Os últimos anos têm-me ensinado muito sobre o meu país e sobre o povo a que pertenço. Vou compreendendo como é que aguentámos 48 anos de ditadura. Este povo tem muitas qualidades mas falta-lhe uma, essencial à Democracia, à Liberdade e à Justiça: o amor à Democracia, à Liberdade e à Justiça.
25 setembro 2013
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16 setembro 2013
Para os Senhores da Troika
Dedicada aos Senhores da Troika. Para que tenham um soninho descansado, apesar do Mal que andam a espalhar.
09 julho 2013
A síndrome nacional
A causa da maioria dos nossos problemas está na incapacidade de planear, prever problemas e antecipar soluções. Quantas vezes é que todos nós já vimos buracos e roços serem abertos e reabertos em obras terminadas porque não se previu alguma coisa que, depois, se revela necessária? Claro que somos “desenrascados” mas o “desenrasca” (palavra sem tradução em nenhuma outra língua) não é uma qualidade, é uma necessidade que decorre de um defeito. Este é um problema que atravessa gerações, classes sociais e profissões. Está em todo o lado. É como uma síndrome endémica com múltiplos sintomas e causas obscuras. Manifestações desta síndrome são a falta de pontualidade, a burocracia, a corrupção, o esbanjamento de recursos (tantas vezes sem benefício para ninguém), a baixa produtividade, a leviandade e inconsequência das decisões, a irresponsabilidade, o laxismo. Todos nós criticamos estes defeitos e todos achamos que não os temos. E, de facto, não os temos todos. Como as manifestações são múltiplas e ninguém as reúne todas em simultâneo, é sempre possível atribuir ao problema nacional todas as causas que identificamos nos outros sem notar aquela que nos caracteriza. Da culpa enjeitada à auto-comiseração e desta à inveja, aquela palavra com que Camões termina os Lusíadas, vão passos muito curtos.
Não somos mais estúpidos do que os outros, nem mais ignorantes, nem mais perversos. A humanidade é toda feita da mesma matéria-prima e a nossa diversidade genética inviabiliza qualquer explicação dessa natureza. O nosso problema só pode ser de natureza cultural, só pode ser um problema de mentalidade. O que eu não consigo identificar é a origem do problema. Será geográfica? Será climatérica? Será das horas de Sol? Será do catolicismo? De tudo isto ao mesmo tempo? Não sei mas entristece-me. Entristece-me a persistência do problema, a recorrência dos erros, apesar de todos nós sabermos que existem, de todos nós sabermos quais são e de todos nós, pelo menos nas intenções, os combatermos. Somos todos bons, muito bons, a apontar erros. Somos todos péssimos a não os cometer.
Não somos mais estúpidos do que os outros, nem mais ignorantes, nem mais perversos. A humanidade é toda feita da mesma matéria-prima e a nossa diversidade genética inviabiliza qualquer explicação dessa natureza. O nosso problema só pode ser de natureza cultural, só pode ser um problema de mentalidade. O que eu não consigo identificar é a origem do problema. Será geográfica? Será climatérica? Será das horas de Sol? Será do catolicismo? De tudo isto ao mesmo tempo? Não sei mas entristece-me. Entristece-me a persistência do problema, a recorrência dos erros, apesar de todos nós sabermos que existem, de todos nós sabermos quais são e de todos nós, pelo menos nas intenções, os combatermos. Somos todos bons, muito bons, a apontar erros. Somos todos péssimos a não os cometer.
02 julho 2013
Banquetes de Platão
«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)
SOPA DE VERÃO
A partir da sopa de feijão verde da minha Mãe, fiz esta variante inspirada no gaspacho (mas sem pepino!), para comer geladinha em dias muito quentes.
Três ou quatro batatas de tamanho médio, três ou quatro tomates (uso tomate em rama, bem sumarento), um bocado grande de pimento vermelho, um bocado grande de pimento verde, três ou quatro dentes de alho, uma cenoura. Levei a cozer, triturei, deitei a água necessária para ficar um creme muito ralinho e temperei com sal. Deitei-lhe feijão verde cortado, levei a cozer de novo, nos últimos 10 minutos deitei uns cotovelinhos, poucos e, depois de cozida, uns oregãos e um golo de azeite. Ficou deliciosa e refrescante.
