu coração, foi para ele que cantei.



2012 foi, talvez, o ano mais musical da minha vida. Não tive férias. Todo o tempo de férias foi ocupado a fazer música. Em Agosto participei, pela primeira vez, numa Semana de Estudos Gregorianos, em Viseu. Sempre desejei participar destas semanas mas, por várias razões, nunca tinha tido oportunidade. Fiz o primeiro grau de Canto Gregoriano, em curso intensivo e o meu desejo, agora, é conseguir voltar em 2013.



Mas 2012 foi um ano de outras emoções. Participei, pela primeira vez na vida, numa manifestação, cantei o Acordai no meio de centenas de desconhecidos, em frente ao Palácio de Belém. Vi duas irmãs de meia-idade - que deveriam ter cerca de 20 anos em 1974 - abraçadas a chorar e a recordarem o Pai que teria orgulho em vê-las ali. Foi um momento de intimidade que violei involuntariamente mas que me comoveu até às lágrimas. Vi um País comatoso a mexer um dedo e a dar a esperança de que talvez ainda consiga acordar. Vi também a melhor música e a melhor poesia portuguesas a serem cantadas na rua, por pessoas que, se calhar, nunca tinham ouvido falar de Lopes Graça ou de José Gomes Ferreira. E vi a música, a boa música coral a saír à rua e a incendiar os corações.



2012 foi também um ano de conhecer as pessoas. Não digo apenas de conhecer novas pessoas mas de conhecer melhor as pessoas que já conhecia. Tive boas e más surpresas mas todas me fizeram conhecer-me melhor e conhecer melhor a natureza humana. Não lamento nenhumas.

Enfim, talvez tivesse mais para dizer, tenho com certeza, mas este é o meu balanço, hoje, de 2012. E uma promessa de regresso, em 2013, à biblioteca de Jacinto, com mais frequência, para vos receber com um livro, uma música ou uma imagem, com uma ideia ou uma recordação.
Voltem sempre.

12 dezembro 2012

Fausto - A memória dos dias

A banda sonora da minha vida passa por Fausto. O Despertar dos Alquimistas, Por Este Rio Acima, Para Além das Cordilheiras

Já não ouvia esta música – A Memória dos Dias – há quase vinte anos. O vinil, lá em casa, deixou de girar no prato. Nunca comprei o CD. Quando o ouvi, há minutos (posto por uma amiga no Facebook) todos os detalhes estavam na memória, como se o tivesse ouvido ontem.

A memória dos dias é, para mim, a memória de um amor antigo que também gostava de Fausto e conquistou o meu coração com uma cassete de Por este Rio Acima com os nomes das canções escritos em letra miudinha e que ainda tenho em casa mas não sei onde.

E isto dos amores antigos são como os frascos de perfume vazios: guardam-se bem fechados, no escuro do armário, e cheiram-se muito tempo depois.

Graças a Deus não perdi a memória nem a ternura.



Correste a dizer que o dia vinha às portas da saudade
E cobriste de mil flores as varandas da cidade

Ao cantar enrouqueceste mil canções feitas à toa
Dançaste todas as ruas embriagadas de Lisboa

Leste os clássicos do tempo como toda a novidade
E a sonhar adormeceste no prazer da liberdade
Inventando mil amigos
Esquecendo velhos perigos

Acordaste em sobressalto do teu sonho meio ferido
Dos confins do pesadelo, no limite dos sentidos

Soçobrado na ideia mais ou menos dolorosa
Que te negavam medonhos o teu plano cor-de-rosa

E na fúria dos enganados, na febre dos desvalidos
Na razão dos maltratados entre abraços desabridos
No delírio prematuro
Ainda foste forte e duro

Roda a espiral da história entre as garras da agonia
Diz adeus, oh, meu amor, que eu hei-de voltar um dia

E deixo-te uma palavrinha para te lembrares de mim
Perfumada pelo cravo, amanhã pelo alecrim
Deixo-te uma palavrinha
Para te lembrares de mim...

08 dezembro 2012

Earth & Fire - Weekend

8 de Dezembro de 1980. Sá Carneiro tinha morrido havia 4 dias e não se falava noutra coisa mas eu fazia 14 anos e tive direito a esta prenda. Sim, também tinha os meus momentos de mau gosto mas aos 14 anos perdoa-se. E, apesar de já não gostar disto, não deixa de fazer parte da banda sonora da minha vida...


