Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

30 outubro 2012

A crise nas nossas vidas

A pensar como a crise pode aproximar mas também pode afastar as pessoas. É algo que sempre me assustou. Todos sabemos de famílias que eram unidas e que se separaram por causa de partilhas e de amigos muito próximos que se afastaram por causa da política. Como sempre fui particularmente sensível a essas questões, em pequena a cena da zanga entre o Ben-Hur e o Messala impressionava-me muito. Se eles eram amigos desde miúdos, como podiam zangar-se assim, por causa da política? Como é que uma tão grande amizade podia transformar-se em ódio mortal? Isso poderia acontecer comigo? Com a minha família? Com os meus amigos entre eles?

Nestes tempos difíceis temos de estar muito atentos aos sinais da discórdia. Uma palavra errada, uma observação menos sensível, uma piada de mau gosto pode ser o suficiente para desencadear uma discussão de limites mal definidos. E depois, nada a fazer. As palavras são como as pedras, uma vez atiradas, não voltam. Quanto aos actos, costuma dizer-se que ficam com quem os pratica mas as suas consequências podem estender-se muito para além, no espaço e no tempo.
Quando não está em causa a sobrevivência, é fácil lidar com o amigo que teve a sorte de nascer rico ou que arranjou um emprego melhor que o nosso. Ficamos até contentes por ele e pensamos que amanhã pode ser a nossa vez. Também é fácil manter amizade com o amigo que tem ideias políticas opostas às nossas mesmo que o partido dele esteja no governo. Discutem-se ideias com serenidade e acaba-se o serão com umas larachas. Mas quando o amigo conseguiu o emprego de que nós precisamos desesperadamente, quando ele defende políticas às quais (com ou sem razão, não importa) atribuímos os nossos problemas, torna-se muito difícil manter o distanciamento. Passada a crise (porque todas as crises passam) podemos ter perdido muito mais do que bens materiais.

Há que não perder a noção das prioridades e agora, mais do que nunca, a família e os amigos são o mais importante que temos.

29 outubro 2012

O ACORDO ORTOGRÁFICO E A CONSTITUIÇÃO – por Ivo Miguel Barroso*

Questões prévias de Direito Internacional Público

O n.º 1 do 2.º Protocolo modificativo ao Acordo Ortográfico, assinado em 2004, que deu nova redacção ao artigo 3.º do AO, que determinou o modo de entrada em vigor apenas com as ratificações de 3 Estados, substituindo a regra da unanimidade, é ilegítimo no plano do Direito Internacional, por falta de causa.
Com feito, uma contradição teleológica entre o objectivo proposto pelo Acordo Ortográfico – “um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa” (1.º parágrafo do Preâmbulo, reiterado no 4.º parágrafo do 2.º Protocolo Adicional), conforme consta do próprio título (“Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa”) e da exigência de um “vocabulário ortográfico comum” (artigo 2.º do AO) -, não são atingidos, se bastassem as ratificações de 3 Estados de língua oficial portuguesa, no total do universo de 8.
Todavia, esse vício de falta de causa é ininvocável por parte de Portugal, uma vez que ratificou a Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, de 1969 (cfr. artigo 42.º).
Julga-se haver também uma fundamentação incongruente no Preâmbulo do 2.º Protocolo modificativo.
A inexistência de um vocabulário ortográfico comum não preclude a vigência da totalidade das normas do Acordo. Todavia, algumas das disposições do AO não têm precisão suficiente, a ponto de delas não se poder extrair uma norma (por exemplo, alguns casos das “facultatividades”, constantes da Base IV, n.º 1, que remetem para o “critério da pronúncia”).
O “vocabulário ortográfico comum”, nos termos dos Direito dos Tratados, não serve, de todo, para alterar o Acordo Ortográfico, “acomodando” as diversidades linguísticas dos vários países (diversamente da pretensão formulada por alguns Estados e constante do ponto III.5 do “Resolução sobre o Plano de A[c]ção de Brasília”, de 2010).
O prazo de transição de seis anos, previsto no artigo 2.º, n.º 2, da Resolução n.º 35/2008, da Assembleia da República, de 29 de Julho, e Decreto do Presidente da República n.º 52/2008, da mesma data (que procederam à ratificação do 2.º Protocolo), constitui, materialmente, uma reserva ao Tratado, ultrapassando a qualificação de uma mera “declaração interpretativa”. O prazo de transição não serve juridicamente para promover alterações ao tratado, “a posteriori”, à margem de um novo acordo solene entre os Estados.
O Governo fez o depósito da ratificação em 13 de Maio de 2009, tendo, todavia, o aviso de tal ratificação sido publicado em 17 de Setembro de 2010 (através do Aviso do Ministério dos Negócios Estrangeiros n.º 255/2010). Deste modo, o início do prazo de transição começou aquando da publicação referida, de 2010.
O prazo de transição terminará somente em 17 de Setembro de 2016, e não no ano de 2015, diversamente do que tem sido veiculado. O desrespeito pelo AO – ficcionando que seria válido – tem uma dimensão que, em teoria, poderá ser expressa em sanções, designadamente disciplinares.