SOPA DE VERÃO
A partir da sopa de feijão verde da minha Mãe, fiz esta variante inspirada no gaspacho (mas sem pepino!), para comer geladinha em dias muito quentes.
Três ou quatro batatas de tamanho médio, três ou quatro tomates (uso tomate em rama, bem sumarento), um bocado grande de pimento vermelho, um bocado grande de pimento verde, três ou quatro dentes de alho, uma cenoura. Levei a cozer, triturei, deitei a água necessária para ficar um creme muito ralinho e temperei com sal. Deitei-lhe feijão verde cortado, levei a cozer de novo, nos últimos 10 minutos deitei uns cotovelinhos, poucos e, depois de cozida, uns oregãos e um golo de azeite. Ficou deliciosa e refrescante.
15 maio 2013
"Geração grisalha não pode asfixiar geração nova" (Silva Lopes)
A Geração Grisalha, para sua informação, Senhor Dr. Silva Lopes, ex-Ministro das Finanças, começou a trabalhar aos 10, aos 12, aos 16 anos para que a Geração Nova pudesse estudar e tornar-se na tão propalada "geração mais qualificada de sempre".
A Geração Grisalha promoveu e PAGOU a escolaridade obrigatória e gratuita para toda a gente! Pagou cada tostão! Até os que não tiveram filhos pagaram o ensino dos filhos dos outros.
A Geração Grisalha proporcionou à Geração Nova aquela educação que ela própria nunca teve. Pagou com suor e medo a liberdade, a democracia, a segurança e a educação com que eu cresci de tal forma acomodada que nem sei o que é viver sem isso. Pagou com mãos calejadas, com peles tisnadas, com "houverãos" e "entreteus" porque não tiveram tempo para ler, nem para estudar, nem para procurar um emprego melhor enquanto perdiam o sono e os sonhos - que também tiveram um dia, pasme-se! - no barco e na camioneta da carreira.
Claro que o senhor pertence ao grupo privilegiado dos que puderam estudar, dos que fizeram o exame da 4ª classe e seguiram direitinhos para o Liceu, esse lugar aonde, no seu tempo, só alguns podiam ambicionar chegar. E isso não tem mal nenhum. O que tem mal é vir agora acusar de parasitas a maioria das pessoas da sua geração, essa maioria à qual o senhor não pertence.
Vivem hoje à custa dos jovens? Até não vivem mas... e se vivessem?!? Qual era o problema?!? Já fizeram a parte deles e merecem isso e muito mais. E se o senhor não se sente merecedor dessa dívida de gratidão lá terá as suas razões. Eu tenho uma dívida imensa de gratidão para essa geração, uma dívida que nunca lhes poderei pagar: não lhes devo a minha vida, devo-lhes a DELES! Essa nunca poderei pagar. Mas posso tentar!
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28 março 2013
Johann Sebastian Bach - Matthaeus Passion
Que sortilégio é este que faz com que um fenómeno acústico, traduzível em ondas sonoras ou em zeros e uns, faça tremer o corpo todo, estremecer cada célula, humedecer as mucosas do nariz, provocar um aperto na garganta e uma vontade irreprimível de chorar por razão nenhuma?
21 março 2013
Johann Sebastian Bach, 21 de Março de 1685
Como descrever o que apenas se pode sentir?
Children of a lesser god
Children of a lesser god
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02 março 2013
25 fevereiro 2013
Explicação da Ausência
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.
Daniel Faria
(1971-1999)
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.
Daniel Faria
(1971-1999)
15 fevereiro 2013
Nausícaa a Ulisses
Pudera, meu Amor, trazer-te ao peito
Já despido de sal e maresias!
Ajustar-me entre o teu corpo e o meu leito,
adossar-me ao aroma que trazias
do mar, das dunas e do vento Leste,
da Penélope longínqua - longa espera! -
Da Tálassa sentindo o odor agreste
do vento enfunando uma quimera...
Se estás ao pé de mim sem estares comigo
é porque te amei sem te conhecer
e dei ao mar meus sonhos já desfeitos.
Se nunc'antes te deras por vencido
e à minha juventude vens render
é porque à lei do Amor estamos sujeitos.
(Inspirado no soneto de David Mourão Ferreira "Ulisses a Nausícaa")
Já despido de sal e maresias!
