Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

17 novembro 2013

Outono dos Livros 2013: feira de edições, Biblioteca Nacional de Portugal


Leituras

“Like all things in the universe, we are destined from birth to diverge. Time is simply the yardstick of our separation. If we are particles in a sea of distance, exploded from an original whole, then there is a science to our solitude. We are lonely in proportion to our years.”
(Ian Caldwell ; Dustin Thomason - The rule of four)

28 outubro 2013

A formiguinha e a neve (nova versão)

Era uma vez uma formiguinha que seguia pela neve quando o seu pezinho ficou preso.
Dirigindo-se à neve, a formiguinha pediu:
- Ó, neve, tu que és tão forte que prendes o meu pezinho...liberta o meu pezinho!
A neve respondeu-lhe:
- Eu sou forte mas mais forte do que eu é o Sol, que me derrete.
A formiguinha dirigiu-se, então, ao Sol:
- Ó, Sol, tu que és tão forte que derretes a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O Sol, com voz imponente, respondeu à formiguinha:
- Eu sou forte mas mais forte do que eu - respondeu o Sol - é a nuvem, que me encobre.
A formiguinha dirigiu-se, então, à nuvem:
- Ó, nuvem, tu que és tão forte que encobres o Sol, que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
- Eu sou forte - respondeu a nuvem - mas mais forte do que eu é o vento, que me empurra.
A formiguinha dirigiu-se, então, ao vento:
- Ó, vento, tu que és tão forte que empurras a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O vento, porém, respondeu-lhe:
- Eu sou forte mas mais forte do que eu é o muro, que me trava.
- Ó, muro, tu que és tão forte - recomeçou a formiguinha - que travas o vento que empurra a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O muro respondeu à formiguinha:
- Eu sou forte mas mais forte do que eu é o rato, que me rói.
A formiguinha dirigiu-se ainda ao rato:
- Ó rato, tu que és tão forte que róis o muro que trava o vento que empurra a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O rato respondeu à formiga:
- Eu sou forte mas mais forte do que eu é o gato, que me caça.
A formiguinha, com um suspiro, dirigiu-se ao gato:
- Ó, gato, tu que és tão forte que caças o rato que rói o muro que trava o vento que empurra a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O gato respondeu à formiguinha:
- Miaau... eu sou forte mas mais forte do que eu é o cão, que me persegue, miaauu...
A formiguinha estava cansada e enregelada mas ainda se dirigiu ao cão:
- Ó, cão, tu que és tão forte que persegues o gato que caça o rato que rói o muro que trava o vento que empurra a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O cão respondeu à formiguinha:
- Eu sou forte, pois, ãoão, mas mais forte do que eu é o homem, que me domestica, ão!
A formiguinha, já quase a desfalecer, dirigiu-se ao homem:
- Homem, tu que é tão forte, que domesticas o gato que caça o rato que rói o muro que trava o vento que empurra a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
O homem respondeu então à formiguinha:
- Eu sou forte, formiguinha, mas queres saber quem é mais forte do que eu? A Troika, que me resgata!
A formiguinha, então, já quase sem forças, virou o seu olhar suplicante para a Troika:
- Ó, Troika, tu que és tão forte que resgatas o homem que domestica o cão que persegue o gato que caça o rato que rói o muro que trava o vento que empurra a nuvem que encobre o Sol que derrete a neve que prende o meu pezinho... liberta o meu pezinho!
Então a Troika, na sua infinita bondade e misericórdia... cortou o pezinho da formiguinha.

25 setembro 2013

Os últimos anos têm-me ensinado muito sobre o meu país e sobre o povo a que pertenço. Vou compreendendo como é que aguentámos 48 anos de ditadura. Este povo tem muitas qualidades mas falta-lhe uma, essencial à Democracia, à Liberdade e à Justiça: o amor à Democracia, à Liberdade e à Justiça.

16 setembro 2013

Para os Senhores da Troika

Dedicada aos Senhores da Troika. Para que tenham um soninho descansado, apesar do Mal que andam a espalhar.


09 julho 2013

A síndrome nacional

A causa da maioria dos nossos problemas está na incapacidade de planear, prever problemas e antecipar soluções. Quantas vezes é que todos nós já vimos buracos e roços serem abertos e reabertos em obras terminadas porque não se previu alguma coisa que, depois, se revela necessária? Claro que somos “desenrascados” mas o “desenrasca” (palavra sem tradução em nenhuma outra língua) não é uma qualidade, é uma necessidade que decorre de um defeito. Este é um problema que atravessa gerações, classes sociais e profissões. Está em todo o lado. É como uma síndrome endémica com múltiplos sintomas e causas obscuras. Manifestações desta síndrome são a falta de pontualidade, a burocracia, a corrupção, o esbanjamento de recursos (tantas vezes sem benefício para ninguém), a baixa produtividade, a leviandade e inconsequência das decisões, a irresponsabilidade, o laxismo. Todos nós criticamos estes defeitos e todos achamos que não os temos. E, de facto, não os temos todos. Como as manifestações são múltiplas e ninguém as reúne todas em simultâneo, é sempre possível atribuir ao problema nacional todas as causas que identificamos nos outros sem notar aquela que nos caracteriza. Da culpa enjeitada à auto-comiseração e desta à inveja, aquela palavra com que Camões termina os Lusíadas, vão passos muito curtos.
Não somos mais estúpidos do que os outros, nem mais ignorantes, nem mais perversos. A humanidade é toda feita da mesma matéria-prima e a nossa diversidade genética inviabiliza qualquer explicação dessa natureza. O nosso problema só pode ser de natureza cultural, só pode ser um problema de mentalidade. O que eu não consigo identificar é a origem do problema. Será geográfica? Será climatérica? Será das horas de Sol? Será do catolicismo? De tudo isto ao mesmo tempo? Não sei mas entristece-me. Entristece-me a persistência do problema, a recorrência dos erros, apesar de todos nós sabermos que existem, de todos nós sabermos quais são e de todos nós, pelo menos nas intenções, os combatermos. Somos todos bons, muito bons, a apontar erros. Somos todos péssimos a não os cometer.