1. Vícios formais e orgânicos

O n.º 1 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25 de Janeiro (que determinou a antecipação parcial do prazo de transição, mandando aplicar o Acordo Ortográfico à Administração Pública directa, indirecta e autónoma), é organicamente inconstitucional, por violação do artigo 165.º, n.º 1, alínea b), da Constituição, pois regulamenta, a título principal, direitos, liberdades e garantias.
A invocação da base habilitante do artigo 199.º, alínea g), não procede.
A mesma norma padece de inconstitucionalidade formal a duplo título: por violação da reserva de lei parlamentar (artigo 165.º, n.º 1, alínea b)) e por carência da forma de decreto regulamentar, constitucionalmente exigida para os regulamentos independentes (artigo 112.º, n.º 6).
O âmbito de aplicação da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, mesmo que fosse válida, não poderia abranger outros órgãos, como a Assembleia da República, o Presidente da República e os tribunais.
Mesmo se fosse um regulamento válido, a Resolução n.º 8/2011 não poderia ser aplicada a órgãos exercendo outras funções jurídicas do Estado diversas da administrativa; havendo, pois, inconstitucionalidade orgânica e material, por usurpação de poderes, e também formal, da norma do n.º 2 da Resolução do Conselho de Ministros (bem como do n.º 1 da Resolução do Conselho do Governo Regional dos Açores n.º 83/2011, de 6 de Junho, na parte em que se refere aos decretos legislativos regionais e demais actos não incluídos na função administrativa, publicados no Jornal Oficial da Região Autónoma dos Açores). O desvalor jurídico associado é o da inexistência jurídica.
Salvo em relação ao artigo 119.º, n.º 1, alínea h), 1.ª parte, da Constituição, a antecipação do fim do prazo de transição, nos termos em que foi realizada, por uma Resolução do Governo, aprovada em Conselho de Ministros, é inconstitucional a título orgânico, formal (devido ao acto não assumir a forma devida) e material (por violar o princípio da separação de poderes).
Regista-se inconstitucionalidade orgânica e formal dos números 3 e 4 da Resolução do Conselho de Ministros, pois regulamentam aspectos principais que são objecto da reserva de competência da Assembleia da República (artigo 165.º, n.º 1, alínea b)): os manuais escolares, que cabem na liberdade de divulgação de obra científica, artística ou literária (artigo 42.º, n.º 2), bem como na liberdade académica (artigo 43.º, n.º 1).
O número 7 é organicamente inconstitucional, por regulamentar o direito à língua, a liberdade de expressão, em particular, a liberdade de divulgação de obra científica, artística ou literária (artigo 42.º, n.º 2).
Todos os diplomas, que se basearem na Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, padecem de inconstitucionalidade consequente; designadamente os seguintes:
i) Actos da função legislativa, emitidos pela Assembleia da República, decretos-leis, emitidos pelo Governo, ou decretos legislativos regionais, emitidos pelas Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas;
ii) Actos da função política, emitidos pelo Presidente da República; Resoluções emitidas pela Assembleia da República ou pelas Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas; restantes actos de outros órgãos;
iii) Actos da função jurisdicional, emitidos pelos tribunais.

2. A violação do património cultural imaterial que é a língua portuguesa

O AO viola aspectos nevrálgicos da língua portuguesa, enquanto pertença ao património cultural.
O Acordo oblitera as raízes greco-latinas da língua portuguesa.
As “facultatividades” representam a destruição do conceito de ortografia.
Existe a violação do dever estatal de defesa do património cultural (artigo 78.º, n.º 2, alínea c)) e do direito ao património cultural.
Há uma tentativa de usurpação do papel da lei positiva em relação ao costume e à tradição linguística existente do português europeu.
O valor da estabilidade ortográfica é violado.
Detecta-se também inconstitucionalidade material, devido à violação da garantia institucional da neutralidade ideológica e consequente proibição do dirigismo estatal da cultura (artigo 43.º, n.º 2), uma vez que o Acordo Ortográfico é puramente político, não sendo baseado na ciência linguística nem em pareceres técnicos.
O Acordo Ortográfico consiste num autêntico plano totalitário de unificação aparente, expressando um fenómeno de “democracia totalitária” por parte do Estado “abafante” relativamente à sociedade civil.

