Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

07 março 2012

Ainda o Acordo Ortográfico

Esta carta foi-me enviada pelo autor, João Carlos Cardoso da Silva Reis, via correio electrónico, e aqui a publico, com a devida autorização e vénia. Foi originalmente enviada ao ministro da educação, ao ministro dos negócios estrangeiros, a alguns jornais e ao presidente da república.
É uma longa dissecação do Acordo Ortográfico de 1990 e transcrevo-a com alguns cortes sem, por isso, prejudicar o essencial do seu conteúdo.
Para facilitar a interpretação remeto-vos para o texto oficial do dito Acordo.
«[...] alguns dos motivos pelos quais este Acordo não deverá ser posto em prática:
1 - o primeiro motivo é que a redacção original, e oficial, deste Acordo tinha vinte e três erros ortográficos (aos quais se devem juntar outros de outra natureza) e assim foram publicados em Diário da República [...].
2 - no Artigo 2º deste Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa lê-se, e passo a citar: "Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas." Passados dezoito(!!!) anos, onde está esse vocabulário em Portugal??? (Sei que no Brasil foi publicado o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, editado em 2009, o qual viola inúmeras vezes o próprio acordo no qual se baseia. Sem comentários…) E se está a ser feito, será que prevê a resolução de vocábulos que se referem à mesma coisa, mas que são escritos (e falados) de forma diferente de ambos os lados do Atlântico??? Dou apenas alguns, poucos, exemplos: enfarte/infarto; planear/planejar, camião/caminhão, maquilhagem/maquiagem; bilião/bilhão; quotidiano/cotidiano; hidroeléctrica/hidrelétrica; maioritário/majoritário; champô/champú; golo/gol; fato/terno; hormonas/hormônios; Irão/Irã; desporto/esporte; Checo/Tcheco; câmara/câmera (máquina fotográfica); alforge/alforje; beringela/berinjela; missanga/miçanga. Isto já para não falar nas enormes discrepâncias entre termos científicos e técnicos existentes entre os dois lados do Atlântico, particularmente no que respeita à Informática;
3 - na Base IV, no ponto 1.º, fala-se da conservação ou eliminação das consoantes mudas c e p, conforme são proferidas ou não na pronúncia das palavras. Aqui começam as grandes contradições deste Acordo:
1ª - de unificador nada tem, pois deixa ao critério de cada um a sua prolação, grafia ou não, o que, juntamente com o exposto no ponto 2, vai aumentar exponencialmente o número de casos de múltiplas grafias;
2ª - a sua eliminação entra em contradição com o que foi escrito anteriormente na Base II, 1.º a);
3ª - estas consoantes eram mantidas não só por força da etimologia, mas, na esmagadora maioria dos casos, para acentuar a tonicidade da vogal anterior, ou seja: se a sua eliminação não for substituída por acento (como tem vindo a acontecer no nome Victor/Vítor), na prática o que está/vai acontecer é que muitas das palavras, além de serem escritas de forma diferente (o que contraria mais uma vez a finalidade unificadora deste acordo, pois algumas dessas consoantes são pronunciadas deste lado do Atlântico e não do outro lado e vice-versa), estão a ser/vão passar a ser pronunciadas de forma diferente em ambos os lados do Atlântico… ou então, a exemplo do que sucedeu do outro lado do Atlântico, com o tempo iremos passar a pronunciar essas vogais fechadas e não abertas como actualmente. [...]
4 - o ponto 2.º da mesma Base IV apenas e só vem reforçar o que anteriormente escrevi acerca do contínuo afastamento entre o Português de ambos os lados do Atlântico, não só graficamente como também foneticamente. Isto fará com que brevemente este acordo esteja total e completamente obsoleto e também é bem provável que o Português se cinda definitivamente se nada de concreto for feito para a sua real unificação, não só gráfica, mas também fonética;
5 - na Obs. à alínea a) do ponto 1.º da Base VIII está escrito o seguinte, e passo a citar: "Em algumas (poucas) palavras...". Bem... "poucas" oxítonas, mas, no contexto geral ainda há a somar as paroxítonas que constam nas Obs. às alíneas a) e b) do ponto 2.º da Base IX e as proparoxítonas que constam no ponto 3.º da Base XI. Tudo isto faz com que as palavras grafadas de forma diferente não sejam assim tão "poucas", como nos querem fazer crer, mas muitas, pois nestas Obs. e pontos apenas estão alguns exemplos, não toda a extensão da diferença. [...];
6 - se se puser em prática o que está no ponto 3.º da base IX, o que vai acontecer é o desvirtuamento fonético dos ditongos representados por oi, pois temos o exemplo em que o acento foi retirado dos ditongos representados por ei, em que essas palavras passaram a ser pronunciadas êi em vez de éi. Exemplo disso são também as palavras "acerca" e "inclusive" que muitas pessoas já pronunciam "acerca"(a fechado) em vez de "àcerca"(a aberto) e "inclusive"(e fechado) em vez de "inclusivè"(e aberto). Isto para ficarmos só por aqui, pois muitos outros exemplos haveria...;
7 - com base no ponto 9.º da mesma base IX como vamos interpretar, e ler, a seguinte frase, título que há algum tempo atrás um jornal trazia na sua primeira página: "Falta de seguros pára transplantes em hospital"? Não se esqueça de que com este acordo o acento agudo é retirado do vocábulo "para"...;
8 - na Obs. ao ponto 1.º da Base XV vamos começar a ver os primeiros "resultados" práticos deste famigerado Acordo no que respeita, por exemplo, à palavra "pára-quedas". Para começar direi o que vi em dois dicionários de diferentes editoras: num aparecia escrito "paraquedas" enquanto noutro estava grafado "para quedas"... Bem... em que ficamos??? E este é apenas um de muitos exemplos... Depois gostaria de dizer que esta palavra com o tempo irá querer dizer "aparelho para provocar quedas" em vez do actual "aparelho em forma de guarda-chuva destinado a diminuir a velocidade de queda de um objecto ou de uma pessoa despenhada de grande altura". [...];
[...]
10 - o ponto 2.º da Base XVII diz o seguinte: «Não se emprega o hífen nas ligações da preposição de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.». Porquê esta excepção??? Para não haver excepções não seria melhor acabar com os hífens nos verbos compostos??? "Facilitaria" muita coisa... ou complicaria??? [...]
11 - o parágrafo 4 do capítulo 2 do Anexo II é falacioso no que respeita à não-aceitação do acordo de 1945 por parte dos brasileiros, pois não diz que tal acordo não foi aprovado por motivos políticos e não por motivos culturais, pois a Academia Brasileira de Letras, além de ter aprovado o acordo, ficou incumbida de elaborar o Vocabulário Resumido da Língua Portuguesa. Ora neste caso deve ser a cultura a impor-se e não os políticos...;
[...]
13 - em relação ao parágrafo 4 do capítulo 3 do Anexo II, se é o critério da pronúncia que determina a supressão das consoantes mudas, então estas, para manterem a pronúncia correcta deveriam passar a ser acentuadas na vogal anterior, mas nisso este dito acordo não fala...;
[...]
17 - no que respeita ao que está escrito no 2.º parágrafo da alínea c) do subcapítulo 4.2 do Anexo II eu apenas tenho quatro, por exemplo, perguntas a fazer: 1ª - Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que o plural, por exemplo, de "mão" é "mãos" e o plural de "pão" é "pães"?; 2ª - Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que, no interior duma palavra, a letra "n" antes dum "b" ou dum "p" tem que se transformar num "m"?; Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que a letra "x" pode ser pronunciada com o som de "ch", "is", "s" ou "z", por exemplo, dependendo da palavra onde se encontra? Porque é que este acordo "unificador" não resolve também estes "problemas"?;
[...]
19 - em relação à alínea e) do subcapítulo 4.2 do Anexo II, não entendo como se poderá falar de "unificação ortográfica da língua Portuguesa" (mesmo com "P" maiúsculo, para dar a importância devida ao idioma, e não um redutor "p" minúsculo como este acordo faz ao idioma) se o próprio acordo não prevê essa tão propalada unificação [...];
[...]
22 - no que respeita ao que está escrito no 9.º parágrafo do subcapítulo 5.1 do Anexo II, é de muito mau tom (para não dizer parcialidade) referir que apenas "o facto de a língua oral preceder a língua escrita,...", pois pelos poucos exemplos que já dei no ponto 2, no ponto 3, 3ª, e no ponto 6 podemos ver que não é só a língua oral precede a língua escrita, mas que o inverso também acontece(u) em muitos casos;
23 – em relação ao subcapítulo 5.2 do Anexo II, este apenas vem reforçar o que já foi dito acerca da dupla grafia. No que respeita ao sub-subcapítulo 5.2.4 só se pode considerar, no mínimo, o argumento aqui aduzido como falacioso. É que separadamente até parecem poucas palavras, mas juntando este exemplo ao que está no subcapítulo 4.1 e ao que eu exponho no ponto 2 são muito mais de 2.000 vocábulos. Outro dos factos que os autores do acordo omitem é que um falante médio utiliza cerca de 10.000 palavras e não o corpus de 110.000 aqui aduzido. Ou seja: na prática o que vai acontecer é que muito mais de 20% dos vocábulos usados no dia-a-dia da esmagadora maioria dos falantes de Português vão ter dupla grafia;
24 – relativamente ao argumento utilizado na alínea b) do subcapítulo 5.3 do Anexo II, “Eventual influência da língua escrita sobre a língua oral, …”, já é interessante a conveniência da utilização deste argumento. Mas nem mesmo com o exemplo que vem do outro lado do Atlântico, a alteração fonética da esmagadora maioria das palavras às quais retiraram as consoantes mudas não proferidas, os supostos eruditos em língua Portuguesa aprenderam que não é benéfico para o idioma a supressão das consoantes mudas. Conveniências…;
25 – na alínea c) do mesmo subcapítulo 5.3 do Anexo II está mais um motivo para a não supressão de acentos gráficos ou consoantes mudas. Como são palavras que um falante médio rarissimamente irá ler e/ou pronunciar ao longo da sua vida, decerto que as vai ler e/ou pronunciar incorrectamente…;
26 – é duma insensatez tal (para não utilizar outro adjectivo) aduzir o argumento que está na alínea d) do subcapítulo 5.3 do Anexo II quando quase tudo o que está neste acordo vem prejudicar essa aprendizagem. É precisamente por este motivo (entre outros) que no Brasil já quase ninguém pronuncia (ou escreve) a conjunção “mas”, mas usa o vocábulo “mais”… alguém pensou nisto???;
[...]
28 – no ponto 24 falei do exemplo que vem do outro lado do Atlântico. No sub-subcapítulo 5.4.2 do Anexo II vou falar do exemplo Português, em que a supressão do acento agudo do ditongo ei fez com que todas as palavras singulares contendo aquele ditongo se pronunciassem com a vogal “e” fechada. Não saberão os ditos peritos em língua Portuguesa que, se tivessem aprendido com o passado, num futuro breve a esmagadora maioria dos vocábulos com o ditongo oi passarão a ser pronunciados com o timbre fechado e não aberto como é actualmente???;
[...]
Como considerações finais, tenho a dizer que não é mau, mas sim péssimo para o Idioma Pátrio que este tenha sofrido três grandes alterações ortográficas a par de outras tantas mais reduzidas em menos de um século. Melhor dizendo: os bisavós escreveram duma maneira, os avós de outra, os filhos de outra e os netos ainda vão escrever de outra… e, sem grande esperança, espero que fiquemos por aqui… Além disso, e como ficou provado, mais de 20% (contas por baixo) dos vocábulos usados por um falante médio vão poder ser grafados à vontade de cada qual, o que em nada abona o Português junto da Comunidade Internacional, antes pelo contrário, contribui para o seu descrédito. Este descrédito é tanto mais evidente quanto em lado nenhum leio que este acordo é para honrar o Idioma Lusitano
Também gostaria de dizer que só agora estou a enviar estes factos, pois tenho estado a observar a pequena fracção que me chega às mãos do que tem vindo a acontecer com a degradação do Português, começando por este famigerado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa até ao acima citado Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, isto para ficarmos só por aqui…
Cordialmente,
João Carlos Cardoso da Silva Reis.»

