07 março 2012
Ainda o Acordo Ortográfico
29 fevereiro 2012
216 anos da Biblioteca Nacional de Portugal
25 fevereiro 2012
Sei que dormes em paz
A lua não tem morada
Alumia qualquer rua
Mas só a mim me foi dada
Não entendo onde tu estás
Nem porque chegaste ao fim
Não entendo onde tu estás
Mas sei que dormes em paz
Descansas dentro de mim
Já nasci com a saudade
Nada mais herdei de ti
Deste-me o nome e a idade
Da lua quando nasci
Não sei se há lugar no céu
À minha espera ao teu lado
Não sei se há lugar no céu
O lugar que Deus me deu
Para viver é o Fado
("Fado da herança". Poema de João Monge para música de Alfredo Marceneiro)
17 fevereiro 2012
15 fevereiro 2012
07 fevereiro 2012
Viagem a Portugal dos Cavalleiros Tron e Lipomain, ca 1580, In. "A tradição : revista mensal d'ethnographia portugueza ilustrada. A. 4, n.º 7 (Julho 1902)
03 fevereiro 2012
A voz da maioria silenciada
02 fevereiro 2012
Versão de "O Mostrengo" (de Fernando Pessoa), dedicada ao "corretor"/"conversor" LINCE
«O “corretor” lince que eu não quis instalar
Varreu o ecrã, ergueu-se a voar;
À roda do texto veio três vezes,
Roubou três letras a chiar,
E disse: «Quem ousa desafiar
As minhas razões que nem eu entendo,
Meu lápis invisível infecundo?»
E ao leme da tecla eu disse, tremendo:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»
«De quem são as letras de que troço?
De quem o linguajar que leio e ouço?»
Disse o “corretor” lince, e arrotou três vezes,
Três vezes arrotou imundo e grosso.
«Quem vem escrever como não posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
Instalado no medo, mas do nada oriundo?»
E ao leme da tecla tremendo, eu disse:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»
Três vezes do teclado as mãos ergui,
Três vezes ao leme de mim escrevi,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Tremo com fúria, sou mais do que eu:
O que este Povo escreve não é teu;
Mais que o raivoso lince que me a alma pisa
Mutilando palavras furibundo,
Mandam as raizes que erguem a divisa,
Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»
(Madalena Homem Cardoso, a partir de “O Mostrengo” de Fernando Pessoa”)
26 janeiro 2012
06 janeiro 2012
Escravos e assalariados (2)
(Nassim Nicholas Taleb)
02 janeiro 2012
FELIZ 2012
23 dezembro 2011
Zeca Afonso - Canção de Embalar
16 novembro 2011
Canta!
CANTA
Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.
Joaquim Pessoa
02 novembro 2011
Poema de agradecimento à corja (Joaquim Pessoa)
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço. E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim. E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.
Joaquim Pessoa
20 outubro 2011
Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal fez vinte anos
Para assinalar a efeméride o Grupo Vocal Arsis apresenta-se hoje, pelas 18h30, no auditório da Biblioteca Nacional, com um concerto de música portuguesa dos séculos XVII, XX e XXI. Serão executadas obras de Estêvão Lopes Morago, D. João IV, Diogo Dias Melgaz, Paulo Brandão e Filipe Pires.

09 agosto 2011
Domenico Modugno - Dio, come ti amo
Uma vez ouvi alguém que dizia: gosto da música italiana, de toda, mesmo da má, lembra-me sempre carros descapotáveis e mulheres de lenços às bolinhas.
Pois passa-se exactamente o mesmo comigo. Adoro música italiana, adoro aquela lamechice, adoro aquela língua, adoro tudo.
Esta é do ano em que nasci.
Nel cielo passano le nuvole
Che vanno verso il mare
Sembrano fazzoletti bianchi
Che salutano il nostro amore.
Dio, come ti amo!
Non è possibile
Avere tra le braccia
Tanta felicità.
Baciare le tue labbra
Che odorano di vento
Noi due innamorati
Come nessuno al mondo.
Dio, come ti amo!
Mi vien da piangere.
In tutta la mia vita
Non ho provato mai
Un bene così caro
Un bene così vero
Chi può fermare il fiume
Che corre verso il mare.
Le rondini nel cielo
Che vanno verso il sole
Che può cambiar l'amore
L'amore mio per te.
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Há lá língua mais bonita?...
04 agosto 2011
Casta Diva
Sem palavras. Escutai apenas.
12 julho 2011
MOZART - Batti, batti, o bel Masetto
Audição de alunos de canto do Professor Fernando Serafim, em 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos
MOZART - Porgi amor
Audição de alunos do Professor Fernando Serafim, dia 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos.
10 julho 2011
BELLINI - Vaga luna
(Audição de alunos de canto do Professor Fernando Serafim, dia 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos)
07 julho 2011
(Capa de Stuart Carvalhais para É bonito, não é?!... / versos e música de António Cândido Ferreira)Que rapaz tão catita
Lá na Baixa encontrei!