3. A ortografia na Constituição

3.1. A ortografia da Constituição instrumental não pode ser alterada através de actos infraconstitucionais

Uma das consequências de a Constituição instrumental ser rígida é a impossibilidade de proceder a alterações através de textos com valor infraconstitucional (legislativos ou outros).
Uma correcção ortográfica da Constituição, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, é inadmissível sob o ponto de vista da hierarquia de fontes.
Quanto a precedentes históricos, entre 1911 e 1912, não houve uma única edição que revisse tacitamente a Constituição instrumental.
A partir de 1913 até à Revolução de Dezembro de 1917 e na segunda vigência da Constituição, de forma ininterrupta, ocorreu a revisão tácita da Constituição instrumental de 1911, tendo sido cimentada através da utilização da nova ortografia nas leis de revisão constitucional.
No caso da revisão de 1945, a revisão tácita da Constituição só aconteceu, de forma consistente e ininterrupta, a partir de 1952, cerca de quase 7 anos após a publicação da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945.
Quanto à mini-reforma ortográfica de 1973, oficialmente, não houve revisão tácita da Constituição.
Os precedentes históricos não são totalmente significativos e, por conseguinte, decisivos para a actual conformação dogmática da ortografia na Constituição de 1976.
A linguagem escrita e a ortografia nela contida devem ser objecto de valorização. A língua escrita não é apenas um sistema simbólico de segunda ordem: a literacia acarreta uma mudança radical na estrutura das comunidades. Sem literacia, não há Estado, não há civilização, não há nação, não há filosofia, não há ciência e não há memória social e cultural de longo prazo: sem escrita, não haveria religiões do Livro, nem haveria discurso científico e filosófico.
A ortografia permite codificar, sistematizar e estabilizar a língua escrita padrão de uma sociedade complexa; a ortografia é parte integrante da língua.
Sem ortografia, não há continuidade cultural intergeracional estável.
As disposições da Constituição instrumental são intocáveis; só podendo ser alteradas licitamente mediante o exercício do poder de revisão constitucional.
Não são apenas as “normas”, no sentido tradicionalmente entendido, que vinculam — também os preceitos constitucionais devem ser tidos como intangíveis.
O artigo 2.º, n.º 2, da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, que determina que quaisquer reedições terão de ser feitas segundo o Acordo Ortográfico, é orgânica e materialmente inconstitucional, pois se refere, também, à Constituição instrumental.
O texto oficial que faz fé é o aprovado em 2 de Abril de 1976, com alterações posteriores.
Deve distinguir-se entre “força da Constituição” e “força normativa da Constituição”.
As teorias múltiplas e díspares sobre o que seja a “Constituição material” devem ser rejeitadas. Não existe um critério “ratione materiae” para determinar os conteúdos de uma Constituição, mas apenas critérios tendenciais (e, por conseguinte, desprovidos de universalidade).
A Constituição moderna é definida, sobretudo, através da forma e, apenas tendencialmente, pelo conteúdo, de regular o Estado-poder.

3.2. A inconstitucionalidade resultante de desconformidades ortográficas com a Constituição instrumental

No pressuposto do princípio jurídico de a variante consagrada pela Constituição Portuguesa ser a do português de Portugal, temos mais inconstitucionalidades de carácter formal e material.
No caso de a Constituição grafar uma expressão com certa ortografia, existe inconstitucionalidade formal a duplo título.

3.3. As posições jusfundamentais dos particulares face à ortografia: entre o princípio da liberdade e dever fundamental de não atentar contra o núcleo identitário da língua portuguesa

Há que ter em conta a previsão do dever fundamental de preservar, defender e valorizar o património cultural (artigo 78.º, n.º 1, 2.ª parte), de que a língua portuguesa faz parte.
A “aplicabilidade directa” dos deveres fundamentais – autónomos ou não autónomos – depende da densidade da norma.
Os deveres fundamentais, sobretudo os que têm uma componente negativa – v. g., o dever de não atentar contra o património cultural – devem ser considerados directamente aplicáveis.
Existe um dever fundamental com uma dupla vertente: i) em sentido negativo, um dever de abstenção da prática de actos lesivos do núcleo identitário da língua portuguesa; ii) um dever positivo de impedir a destruição da mesma.
Várias normas do Acordo Ortográfico desfiguram a língua portuguesa. O expediente das “facultatividades” figura nesse âmbito.
Existe um dever de todos os particulares desobedecerem às normas mais aberrantes do AO, desfiguradoras do núcleo identitário das normas ortográficas costumeiras de língua portuguesa.

3.4. Ortografia e revisão constitucional

A Constituição instrumental não pode ser alterada, através de uma lei de revisão constitucional, segundo o Acordo Ortográfico, por atentar contra limites materiais de revisão: o princípio da identidade nacional e cultural; o “direito à língua portuguesa” e o direito à identidade cultural, bem como o princípio da independência nacional (devido às remissões para usos e costumes de outros países, para se apurar quais as normas resultantes de algumas disposições do AO, que remetem para o critério da pronúncia).
Mesmo que esta tese não fosse seguida, uma revisão constitucional que modificasse os preceitos da Constituição, em conformidade com o Acordo Ortográfico, não poderia ter efeito convalidatório das normas inconstitucionais anteriores.