Ajustar-me entre o teu corpo e o meu leito,
adossar-me ao aroma que trazias
do mar, das dunas e do vento Leste,
da Penélope longínqua - longa espera! -
Da Tálassa sentindo o odor agreste
do vento enfunando uma quimera...
Se estás ao pé de mim sem estares comigo
é porque te amei sem te conhecer
e dei ao mar meus sonhos já desfeitos.
Se nunc'antes te deras por vencido
e à minha juventude vens render
é porque à lei do Amor estamos sujeitos.
(Inspirado no soneto de David Mourão Ferreira "Ulisses a Nausícaa")
14 fevereiro 2013
Sérgio Godinho - O primeiro dia
E pronto, agora deu-me para aqui. Excelente versão ao vivo. Excelente solo de piano. Excelente.
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Sérgio Godinho - Espalhem a Notícia
Tive um namorado que andava sempre de viola às costas. Esta foi uma das primeiras canções que ele me cantou...
Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse
Divulguem o encanto
o ventre da que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Bonita
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Bonita
Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Bonita
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13 fevereiro 2013
Memento, Homo, quia pulvis es... (II)
Diogo Dias Melgás (1638-1700)
Pro Cantione Antiqua. Dir. Mark Brown
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Memento, Homo, quia pulvis es...
«Naquelas sepulturas, ou abertas, ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos para maior exemplo, e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios (que só as distinguem). Aquele pó foi Urbano; aquele pó foi Inocêncio; aquele pó foi Alexandre; e este, que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.»
(Fonte: Biblioteca Nacional Digital)
12 fevereiro 2013
Música e Amor
«Il n'y a pas de différence entre musique et amour: l'écoute d'une émotion authentique égare absolument.»
(Pascal Quignard - Vie secrète)
06 fevereiro 2013
SPA não adopta o novo acordo ortográfico perante as posições do Brasil e de Angola sobre a matéria
Na biblioteca de Jacinto congratulamo-nos com a decisão da Sociedade Portuguesa de Autores, não obstante o argumento apresentado - «não faz sentido dar como consensualizada a nova norma ortográfica quando o maior país do espaço lusófono (Brasil) e também Angola tomaram posições em diferente sentido» - ser um tanto perverso. Achará a SPA que, caso o Brasil não tivesse recuado, deveria adoptar o Acordo Ortográfico?
Eu acho que não e acho isso mesmo que Portugal tivesse apenas um ou dois milhões de habitantes. Mal de nós quando a salvaguarda da nossa cultura estiver dependente da demografia.
Também acho de muito mau tom apontar apenas um nome como responsável por toda a série de disparates que tem envolvido o AO. Porquê o Dr. Luís Amado? Mas foi só ele? Há um lençol de nomes que teremos de responsabilizar - e que a História, a seu tempo julgará - a começar pelo senhor Presidente da República, quando era Primeiro Ministro, e a acabar nos actuais governantes, passando por todos aqueles que, ao longo de mais de 20 anos - conforme os casos, por estupidez, negligência, incompetência, cobardia ou dolo - permitiram que chegássemos a este ponto.
Em todo o caso, a minha saudação à SPA. Parece que acordou. Continue assim que não vai mal.
«A SPA continuará a utilizar a norma ortográfica antiga nos seus documentos e na comunicação escrita com o exterior, uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e se encontra longe de estar esclarecido, sobretudo depois de o Brasil ter adiado para 2016 uma decisão final sobre o Acordo Ortográfico e de Angola ter assumido publicamente uma posição contra a entrada em vigor do Acordo.
«Assim, considera a SPA que não faz sentido dar como consensualizada a nova norma ortográfica quando o maior país do espaço lusófono (Brasil) e também Angola tomaram posições em diferente sentido. Perante esta evidência, a SPA continuará a utilizar a norma ortográfica anterior ao texto do Acordo, reafirmando a sua reprovação pela forma como este assunto de indiscutível importância cultural e política foi tratado pelo Estado Português, designadamente no período em que o Dr. Luís Amado foi ministro dos Negócios Estrangeiros e que se caracterizou por uma ausência total de contactos com as entidades que deveriam ter sido previamente ouvidas sobre esta matéria, sendo a SPA uma delas. Refira-se que também a Assembleia da República foi subalternizada no processo de debate deste assunto.