Cara, assim, tão bonita,
Eu nunca namorei!
Oh, que lindo cabelo
E que olhar sedutor!
Que sorriso tão belo
E tão encantador!...
É bonito, não é?!...
Diga, faça favor!
Tão bonito que até
Eu receio, olaré,
Que ele tenha outro amor...
É bonito não é?!...
Ninguén há que o não diga!
Fazer dele o meu "Zé"...
Oxalá eu consiga!
É tão fino e galante
Que outro assim, nunca vi!
Todo ele é elegante,
Todo ele sorri!...
Quando o vejo, meu Deus!
Que desejos sem fim,
De ter os olhos seus,
Sempre junto de mim!...
É bonito, não é?!...
...
Portugal
Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
(Alexandre O'Neill)
26 junho 2011
A reminder of the important things in life
Difundido para todos os amigos da Biblioteca de Jacinto.
Gostei. Espero que também gostem.
12 junho 2011
01 junho 2011
Rachmaninov Piano Concerto No.2 in Rhapsody.
28 maio 2011
MADREDEUS - Haja o Que Houver
Haja o que houver eu estou aqui
Haja o que houver espero por ti
Volta no vento, ó meu amor!
Volta depressa por favor.
Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor!
Eu sei, eu sei
Quem és para mim
Haja o que houver espero por ti
18 maio 2011
«Ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP» [FMV]
Bruxelas, 14 de Maio de 2011
Ex.mo Senhor
Dr. José Carlos Abrantes
Senhor Provedor do Telespetador [sic] da RTP,
Prometo a V. Ex.ª que tentarei evitar comentários demasiado técnicos, pedindo desculpa por eventuais imprecisões terminológicas, que se justificam (parece paradoxo, mas garanto que não é) por ser meu único objectivo explicar a leigos em fonologia e fonética (áreas diferentes do saber) e em grafemática e grafética (idem) o erro de se chamar “telespetador” a um telespectador. De antemão, portanto, as minhas sinceras desculpas.
Gostaria de chamar a atenção para o facto de a designação do cargo de V. Ex.ª violar as regras mais elementares quer dos compostos morfológicos da língua portuguesa (1), quer das regras do processo do vocalismo átono do português europeu (2), devendo V. Ex.ª rever com carácter de urgência a designação, pois existe solução para este problema (3).
(1) A palavra telespectador (com C) designa “Que ou aquele que assiste a um espectáculo de televisão”. Esta acepção (do dicionário em linha da Priberam) parece ser adepta da tese segundo a qual o elemento tele- é desconsiderado enquanto radical grego, preferindo afirmar-se que provém da palavra “televisão”. Não sou adepto desta tese, mas não é aqui o lugar para debater matérias do foro académico. Contudo, considerando o radical (espect), que sucede a um prefixo (tel) e precede uma vogal temática (a) e um sufixo (dor), peço a V. Ex.ª que se concentre no radical. ‘Espect’ explica-se pelo latim spectātor. Contudo, V. Ex.ª é “Provedor dos Telespetadores”. Teremos então um inexistente radical ‘espet’, que não se explica pelo latim spectātor, mas pelo germânico speuta, que deu palavras portuguesas como “espeto” (espet + o) e alemãs como Spieß .
(2) Direi a V. Ex.ª que, segundo o processo do vocalismo átono do português europeu, i.e., o processo que ocorre em português europeu, citando de cor palavras de Esperança Cardeira (poderei enviar mais tarde as referências a V. Ex.ª), “as vogais não acentuadas sofreram, na norma do português europeu, um acentuado processo de enfraquecimento”. Ou seja: perante “telespetador” é previsível que V. Ex.ª (ou qualquer outro falante de português europeu) pronuncie [tɛlɛʃpɨtɐ'doɾ] em vez de [tɛlɛʃpɛtɐ'doɾ].
(3) «telespectador/telespetador» são duas acepções aceites (princípio da facultatividade do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990) em português europeu, como verificará no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de João Malaca Casteleiro (caso V. Ex.ª não saiba, co-autor e negociador do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), publicado pela Porto Editora. Gostaria de perguntar a V. Ex.ª qual a razão de optar pela segunda e não pela primeira. A primeira é válida, conforme poderá verificar na página 555 da publicação que acabo de mencionar.
Tenho outros comentários sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, mas, para já, limito-me a esta matéria do “telespectador” vs. “telespetador”.
Para o esclarecimento de qualquer dúvida, encontro-me ao inteiro dispor de V. Ex.ª
Agradeço toda a atenção dispensada,
E envio os meus cordiais cumprimentos.
Francisco Miguel Valada
Intérprete de Conferência profissional junto das Instituições da União Europeia e autor do livro Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009), do artigo “Os lemas em ‘-acção’ e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990″, Diacrítica – Série Ciências da Linguagem, n.º 24/1, pp. 97-108, Braga: Universidade do Minho, 2010 e de artigos na imprensa sobre a matéria em apreço.