4. Restantes inconstitucionalidades materiais

4.1. Inconstitucionalidades materiais das normas constantes do Acordo Ortográfico e das Resoluções da Assembleia da República, do Conselho de Ministros (bem como do n.º 1 da Resolução do Conselho do Governo Regional dos Açores n.º 83/2011, de 6 de Junho; do n.º 1 da Resolução da Assembleia Legislativa Regional dos Açores n.º 7/2012/A, de 24 de Janeiro)

Quanto a outras inconstitucionalidades materiais, temos:
- a violação da “autorização constitucional expressa”;
- restrições, não credenciadas pela Constituição, ao direito à língua e à liberdade de expressão;
- violação do princípio da identidade nacional;
- violação do princípio da igualdade;
- violação do direito ao desenvolvimento da personalidade;
- violação do dever de o Estado informar os cidadãos sobre os assuntos públicos (artigo 48.º, n.º 2);
- violação da regra da proibição de censura (artigo 37.º, n.º 2);
- violação da liberdade de criação artística e cultural (artigo 42.º, n.º 1); os Autores têm o direito de preservar a sua própria opção ortográfica;
- violação da proibição de dirigismo político na educação (artigo 43.º, n.º 2);
- a liberdade de aprender e de ensinar (artigo 43.º, n.º 1);
- violação das vertentes científica, pedagógica e administrativa da autonomia universitária (cfr. artigo 76.º, n.º 2 da CRP);
- violação o direito ao ensino e à cultura (artigos 73.º e 74.º, n.º 1); - violação da liberdade de imprensa;
- violação do direito à informação do consumidor.

4.2. Cumulação dos vícios de inconstitucionalidade e de ilegalidade

O “Vocabulário de Língua Portuguesa” e o conversor “Lince”, previstos pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, padecem de inconstitucionalidades várias:
i) Inconstitucionalidade material, por violação do artigo 112.º, n.º 5, 2.ª parte;
ii) Inconstitucionalidade orgânica, por regulamentar direitos liberdades e garantias (cfr. artigo 165.º, n.º 1, alínea b));
iii) Inconstitucionalidade formal, decorrente de o diploma ser uma resolução, não assumindo a forma de lei em sentido formal (lei da AR ou decreto-lei autorizado).
Concomitantemente, registam-se várias ilegalidades “sui generis” do “Lince” e dos correctores ortográficos, por violação das próprias normas constantes do Acordo Ortográfico.

5. Consequências das inconstitucionalidades mencionadas

A Assembleia da República deve repor a normatividade violada, operando um autocontrolo da validade, fazendo aprovar uma resolução que, reconhecendo a inconstitucionalidade das normas contidas no AO e, também, na Resolução parlamentar n.º 35/2008, retire eficácia a essa, autodesvinculando o Estado português.
Devido às inconstitucionalidades mencionadas e ao consequente desvalor da nulidade, existe o poder-dever de desaplicar as normas constantes do Acordo Ortográfico e da Resolução n.º 8/2011 do Conselho de Ministros, por parte de todas as entidades públicas: Legislador, tribunais, bem como órgãos e agentes da Administração Pública.
Não existe dever de obediência por parte dos funcionários públicos, pois a ordem de respeitar o AO (ou, por maioria de razão, o “Lince” e os correctores ortográficos) padece de inconstitucionalidade, por violação de direitos, liberdades e garantias, o que origina o desvalor da nulidade daquele acto. No caso do AO, por todas as razões referidas, a ilegalidade é manifesta. Deste modo, o não acatamento da ordem, nos “casos em que não fosse devida obediência”, é insusceptível de acarretar responsabilidade disciplinar.
Os particulares gozam do direito de resistência (artigo 21.º), do direito de objecção de consciência e do direito genérico de desobediência a normas inconstitucionais.
Mais do que isso, existe um dever de desobediência, por parte dos particulares, em relação às normas mais aberrantes do Acordo Ortográfico, que desfiguram a língua portuguesa.
Até à remoção do AO na ordem jurídica, existem meios de tutela graciosa e contenciosa.

6. Demérito do Acordo Ortográfico: a violação de regras extra-jurídicas da variante do português de Portugal

O AO não assenta em nenhum consenso alargado.
O AO não serve o fim a que se destina – a unificação ortográfica da língua portuguesa.
Há múltiplos reparos que podem ser feitos, sob o ponto de vista das formulações.
O AO é um texto cheio de vulnerabilidades no domínio ortográfico. A aplicação do AO cria palavras homógrafas, fazendo com que palavras distintas sejam confundidas.

*Mestre em Direito e Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Neste artigo, constam as conclusões do nosso trabalho, Inconstitucionalidade e demérito do Acordo Ortográfico. Porque todos os Portugueses têm o direito e o dever de desobedecer às normas constantes do Acordo Ortográfico; em curso de publicação na Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, volume LII, 2011. AO = “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em 1990, aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, ambos de 23 de Agosto.

(BARROSO, Ivo Manuel - O Acordo Ortográfico e a Constituição)

17 outubro 2012

Adeus - Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor, já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
(Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”)

Maria Bethânia - Texto: ULTIMATUM - Álvaro de Campos





Mandato de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu,
eles,
snob,
plebeu,
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!

Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir

Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar

Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro
Passai, frouxos
Passai, radicais do pouco

Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo

Nenhuma ideia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma ideia grão
E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada

Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico
E saudando abstractamente o infinito.

(Álvaro de Campos, em 1917)

01 outubro 2012

Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal: 21º aniversário

Em dia de 21º aniversário da Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal e em ano de Marcos Portugal, aqui vos deixo «É coisa mui gostosa», no auditório da BNP, com Ariana Russo, soprano, e Pedro Vieira de Almeida, no cravo.



09 setembro 2012

Perdoa-nos, Salgueiro Maia!

Perdoa-nos, Salgueiro Maia, onde quer que estejas. Perdoa esta geração para a qual arriscaste carreira e vida e que desbaratou perdulariamente a Democracia e a Liberdade que tu quiseste dar-nos. Perdoa-nos, Salgueiro Maia. Jamais seremos suficientemente gratos mas bastava que não fôssemos ingratos, afinal. A minha geração que é a dos Coelhos, dos Sócrates, dos Seguros, é a vergonha deste país. Jamais permitirei que digam que o povo português é cobarde enquanto houver a tua memória. Mas esta geração, à qual não me orgulho de pertencer, ficará na História como a geração mais ingrata de que há registo. Agimos como meninos de família a espatifarem ferraris pagos pelos papás com o dinheiro que eles ganharam a pulso. Nós espatifamos a Democracia, a Liberdade e o Patriotismo e fazêmo-lo com o desplante de quem nunca teve de mexer um dedo para os ganhar. Perdoa-nos, Salgueiro Maia. Eu sei que não somos todos iguais como não o eram os da tua geração. A diferença é que, na tua geração, destacaram-se Homens como tu. Na minha destacam-se os invertebrados que levam a tua obra à ruína. Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem e perdoa-nos porque já não sabemos o que fazer.

06 setembro 2012

Fogos florestais


Como é que é possível que, ano após ano, todos os anos, desde há décadas, aconteça o mesmo e se continue a não fazer nada, absolutamente nada?!?

Todos os anos milhares de hectares ardem, todos os anos famílias ficam sem nada, todos os anos morrem bombeiros, todos os anos são detidos uns incendiários para interrogação e libertados a seguir. Todos os anos a mesma coisa! De que serve a palhaçada das campanhas de sensibilização?!? Querem fazer de nós parvos e lá vão conseguindo. A Comunicação Social colabora na farsa: fala dos fogos florestais como se fossem uma fatalidade que chega sazonalmente, como se fossem naturais e inevitáveis, como os furacões no Golfo do México, os tornados no Kansas ou as monções na Índia. Não acredito em acidentes nem acasos, muito menos em fatalidades. Os incêndios acidentais também existem mas são uma fracção dos incêndios em Portugal. Não é por acidente que começa um incêndio no alto de uma serra ou num sítio de difícil acesso. Não é por acidente que começa um incêndio em vários pontos em simultâneo e a meio da noite. É necessário investigar as motivações e identificar não só os incendiários mas os mandantes. Investigar a relação entre os incêndios e os negócios do imobiliário, das madeiras e até os negócios associados ao combate aos incêndios. Quem ganha com os incêndios? É aí que está a resposta.

O fogo posto não é um crime contra o património como assaltar uma casa, não é um crime ambiental como poluir uma ribeira. O fogo posto é um acto de terrorismo e é urgente tratá-lo como tal.

24 agosto 2012

D. Cecília

Estão a crucificar e a enxovalhar a pobre senhora espanhola, D. Cecília, a octogenária que, na sua ingenuidade e boa vontade, tentou restaurar uma pintura que ela se condoía de ver degradar. Ninguém se preocupou antes com a degradação da pintura que, vê-se pelas fotografias, estava a desaparecer. Fica-se agora a saber que toda a gente viu o que ela andava a fazer, a começar pelo Padre que a autorizou para poupar num restaurador profissional. Lá (como cá) os membros do clero (salvas as excepções que confirmam a regra) primam pela falta de cultura. Basta entrar numa igreja à hora da Missa, da mais remota aldeia à mais chique paróquia de Lisboa, para ficar confrangido com o nível de degradação a que desceu a arte na Igreja Católica. Desde o omnipresente violão à bateria e à guitarra eléctrica, tudo serve para infestar as cerimónias sacras. A qualidade da música está abaixo do nível mais pimba das cassetes de feira. Os cantores, na melhor das hipóteses, são idosos a arrastar as melodias à mesma velocidade a que arrastam os pés e, na pior, são uns jovens com vozinhas de cana rachada, cheios de tiques de baladeiro e de inflexões meladas. As igrejas, quando, por azar, tiveram obras, estão revestidas a azulejos de casa-de-banho ou esventradas numa das fachadas laterais para alojar uns lugares extra. Quando são novas, pouco ou nada se distinguem de armazéns de bacalhaus.