29 fevereiro 2012

216 anos da Biblioteca Nacional de Portugal

«O Alvará régio de 29 de Fevereiro de 1796 fundou a Real Biblioteca Pública da Corte, a mais antiga antecessora formal da BNP. A primitiva instituição recebeu, como núcleo original, a Biblioteca da Real Mesa Censória, criada em 1768. O referido diploma conferiu-lhe a natureza de Biblioteca Pública, tendo a mesma sido instalada no Torreão Ocidental da Praça do Comércio (Terreiro do Paço).

Durante a primeira fase da sua existência, a Real Biblioteca beneficiou, além das dotações do orçamento régio, de doações privadas e de obras entradas por via da aplicação da primeira lei de depósito legal (1805), que tornou extensiva às tipografias a obrigatoriedade de depositarem um exemplar de todas as obras que imprimissem.

Com a vitória dos liberais e a extinção das ordens religiosas (1834), a Instituição foi transformada em Biblioteca Nacional de Lisboa, incorporando no seu acervo, por determinação oficial, a totalidade ou parcelas das livrarias de numerosos mosteiros e conventos. O afluxo de grandes colecções tornou imprescindível a sua transferência para um local mais espaçoso, tendo a escolha recaído no Convento de S. Francisco.

Durante os mais de 130 anos em que funcionou no Chiado, a BNL conheceu épocas de modernização e enriquecimento, bem como períodos sombrios e letárgicos. Devem salientar-se os esforços desenvolvidos no século XIX para absorver as colecções dos extintos estabelecimentos religiosos, organizar exposições bibliográficas e publicar catálogos de diversas colecções.

Na sequência da proclamação da República (1910) ocorreu um novo surto de incorporação de livrarias de congregações religiosas extintas. No período de 1920-1926, a Instituição conheceu uma fase de grande actualização biblioteconómica e de florescimento cultural promovido pelo chamado «Grupo da Biblioteca».

O crescimento das colecções e a necessidade de condições de conservação adequadas ao rico espólio à sua guarda tornaram imperiosa a construção de um edifício de raiz destinado a instalar condignamente a maior colecção bibliográfica portuguesa. Com projecto do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, as obras iniciaram-se em 1958, tendo a transferência para o edifício do Campo Grande ocorrido em 1969.

Na década de oitenta iniciou-se o processo de informatização da Biblioteca, concomitante com o projecto mais alargado de apoio às bibliotecas portuguesas nessa matéria, de que resultou a criação da Base Nacional de Dados Bibliográficos – PORBASE. A par da adaptação à evolução tecnológica, a Instituição continuou a enriquecer as suas colecções – com destaque para a criação de um Arquivo de Espólios –, tendo, também, desenvolvido significativas iniciativas nas áreas da normalização biblioteconómica, da preservação e conservação e das actividades culturais.

No início do presente século, a Instituição acompanhou a tendência internacional para a digitalização de fundos, tendo criado a Biblioteca Nacional Digital (BND) que se encontra em permanente crescimento e em articulação com instituições europeias.


Com mais de 200 anos, a BNP iniciou, em 2007, um processo de reestruturação que visa contribuir para o enriquecimento e divulgação do património bibliográfico nacional, bem como para modernizar, racionalizar e incrementar o seu funcionamento com vista a servir o público, a comunidade profissional, e os editores e livreiros.»

(Fonte: sítio da BNP)

25 fevereiro 2012

Sei que dormes em paz

Deste-me o nome e a lua
A lua não tem morada
Alumia qualquer rua
Mas só a mim me foi dada

Não entendo onde tu estás
Nem porque chegaste ao fim
Não entendo onde tu estás
Mas sei que dormes em paz
Descansas dentro de mim

Já nasci com a saudade
Nada mais herdei de ti
Deste-me o nome e a idade
Da lua quando nasci

Não sei se há lugar no céu
À minha espera ao teu lado
Não sei se há lugar no céu
O lugar que Deus me deu
Para viver é o Fado

("Fado da herança". Poema de João Monge para música de Alfredo Marceneiro)

17 fevereiro 2012

«É raro encontrar épocas em que a generalizada decadência dos valores seja tão vasta como hoje. Nas grandes crises do passado pode ter havido infracções generalizadas de preceitos morais ou discrepâncias graves acerca dos valores a defender mas não se punha em causa a bondade dos valores em si mesmos nem se podia admitir que uma sociedade pudesse viver sem eles. Houve lutas implacáveis em nome de sistemas de valores opostos entre si mas não descrença na sua eficácia ou na sua necessidade para a integração do indivíduo na sociedade e a preservação do bem comum. [...]
Hoje, porém, põe-se em causa a própria fundamentação teórica da escala de valores que herdámos do passado; essa dúvida estende-se a todo o globo terrestre porque afecta uma civilização, a europeia, e esta tornou-se universal. Não se trata só de verificar a ineficácia prática dos valores ou a incapacidade de qualquer instância moral suficiente para os ditar [...].
Pense-se nos valores transcendentais de bem, de beleza ou de justiça e nos mais políticos (isto é, relativos à polis) de liberdade, progresso, democracia, solidariedade, bem comum ou autoridade. Fala-se muito nestes ideiais mas os discursos não persuadem ninguém. Julga-se que quem mais os invoca é quem menos acredita neles. [...]
Uma análise global do mundo de hoje conduz, portanto, a uma visão terrivelmente pessimista do futuro.»