04 dezembro 2012

Recomeçar

Recomeçar

Vontade de partir, de largar tudo,
de acordar amanhã num hotel em Veneza,
de esquecer o passado, o futuro, o mundo
e baralhar as cartas expostas na mesa.
Vontade de zarpar,
de abandonar as mínimas coisas algum dia amadas
e procurar no mapa das estradas
o que teima em faltar.
Vontade de abalar
sem um aceno
sequer de despedida
e de um modo expedito mas sereno
recomeçar a vida.

(Torquato da Luz)

03 dezembro 2012

Maria Bethânia - Coração Ateu

1976. Aos nove anos eu queria ser como a romântica, rebelde e indomável Malvina (Elisabete Savalla) a "minha" personagem de Gabriela. Mais uma da Maria Bethania a fazer parte da banda sonora da minha vida.



O meu coração ateu quase acreditou
Na tua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou.
Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo o meu coração ateu.
Se falo em mim e não em ti é que nesse momento já me despedi.
O meu coração ateu não chora e não lembra
Parte e vai-se embora.

30 novembro 2012

Maria Bethânia ''Negue''

Do álbum Álibi, que ouvi e voltei a ouvir, vezes sem conta, durante os anos 80.



Negue seu amor, o seu carinho.
Diga que você já me esqueceu.
Pise machucando com jeitinho
Esse coração que ainda é seu.
Diga que o meu pranto é covardia
Mas não esqueça que você foi meu um dia.

Diga que já não me quer.
Negue que me pertenceu
E eu mostro a boca molhada
E ainda marcada
Pelo beijo seu.

Alentejana

Alberto Sousa (1880-1961)

27 novembro 2012

O Príncipe e o pobre

A propósito do Orçamento de Estado para 2013 e deste castigo que nos está a ser imposto por um crime que não cometemos (frase que li hoje no facebook) lembrei-me de um filme (ou seria uma série?) que deram na televisão pelos anos 70, era eu bastante pequena. Não me lembro da história, embora tenha a vaga ideia de se tratar de «O príncipe e o pobre» de Mark Twain. Lembro-me de que havia um jovem príncipe que tinha um tutor que lhe dava as lições. Como todos os rapazes, o príncipe nem sempre estudava as lições e nem sempre dava as respostas certas. Como todos os rapazes, o príncipe fazia tropelias e portava-se mal. Mas, ao contrário dos outros rapazes, o príncipe não podia ser castigado pelo tutor. O príncipe tinha, então, um pequeno criado da idade dele cuja única função era receber os castigos no seu lugar. O príncipe respondia mal, o rapaz levava uma bofetada, o príncipe portava-se mal, o rapaz ficava de castigo.
Assim somos nós, os criados dos príncipes ou, no caso, dos políticos e dos banqueiros. Eles roubaram, delapidaram e esbanjaram. Mas não podem ser castigados. Cá estamos nós para receber o castigo.

12 novembro 2012


Cidadão francês chora enquanto assiste à parada Nazi marchando sobre Paris.

11 novembro 2012

Não é bem vinda, senhora Merkel.


Cara Chanceler Merkel: CARTA ABERTA A ANGELA MERKEL

Cara Chanceler Merkel: CARTA ABERTA A ANGELA MERKEL
Cara chanceler Merkel,

Antes de mais, gostaríamos de referir que nos dirigimos a si apenas como chanceler da Alemanha. Não votámos em si e não reconhecemos que haja uma chanceler da Europa. Nesse sentido, nós, subscritores e subscritoras desta carta aberta, vimos por este meio escrever-lhe na qualidade de cidadãos e cidadãs. Cidadãos e cidadãs de um país que pretende visitar no próximo dia 12 de Novembro, assim como cidadãos e cidadãs solidários com a situação de todos os países atacados pela austeridade. Pelo carácter da visita anunciada e perante a grave situação económica e social vivida em Portugal, afirmamos que não é bem-vinda. A senhora chanceler deve ser considerada persona non grata em território português porque vem, claramente, interferir nas decisões do Estado Português sem ter sido democraticamente mandatada por quem aqui vive.