A Igreja Católica que, durante séculos, foi o fecundo ventre de onde saíu a mais sublime arte que a humanidade produziu e alguns dos mais notáveis artistas e intelectuais da nossa civilização, está de rastos.

O caso da D. Cecília - pobre senhora... - é apenas um sinal, talvez nem muito relevante, do que é a Igreja Católica hoje.

25 abril 2012

Talvez o 25 de Abril não tenha sido o mesmo para todos.

Talvez tenha havido o 25 de Abril dos Militares
O 25 de Abril dos Comunistas,
O 25 de Abril dos Social Democratas,
Talvez tenha havido o 25 de Abril dos que queriam a descolonização,
E o 25 de Abril dos que preferiam outra solução para as colónias,
Talvez tenha havido o 25 de Abril dos que esperavam rumar ao Socialismo,
E o 25 de Abril dos que ansiavam por uma Democracia ocidental,
Talvez tenha havido o 25 de Abril dos Monárquicos,
E o 25 de Abril dos Trotskistas,
O 25 de Abril dos Maoistas,
O 25 de Abril dos Democratas Cristãos,
O 25 de Abril da Reforma Agrária
E o 25 de Abril dos empresários,
Independentemente do que cada um esperou do 25 de Abril,
Independentemente da forma como cada um o viveu,
E de como cada um viveu o 26, o 27, o 28 de Abril,
Independentemente das ilusões e das desilusões,
Independentemente das esperança e do desespero,
Uma coisa teve aquela manhã,
Uma coisa pura, única, instantânea,
«uma coisa maravilhosa aconteceu»!
Nos meus sete anos,
Nos teus quinze,
Nos trinta, nos cinquenta, nos setenta anos de cada português de boa vontade,
O 25 de Abril representou a Esperança de um Portugal Melhor
E é esse - e nenhum outro! - que eu quero celebrar!

12 abril 2012

Não consigo arranjar um título

Daqui a cem anos a História irá julgar-nos. A todos. Governantes, políticos, financeiros, empresários, jornalistas. Já não estaremos cá e o julgamento será desapaixonado mas impiedoso. Acredito que a maior condenação irá para nós, europeus, povos acomodados, adormecidos, estupidificados, neutralizados no pensamento e na acção, sem nervo, permissivos, condescendentes, submissos, corrompidos, sem moral e sem honra.


As classes dominantes continuam iguais a si próprias, nada a esperar de novo. Os povos, esses, trocaram a honra por um iphone e uma viagem à República Dominicana. Não merecemos outra coisa. Bardam€rd@ para nós!

26 março 2012

Resposta ao Deputado Acácio Pinto

Em resposta a este texto, publicado no blogue Letras e Conteúdos, do Deputado do PS, Acácio Pinto, escrevi, na sua caixa de comentários, a seguinte resposta:

Sr. Deputado,

A sua opinião está, certamente, claríssima, no artigo, e penso que não poderia discordar das suas conclusões se fossem verdadeiras as premissas que as sustentam. Permita-me, no entanto, e com todo o respeito, demonstrar-lhe que não são.

Começa o Senhor Deputado por afirmar que «o acordo inicial remonta a 1990 e o segundo protocolo modificativo de 2004 foi aprovado na Assembleia da República em 2008 (com 3 votos contra!). Isto é, houve quase duas décadas para o debate se travar e, praticamente, o pleno dos deputados aprovou-o.»
Sendo este facto inegável, a aprovação pela Assembleia da República não é, por si só, garantia da bondade de uma decisão. De resto, como o Senhor Deputado sabe tão bem como os restantes portugueses, se tem estado atento a esta matéria, a contestação vem de muito longe, desde antes de 1990, embora os meios de comunicação social só recentemente estejam a dar-lhe dimensão mediática.
Quanto à pergunta que coloca «será que foi preciso Vasco Graça Moura chegar ao CCB, e desautorizar o primeiro-ministro, para que este assunto voltasse à ribalta?», se o Senhor Deputado tem acompanhado esta matéria, sabe também que, desde meados da primeira década deste século que se multiplica a contestação na Internet e que desde 2008 que circula uma petição em papel relativa a uma ILC contra o Acordo Ortográfico. Quero ainda lembrar o Senhor Deputado que a vulgarização da Internet não é dos anos 80 nem dos anos 90 e é perfeitamente natural que, só nos últimos anos, a contestação tenha atingido a dimensão que lhe conhecemos hoje.