(José Mattoso, 2000)

15 fevereiro 2012

«Sobre as mulheres brrabas.
[...] que porquanto as mulheres que são bravas e de más linguas com sua soberba dizem muitas coisas malditas que não são, com que afrontam a muitas mulheres e homens de que se segem grandes damnos e brigas e diferenças e mortes e ferimentos. E de suas ruins linguas resultam grandes prejuizos que para isto se evitar; que nenhuma mulher nas praças nem nas ruas nem de suas... casas nem de suas portas ou genelas adoeste nem chame nenhuns nomes a nenhuma outra mulher de qualquer qualidade e condição que seja nem a nenhum homem sob pena [...] de 500 rs [...] ainda que seja compreendida em adoestar por acenos e remoques. E a que for compreendida em terceira vez será presa e da cadeia pagará a dita pena e além disso será enfreada com um freio na boca.»
Despacho da Câmara Municipal de Beja, Lv. 1º (1604-1735). In Arquivo de Beja. Vol. 15 (1958)

07 fevereiro 2012

«As mulheres portuguezas são singulares na formusura e proporcionadas no corpo, a côr natural dos seus cabellos é a preta, mas algumas tingem-n'os de côr loira; o seu gesto é delicado, os lineamentos graciosos, os olhos pretos scintillantes, o que lhes accrescenta a belleza; e podemos affirmar com verdade que em toda a peninsula as mulheres que nos pareceram mais formosas foram as de Lisboa; posto que as castellanas, e outras hespanholas arrebiquem o rosto de branco e encarnado, para tornarem a pelle, que é algum tanto ou antes muito trigueira, mais alva e rosada, persuadidas de que todas as formusuras são feias. O trajo feminino em Lisboa é o commum de toda a Hespanha, isto é o manto grande de lan ou de seda, segundo a qualidade da pessoa. Com elle cobrem o rosto e o corpo inteiro, e vão aonde querem, tão disfarçadas que nem os proprios maridos as conhecem, vantagem esta que lhes dá maior liberdade do que convem a mulheres bem nascidas e bem morigeradas.»

Viagem a Portugal dos Cavalleiros Tron e Lipomain, ca 1580, In. "A tradição : revista mensal d'ethnographia portugueza ilustrada. A. 4, n.º 7 (Julho 1902)

03 fevereiro 2012

A voz da maioria silenciada

Uma vez conhecida a notícia de que o recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém fez distribuir ontem à tarde uma circular interna na qual dá instruções aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico e para que os conversores sejam desinstalados de todos os computadores da instituição, uma onda de comentários percorreu a principal rede social da Internet.
O Dr. Graça Moura acaba de fazer o que a maioria dos portugueses há muito desejava ver feito por alguém com poder para isso, contrariando a velha máxima segundo a qual a maioria dos problemas não se resolve porque «quem quer não pode e quem pode não quer».
O movimento contra o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90) foi encabeçado, desde a primeira hora, por Vasco Graça Moura e pela nata dos intelectuais portugueses, desde linguistas, escritores e poetas a professores, historiadores, artistas plásticos, músicos, cientistas e jornalistas. As assinaturas para a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o AO90 estão a ser recolhidas há anos e crescem a "passo de caracol" devido à pouca esperança que os portugueses costumam ter no exercício da cidadania. No entanto, hoje pode ser o ponto de viragem. Todas as iniciativas contra o AO90 pareciam, até agora, votadas ao fracasso. Em conversas de café e em comentários no Facebook, o que predominava era a ideia de que nada valia a pena contra o rolo compressor dos interesses económicos e que todos os que discordam do AO90 acabariam, cedo ou tarde, por ceder, fosse pelo hábito, fosse pelo medo de retaliações (mormente na Administração Pública onde o receio de processos disciplinares por desobediência é fundado) fosse para não ir contra interesses instalados. Ouvi numerosas vezes dizer que toda esta luta não era mais do que um descargo de consciência.

Para surpresa de muitos, o Dr. Vasco Graça Moura fez o que não é costume fazer-se: ser coerente. Sem rodeios, deu ordens, na instituição a que preside, para que o Acordo Ortográfico não seja aplicado. Nada de paninhos quentes, nada de politicamente correcto, nada da vulgar "conversa da treta" com que se sempre enganam os tolos. Assumiu o lugar e, ao contrário do que é normal, agiu de acordo com o que tinha andado a defender.

Esta medida teve o efeito de um rastilho: trouxe o acordo para a agenda mediática com uma dimensão inédita e está a provocar uma onda de alívio e esperança nas redes sociais. Até aqui, todos os que estão contra o AO90, todos os que se têm sentido injustiçados e até violentados pela obrigação de o aplicar nos seus locais de trabalho, todos os que se sentem espetados na alma de cada vez que lêem "espetador", todos nós - e somos muitos! - nos sentíamos como mudos esbracejando para avisar de um incêndio.

O Dr. Vasco Graça Moura acaba de dar voz à maioria silenciada dos portugueses.

02 fevereiro 2012

Versão de "O Mostrengo" (de Fernando Pessoa), dedicada ao "corretor"/"conversor" LINCE

Com a devida vénia à autora, Madalena Homem Cardoso.

«O “corretor” lince que eu não quis instalar
Varreu o ecrã, ergueu-se a voar;
À roda do texto veio três vezes,
Roubou três letras a chiar,
E disse: «Quem ousa desafiar
As minhas razões que nem eu entendo,
Meu lápis invisível infecundo?»
E ao leme da tecla eu disse, tremendo:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

«De quem são as letras de que troço?
De quem o linguajar que leio e ouço?»
Disse o “corretor” lince, e arrotou três vezes,
Três vezes arrotou imundo e grosso.
«Quem vem escrever como não posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
Instalado no medo, mas do nada oriundo?»
E ao leme da tecla tremendo, eu disse:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

Três vezes do teclado as mãos ergui,
Três vezes ao leme de mim escrevi,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Tremo com fúria, sou mais do que eu:
O que este Povo escreve não é teu;
Mais que o raivoso lince que me a alma pisa
Mutilando palavras furibundo,
Mandam as raizes que erguem a divisa,
Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

(Madalena Homem Cardoso, a partir de “O Mostrengo” de Fernando Pessoa”)

26 janeiro 2012

«A educação com que se generalisasse a cultura das belas artes dava como resultado, em meio século, a regeneração de um povo.» (Niccolò Tommaseo, 1802-1874)

06 janeiro 2012

Escravos e assalariados (2)

«Karl Marx, um visionário, percebeu que se pode controlar muito melhor um escravo convencendo-o de que ele é um empregado.»
(Nassim Nicholas Taleb)

02 janeiro 2012

FELIZ 2012

Quase toda a gente com quem falo está a expressar votos de um 2012 «o melhor possível». Claro que sim, 2012 vai ser um ano difícil, vamos ter menos dinheiro, fazer menos férias (os que ainda puderem fazer férias...), comprar menos coisas e mais baratas, saír menos à noite... tudo isso é verdade e é péssimo. Com a bolsa reservada à sobrevivência, gastaremos menos no supérfluo mas, se calhar, também em outros bens essenciais ao espírito como os livros, os CD, o teatro, o cinema, os concertos. E isto é certo, é mau e não há votos de ano novo que alterem a dura realidade dos factos.

Mas... há sempre um "mas"...
Se desejarmos um Feliz 2012, estamos a dizer alguma bizarria? 2012 vai ser um ano INFELIZ? Quem disse? O que é que o dinheiro tem a ver com a felicidade? Quantas e quantas coisas que fazem a nossa felicidade não se compram? Que tal recuperar a antiga tradição de visitar e receber em casa? Que tal ir mais à biblioteca pública e levar livros emprestados? E umas sessões de cinema em casa com os amigos?
Haja saúde, a família junta e bem, o conforto dos amigos. Isso sim, é felicidade e não há p**** de dinheiro que compre isso!
UM FELIZ 2012 para todos os visitantes da biblioteca de Jacinto.

23 dezembro 2011

Zeca Afonso - Canção de Embalar

Com os votos de Feliz Natal para todos os visitantes da biblioteca de Jacinto, a mais bonita canção de Natal que conheço e que nem foi escrita para ser uma canção de Natal.

16 novembro 2011

Canta!

Com a devida vénia ao Luís Neves, que deixou este poema na minha caixa de comentários.

CANTA

Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.

Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.

E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.

Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.

E canta se te falta a liberdade.

Joaquim Pessoa

02 novembro 2011

Poema de agradecimento à corja (Joaquim Pessoa)

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço. E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim. E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

20 outubro 2011

Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal fez vinte anos

A Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal fez vinte anos no dia 1 de Outubro, não por acaso Dia Mundial da Música.
Para assinalar a efeméride o Grupo Vocal Arsis apresenta-se hoje, pelas 18h30, no auditório da Biblioteca Nacional, com um concerto de música portuguesa dos séculos XVII, XX e XXI. Serão executadas obras de Estêvão Lopes Morago, D. João IV, Diogo Dias Melgaz, Paulo Brandão e Filipe Pires.


09 agosto 2011

Domenico Modugno - Dio, come ti amo

Muito que eu gosto de canção italiana!
Uma vez ouvi alguém que dizia: gosto da música italiana, de toda, mesmo da má, lembra-me sempre carros descapotáveis e mulheres de lenços às bolinhas.
Pois passa-se exactamente o mesmo comigo. Adoro música italiana, adoro aquela lamechice, adoro aquela língua, adoro tudo.
Esta é do ano em que nasci.