Mesmo assim, como o nosso governo há algum tempo deixou de obedecer às leis deste país e à Constituição da República, dirigimos esta carta directamente a si. A presença de vários grandes empresários na sua comitiva é um ultraje. Sob o disfarce de "investimento estrangeiro", a senhora chanceler trará consigo uma série de pessoas que vêm observar as ruínas em que a sua política deixou a economia portuguesa, além da grega, da irlandesa, da italiana e da espanhola. A sua comitiva junta não só quem coagiu o Estado Português, com a conivência do governo, a privatizar o seu património e bens mais preciosos, como potenciais beneficiários desse património e de bens públicos, comprando-os hoje a preço de saldo.



Esta interpelação não pode nem deve ser vista como uma qualquer reivindicação nacionalista ou chauvinista – é uma interpelação que se dirige especificamente a si, enquanto promotora máxima da doutrina neoliberal que está a arruinar a Europa. Tão pouco interpelamos o povo alemão, que tem toda a legitimidade democrática para eleger quem quiser para os seus cargos representativos. No entanto, neste país onde vivemos, o seu nome nunca esteve em nenhuma urna. Não a elegemos. Como tal, não lhe reconhecemos o direito de nos representar e menos ainda de tomar decisões políticas em nosso nome.



E não estamos sozinhos. No próximo dia 14 de Novembro, dois dias depois da sua anunciada visita, erguer-nos-emos com outros povos irmãos numa greve geral que inclui muitos países europeus. Será uma greve contra governos que traíram e traem a confiança depositada neles pelas cidadãs e cidadãos, uma greve contra a austeridade conduzida por eles. Mas não se iluda, senhora chanceler. Também será uma greve contra a austeridade imposta pela troika e por todos aqueles que a pretendem transformar em regime autoritário. Será, portanto, uma greve também contra si. E se saudamos os nossos povos irmãos da Grécia, de Espanha, de Itália, do Chipre e de Malta, saudamos também o povo alemão que sofre connosco. Sabemos bem que o Wirtschaftswunder, o “milagre económico” alemão, foi construído com base em perdões sucessivos da dívida alemã por parte dos seus principais credores. Sabemos que a suposta pujança económica alemã actual é construída à custa de uma brutal repressão salarial que dura há mais de dez anos e da criação massiva de trabalho precário, temporário e mal-remunerado, que aflige boa parte do povo alemão. Isto mostra também qual é a perspectiva que a senhora Merkel tem para a Alemanha.



É plausível que não nos responda. E é provável que o governo português, subserviente, fraco e débil, a receba entre flores e aplausos. Mas a verdade, senhora chanceler, é que a maioria da população portuguesa desaprova cabalmente a forma como este governo, sustentado pela troika e por si, está a destruir o país. Mesmo que escolha um percurso secreto e um aeroporto privado, para não enfrentar manifestações e protestos contra a sua visita, saiba que essas manifestações e protestos ocorrerão em todo o país. E serão protestos contra si e aquilo que representa. A sua comitiva poderá tentar ignorar-nos. A Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu podem tentar ignorar-nos. Mas somos cada vez mais, senhora Merkel. Aqui e em todos os países. As nossas manifestações e protestos terão cada vez mais força. Cada vez conhecemos melhor a realidade. As histórias que nos contavam nunca bateram certo e agora sabemos serem mentiras descaradas.

Acordámos, senhora Merkel. Seja mal-vinda a Portugal.

Versos de pé quebrado

Eu não brinco co'as palavras
são elas que brincam comigo
dizem coisas qu'eu não quero
contam penas qu'eu não digo

Não digo as penas que tenho
me atormento sem falar
à falta de outro consolo
consolo-me a versejar

Os versos são como aves
sem penas não podem voar
só um coração magoado
sabe os versos conjugar

Não digo as penas que tenho
meus versos já dizem de mais
o meu coração está delido
de abafar tantos ais

Tristezas não saldam contas
e esquecê-las não consigo
eu não brinco co'as palavras
são elas que brincam comigo.

Pontualidade

Cultivo a pontualidade.
Espero pelos meus dias,
Pontualmente,
À mesma hora.
Quando eu morrer,
Chegará um dia e eu não estarei à espera dele.
Para castigo,
Os meus dias não voltarão.
São implacáveis com a falta de pontualidade.

05 novembro 2012

É Outono - Eugénio de Andrade

É outono, desprende-te de mim

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.
Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.
Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálpebras acesas.
Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

04 novembro 2012

Declaração de amor à Língua Portuguesa - Teolinda Gersão

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.

11-06-2012
 
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).