Diz em segundo lugar, V.Ex.ª que «há que considerar que não é com duas ortografias oficiais da língua portuguesa que atribuímos verdadeira universalidade e prestígio ao português no mundo, nomeadamente nas instituições e nas academias internacionais, para além de que uma grafia comum na CPLP abre novas oportunidades ao mercado da edição em português.»
Embora não esteja demonstrada a perniciosidade de diferentes ortografias para o prestígio de uma língua (veja-se o caso do Inglês cujas ortografias oficiais diferem substancialmente nos dois lados do Atlântico não deixando por isso de ser, hoje, a língua franca em todo o globo), poderia até reconhecer algumas vantagens nessa ortografia única. Acontece, Senhor Deputado, que para prejuízo desse argumento concorre o próprio Acordo Ortográfico. Com efeito, as ortografias de um e outro lado do Oceano continuam a ser tão diferentes (ou até mais) do que já eram. Dou-lhe apenas três exemplos: as grafias diferentes "facto" (Portugal) e "fato" (Brasil) continuam a existir e as grafias anteriormente iguais "recepção" e "perspectiva" passam a escrever-se de forma diferente já que, no Brasil, ambas as duplas etimológicas "pç" e "ct" são distintamente articuladas na linguagem oral.

Argumenta V.Ex.ª, em terceiro lugar, que «temos que ter em conta que qualquer língua é uma entidade em permanente construção e evolução e em nenhum momento ela cristaliza.»
Neste ponto não poderia estar mais de acordo com o Senhor Deputado embora eu extraia desta afirmação, precisamente, a consequência inversa: é certo que a língua, enquanto entidade cultural imaterial, é uma realidade viva e em constante mutação. Daí lhe vem a sua riqueza e a sua fertilidade. Mas, Senhor Deputado, a língua muda naturalmente, não muda por decreto. São os falantes e os escreventes da língua que a mudam legitimamente. Os linguistas, em geral, e os lexicógrafos, em particular, recolhem e inventariam as formas da oralidade e da escrita, integrando-as nos dicionários, vocabulários e prontuários. As palavras e as formas vão caindo em desuso, outras surgem, coexistem durante anos acabando as primeiras por se tornar arcaísmos que já só constam de dicionários históricos e etimológicos e as últimas por entrar na língua corrente, oral e escrita. Isto é a evolução de uma língua viva.
Apela ainda, V.Ex.ª, para que «Não tenhamos, pois, medo desta mudança que visa aproximar a grafia da articulação fonológica». Não posso concordar. Quando se pretende que "recessão" e "receção" se leiam de forma diferente não estamos a aproximar a grafia da fonética já que deixa de haver qualquer elemento na escrita que nos diga como a palavra se pronuncia. É certo - já ouvi esse argumento - que já há outras palavras que se escrevem da mesma forma e se pronunciam de forma diferente mas este acordo, ao invés de as diminuir, vem multiplicá-las.
Escreve, também, que «já no passado também houve alterações, neste como noutros aspetos, também contestadas à época, mas que foram absorvidas pelos escreventes». É verdade! Mas nessa passado a que se reporta vivíamos em Ditadura e num país com mais de 80% de analfabetos. Felizmente, vivemos num país livre, onde V.Ex.ª pode ser Deputado e onde eu, neta de operários e camponeses, pude tirar uma Licenciatura, um Mestrado e o que eu mais for capaz.

Afirma, em quarto lugar que «depois de cem anos de divergências ortográficas (desde o acordo de 1911 que não foi extensivo ao Brasil) e depois de várias tentativas goradas de acordos envolvendo a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Lisboa de Ciências (1931, 1943, 1945, 1971/1973, 1975 e 1986) foi finalmente encontrado um texto comum que, podendo ter lacunas, é um acordo internacional e um acordo é, em si mesmo, um facto que encerra convergência, que é positivo e que importa, portanto, enfatizar.» Creio já lhe ter demonstrado que, indpendentemente das possíveis vantagens de um bom acordo, este, em concreto, não foi bem conseguido.

«Em quinto lugar, incluo-me no lote daqueles que acham que o “alfa e o ómega” da evolução da língua não se atingiu nas gerações passadas, mas também não se atinge na nossa… Ou seja, parafraseando Galileu, “porém, ela move-se”.» Totalmente de acordo, Senhor Deputado, quando dizemos que a língua evolui, isso não pressupõe qualquer espécie de desrespeito pelas formas como usaram a nossa língua Fernão Lopes, Camões, António Vieira, Machado de Assis, Aquilino Ribeiro, Jorge Amado, Agualusa, Mia Couto ou Saramago. Outros virão, no futuro, e escreverão de outras formas, todas excelentes e todas motivo de orgulho para os luso-falantes que nos sucederem.
Mas, insisto, essa evolução que fez e continuará a fazer da História da Língua Portuguesa uma das mais belas e ricas de todas as línguas do mundo, tem de ser natural e tem de partir dos que a falam e a escrevem.

Permita-me terminar com uma simples alegoria: conhece porventura, V.Ex.ª, Procusto, a personagem da mitologia grega que obrigava os seus hóspedes a caber perfeitamente na cama que lhes oferecia: aos mais baixos, esticava os membros, aos mais altos, amputava-os. O Acordo Ortográfico é uma espécie de cama onde os Senhores Deputados e todos os Governos das últimas décadas têm tentado deitar a nossa Língua Pátria. Não permitiremos a sua amputação.
De V.Ex.ª atentamente,
Maria Clara Assunção

21 março 2012

Antes que acabe o dia em que Johann Sebastian Bach nasceu, há327 anos

Deus inspira os compositores mas é Bach quem Lhe segreda instruções ao ouvido.