06 maio 2011
Creio
Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén
(Natália Correia)
03 maio 2011
29 abril 2011
Sophia
E gostamos também de saber que o sítio da BNP a ela dedicado já está disponível na Internet aqui.
E um cheirinho do que lá se pode encontrar...
As rosas
Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.
in Dia do Mar, 1947
27 abril 2011
Maria Bethânia - Coração Ateu
26 abril 2011
A banda sonora da minha vida
Tenho vindo a publicar aqui vários posts que vou agrupando na «banda sonora da minha vida». Mas já são tantos e já tenho tantos em reserva que devo aos visitantes da Biblioteca de Jacinto uma explicação: a banda sonora da minha vida não é apenas constituída pelas músicas de que mais gosto ou as músicas que mais me marcaram. Se me perguntassem por essas, eu não saberia apontá-las.
Há-que dizê-lo com frontalidade: a música é a minha vida, a minha respiração, a minha alma e o meu sangue. Não saberia viver sem música. A minha memória de passarinho para palavras, imagens, números e caras está toda, toda, toda ocupada com música. Música clássica, música pop, música tradicional, música medieval, música portuguesa, música francesa, música italiana, música de filmes, música de anúncios, música de séries, música boa e música má. Acumula-se na minha cabeça de uma forma desordenada, fixo-a toda, memorizo-a toda, nunca sei as letras, muitas vezes não sei quem a canta nem quem a toca, não fixo mais nada, fixo só a música. Música, música, música.
Nunca esqueço uma música, oiço uma brevíssima introdução, às vezes só um acorde, e sei a que música pertence. O meu aparelho auditivo tem uma ligação directa à minha alma: com cada música vem uma emoção, uma memória, um cheiro, um arrepio, um sopro. É pavloviano. É coisa de bicho.
Quando era pequena, morava num prediozinho de dois pisos, no Campo de Santana. A varanda da cozinha dava para uns quintais e, para esses quintais, davam as trazeiras de outros prédios. Lembro-me de virar um balde ao contrário e pôr-me em cima para chegar ao parapeito. Depois, abria os foles e cantava. Cantava a Habanera da Carmem, a Canção de Solveig, as canções dos Beatles, o que calhava. A minha mãe ouvia todos os dias a Antena 2 (na altura era a Emissora Nacional), principalmente os programas de ópera. Eu ouvia, fixava e vinha para a varanda cantar. Toda a vizinhança me conhecia.
Na escola, cantava durante as aulas porque me esquecia de que estava nas aulas. Os professores tinham de me mandar calar, aí eu acordava e dava mais cinco minutos de atenção à aula. Fui má aluna, claro. Ao 40 anos já não me importo de contar estas coisas porque já não me interessa nada o que podem pensar de mim mas, na infância, foi difícil viver com esta música toda dentro da cabeça, principalmente porque eu passava tardes a ouvir Haendel quando os outros ouviam Police e Ramones. E eu não tinha assunto de conversa.
Só comecei a interessar-me pela música "própria da minha idade" (seja lá o que isso fôr) no início da adolescência, mais ou menos na mesma altura em que comecei a interessar-me por rapazes. Mais uma vez, a música era uma obsessão. Gostava de músicas repetitivas cantadas por rapazes maquilhados e que dançavam com movimentos de ancas. Rapazes com ancas! Era a época dos telediscos (já não se chamam assim, acho eu), do "top ten" ao Domingo à tarde, que eu sorvia em frente à televisão para ver as ancas e os olhos azuis do Simon Le Bon, a poupa e os olhos castanhos do vocalista dos Spandau Ballet e o cabelo de vassoura e os olhos lânguidos de um escanzelado andrógino chamado Limhal que eu achava giríssimo porque nessa idade gostava de rapazes que fossem parecidos com brinquedos.
Depois fui para a faculdade. Corria o ano de 1984. Entrei muito nova, até ao fim da faculdade fui sempre a mais nova de todas as turmas onde estive. Achei, então, que estava na altura de me tornar mais séria e intelectual. Eu já estava na Universidade! Deixei de comprar a revista «Coquette» (que ensinava coisas inocentes como usar maquilhagem e falar com rapazes sem parecer que me estava a atirar) e voltei a gostar de música pela música. É dessa fase a minha descoberta da pop/rock dos anos 70 e do melhor que se fazia nos anos 80. Não me desinteressei dos rapazes mas foi nessa altura que descobri que os inteligentes era muito mais interessantes do que os estúpidos. É também dessa fase que tenho as mais doces recordações de adolescência. Sempre associadas a música. Tudo, sempre, indissociável da música.
Depois da faculdade, depois do vinte e um, vinte e dois anos, as coisas mudaram. Fiz outras "descobertas" musicais, muitas delas associadas a filmes e à minha própria pesquisa de coisas novas. Isso também está associado ao facto de eu ter começado a ter dinheiro para comprar discos.
Procuro, ainda hoje, não perder aquela inocência indispensável para que a música nos toque, nos marque, nos fira na alma. É isso que me permite, ainda hoje, ter músicas que entram para a banda sonora da minha vida. É isso que me permite que essa banda sonora tenha não meia-dúzia, não uma dúzia, mas largas dezenas ou até centenas de músicas.