«O facto de não terem sido levadas em consideração opiniões e contributos que poderiam ter aberto caminho para outro tipo de consenso, prejudicou seriamente todo este processo e deixa Portugal numa posição particularmente embaraçosa, sobretudo se confrontado com as recentes posições do Brasil e de Angola»
Lisboa, 9 de Janeiro de 2013
(Fonte: sítio web da Sociedade Portuguesa de Autores)
Eu acho que não e acho isso mesmo que Portugal tivesse apenas um ou dois milhões de habitantes. Mal de nós quando a salvaguarda da nossa cultura estiver dependente da demografia.
Também acho de muito mau tom apontar apenas um nome como responsável por toda a série de disparates que tem envolvido o AO. Porquê o Dr. Luís Amado? Mas foi só ele? Há um lençol de nomes que teremos de responsabilizar - e que a História, a seu tempo julgará - a começar pelo senhor Presidente da República, quando era Primeiro Ministro, e a acabar nos actuais governantes, passando por todos aqueles que, ao longo de mais de 20 anos - conforme os casos, por estupidez, negligência, incompetência, cobardia ou dolo - permitiram que chegássemos a este ponto.
Em todo o caso, a minha saudação à SPA. Parece que acordou. Continue assim que não vai mal.
«A SPA continuará a utilizar a norma ortográfica antiga nos seus documentos e na comunicação escrita com o exterior, uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e se encontra longe de estar esclarecido, sobretudo depois de o Brasil ter adiado para 2016 uma decisão final sobre o Acordo Ortográfico e de Angola ter assumido publicamente uma posição contra a entrada em vigor do Acordo.
«Assim, considera a SPA que não faz sentido dar como consensualizada a nova norma ortográfica quando o maior país do espaço lusófono (Brasil) e também Angola tomaram posições em diferente sentido. Perante esta evidência, a SPA continuará a utilizar a norma ortográfica anterior ao texto do Acordo, reafirmando a sua reprovação pela forma como este assunto de indiscutível importância cultural e política foi tratado pelo Estado Português, designadamente no período em que o Dr. Luís Amado foi ministro dos Negócios Estrangeiros e que se caracterizou por uma ausência total de contactos com as entidades que deveriam ter sido previamente ouvidas sobre esta matéria, sendo a SPA uma delas. Refira-se que também a Assembleia da República foi subalternizada no processo de debate deste assunto.
«O facto de não terem sido levadas em consideração opiniões e contributos que poderiam ter aberto caminho para outro tipo de consenso, prejudicou seriamente todo este processo e deixa Portugal numa posição particularmente embaraçosa, sobretudo se confrontado com as recentes posições do Brasil e de Angola»
Lisboa, 9 de Janeiro de 2013
(Fonte: sítio web da Sociedade Portuguesa de Autores)
01 fevereiro 2013
A honrada Alemanha
Não resisto a transcrever um excerto de «O jogador», de Dostoievski - que estou a ler numa vetusta edição dos Livros RTP - e que me fez pensar nos tempos que estamos a viver.
«Eu preferiria - disse - passar toda a vida numa tenda de quirguizes nómadas em vez de adorar o ídolo alemão.
- Que ídolo - perguntou o general, que começava a aborrecer-se seriamente.