Nel cielo passano le nuvole
Che vanno verso il mare
Sembrano fazzoletti bianchi
Che salutano il nostro amore.
Dio, come ti amo!
Non è possibile
Avere tra le braccia
Tanta felicità.
Baciare le tue labbra
Che odorano di vento
Noi due innamorati
Come nessuno al mondo.
Dio, come ti amo!
Mi vien da piangere.
In tutta la mia vita
Non ho provato mai
Un bene così caro
Un bene così vero
Chi può fermare il fiume
Che corre verso il mare.
Le rondini nel cielo
Che vanno verso il sole
Che può cambiar l'amore
L'amore mio per te.
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!

Há lá língua mais bonita?...

04 agosto 2011

Casta Diva

Em miúda cantava-a no duche, aproveitando a acústica da casa-de-banho. Sempre gostei de a ouvir pela Callas, a minha preferida até ao dia em que a ouvi pela Bartoli.
Sem palavras. Escutai apenas.

12 julho 2011

MOZART - Batti, batti, o bel Masetto

Neste video apelo para a especial tolerância do caros visitantes da biblioteca de Jacinto em relação à grande gaffe lá para o meio...



Audição de alunos de canto do Professor Fernando Serafim, em 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos

MOZART - Porgi amor



Audição de alunos do Professor Fernando Serafim, dia 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos.

10 julho 2011

BELLINI - Vaga luna

Enfim, ganhei coragem para colocar uma audição minha no youtube. Resta-me agradecer a tolerância dos visitantes da biblioteca de Jacinto.



(Audição de alunos de canto do Professor Fernando Serafim, dia 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos)

07 julho 2011

(Capa de Stuart Carvalhais para É bonito, não é?!... / versos e música de António Cândido Ferreira)

Que rapaz tão catita
Lá na Baixa encontrei!
Cara, assim, tão bonita,
Eu nunca namorei!

Oh, que lindo cabelo
E que olhar sedutor!
Que sorriso tão belo
E tão encantador!...

É bonito, não é?!...
Diga, faça favor!
Tão bonito que até
Eu receio, olaré,
Que ele tenha outro amor...

É bonito não é?!...
Ninguén há que o não diga!
Fazer dele o meu "Zé"...
Oxalá eu consiga!

É tão fino e galante
Que outro assim, nunca vi!
Todo ele é elegante,
Todo ele sorri!...

Quando o vejo, meu Deus!
Que desejos sem fim,
De ter os olhos seus,
Sempre junto de mim!...

É bonito, não é?!...
...

Portugal

Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


(Alexandre O'Neill)

26 junho 2011

A reminder of the important things in life

Recebido por e-mail.
Difundido para todos os amigos da Biblioteca de Jacinto.
Gostei. Espero que também gostem.

12 junho 2011

Ó, meu rico Santo António,
Segura o meu avião,
Aplaca ventos e brumas
E pousa-o com a tua mão.

A noite de Santo António
É noite santa e boa
Pr'atravessar o oceano
E aterrar em Lisboa.

01 junho 2011

Rachmaninov Piano Concerto No.2 in Rhapsody.

Já aqui publiquei este concerto de Rachmaninov, que há anos atrás me "reconciliou" com Deus. Mas nunca tinha encontrado esta cena do filme Rhapsody, com Elizabeth Taylor, onde pela primeira vez o ouvi, teria os meus dez anos e que nunca esqueci.

28 maio 2011

MADREDEUS - Haja o Que Houver



Haja o que houver eu estou aqui
Haja o que houver espero por ti
Volta no vento, ó meu amor!
Volta depressa por favor.

Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor!

Eu sei, eu sei
Quem és para mim
Haja o que houver espero por ti

18 maio 2011

«Ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP» [FMV]

«Ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP» [FMV]

Bruxelas, 14 de Maio de 2011

Ex.mo Senhor
Dr. José Carlos Abrantes

Senhor Provedor do Telespetador [sic] da RTP,

Prometo a V. Ex.ª que tentarei evitar comentários demasiado técnicos, pedindo desculpa por eventuais imprecisões terminológicas, que se justificam (parece paradoxo, mas garanto que não é) por ser meu único objectivo explicar a leigos em fonologia e fonética (áreas diferentes do saber) e em grafemática e grafética (idem) o erro de se chamar “telespetador” a um telespectador. De antemão, portanto, as minhas sinceras desculpas.

Gostaria de chamar a atenção para o facto de a designação do cargo de V. Ex.ª violar as regras mais elementares quer dos compostos morfológicos da língua portuguesa (1), quer das regras do processo do vocalismo átono do português europeu (2), devendo V. Ex.ª rever com carácter de urgência a designação, pois existe solução para este problema (3).

(1) A palavra telespectador (com C) designa “Que ou aquele que assiste a um espectáculo de televisão”. Esta acepção (do dicionário em linha da Priberam) parece ser adepta da tese segundo a qual o elemento tele- é desconsiderado enquanto radical grego, preferindo afirmar-se que provém da palavra “televisão”. Não sou adepto desta tese, mas não é aqui o lugar para debater matérias do foro académico. Contudo, considerando o radical (espect), que sucede a um prefixo (tel) e precede uma vogal temática (a) e um sufixo (dor), peço a V. Ex.ª que se concentre no radical. ‘Espect’ explica-se pelo latim spectātor. Contudo, V. Ex.ª é “Provedor dos Telespetadores”. Teremos então um inexistente radical ‘espet’, que não se explica pelo latim spectātor, mas pelo germânico speuta, que deu palavras portuguesas como “espeto” (espet + o) e alemãs como Spieß .

(2) Direi a V. Ex.ª que, segundo o processo do vocalismo átono do português europeu, i.e., o processo que ocorre em português europeu, citando de cor palavras de Esperança Cardeira (poderei enviar mais tarde as referências a V. Ex.ª), “as vogais não acentuadas sofreram, na norma do português europeu, um acentuado processo de enfraquecimento”. Ou seja: perante “telespetador” é previsível que V. Ex.ª (ou qualquer outro falante de português europeu) pronuncie [tɛlɛʃpɨtɐ'doɾ] em vez de [tɛlɛʃpɛtɐ'doɾ].

(3) «telespectador/telespetador» são duas acepções aceites (princípio da facultatividade do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990) em português europeu, como verificará no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de João Malaca Casteleiro (caso V. Ex.ª não saiba, co-autor e negociador do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), publicado pela Porto Editora. Gostaria de perguntar a V. Ex.ª qual a razão de optar pela segunda e não pela primeira. A primeira é válida, conforme poderá verificar na página 555 da publicação que acabo de mencionar.

Tenho outros comentários sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, mas, para já, limito-me a esta matéria do “telespectador” vs. “telespetador”.

Para o esclarecimento de qualquer dúvida, encontro-me ao inteiro dispor de V. Ex.ª

Agradeço toda a atenção dispensada,
E envio os meus cordiais cumprimentos.

Francisco Miguel Valada

Intérprete de Conferência profissional junto das Instituições da União Europeia e autor do livro Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009), do artigo “Os lemas em ‘-acção’ e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990″, Diacrítica – Série Ciências da Linguagem, n.º 24/1, pp. 97-108, Braga: Universidade do Minho, 2010 e de artigos na imprensa sobre a matéria em apreço.

06 maio 2011

Creio

Não conhecia este poema de Natália Correia. Descobri-o hoje e adorei. Quero partilhá-lo convosco.


Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén

(Natália Correia)

29 abril 2011

Sophia

Na biblioteca de Jacinto gostamos de Sophia de Mello Breyner Andresen.
E gostamos também de saber que o sítio da BNP a ela dedicado já está disponível na Internet aqui.
E um cheirinho do que lá se pode encontrar...

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

in Dia do Mar, 1947

27 abril 2011

Maria Bethânia - Coração Ateu

Eu tinha 10 anos quando passou a novela Gabriela. Ao contrário da pateta da Jerusa, sempre melada e chorosa, Malvina, linda e rebelde, era a minha heroína. E a canção dela era esta: Coração ateu. Ainda sinto um ligeiro frémito quando a oiço.

26 abril 2011

A banda sonora da minha vida

Como retomei a publicação de músicas que fazem parte da banda sonora da minha vida e haverá visitantes que aqui chegam pela primeira vez, decidi republicar um post que escrevi em Março de 2007.