E que aqui vos vou mostrando, como quem despe a alma.
25 abril 2011
24 abril 2011
La Bohème
1985. A casa de uma amiga muito querida. Tardes e noites a colocar discos, a falar de tolices e de coisas sérias, a arranjar unhas e a planear dietas, a estudar Pré-Clássicas, a cantar Zeca Afonso e Amália e a ouvir Ravel, Bach, Prokofiev e Dire Straits. E Aznavour, sempre. La Bohéme, talvez a mais repetida. Que saudades, minha amiga, que saudades! Sim, tu sabes que este post é para ti.
22 abril 2011
Crucifixo
21 abril 2011
A Última Ceia
20 abril 2011
Maria Bethania - Explode, coração!
Chega de tentar dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu nao posso mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor e
Entregou o que você tentou conter
O que voce não quis desabafar e me cortou
Chega de temer, chorar, sofrer
Sorrir, se dar, e se perder, e se achar
E tudo aquilo que é viver,
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã
Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
Feito louco, alucinado e crianca
Sentindo o meu amor se derramando
Nao dá mais pra segurar
Explode, coração!
19 abril 2011
Porque me olhas assim?
Lembrei-me e procurei pela net o video (quando me lembro de uma música de que gosto tenho destas urgências) mas, infelizmente, só encontrei a versão da Cristina Branco (que nem tentei ouvir por receio de me quebrar o encantamento).
Falta a música mas fica o poema, que vale por si só.
"Diz-me agora o teu nome
Se já dissemos que sim
Pelo olhar que demora
Porque me olhas assim?
Porque me rondas assim?
Toda a luz da avenida
Se desdobra em paixão
Magias de druida
P’lo teu toque de mão.
Soam ventos amenos
P’los mares morenos
Do meu coração.
Espelhando as vitrinas
Da cidade sem fim
Tu surgiste divina
Porque me abeiras assim?
Porque me tocas assim?
E trocámos pendentes
Velhas palavras tontas
Com sotaque diferentes
Nossa prosa está pronta.
Dobrando esquinas e gretas
P’lo caminho das letras
Que tudo o resto não conta.
E lá fomos audazes
Por passeios tardios
Vadiando o asfalto
Cruzando outras pontes
De mares que são rios.
E num bar fora de horas
Se eu chorar perdoa
Ó, meu bem, é que eu canto
Por dentro sonhando
Que estou em Lisboa.
Dizes-me então que sou teu
Que tu és toda p’ra mim
Que me pões no apogeu
Porque me abraças assim?
Porque me beijas assim?
Por esta noite adiante
Se tu me pedes enfim
Num céu de anúncios brilhantes
Vamos casar em Berlim.
À luz vã dos faróis
São de seda os lençóis
Porque me amas assim."
17 abril 2011
Para além da curva da estrada
Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
(Alberto Caeiro)
14 abril 2011
O meu olhar
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
(Alberto Caeiro)
08 abril 2011
A bancarrota
07 abril 2011
Xeque-mate!
21 março 2011
Este blogue não adopta o acordo ortográfico
17 março 2011
O retrato oculto da civilização

(Do filme "The picture of Dorian Gray", 1945)
25 fevereiro 2011
07 fevereiro 2011
17 janeiro 2011
13 janeiro 2011
O sentido das palavras
Já notei, num texto anterior, como a palavra "sacrifício" está a ser utilizada num sentido inapropriado com a intenção subliminar de dar à palavra uma conotação de santidade, eliminando assim a carga negativa das privações e dificuldades que estão a ser impostas aos portugueses pelos políticos.
Mas não é caso único. Vejamos a palavra "coragem". Outra palavra com uma carga simbólica positiva, que associamos à bravura de D. Nuno Álvares Pereira ou à frontalidade de Humberto Delgado. O termo cai bem e mexe com valores muito enraizados que acarinhamos intimamente.
Acontece que também esta palavra está a ser aplicada ao conceito errado. Se não, vejamos: diz o senhor presidente da CIP que "há um conjunto de reformas que corajosamente têm de ser feitas". Bem sabemos quais são: despedimentos, redução de salários, a cassete do costume.
Independentemente de se concordar ou não com este senhor, coloco uma questão em relação à palavra que ele (e tantos outros) escolheu para adjectivar essas medidas: "corajosas".
Ora, eu aprendi algumas coisas quando era pequenina, coisas simples e básicas que os meus pais (cujo perfil moral irrepreensível me esforço por seguir) me ensinaram: não se mete as mãos no prato, não se cospe no chão, não se tira a borracha ao colega, não se mente para nos protegermos, não se bate nos meninos mais pequenos.
Bater nos pequeninos (coisa que nunca me passaria pela cabeça porque eu era sempre mais pequena do que os outros...) era apelidado de "cobardia" palavra que aprendi cedo.