- O modo alemão de acumular riquezas. Não estou aqui há muito tempo mas o que pude ver e comprovar chega para revoltar o meu sangue de tártaro. Na verdade, não quero essas virtudes! Ontem tive tempo de andar umas dez verstas pelos arredores. Pois bem, é exactamente como nos livrinhos ilustrados de moral alemã: em cada casa há um Vater, terrivelmente virtuoso e extraordinariamente honrado. Tão honrado que temos medo de nos chegarmos a ele. Não posso suportar as pessoas honradas que inspiram medo. Cada um destes Vater tem a sua família e à noite, reunidos todos eles, lêem em voz alta livros instrutivos. Sobre o telhado da casa rumorejam os ulmos e os castanheiros. O Sol que se põe, a cegonha no telhado, tudo isto é extraordinariamente poético e comovedor. Se não o incomoda, general - continuei - permito-me referir algo ainda mais comovedor. Lembro-me que o meu falecido pai, também sob as tílias, diante da casa, lia-nos todas as tardes, a minha mãe e a mim, livros desse género... Posso, pois, avaliar bem tudo isso. Bom, aqui todas as famílias se encontram sob o jugo e a submissão mais completa do Vater. Trabalham como bois e acumulam dinheiro como judeus. Supunhamos que o Vater reuniu já uns tantos florins e espera legar ao primogénito o seu táler ou a sua parcela de terreno. Para isso, não dá qualquer dote à filha e esta fica para tia. Para isso vende o filho mais pequeno, como criado ou como soldado, e este dinheiro é incorporado no capital familiar. Faz-se assim, acreditem-me. Procurei informar-me. E fazem tudo isto movidos pela honradez, por um exaltado espírito de honradez, até ao ponto de o filho mais pequeno, que foi vendido, estar convencido de que o venderam movidos pela honradez. E isto é o ideal: a própria vítima alegra-se por ter sido oferecida em holocausto. Que acontece depois? As coisas também não correm de feição para o primogénito. Há ali uma certa Amalchen à qual o seu coração se sente unido. Mas não pode casar-se porque não arrolou os florins necessários para fazê-lo. Ficam também à espera, digna e sinceramente, aceitando o holocausto com um sorriso nos lábios. Amalchen continua extenuada e fraca. Finalmente, ao cabo de vinte anos, os bens foram multiplicados: dispõem dos florins honrada e virtuosamente poupados. O Vater dá a bênção ao primogénito, de quarenta anos, e à Amalchen, de trinta e cinco, peitos flácidos e nariz avermelhado. Chora, dá-lhes conselhos e morre. O primogénito transforma-se, por sua vez, num virtuoso Vater e a sua história volta a repetir-se. Aos cinquenta ou sessenta anos, o neto do primeiro Vater dispõe, na verdade, de um capital considerável que lega ao seu filho e este ao seu e assim, ao cabo de cinco ou seis gerações, deparamos com um barão Rotschild ou um qualquer Goppe & C.ª. Não é um espectáculo grandioso? Um trabalho permanente de cem ou duzentos anos, paciência, inteligência, honradez, carácter, decisão, cálculo, a cegonha no telhado! Que mais querem? Porque nada há superior a isto e, a partir deste ponto de vista, começam a julgar o mundo e a castigar os culpados, quer dizer, aqueles que se diferenciam deles um milímetro que seja. Eis a questão: prefiro a agitação no estilo russo ou enriquecer à roleta. Não quero ser Goppe & C.ª nas próximas cinco gerações. Tenho necessidade de dinheiro para mim próprio e não me considero como um apêndice fornecedor do capital. Sei que disse muitas barbaridades mas não importa. Essas são as minhas convicções.»
(Dostoievski, Fedor - O jogador. Trad. Armando Luiz)
«Eu preferiria - disse - passar toda a vida numa tenda de quirguizes nómadas em vez de adorar o ídolo alemão.
- Que ídolo - perguntou o general, que começava a aborrecer-se seriamente.