Tenho vindo a publicar aqui vários posts que vou agrupando na «banda sonora da minha vida». Mas já são tantos e já tenho tantos em reserva que devo aos visitantes da Biblioteca de Jacinto uma explicação: a banda sonora da minha vida não é apenas constituída pelas músicas de que mais gosto ou as músicas que mais me marcaram. Se me perguntassem por essas, eu não saberia apontá-las.
Há-que dizê-lo com frontalidade: a música é a minha vida, a minha respiração, a minha alma e o meu sangue. Não saberia viver sem música. A minha memória de passarinho para palavras, imagens, números e caras está toda, toda, toda ocupada com música. Música clássica, música pop, música tradicional, música medieval, música portuguesa, música francesa, música italiana, música de filmes, música de anúncios, música de séries, música boa e música má. Acumula-se na minha cabeça de uma forma desordenada, fixo-a toda, memorizo-a toda, nunca sei as letras, muitas vezes não sei quem a canta nem quem a toca, não fixo mais nada, fixo só a música. Música, música, música.
Nunca esqueço uma música, oiço uma brevíssima introdução, às vezes só um acorde, e sei a que música pertence. O meu aparelho auditivo tem uma ligação directa à minha alma: com cada música vem uma emoção, uma memória, um cheiro, um arrepio, um sopro. É pavloviano. É coisa de bicho.
Quando era pequena, morava num prediozinho de dois pisos, no Campo de Santana. A varanda da cozinha dava para uns quintais e, para esses quintais, davam as trazeiras de outros prédios. Lembro-me de virar um balde ao contrário e pôr-me em cima para chegar ao parapeito. Depois, abria os foles e cantava. Cantava a Habanera da Carmem, a Canção de Solveig, as canções dos Beatles, o que calhava. A minha mãe ouvia todos os dias a Antena 2 (na altura era a Emissora Nacional), principalmente os programas de ópera. Eu ouvia, fixava e vinha para a varanda cantar. Toda a vizinhança me conhecia.
Na escola, cantava durante as aulas porque me esquecia de que estava nas aulas. Os professores tinham de me mandar calar, aí eu acordava e dava mais cinco minutos de atenção à aula. Fui má aluna, claro. Ao 40 anos já não me importo de contar estas coisas porque já não me interessa nada o que podem pensar de mim mas, na infância, foi difícil viver com esta música toda dentro da cabeça, principalmente porque eu passava tardes a ouvir Haendel quando os outros ouviam Police e Ramones. E eu não tinha assunto de conversa.
Só comecei a interessar-me pela música "própria da minha idade" (seja lá o que isso fôr) no início da adolescência, mais ou menos na mesma altura em que comecei a interessar-me por rapazes. Mais uma vez, a música era uma obsessão. Gostava de músicas repetitivas cantadas por rapazes maquilhados e que dançavam com movimentos de ancas. Rapazes com ancas! Era a época dos telediscos (já não se chamam assim, acho eu), do "top ten" ao Domingo à tarde, que eu sorvia em frente à televisão para ver as ancas e os olhos azuis do Simon Le Bon, a poupa e os olhos castanhos do vocalista dos Spandau Ballet e o cabelo de vassoura e os olhos lânguidos de um escanzelado andrógino chamado Limhal que eu achava giríssimo porque nessa idade gostava de rapazes que fossem parecidos com brinquedos.
Depois fui para a faculdade. Corria o ano de 1984. Entrei muito nova, até ao fim da faculdade fui sempre a mais nova de todas as turmas onde estive. Achei, então, que estava na altura de me tornar mais séria e intelectual. Eu já estava na Universidade! Deixei de comprar a revista «Coquette» (que ensinava coisas inocentes como usar maquilhagem e falar com rapazes sem parecer que me estava a atirar) e voltei a gostar de música pela música. É dessa fase a minha descoberta da pop/rock dos anos 70 e do melhor que se fazia nos anos 80. Não me desinteressei dos rapazes mas foi nessa altura que descobri que os inteligentes era muito mais interessantes do que os estúpidos. É também dessa fase que tenho as mais doces recordações de adolescência. Sempre associadas a música. Tudo, sempre, indissociável da música.
Depois da faculdade, depois do vinte e um, vinte e dois anos, as coisas mudaram. Fiz outras "descobertas" musicais, muitas delas associadas a filmes e à minha própria pesquisa de coisas novas. Isso também está associado ao facto de eu ter começado a ter dinheiro para comprar discos.
Procuro, ainda hoje, não perder aquela inocência indispensável para que a música nos toque, nos marque, nos fira na alma. É isso que me permite, ainda hoje, ter músicas que entram para a banda sonora da minha vida. É isso que me permite que essa banda sonora tenha não meia-dúzia, não uma dúzia, mas largas dezenas ou até centenas de músicas.
E que aqui vos vou mostrando, como quem despe a alma.

24 abril 2011

La Bohème

Oiço Charles Aznavour no leitor de CD e procuro-o na biblioteca de Jacinto. Parece-me inacreditável que nunca o tenha referido na banda sonora da minha vida.
1985. A casa de uma amiga muito querida. Tardes e noites a colocar discos, a falar de tolices e de coisas sérias, a arranjar unhas e a planear dietas, a estudar Pré-Clássicas, a cantar Zeca Afonso e Amália e a ouvir Ravel, Bach, Prokofiev e Dire Straits. E Aznavour, sempre. La Bohéme, talvez a mais repetida. Que saudades, minha amiga, que saudades! Sim, tu sabes que este post é para ti.


Ressurreição


El Greco, 1541-1614 - Ressurreição, 1577-1579

20 abril 2011

Maria Bethania - Explode, coração!

Do álbum Alibi, que ouvi vezes sem conta durante os anos 80.



Chega de tentar dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu nao posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor e
Entregou o que você tentou conter
O que voce não quis desabafar e me cortou

Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
E tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã

Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
Feito louco, alucinado e crianca
Sentindo o meu amor se derramando
Nao dá mais pra segurar
Explode, coração!

19 abril 2011

Porque me olhas assim?

Desde 2007 que não publico aqui "a banda sonora da minha vida". Lembrei-me hoje desta canção do Fausto, do CD "Para além das cordilheiras" (1987), que ouvi e ouvi e ouvi, vezes sem conta, durante os anos de 1990 e 1991. O CD todo e esta faixa em particular.
Lembrei-me e procurei pela net o video (quando me lembro de uma música de que gosto tenho destas urgências) mas, infelizmente, só encontrei a versão da Cristina Branco (que nem tentei ouvir por receio de me quebrar o encantamento).

Falta a música mas fica o poema, que vale por si só.

"Diz-me agora o teu nome
Se já dissemos que sim
Pelo olhar que demora
Porque me olhas assim?
Porque me rondas assim?

Toda a luz da avenida
Se desdobra em paixão
Magias de druida
P’lo teu toque de mão.
Soam ventos amenos
P’los mares morenos
Do meu coração.

Espelhando as vitrinas
Da cidade sem fim
Tu surgiste divina
Porque me abeiras assim?
Porque me tocas assim?
E trocámos pendentes
Velhas palavras tontas
Com sotaque diferentes
Nossa prosa está pronta.
Dobrando esquinas e gretas
P’lo caminho das letras
Que tudo o resto não conta.

E lá fomos audazes
Por passeios tardios
Vadiando o asfalto
Cruzando outras pontes
De mares que são rios.
E num bar fora de horas
Se eu chorar perdoa
Ó, meu bem, é que eu canto
Por dentro sonhando
Que estou em Lisboa.

Dizes-me então que sou teu
Que tu és toda p’ra mim
Que me pões no apogeu
Porque me abraças assim?
Porque me beijas assim?
Por esta noite adiante
Se tu me pedes enfim
Num céu de anúncios brilhantes
Vamos casar em Berlim.
À luz vã dos faróis
São de seda os lençóis
Porque me amas assim."


17 abril 2011

Para além da curva da estrada



Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

(Alberto Caeiro)

14 abril 2011

O meu olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
(Alberto Caeiro)

08 abril 2011

A bancarrota

«- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O emprestimo faz-se ou não se faz? E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questão do emprestimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episodio historico!... O Cohen collocou uma pitada de sal á beira do prato, e respondeu, com auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar absolutamente. Os emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensavel, tão sabida como o imposto. A unica occupação mesmo dos ministerios era esta - cobrar o imposto e fazer o emprestimo. E assim se havia de continuar... Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o paiz ia alegremente e lindamente para a banca-rota. - N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusões, meu caro senhor. Nem os proprios ministros da fazenda!... A banca-rota é inevitavel: é como quem faz uma somma... Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras. - A banca-rota é tão certa, as cousas estão tão dispostas para ella - continuava o Cohen - que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou tres annos, fazer fallir o paiz... Ega gritou soffregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionaria constante; nas vesperas de se lançarem os emprestimos haver duzentos maganões decididos que cahissem á pancada na municipal e quebrassem os candieiros com vivas á Republica; telegraphar isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a banca-rota estalava. Sómente, como elle disse, isto não convinha a ninguem. Então Ega protestou com vehemencia. Como não convinha a ninguem? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! Á banca-rota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um paiz que vive da inscripção, em não lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou procedendo apenas por vingança - o primeiro cuidado que tem é varrer a monarchia que lhe representa o calote, e com ella o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, da velha gente, d'essa collecção grotesca de bestas... A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de grotescos, de bestas, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia mediocres e patetas, - mas tambem homens de grande valor! - Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Você deve reconhecel-o, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, ha talento, ha saber. E, lembrando-se que algumas d'essas bestas eram amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber.»


(Queirós, Eça de - Os Maias)

07 abril 2011

Xeque-mate!