Parece, porém, que estes senhores que mandam em nós (e não me refiro só aos que mandam de jure, mas também aos que mandam de facto) ensinam aos seus filhos que aquele menino lá da escola, alto e grandalhão, que bate nos pequeninos é... corajoso.12 janeiro 2011
Havia de ser cá
Quem pensava que o CSI é um retrato fiel da investigação criminal nos EUA, desengane-se.
Claro, havia de ser cá e não faltariam críticas nem vozes a clamar... "só mesmo cá!".
Carlos Castro: cremação prevista para hoje, cinzas poderão ser espalhadas no Rio Hudson - Sociedade - PUBLICO.PT
31 dezembro 2010
Feliz 2011
E, mesmo quando acharem que vão bater no fundo, lembrem-se de que no fundo também há coisas belas.
28 dezembro 2010
Dies irae
É minha convicção que a religião está na natureza humana. Não sei porquê, não tenho qualquer explicação racional para isso, não sei em que zona do cérebro ou em que subtil registo do nosso código genético se encontra essa peculiaridade exclusivamente humana mas é um facto observável que o homem precisa de religão e, mesmo quando não a tem, arranja algo que a substitua.
Jesus de Nazaré, cujos seguidores chamaram Cristo, teve essa intuição - ou essa sabedoria. Disse que não se podem servir dois senhores sendo esses dois senhores Deus e o dinheiro. Ou um ou outro. Quem não serve Deus, serve o dinheiro. Também no Antigo Testamento a condenação da idolatria tinha esse carácter de contraponto: os que adoravam o Deus único e os que adoravam os ídolos. Mas adora-se ou idolatra-se sempre algo ou alguém: seja uma religião monoteísta, seja uma qualquer forma de idolatria, está sempre lá qualquer forma de adoração (ou de alienação) que nos afasta da simples vivência canina do caça-come-dorme. Não tenho explicação para isto.
É um facto que vivemos numa sociedade laica. Na Constituição está consagrada a liberdade religiosa mas não existe uma religião oficial. Ou será que existe?
A avaliar pelo que estamos a atravessar, parece que sim. Depois de décadas de laicismo, começa a desenhar-se uma nova religião oficial: o Capitalismo.
Bertrand Russell dizia (não por estas palavras, pois não tenho à mão o texto) que o Comunismo é uma religião cujo deus é o Estado. E eu acrescento: nessa religião, o diabo é o Capital.
Na nova religião ocidental - o Capitalismo - o diabo é o Estado e o deus é o Mercado.
O Capitalismo é, pois, a nova religião do mundo ocidental, já cansado de viver sem fés e sem crenças. E não uso a palavra religião em sentido figurado, uso-a literalmente.
A religião Capitalismo tem a sua teologia, os seus dogmas, os seus ritos, os seus sacerdotes e os seus prosélitos: tudo a que uma verdadeira religião tem direito.
O deus do Capitalismo é o Mercado. A sua teologia é a Economia (os sacerdotes-teólogos são os economistas).
A Economia tem dogmas:
O primeiro dogma é, desde logo, a existência do Mercado. Sim, a sua existência. Temos de acreditar em algo que não vemos, como num deus. O Mercado existe, é omnipresente, omnisciente e omnipotente e segui-Lo é o Caminho da Salvação.
O segundo dogma diz que o Mercado existe por si mesmo e se auto-regula não podendo nem devendo sofrer qualquer tentativa de domínio exterior. Tal como o Criador Incriado, Eterno e Necessário de São Tomás de Aquino. Quando as coisas correm mal, é porque houve tentativas (necessariamente falhadas) de O manipular.
O terceiro dogma diz que o Mercado é Bom. Não precisa de ser demonstrado, o Mercado é Bom porque só pode ser Bom. As catástrofes que provoca, a dôr, miséria e fome que propaga, a ganância e a rapina que são feitas em Seu nome, são apenas resultado do mau uso e da deturpação. O Mercado é Bom e isso não carece de demonstração. É um dogma. Como é bom, o Mercado é providente e generoso para os seus seguidores. Pelo contrário, para os Infiéis é impiedoso. Daí, dizem os sacerdotes-teólogos, não seja conveniente criticá-Lo. Sim, como o Mercado é omnisciente, sabe quando dizemos mal d'Ele, quando blasfemamos. O Mercado ira-se com as blasfémias. Quando iramos o Mercado, desabam sobre nós pragas como o desemprego.
O Mercado é caprichoso: não sabemos ao certo o que fazer para O satisfazer. Os seus desígnios são insondáveis e por isso os sacerdotes-teólogos se dedicam a estudá-Lo e a prescrutar os Seus sinais. Analisam as bolsas, como quem lê nas entranhas das aves, e fazem previsões. De acordo com essa análise, indicam os dias fasti e nefasti para investir, de acordo com critérios que só eles entendem. Tentam convencer-nos de que estes fenómenos são naturais e espontâneos embora quase todos saibamos - ou, pelo menos, intuamos - que as cotações das bolsas são manipuláveis.