- O modo alemão de acumular riquezas. Não estou aqui há muito tempo mas o que pude ver e comprovar chega para revoltar o meu sangue de tártaro. Na verdade, não quero essas virtudes! Ontem tive tempo de andar umas dez verstas pelos arredores. Pois bem, é exactamente como nos livrinhos ilustrados de moral alemã: em cada casa há um Vater, terrivelmente virtuoso e extraordinariamente honrado. Tão honrado que temos medo de nos chegarmos a ele. Não posso suportar as pessoas honradas que inspiram medo. Cada um destes Vater tem a sua família e à noite, reunidos todos eles, lêem em voz alta livros instrutivos. Sobre o telhado da casa rumorejam os ulmos e os castanheiros. O Sol que se põe, a cegonha no telhado, tudo isto é extraordinariamente poético e comovedor. Se não o incomoda, general - continuei - permito-me referir algo ainda mais comovedor. Lembro-me que o meu falecido pai, também sob as tílias, diante da casa, lia-nos todas as tardes, a minha mãe e a mim, livros desse género... Posso, pois, avaliar bem tudo isso. Bom, aqui todas as famílias se encontram sob o jugo e a submissão mais completa do Vater. Trabalham como bois e acumulam dinheiro como judeus. Supunhamos que o Vater reuniu já uns tantos florins e espera legar ao primogénito o seu táler ou a sua parcela de terreno. Para isso, não dá qualquer dote à filha e esta fica para tia. Para isso vende o filho mais pequeno, como criado ou como soldado, e este dinheiro é incorporado no capital familiar. Faz-se assim, acreditem-me. Procurei informar-me. E fazem tudo isto movidos pela honradez, por um exaltado espírito de honradez, até ao ponto de o filho mais pequeno, que foi vendido, estar convencido de que o venderam movidos pela honradez. E isto é o ideal: a própria vítima alegra-se por ter sido oferecida em holocausto. Que acontece depois? As coisas também não correm de feição para o primogénito. Há ali uma certa Amalchen à qual o seu coração se sente unido. Mas não pode casar-se porque não arrolou os florins necessários para fazê-lo. Ficam também à espera, digna e sinceramente, aceitando o holocausto com um sorriso nos lábios. Amalchen continua extenuada e fraca. Finalmente, ao cabo de vinte anos, os bens foram multiplicados: dispõem dos florins honrada e virtuosamente poupados. O Vater dá a bênção ao primogénito, de quarenta anos, e à Amalchen, de trinta e cinco, peitos flácidos e nariz avermelhado. Chora, dá-lhes conselhos e morre. O primogénito transforma-se, por sua vez, num virtuoso Vater e a sua história volta a repetir-se. Aos cinquenta ou sessenta anos, o neto do primeiro Vater dispõe, na verdade, de um capital considerável que lega ao seu filho e este ao seu e assim, ao cabo de cinco ou seis gerações, deparamos com um barão Rotschild ou um qualquer Goppe & C.ª. Não é um espectáculo grandioso? Um trabalho permanente de cem ou duzentos anos, paciência, inteligência, honradez, carácter, decisão, cálculo, a cegonha no telhado! Que mais querem? Porque nada há superior a isto e, a partir deste ponto de vista, começam a julgar o mundo e a castigar os culpados, quer dizer, aqueles que se diferenciam deles um milímetro que seja. Eis a questão: prefiro a agitação no estilo russo ou enriquecer à roleta. Não quero ser Goppe & C.ª nas próximas cinco gerações. Tenho necessidade de dinheiro para mim próprio e não me considero como um apêndice fornecedor do capital. Sei que disse muitas barbaridades mas não importa. Essas são as minhas convicções.»
(Dostoievski, Fedor - O jogador. Trad. Armando Luiz)
29 janeiro 2013
Exposição sobre Marcos Portugal: visita guiada, duplo lançamento e recital
Visita guiada à exposição | 17h00 | Entrada livre
Lançamento | 31 Janeiro | 18h00 | Auditório BNP

Duplo lançamento no último dia da exposição dedicada a Marcos Portugal na BNP, contará com breves apontamentos musicais de obras do autor por Ana Paula Russo, Mário Trilha e David Cranmer.
A anteceder as apresentações das duas obras - Marcos Portugal: uma reavaliação, coord. de David Cranmer e Marcos Portugal (1762-1830): 250 anos do nascimento, comiss. António Jorge Marques - pelos respectivos autores e Mário Vieira de Carvalho, será conduzida uma visita guiada à exposição por António Jorge Marques
Marcos Portugal (1762-1830): 250 anos do nascimento, António Jorge Marques (comiss.)
(...) As pesquisas realizadas nos últimos anos permitiram descobrir inúmeras fontes primárias, tanto musicais como biográficas, que vieram situar o compositor e a sua obra no contexto sociopolítico em que viveu, e atribuir-lhe um justo protagonismo. O presente catálogo incorpora uma parte significativa dessas fontes, e inclui a republicação fac-similada de três incontornáveis fontes bibliográficas de difícil acesso, além de textos que reflectem o actual estado do conhecimento sobre Marcos Portugal e uma detalhada cronologia.
Marcos Portugal, uma reavaliação, David Cranmer (coord.)