Problema: jogam as negras e dão xeque-mate quando lhes dá na gana. (Quino)

21 março 2011

Este blogue não adopta o acordo ortográfico

Como Sportinguista assumida é com gosto que agradeço ao blogue dos nossos seculares rivais, Tertúlia Benfiquista, onde encontrei a faixa negra que agora ornamenta o canto superior direito deste vosso blogue.
origem

17 março 2011

O retrato oculto da civilização

É horrível o que está a acontecer no Japão! Estamos a assistir, nos últimos dois anos, ao desmoronamento de todas as teorias falaciosas baseadas no primado da ganância e do desenvolvimento insustentável que dominam o mundo "civilizado" há décadas. Mas estão a acontecer coisas imprevisíveis? Não. Também há décadas que se têm levantados vozes contra estas políticas insuportáveis que reduzem o ser humano à condição de uma peça de engrenagem. E têm sido repetidamente ridicularizadas pelos que mandam nos que mandam em nós. A porta secreta escancarou-se e o horrível retrato escondido está à vista de todos. A beleza aparente desta "civilização" desmascara-se.


(Do filme "The picture of Dorian Gray", 1945)

13 janeiro 2011

O sentido das palavras

As palavras andam a mudar de significado. É uma coisa estranha. Eu sei que isso acontece e faz parte da evolução natural da língua, mas nem sempre isso acontece naturalmente. Assistimos hoje a um fenómeno que não será novo mas tem sido recorrente nos últimos tempos.
Já notei, num texto anterior, como a palavra "sacrifício" está a ser utilizada num sentido inapropriado com a intenção subliminar de dar à palavra uma conotação de santidade, eliminando assim a carga negativa das privações e dificuldades que estão a ser impostas aos portugueses pelos políticos.
Mas não é caso único. Vejamos a palavra "coragem". Outra palavra com uma carga simbólica positiva, que associamos à bravura de D. Nuno Álvares Pereira ou à frontalidade de Humberto Delgado. O termo cai bem e mexe com valores muito enraizados que acarinhamos intimamente.
Acontece que também esta palavra está a ser aplicada ao conceito errado. Se não, vejamos: diz o senhor presidente da CIP que "há um conjunto de reformas que corajosamente têm de ser feitas". Bem sabemos quais são: despedimentos, redução de salários, a cassete do costume.
Independentemente de se concordar ou não com este senhor, coloco uma questão em relação à palavra que ele (e tantos outros) escolheu para adjectivar essas medidas: "corajosas".
Ora, eu aprendi algumas coisas quando era pequenina, coisas simples e básicas que os meus pais (cujo perfil moral irrepreensível me esforço por seguir) me ensinaram: não se mete as mãos no prato, não se cospe no chão, não se tira a borracha ao colega, não se mente para nos protegermos, não se bate nos meninos mais pequenos.
Bater nos pequeninos (coisa que nunca me passaria pela cabeça porque eu era sempre mais pequena do que os outros...) era apelidado de "cobardia" palavra que aprendi cedo.
Parece, porém, que estes senhores que mandam em nós (e não me refiro só aos que mandam de jure, mas também aos que mandam de facto) ensinam aos seus filhos que aquele menino lá da escola, alto e grandalhão, que bate nos pequeninos é... corajoso.

12 janeiro 2011

Havia de ser cá

O corpo de Carlos Castro vai ser cremado, hoje. Não me interessa o fait divers. Interessa-me, isso sim, compreender como é que, num caso de homicídio como este, em que as circunstâncias do crime e a forma da morte ainda não estão determinadas (por exemplo, não se sabe se houve tortura), se permite a destruição das provas, de forma irreversível. Compreendo a urgência da família em acabar este pesadelo o quanto antes. Já não compreendo que as autoridades o permitam.
Quem pensava que o CSI é um retrato fiel da investigação criminal nos EUA, desengane-se.
Claro, havia de ser cá e não faltariam críticas nem vozes a clamar... "só mesmo cá!".

Carlos Castro: cremação prevista para hoje, cinzas poderão ser espalhadas no Rio Hudson - Sociedade - PUBLICO.PT

31 dezembro 2010

Feliz 2011

Aos caríssimos visitantes da biblioteca de Jacinto, faço os meus votos de um ano pleno de realizações pessoais e profissionais.
E, mesmo quando acharem que vão bater no fundo, lembrem-se de que no fundo também há coisas belas.

28 dezembro 2010

Dies irae

Já há muito tempo que ando a pensar em escrever sobre isto mas as recentes declarações do Senhor Presidente da República, sobre a necessidade de não insultar os mercados, decidiram-me.

É minha convicção que a religião está na natureza humana. Não sei porquê, não tenho qualquer explicação racional para isso, não sei em que zona do cérebro ou em que subtil registo do nosso código genético se encontra essa peculiaridade exclusivamente humana mas é um facto observável que o homem precisa de religão e, mesmo quando não a tem, arranja algo que a substitua.
Jesus de Nazaré, cujos seguidores chamaram Cristo, teve essa intuição - ou essa sabedoria. Disse que não se podem servir dois senhores sendo esses dois senhores Deus e o dinheiro. Ou um ou outro. Quem não serve Deus, serve o dinheiro. Também no Antigo Testamento a condenação da idolatria tinha esse carácter de contraponto: os que adoravam o Deus único e os que adoravam os ídolos. Mas adora-se ou idolatra-se sempre algo ou alguém: seja uma religião monoteísta, seja uma qualquer forma de idolatria, está sempre lá qualquer forma de adoração (ou de alienação) que nos afasta da simples vivência canina do caça-come-dorme. Não tenho explicação para isto.

É um facto que vivemos numa sociedade laica. Na Constituição está consagrada a liberdade religiosa mas não existe uma religião oficial. Ou será que existe?

A avaliar pelo que estamos a atravessar, parece que sim. Depois de décadas de laicismo, começa a desenhar-se uma nova religião oficial: o Capitalismo.
Bertrand Russell dizia (não por estas palavras, pois não tenho à mão o texto) que o Comunismo é uma religião cujo deus é o Estado. E eu acrescento: nessa religião, o diabo é o Capital.
Na nova religião ocidental - o Capitalismo - o diabo é o Estado e o deus é o Mercado.

O Capitalismo é, pois, a nova religião do mundo ocidental, já cansado de viver sem fés e sem crenças. E não uso a palavra religião em sentido figurado, uso-a literalmente.
A religião Capitalismo tem a sua teologia, os seus dogmas, os seus ritos, os seus sacerdotes e os seus prosélitos: tudo a que uma verdadeira religião tem direito.
O deus do Capitalismo é o Mercado. A sua teologia é a Economia (os sacerdotes-teólogos são os economistas).
A Economia tem dogmas:
O primeiro dogma é, desde logo, a existência do Mercado. Sim, a sua existência. Temos de acreditar em algo que não vemos, como num deus. O Mercado existe, é omnipresente, omnisciente e omnipotente e segui-Lo é o Caminho da Salvação.
O segundo dogma diz que o Mercado existe por si mesmo e se auto-regula não podendo nem devendo sofrer qualquer tentativa de domínio exterior. Tal como o Criador Incriado, Eterno e Necessário de São Tomás de Aquino. Quando as coisas correm mal, é porque houve tentativas (necessariamente falhadas) de O manipular.
O terceiro dogma diz que o Mercado é Bom. Não precisa de ser demonstrado, o Mercado é Bom porque só pode ser Bom. As catástrofes que provoca, a dôr, miséria e fome que propaga, a ganância e a rapina que são feitas em Seu nome, são apenas resultado do mau uso e da deturpação. O Mercado é Bom e isso não carece de demonstração. É um dogma. Como é bom, o Mercado é providente e generoso para os seus seguidores. Pelo contrário, para os Infiéis é impiedoso. Daí, dizem os sacerdotes-teólogos, não seja conveniente criticá-Lo. Sim, como o Mercado é omnisciente, sabe quando dizemos mal d'Ele, quando blasfemamos. O Mercado ira-se com as blasfémias. Quando iramos o Mercado, desabam sobre nós pragas como o desemprego.
O Mercado é caprichoso: não sabemos ao certo o que fazer para O satisfazer. Os seus desígnios são insondáveis e por isso os sacerdotes-teólogos se dedicam a estudá-Lo e a prescrutar os Seus sinais. Analisam as bolsas, como quem lê nas entranhas das aves, e fazem previsões. De acordo com essa análise, indicam os dias fasti e nefasti para investir, de acordo com critérios que só eles entendem. Tentam convencer-nos de que estes fenómenos são naturais e espontâneos embora quase todos saibamos - ou, pelo menos, intuamos - que as cotações das bolsas são manipuláveis.
O Mercado dá sinais, tem estados de espírito, reage: os sacerdotes-teólogos usam termos como "sentimento negativo" ou "sentimento positivo", "deprime-se" ou "anima-se". É preciso desagravá-Lo, pois, quando está deprimido. Defendê-Lo, criticar os que O acusam, é uma forma de O desagravar para que não se zangue ou para que tenha piedade dos pobres ignorantes (nós todos) que não sabem o que fazem nem o que dizem.
Também são necessários sacrifícios. A escolha desta palavra, que ouvimos todos os dias na boca de políticos e economistas, não é inocente. "Sacrifício" é uma palavra religiosa: significa "tornar sagrado". Assim, "dificuldades" e "privações" são apelidadas de "sacrifícios". Seriam más se não fossem sagradas. Como são "sacrifícios", são boas. Devemos aceitá-las como provações com vista a uma recompensa futura, uma Terra Prometida onde correrá Dinheiro a rodos. Claro, como em qualquer religião, é necessária a esperança numa recompensa futura, para manter a submissão, e essa recompensa é o Dinheiro.
Em qualquer sistema confessional, a proximidade entre políticos e sacerdotes-teólogos é elevada, estes estão sempre no poder, seja formalmente, exercendo cargos, seja informalmente, como oráculos e conselheiros. Esta proximidade não é casual nem circunstancial: tem um suporte teológico. É assim, dizem os sacerdotes-teólogos, porque sim, porque está certo, porque tem de se fazer política em função de Economia e de nenhum outro critério.
Na verdade, todo o Poder emana do Mercado. Não, não é do Povo, isso é uma heresia. O Poder emana do Mercado. Os dirigentes políticos têm de O seguir, de cumprir as Suas directrizes (que Ele não lhes transmite directamente mas apenas através dos Seus sinais, que os sacerdotes-teólogos interpretam).
No sistema confessional Capitalista (recordo que não existe Estado), as leis são feitas em função das indicações do Mercado, interpretadas pelos sacerdotes-teólogos. Noções como soberania e independência nacional, além de hereges, chegam a ser ridicularizadas pelo sistema confessional Capitalista. Quem sugira que as leis deveriam defender a independência nacional e os cidadãos e promover o bem comum é apelidado de socialista (sinónimo de herege, na religião Capitalista) - se tiver meios e cultura - ou de simplório e ingénuo - se for de mais modesta condição. Em qualquer dos casos, é conservador e ultrapassado.