O Mercado dá sinais, tem estados de espírito, reage: os sacerdotes-teólogos usam termos como "sentimento negativo" ou "sentimento positivo", "deprime-se" ou "anima-se". É preciso desagravá-Lo, pois, quando está deprimido. Defendê-Lo, criticar os que O acusam, é uma forma de O desagravar para que não se zangue ou para que tenha piedade dos pobres ignorantes (nós todos) que não sabem o que fazem nem o que dizem.
Em qualquer sistema confessional, a proximidade entre políticos e sacerdotes-teólogos é elevada, estes estão sempre no poder, seja formalmente, exercendo cargos, seja informalmente, como oráculos e conselheiros. Esta proximidade não é casual nem circunstancial: tem um suporte teológico. É assim, dizem os sacerdotes-teólogos, porque sim, porque está certo, porque tem de se fazer política em função de Economia e de nenhum outro critério.
No sistema confessional Capitalista (recordo que não existe Estado), as leis são feitas em função das indicações do Mercado, interpretadas pelos sacerdotes-teólogos. Noções como soberania e independência nacional, além de hereges, chegam a ser ridicularizadas pelo sistema confessional Capitalista. Quem sugira que as leis deveriam defender a independência nacional e os cidadãos e promover o bem comum é apelidado de socialista (sinónimo de herege, na religião Capitalista) - se tiver meios e cultura - ou de simplório e ingénuo - se for de mais modesta condição. Em qualquer dos casos, é conservador e ultrapassado.
Claro que, todos sabemos, este sistema não existe em lado algum, pelo menos implantado de forma exaustiva. Ainda existem Estados independentes, pelo menos formalmente, e a religião Capitalista ainda não é oficial. O objectivo é que um número suficiente de pessoas creiam e se submetam voluntariamente à religião e, para isso, são necessários muito proselitismo, muita alienação e muita repressão conjugados por diferentes agentes: políticos, economistas, jornalistas, comentadores. A pouco e pouco, as pessoas começam a achar normal e moralmente aceitável ser despedido sem uma causa justa, trabalhar por um salário muito inferior ao que os lucros reais do empregador permitiriam ou não ter acesso a cuidados de saúde por falta de meios para os pagar.
24 dezembro 2010
FELIZ NATAL
(Pintura anónima existente o Museu da Misericórdia de Viseu e fotografada por mim)
06 dezembro 2010
Banquetes de Platão IV
Quase dois anos depois da última receita apresentada n'A biblioteca de Jacinto, e mais de quatro anos depois da primeira, eis que me decido a publicar mais uma. Desta vez é de bochechas de porco, algo para que não encontrei qualquer receita em livros de cozinha. Como de costume, fui inventando à medida que ia fazendo...
BOCHECHAS DE PORCO EM VINHO VERDE TINTO
Eu faço tudo a olho, por isso, não dou quantidades.
Fiz uma marinada com vinho verde tinto e cenouras cortadas às rodelas e nela mergulhei as bochechas (as do porco) tendo o cuidado de as virar uma ou duas vezes para ganharem sabor por igual.
À parte, preparei uma mistura de sal marinho, tomilho seco, noz moscada e pimenta preta. Moí tudo num moinho de café que costumo usar para moer especiarias.
Esfreguei esta mistura nas bochechas (nas do porco!) e reservei.
Num tacho derreti banha de porco preto e alho esmagado. Coloquei dentro as bochechas (sim, essas...) e despejei por cima a marinada. Deixei cozinhar em lume brandinho cerca de uma hora e dez. De vez em quando deitava umas pinguinhas de água para não queimar.
Acompanhei com puré de batata.
Bom apetite!
08 novembro 2010
O rigor da informação nos media portugueses
Já aqui escrevi sobre o encerramento parcial e temporário da Biblioteca Nacional pelo que não vou alongar-me com esclarecimentos redundantes.
O que me traz de novo ao tema é o grande destaque dado hoje nos noticiários da TSF ao (suposto) encerramento total da Biblioteca Nacional. A falta de rigor com que foi dada a notícia sobre a Biblioteca Nacional - mascarada de grande rigor, acompanhada até de uma entrevista à sub-directora da instituição - é inadmissível numa rádio que se pretende de referência na informação em Portugal. Continuo a interrogar-me se é estupidez ou má fé o que leva pessoas responsáveis (desde a Doutora Maria Filomena Mónica aos jornalistas da TSF, passando pelo deputado e professor universitário Rui Tavares e tantos distintos signatários da famosa Petição) a insistir em ignorar toda a informação e todas as explicações técnicas que têm sido repetidamente fornecidas a quem quiser estar informado. Devo dizer que não tenho na conta de estúpida nenhuma das pessoas que nomeei...
E eu pergunto-me, como é que posso confiar em outras notícias sobre as quais não tenho informações de outras fontes? Como posso formar opinião esclarecida sobre qualquer tema em relação ao qual não tenha informação directa? Quantas vezes terei até formado juízos errados sobre qualquer tema apenas porque a informação que me foi disponibilizada pelos meios de comunicação social é truncada, distorcida ou mesmo falsa?