O presente volume reúne 26 capítulos sobre a vida e obra de Marcos António Portugal (1762-1830), o compositor luso-brasileiro que, em vida, obteve uma ainda não igualada ou ultrapassada projecção internacional. Num acto de estreita colaboração sobretudo entre especialistas portugueses e brasileiros, pretende expôr, desmitificar e reavaliar esta destacada figura, tantas vezes alvo de polémica. No cumprimento desta tarefa, para além de propôr um extenso texto biográfico devidamente fundamentado, debruça-se sobre um leque de temas, entre outros a recepção e disseminação internacional da sua produção teatral, aspectos de várias óperas individuais, a música ocasional profana, os contextos e popularidade de certas obras religiosas, as modinhas e a actividade didáctica do compositor, como Mestre de Suas Altezas Reais, os filhos de D. João VI e D. Carlota Joaquina.»
(Fonte: sítio da BNP)
Lançamento | 31 Janeiro | 18h00 | Auditório BNP

Duplo lançamento no último dia da exposição dedicada a Marcos Portugal na BNP, contará com breves apontamentos musicais de obras do autor por Ana Paula Russo, Mário Trilha e David Cranmer.
A anteceder as apresentações das duas obras - Marcos Portugal: uma reavaliação, coord. de David Cranmer e Marcos Portugal (1762-1830): 250 anos do nascimento, comiss. António Jorge Marques - pelos respectivos autores e Mário Vieira de Carvalho, será conduzida uma visita guiada à exposição por António Jorge Marques
Marcos Portugal (1762-1830): 250 anos do nascimento, António Jorge Marques (comiss.)
(...) As pesquisas realizadas nos últimos anos permitiram descobrir inúmeras fontes primárias, tanto musicais como biográficas, que vieram situar o compositor e a sua obra no contexto sociopolítico em que viveu, e atribuir-lhe um justo protagonismo. O presente catálogo incorpora uma parte significativa dessas fontes, e inclui a republicação fac-similada de três incontornáveis fontes bibliográficas de difícil acesso, além de textos que reflectem o actual estado do conhecimento sobre Marcos Portugal e uma detalhada cronologia.
Marcos Portugal, uma reavaliação, David Cranmer (coord.)
O presente volume reúne 26 capítulos sobre a vida e obra de Marcos António Portugal (1762-1830), o compositor luso-brasileiro que, em vida, obteve uma ainda não igualada ou ultrapassada projecção internacional. Num acto de estreita colaboração sobretudo entre especialistas portugueses e brasileiros, pretende expôr, desmitificar e reavaliar esta destacada figura, tantas vezes alvo de polémica. No cumprimento desta tarefa, para além de propôr um extenso texto biográfico devidamente fundamentado, debruça-se sobre um leque de temas, entre outros a recepção e disseminação internacional da sua produção teatral, aspectos de várias óperas individuais, a música ocasional profana, os contextos e popularidade de certas obras religiosas, as modinhas e a actividade didáctica do compositor, como Mestre de Suas Altezas Reais, os filhos de D. João VI e D. Carlota Joaquina.»
(Fonte: sítio da BNP)
Ensaios Abertos, do Grupo Vocal Arsis
A partir da próxima quinta-feira, 31 de Janeiro, e até Junho, nas últimas quintas-feiras de cada mês, pelas 21h00, o Grupo Vocal Arsis vai realizar Ensaios Abertos, na Fábrica Braço de Prata. Tratam-se de ensaios normais abertos ao público. Aqueles que já estão habituados à lides corais terão a oportunidade de contactar com o método de trabalho do nosso Maestro, o compositor Paulo Brandão. Os que nunca cantaram em coro terão a oportunidade de espreitar os bastidores da actividade coral, o trabalho por detrás do concerto. É uma experiência nova e desafiante para nós pois nem sempre é confortável para os coralistas expôr as suas fragilidades - habituados que estamos à apresentação em concerto onde é suposto que nada falhe ou que, a falhar, não se note... - mostrando ao público os erros, as repetições e as correcções que sempre ocorrem durante os ensaios. Por outro lado, creio que será gratificante mostrar todo o trabalho de aperfeiçoamento e apuramento que é necessário para chegar à apresentação em concerto. Espero ver-vos por lá, na quinta-feira.
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Fábrica Braço de Prata,
Grupo Vocal Arsis
"Chega de Saudade" de Tom Jobim e Vinícius de Moraes - por Paulinho da Viola
Dois génios do Século XX e um grande intérprete.
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