Claro que, todos sabemos, este sistema não existe em lado algum, pelo menos implantado de forma exaustiva. Ainda existem Estados independentes, pelo menos formalmente, e a religião Capitalista ainda não é oficial. O objectivo é que um número suficiente de pessoas creiam e se submetam voluntariamente à religião e, para isso, são necessários muito proselitismo, muita alienação e muita repressão conjugados por diferentes agentes: políticos, economistas, jornalistas, comentadores. A pouco e pouco, as pessoas começam a achar normal e moralmente aceitável ser despedido sem uma causa justa, trabalhar por um salário muito inferior ao que os lucros reais do empregador permitiriam ou não ter acesso a cuidados de saúde por falta de meios para os pagar.
Mas também sabemos que, em toda a parte, mesmo nos mais violentos sistemas confessionais que a História regista, sempre houve resistências à teologia dominante. Se aqueles de nós que não andam distraídos e ainda acreditam nos valores da Liberdade, da Democracia e da Igualdade fizerem alguma coisa para os defender, a teologia Capitalista não se tornará religião oficial.
Não sei o quê, mas temos de fazer alguma coisa.

24 dezembro 2010

FELIZ NATAL

A todos os visitantes da biblioteca de Jacinto, os meus votos de que atravessem esta quadra com alegria e felicidade e que estas se prolonguem pelo ano de 2011.

(Pintura anónima existente o Museu da Misericórdia de Viseu e fotografada por mim)

06 dezembro 2010

Banquetes de Platão IV

«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)

Quase dois anos depois da última receita apresentada n'A biblioteca de Jacinto, e mais de quatro anos depois da primeira, eis que me decido a publicar mais uma. Desta vez é de bochechas de porco, algo para que não encontrei qualquer receita em livros de cozinha. Como de costume, fui inventando à medida que ia fazendo...

BOCHECHAS DE PORCO EM VINHO VERDE TINTO

Eu faço tudo a olho, por isso, não dou quantidades.

Fiz uma marinada com vinho verde tinto e cenouras cortadas às rodelas e nela mergulhei as bochechas (as do porco) tendo o cuidado de as virar uma ou duas vezes para ganharem sabor por igual.
À parte, preparei uma mistura de sal marinho, tomilho seco, noz moscada e pimenta preta. Moí tudo num moinho de café que costumo usar para moer especiarias.
Esfreguei esta mistura nas bochechas (nas do porco!) e reservei.
Num tacho derreti banha de porco preto e alho esmagado. Coloquei dentro as bochechas (sim, essas...) e despejei por cima a marinada. Deixei cozinhar em lume brandinho cerca de uma hora e dez. De vez em quando deitava umas pinguinhas de água para não queimar.
Acompanhei com puré de batata.
Bom apetite!

08 novembro 2010

O rigor da informação nos media portugueses

Vem este meu post a propósito da notícia que ouvi hoje, de manhã, na TSF, sobre o (aí anunciado) encerramento da Biblioteca Nacional.
aqui escrevi sobre o encerramento parcial e temporário da Biblioteca Nacional pelo que não vou alongar-me com esclarecimentos redundantes.
O que me traz de novo ao tema é o grande destaque dado hoje nos noticiários da TSF ao (suposto) encerramento total da Biblioteca Nacional. A falta de rigor com que foi dada a notícia sobre a Biblioteca Nacional - mascarada de grande rigor, acompanhada até de uma entrevista à sub-directora da instituição - é inadmissível numa rádio que se pretende de referência na informação em Portugal. Continuo a interrogar-me se é estupidez ou má fé o que leva pessoas responsáveis (desde a Doutora Maria Filomena Mónica aos jornalistas da TSF, passando pelo deputado e professor universitário Rui Tavares e tantos distintos signatários da famosa Petição) a insistir em ignorar toda a informação e todas as explicações técnicas que têm sido repetidamente fornecidas a quem quiser estar informado. Devo dizer que não tenho na conta de estúpida nenhuma das pessoas que nomeei...
E eu pergunto-me, como é que posso confiar em outras notícias sobre as quais não tenho informações de outras fontes? Como posso formar opinião esclarecida sobre qualquer tema em relação ao qual não tenha informação directa? Quantas vezes terei até formado juízos errados sobre qualquer tema apenas porque a informação que me foi disponibilizada pelos meios de comunicação social é truncada, distorcida ou mesmo falsa?
Pelas costas dos outros vemos as nossas, diz o povo. E pela forma como a comunicação social trata um assunto que eu conheço bem posso imaginar como trata os que conheço mal. E ficar de pé atrás.

02 novembro 2010

Rio Homem, de André Gago

Já todos ouvimos falar de Vilarinho da Furna (ou das Furnas) a aldeia submersa numa barragem, no início dos anos 70 do século XX. Mas nem todos ouvimos bem ou ouvimos o que devíamos e merecíamos saber. Vilarinho da Furna foi um dos últimos exemplos (a par de uma já muito deturpada aldeia Rio de Onor) de sistema social e económico comunitário, com leis próprias, propriedade colectiva, verdadeiramente natural e não fruto de uma qualquer macaqueação ideológica. Tal aldeia seria para sempre submergida pela barragem da Caniçada, sem que se manifestasse da parte das autoridades o mínimo respeito pela sua população. Objecto de investigação por etnólogos, entre os quais Jorge Dias (que também estudou Rio de Onor), e de observação por cineastas, fotógrafos e curiosos, temos hoje, de Vilarinho da Furna, o equivalente ao catálogo da biblioteca de D. João IV: sabemos o que continha mas já não podemos consultá-la nem ouvir a sua música. Com a diferença de que, no caso desta biblioteca, foi uma catástrofe natural, imprevisível e inevitável que a fez desaparecer; Vilarinho da Furna, foram a estupidez, a ignorância e a cupidez humanas que a destruíram para sempre.
André Gago debruçou-se sobre este tema desde os anos 80. Conhecemo-nos há mais de vinte anos, ele a começar a carreira de actor e eu sem saber ainda que carreira iria ter. Ele viajava já habitualmente entre Lisboa e Trás-os-Montes para fazer as suas recolhas sobre máscaras tradicionais, tema que continua a estudar com entusiasmo. Na altura, ajudei-o a desenvolver uma ficha de inventário e tivémos interessantes conversas sobre a sua pesquisa. Circunstâncias da vida afastaram-nos por quase vinte anos e vim a reencontrá-lo no umbigo da rede em que se tornou o Facebook.
Há dias, topo com uma capa e um título sugestivo: Rio Homem. Autor, André Gago. O Rio Homem conheço-o bem (ou pensava que conhecia); trouxe o livro para casa e não consegui parar de ler.
Rio Homem é uma história e é três histórias: é a história dos últimos trinta anos da existência de Vilarinho das Furnas, dos seus costumes e modos de vida. Mas lá fora, no mundo, tudo o que acontece, acaba por se repercutir na vida desta aldeia: a Guerra Civil de Espanha, a política florestal do Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Colonial e, finalmente, o Plano Hidroeléctrico Nacional. O fio condutor, Rogélio, é um herói à maneira Romântica, um refugiado da Guerra Civil de Espanha, único sobrevivente do seu grupo, qual holandês voador, facto que lhe corrói a consciência apesar de não ter tido culpa de escapar, ao contrário do mítico navegador. Figura trágica, viajante sem lugar e sem tempo, vergado pela adversidade, naufraga na vetusta aldeia, também ela fora do espaço e do tempo, e aí cuida encontrar um lugar de redenção. Tão semelhantes, herói e aldeia, na singularidade e no Destino, ambos lutam contra o rolo compressor do Progresso numa guerra de derrota anunciada.
Extraordinariamente bem escrito e bem documentado, este romance leva tempo a abandonar o leitor depois de lida a última linha. Ficam no ar perguntas e um sentimento contido de revolta. O mal está feito, Vilarinho da Furna desapareceu irremediavelmente, mas a questão que fica é esta: que lugar têm ainda, neste mundo onde somos obrigados a viver, a diferença, a singularidade, a cultura e a tradição? Quantos lugares ainda terão de ser reduzidos a tabuletas «Neste lugar existiu...» até que responsáveis políticos, poderes económicos e vulgares cidadãos percebam que não são (não somos!) donos de nada, nem da terra, nem da cultura, nem da tradição e apenas tomamos conta do que levou séculos a construir e nos foi confiado nesta breve passagem pelo Mundo?