Pelas costas dos outros vemos as nossas, diz o povo. E pela forma como a comunicação social trata um assunto que eu conheço bem posso imaginar como trata os que conheço mal. E ficar de pé atrás.
02 novembro 2010
Rio Homem, de André Gago
André Gago debruçou-se sobre este tema desde os anos 80. Conhecemo-nos há mais de vinte anos, ele a começar a carreira de actor e eu sem saber ainda que carreira iria ter. Ele viajava já habitualmente entre Lisboa e Trás-os-Montes para fazer as suas recolhas sobre máscaras tradicionais, tema que continua a estudar com entusiasmo. Na altura, ajudei-o a desenvolver uma ficha de inventário e tivémos interessantes conversas sobre a sua pesquisa. Circunstâncias da vida afastaram-nos por quase vinte anos e vim a reencontrá-lo no umbigo da rede em que se tornou o Facebook.
Há dias, topo com uma capa e um título sugestivo: Rio Homem. Autor, André Gago. O Rio Homem conheço-o bem (ou pensava que conhecia); trouxe o livro para casa e não consegui parar de ler.
Rio Homem é uma história e é três histórias: é a história dos últimos trinta anos da existência de Vilarinho das Furnas, dos seus costumes e modos de vida. Mas lá fora, no mundo, tudo o que acontece, acaba por se repercutir na vida desta aldeia: a Guerra Civil de Espanha, a política florestal do Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Colonial e, finalmente, o Plano Hidroeléctrico Nacional. O fio condutor, Rogélio, é um herói à maneira Romântica, um refugiado da Guerra Civil de Espanha, único sobrevivente do seu grupo, qual holandês voador, facto que lhe corrói a consciência apesar de não ter tido culpa de escapar, ao contrário do mítico navegador. Figura trágica, viajante sem lugar e sem tempo, vergado pela adversidade, naufraga na vetusta aldeia, também ela fora do espaço e do tempo, e aí cuida encontrar um lugar de redenção. Tão semelhantes, herói e aldeia, na singularidade e no Destino, ambos lutam contra o rolo compressor do Progresso numa guerra de derrota anunciada.
Extraordinariamente bem escrito e bem documentado, este romance leva tempo a abandonar o leitor depois de lida a última linha. Ficam no ar perguntas e um sentimento contido de revolta. O mal está feito, Vilarinho da Furna desapareceu irremediavelmente, mas a questão que fica é esta: que lugar têm ainda, neste mundo onde somos obrigados a viver, a diferença, a singularidade, a cultura e a tradição? Quantos lugares ainda terão de ser reduzidos a tabuletas «Neste lugar existiu...» até que responsáveis políticos, poderes económicos e vulgares cidadãos percebam que não são (não somos!) donos de nada, nem da terra, nem da cultura, nem da tradição e apenas tomamos conta do que levou séculos a construir e nos foi confiado nesta breve passagem pelo Mundo?
01 novembro 2010
O estado da Nação (em 1871)
«Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe média inteira que vive dele, de chapeu alto e paletó.
«Este caldo é o Estado. A classe média vive do Estado. A velhice conta com ele como condição da sua vida. Logo desde os primeiros exames no liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia da sua tranquilidade. A classe eclesiástica não significa a realização de uma crença; é ainda uma multidão de desocupados que quer viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, como se compreendia outrora, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado, vindo ser deputados a 2$500 réis por dia. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres e das casas arruinadas; é a ocupação natural das mediocridades; é o usofruto da burguezia. Ora como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade. Resulta uma pobreza geral. Com o seu ordenado ninguém pode acumular, poucos podem equilibrar-se. Nascem o recurso perpétuo para a agiotagem, a dívida e a letra protestada, como elementos regulares da vida. Por outro lado o comércio sofre desta pobreza da burocracia, arruina-se, quebra e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado ou de cair no proletariado. O mesmo sucede aos industriais. A agricultura, sem recursos, sem progresso, não sabendo fazer valer a terra, arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado.
«Tudo é pobre: a preocupação geral é o pão de cada dia. Disto uma lei exclusiva, dominante, áspera: o egoismo. Tudo se torna meio de comer.
[...]
«A pobreza geral produz um aviltamento na dignidade. Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.
«Serve-se, não quem se respeita, mas quem se vê no poder. Um governador civil dizia: –É boa! dizem que sou sucessivamente regenerador, histórico, reformista! Eu nunca quiz ser senão – governador civil! - Este homem tinha razão, porque mudar do Sr. Fontes para o Sr. Braamcamp, não é mudar de partido; – ambos aqueles cavalheiros são monárquicos e constitucionais e católicos. A desgraça é que, se em Portugal houvesse partidos republicanos, monárquicos, socialistas, aquele homem, assim como fôra sucessivamente reformista, histórico, regenerador – isto é as coisas mais iguais – seria republicano, monárquico e socialista – as coisas mais contraditórias.
[...]