02 julho 2013

Banquetes de Platão

«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)

SOPA DE VERÃO

A partir da sopa de feijão verde da minha Mãe, fiz esta variante inspirada no gaspacho (mas sem pepino!), para comer geladinha em dias muito quentes.

Três ou quatro batatas de tamanho médio, três ou quatro tomates (uso tomate em rama, bem sumarento), um bocado grande de pimento vermelho, um bocado grande de pimento verde, três ou quatro dentes de alho, uma cenoura. Levei a cozer, triturei, deitei a água necessária para ficar um creme muito ralinho e temperei com sal. Deitei-lhe feijão verde cortado, levei a cozer de novo, nos últimos 10 minutos deitei uns cotovelinhos, poucos e, depois de cozida, uns oregãos e um golo de azeite. Ficou deliciosa e refrescante.

15 maio 2013

"Geração grisalha não pode asfixiar geração nova" (Silva Lopes)


A Geração Grisalha, para sua informação, Senhor Dr. Silva Lopes, ex-Ministro das Finanças, começou a trabalhar aos 10, aos 12, aos 16 anos para que a Geração Nova pudesse estudar e tornar-se na tão propalada "geração mais qualificada de sempre".
A Geração Grisalha promoveu e PAGOU a escolaridade obrigatória e gratuita para toda a gente! Pagou cada tostão! Até os que não tiveram filhos pagaram o ensino dos filhos dos outros.
A Geração Grisalha proporcionou à Geração Nova aquela educação que ela própria nunca teve. Pagou com suor e medo a liberdade, a democracia, a segurança e a educação com que eu cresci de tal forma acomodada que nem sei o que é viver sem isso. Pagou com mãos calejadas, com peles tisnadas, com "houverãos" e "entreteus" porque não tiveram tempo para ler, nem para estudar, nem para procurar um emprego melhor enquanto perdiam o sono e os sonhos - que também tiveram um dia, pasme-se! - no barco e na camioneta da carreira.
Claro que o senhor pertence ao grupo privilegiado dos que puderam estudar, dos que fizeram o exame da 4ª classe e seguiram direitinhos para o Liceu, esse lugar aonde, no seu tempo, só alguns podiam ambicionar chegar. E isso não tem mal nenhum. O que tem mal é vir agora acusar de parasitas a maioria das pessoas da sua geração, essa maioria à qual o senhor não pertence.
Vivem hoje à custa dos jovens? Até não vivem mas... e se vivessem?!? Qual era o problema?!? Já fizeram a parte deles e merecem isso e muito mais. E se o senhor não se sente merecedor dessa dívida de gratidão lá terá as suas razões. Eu tenho uma dívida imensa de gratidão para essa geração, uma dívida que nunca lhes poderei pagar: não lhes devo a minha vida, devo-lhes a DELES! Essa nunca poderei pagar. Mas posso tentar!

28 março 2013

Johann Sebastian Bach - Matthaeus Passion

Que sortilégio é este que faz com que um fenómeno acústico, traduzível em ondas sonoras ou em zeros e uns, faça tremer o corpo todo, estremecer cada célula, humedecer as mucosas do nariz, provocar um aperto na garganta e uma vontade irreprimível de chorar por razão nenhuma?


25 fevereiro 2013

Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer — fosse abertura —
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria
(1971-1999)

15 fevereiro 2013

Nausícaa a Ulisses

Pudera, meu Amor, trazer-te ao peito
Já despido de sal e maresias!
Ajustar-me entre o teu corpo e o meu leito,
adossar-me ao aroma que trazias

do mar, das dunas e do vento Leste,
da Penélope longínqua - longa espera! -
Da Tálassa sentindo o odor agreste
do vento enfunando uma quimera...

Se estás ao pé de mim sem estares comigo
é porque te amei sem te conhecer
e dei ao mar meus sonhos já desfeitos.

Se nunc'antes te deras por vencido
e à minha juventude vens render
é porque à lei do Amor estamos sujeitos.

(Inspirado no soneto de David Mourão Ferreira "Ulisses a Nausícaa")

14 fevereiro 2013

Sérgio Godinho - O primeiro dia


E pronto, agora deu-me para aqui. Excelente versão ao vivo. Excelente solo de piano. Excelente.

Sérgio Godinho - Espalhem a Notícia


Tive um namorado que andava sempre de viola às costas. Esta foi uma das primeiras canções que ele me cantou...



Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto
o ventre da que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Bonita

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Bonita

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Bonita