01 novembro 2010

O estado da Nação (em 1871)

«Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taverna.
«Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe média inteira que vive dele, de chapeu alto e paletó.
«Este caldo é o Estado. A classe média vive do Estado. A velhice conta com ele como condição da sua vida. Logo desde os primeiros exames no liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia da sua tranquilidade. A classe eclesiástica não significa a realização de uma crença; é ainda uma multidão de desocupados que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, como se compreendia outrora, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado, vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas; é a ocupação natural das mediocridades; é o usofruto da burguezia. Ora como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade. Resulta uma pobreza geral. Com o seu ordenado ninguém pode acumular, poucos podem equilibrar-se. Nascem o recurso perpétuo para a agiotagem, a dívida e a letra protestada, como elementos regulares da vida. Por outro lado o comércio sofre desta pobreza da burocracia, arruina-se, quebra e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado ou de cair no proletariado. O mesmo sucede aos industriais. A agricultura, sem recursos, sem progresso, não sabendo fazer valer a terra, arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado.
«Tudo é pobre: a preocupação geral é o pão de cada dia. Disto uma lei exclusiva, dominante, áspera: o egoismo. Tudo se torna meio de comer.
[...]
«A pobreza geral produz um aviltamento na dignidade. Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.
«Serve-se, não quem se respeita, mas quem se vê no poder. Um governador civil dizia: –É boa! dizem que sou sucessivamente regenerador, histórico, reformista! Eu nunca quiz ser senão – governador civil! - Este homem tinha razão, porque mudar do Sr. Fontes para o Sr. Braamcamp, não é mudar de partido; – ambos aqueles cavalheiros são monárquicos e constitucionais e católicos. A desgraça é que, se em Portugal houvesse partidos republicanos, monárquicos, socialistas, aquele homem, assim como fôra sucessivamente reformista, histórico, regenerador – isto é as coisas mais iguais – seria republicano, monárquico e socialista – as coisas mais contraditórias.
[...]
«Perdeu-se através de tudo isto o sentimento de cidade e de pátria: o cidadão desapareceu. E todo o País não é mais do que: uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam.
«É uma Nação talhada para a conquista, para a tirania, para a ditadura e para os domínios clericais»
(QUEIRÓS, Eça de – As farpas. Transcrito da edição original Lisboa: Typographia Universal, 1871, disponível em http://purl.pt/256)

27 outubro 2010

A Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico


Desde 2008 que João Pedro Graça se tem batido contra o absurdo Acordo Ortográfico promovendo uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos, ao abrigo da Lei da Iniciativa Legislativa de Cidadãos (Lei 17/2003, de 4 de Junho), que permite que um Projecto de Lei seja redigido e submetido a aprovação parlamentar por parte de um grupo de cidadãos. Esta é, juntamente com as eleições e o referendo, uma das mais interessantes e nobres formas de intervenção política que é permitida aos cidadãos no contexto do Estado de Direito: interessante porque é eficaz e nobre porque é construtiva.
Nós, portugueses, que estamos sempre com lamúrias sobre a partidocracia, sobre a falta de poder efectivo dos cidadão face à omnipresença dos partidos, dos grupos económicos e de todos os lobbies reais e imaginários, nós, portugueses - dizia - temos na figura da ILC uma oportunidade ímpar para o exercício da cidadania. Para nosso próprio mal, somos melhores nas lamúrias.

Ao contrário das vulgares petições que circulam na Internet, uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos carece da assinatura do subscritor. Por outro lado, também ao contrário daquelas, esta produz, necessariamente, efeitos. Para tal, tem de ser entregue numa das seguintes formas: em papel, enviada por correio normal, ou em imagem digitalizada, enviada por correio-electrónico.
O texto da Iniciativa Legislativa de Cidadãos está disponível no site da ILC bem como qualquer das formas de subscrição.

Para quem tiver dúvidas sobre a viabilidade legal desta Iniciativa Legislativa de Cidadãos, está também disponível um parecer do jurista Paulo Jorge Assunção. Para aqueles que, como eu, não são versados em Direito, vale a pena começar por ler a síntese, mais acessível, e só depois enfrentar a densa argumentação do parecer.

Eu já assinei. Convido todos os visitantes da biblioteca de Jacinto a fazerem o mesmo.

07 outubro 2010

Autógrafo de uma obra desconhecida de Niccolò Jommelli (1714-1774) descoberto na Biblioteca Nacional

CONFERÊNCIA: 15 Outubro, 18h00. Auditório da BNP. Entrada livre

Laudate pueri Dominum a 16 vozes

«À data da sua morte o compositor Niccolò Jommelli era considerado um dos maiores compositores vivos, vindo posteriormente a ser consistentemente incluído na plêiade dos mais memoráveis autores do século XVIII. Na ocasião Schubart escreveu: “O maior Pã está morto… Se a riqueza de pensamento, a fantasia cintilante, a melodia inesgotável, a harmonia celestial, o profundo domínio de todos os instrumentos e particularmente da poderosa mágica da voz humana […], se tudo isto combinado com a mais acutilante compreensão da poesia musical constitui o génio, então a Europa perdeu o seu maior compositor.”

«Dois anos depois de ter subido ao trono, D. José tentou contratar Jommelli que, por esta altura, já era o mais afamado e o mais inovador compositor de ópera italiana em actividade. No entanto, a proposta do Duque de Württemberg, que incluía um novo teatro, acabou por aliciar o compositor, que se mudou para a Corte de Estugarda em 1754. Durante 15 anos produziu música religiosa e contribuiu para reescrever a história da ópera. Em 1769 e a troco de uma vantajosa reforma, D. José conseguiu finalmente obter os serviços de Jommelli, que entretanto passou a viver em Aversa, Itália. O contrato incluía o envio de obras religiosas, e sobretudo de óperas. Até à morte do Rei em 1777, e com adaptações de João Cordeiro da Silva, os teatros reais portugueses chegaram a levar anualmente à cena quatro óperas suas.
«No género sacro, a influência de Jommelli em Portugal ainda está por avaliar, mas foi certamente duradoura. Algumas das suas obras religiosas mantiveram-se no repertório das igrejas até finais do século XIX. O Requiem (Hochstein, A.I.3), obra composta em 1756 para as exéquias da Duquesa de Württemberg, foi a mais importante e paradigmática. Ernesto Vieira, na entrada do seu Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes (1900), escreve: “Executa-se ainda muito frequentemente nas egrejas de Lisboa a missa de requiem e libera-me de Jommelli, composições primorosas no estylo sacro.”
«O estatuto de Niccolò Jommelli e os laços históricos que o ligam a Portugal tornam a descoberta deste autógrafo (ainda que incompleto) um acontecimento relevante no contexto dos estudos de música sacra de estilo romano de meados do século XVIII. O caso em epígrafe é particularmente interessante porque se trata de uma obra policoral para 16 vozes e baixo contínuo (com utilização de 3 órgãos) completamente desconhecida e sem paralelo na produção do compositor. O trabalho seminal de Wolfgang Hochstein, Die Kirchenmusik von Niccolò Jommelli (1984), que inclui um catálogo temático, não menciona qualquer obra para 16 vozes.
«A razão para a ausência de referências na bibliografia da especialidade prende-se com o facto de o primeiro caderno (4 fólios) se encontrar desaparecido. Em consequência, informações cruciais como o autor, a data e o título da obra, grafadas na página de rosto, perderam-se.
«A identificação do autor foi realizada através de estudos caligráficos comparativos. Uma proposta para a génese da obra assim como a sua contextualização na vida e obra de Jommelli serão alguns dos temas abordados.»

António Jorge Marques

(Fonte: sítio da Biblioteca Nacional de Portugal)