«Perdeu-se através de tudo isto o sentimento de cidade e de pátria: o cidadão desapareceu. E todo o País não é mais do que: uma agregação heterogénea de inactividades que se enfastiam.
(QUEIRÓS, Eça de – As farpas. Transcrito da edição original Lisboa: Typographia Universal, 1871, disponível em http://purl.pt/256)
27 outubro 2010
A Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico

Nós, portugueses, que estamos sempre com lamúrias sobre a partidocracia, sobre a falta de poder efectivo dos cidadão face à omnipresença dos partidos, dos grupos económicos e de todos os lobbies reais e imaginários, nós, portugueses - dizia - temos na figura da ILC uma oportunidade ímpar para o exercício da cidadania. Para nosso próprio mal, somos melhores nas lamúrias.
Ao contrário das vulgares petições que circulam na Internet, uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos carece da assinatura do subscritor. Por outro lado, também ao contrário daquelas, esta produz, necessariamente, efeitos. Para tal, tem de ser entregue numa das seguintes formas: em papel, enviada por correio normal, ou em imagem digitalizada, enviada por correio-electrónico.
O texto da Iniciativa Legislativa de Cidadãos está disponível no site da ILC bem como qualquer das formas de subscrição.
Para quem tiver dúvidas sobre a viabilidade legal desta Iniciativa Legislativa de Cidadãos, está também disponível um parecer do jurista Paulo Jorge Assunção. Para aqueles que, como eu, não são versados em Direito, vale a pena começar por ler a síntese, mais acessível, e só depois enfrentar a densa argumentação do parecer.
Eu já assinei. Convido todos os visitantes da biblioteca de Jacinto a fazerem o mesmo.
07 outubro 2010
Autógrafo de uma obra desconhecida de Niccolò Jommelli (1714-1774) descoberto na Biblioteca Nacional
Laudate pueri Dominum a 16 vozes
«À data da sua morte o compositor Niccolò Jommelli era considerado um dos maiores compositores vivos, vindo posteriormente a ser consistentemente incluído na plêiade dos mais memoráveis autores do século XVIII. Na ocasião Schubart escreveu: “O maior Pã está morto… Se a riqueza de pensamento, a fantasia cintilante, a melodia inesgotável, a harmonia celestial, o profundo domínio de todos os instrumentos e particularmente da poderosa mágica da voz humana […], se tudo isto combinado com a mais acutilante compreensão da poesia musical constitui o génio, então a Europa perdeu o seu maior compositor.”
«Dois anos depois de ter subido ao trono, D. José tentou contratar Jommelli que, por esta altura, já era o mais afamado e o mais inovador compositor de ópera italiana em actividade. No entanto, a proposta do Duque de Württemberg, que incluía um novo teatro, acabou por aliciar o compositor, que se mudou para a Corte de Estugarda em 1754. Durante 15 anos produziu música religiosa e contribuiu para reescrever a história da ópera. Em 1769 e a troco de uma vantajosa reforma, D. José conseguiu finalmente obter os serviços de Jommelli, que entretanto passou a viver em Aversa, Itália. O contrato incluía o envio de obras religiosas, e sobretudo de óperas. Até à morte do Rei em 1777, e com adaptações de João Cordeiro da Silva, os teatros reais portugueses chegaram a levar anualmente à cena quatro óperas suas.«No género sacro, a influência de Jommelli em Portugal ainda está por avaliar, mas foi certamente duradoura. Algumas das suas obras religiosas mantiveram-se no repertório das igrejas até finais do século XIX. O Requiem (Hochstein, A.I.3), obra composta em 1756 para as exéquias da Duquesa de Württemberg, foi a mais importante e paradigmática. Ernesto Vieira, na entrada do seu Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes (1900), escreve: “Executa-se ainda muito frequentemente nas egrejas de Lisboa a missa de requiem e libera-me de Jommelli, composições primorosas no estylo sacro.”
«O estatuto de Niccolò Jommelli e os laços históricos que o ligam a Portugal tornam a descoberta deste autógrafo (ainda que incompleto) um acontecimento relevante no contexto dos estudos de música sacra de estilo romano de meados do século XVIII. O caso em epígrafe é particularmente interessante porque se trata de uma obra policoral para 16 vozes e baixo contínuo (com utilização de 3 órgãos) completamente desconhecida e sem paralelo na produção do compositor. O trabalho seminal de Wolfgang Hochstein, Die Kirchenmusik von Niccolò Jommelli (1984), que inclui um catálogo temático, não menciona qualquer obra para 16 vozes.
«A razão para a ausência de referências na bibliografia da especialidade prende-se com o facto de o primeiro caderno (4 fólios) se encontrar desaparecido. Em consequência, informações cruciais como o autor, a data e o título da obra, grafadas na página de rosto, perderam-se.
«A identificação do autor foi realizada através de estudos caligráficos comparativos. Uma proposta para a génese da obra assim como a sua contextualização na vida e obra de Jommelli serão alguns dos temas abordados.»
António Jorge Marques
(Fonte: sítio da Biblioteca Nacional de Portugal)