Menuhin & Oistrakh - Concerto para dois violinos, em ré menor, BWV 1043

08 março 2012

Chris De Burgh -- Lady In Red [[ Official ...


Otis Redding - When a man loves a woman

John Lennon - Woman

Mulher

Hoje é dia mundial da Mulher.
Desde já confesso que não sou sensível à efeméride. Não tenho o hábito de mandar mensagens às amigas dizendo o quanto elas são lindas e maravilhosas e fico um bocado surpreendida se algum colega de trabalho me felicita pelo dia. Não percebo a celebração. Quando me falam do movimento feminista, desde as primeiras sufragistas às que, ainda hoje, nos países islâmicos, lutam e arriscam a vida para dar alguma dignidade às mulheres, não posso senão concordar. Mas isso justificaria um dia mundial do Feminismo o qual eu celebraria com agrado. O Feminismo, enquanto luta pelos direitos de cidadania das mulheres, é uma causa à qual sou sensível. Se hoje eu posso estar aqui a discorrer livremente sobre este e qualquer outro assunto, devo-o a todos aqueles e aquelas que, antes de mim, lutaram pelos meus direitos enquanto cidadã numa sociedade livre e democrática.
Já não compreendo o feminismo que pretende elevar a mulher a uma espécie de superioridade moral em relação aos homens. Esse discurso, aliás, já é antigo e é machista: não há muitos dias li num jornal dos anos quarenta um artigo em que um cavalheiro defendia as mulheres ilibando-as de culpas no estado da humanidade (decorria a segunda guerra mundial) já que elas não tinham qualquer peso nas decisões políticas. Não vou perder tempo a discorrer sobre Margareth Tatcher ou Angela Merkel...
Eu gosto dos homens. Relacionei-me e relaciono-me com eles de diversas formas: tive Pai, tenho irmãos, tenho amigos, tive namorados e tenho marido. Conheço-os com todos os defeitos e com todas as qualidades. São amigos leais e atentos, são muito mais frágeis do que querem parecer e - ao contrário da maioria das mulheres - gostam das mulheres e não se acham superiores a nós.
Nunca ouvi um homem dizer mal das mulheres de forma generalizada, ao contrário do que já tenho ouvido (e lido) às mulheres. Na verdade, mesmo no passado, quando o papel político e social das mulheres era nulo ou diminuto, milhões de páginas foram escritas por homens a dizer maravilhas das mulheres. Os maiores tesouros das artes - em particular da poesia - foram escritos em honra de mulheres. Nós não precisamos de nos auto-elogiar porque os homens encarregam-se de o fazer há séculos.
Pelo contrário, é muito raro ouvir ou ler uma mulher a ser elogiosa com os homens. Por isso, neste dia mundial da Mulher, quero evocar Maria Teresa Horta, uma grande Mulher, feminista, poeta extraordinária que tem a rara ousadia de escrever sobre o homem e de cantá-lo com lirismo.

Poema antigo

O homem que percorro
com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio


o oceano
penso paralelo - ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio

ciclamens-astros
entre as vozes que calaram
para sempre
o verbo - bússola
com raiz - grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto
a lua que concebo.

07 março 2012

Ainda o Acordo Ortográfico

Esta carta foi-me enviada pelo autor, João Carlos Cardoso da Silva Reis, via correio electrónico, e aqui a publico, com a devida autorização e vénia. Foi originalmente enviada ao ministro da educação, ao ministro dos negócios estrangeiros, a alguns jornais e ao presidente da república.
É uma longa dissecação do Acordo Ortográfico de 1990 e transcrevo-a com alguns cortes sem, por isso, prejudicar o essencial do seu conteúdo.
Para facilitar a interpretação remeto-vos para o texto oficial do dito Acordo.
«[...] alguns dos motivos pelos quais este Acordo não deverá ser posto em prática:
1 - o primeiro motivo é que a redacção original, e oficial, deste Acordo tinha vinte e três erros ortográficos (aos quais se devem juntar outros de outra natureza) e assim foram publicados em Diário da República [...].
2 - no Artigo 2º deste Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa lê-se, e passo a citar: "Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas." Passados dezoito(!!!) anos, onde está esse vocabulário em Portugal??? (Sei que no Brasil foi publicado o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, editado em 2009, o qual viola inúmeras vezes o próprio acordo no qual se baseia. Sem comentários…) E se está a ser feito, será que prevê a resolução de vocábulos que se referem à mesma coisa, mas que são escritos (e falados) de forma diferente de ambos os lados do Atlântico??? Dou apenas alguns, poucos, exemplos: enfarte/infarto; planear/planejar, camião/caminhão, maquilhagem/maquiagem; bilião/bilhão; quotidiano/cotidiano; hidroeléctrica/hidrelétrica; maioritário/majoritário; champô/champú; golo/gol; fato/terno; hormonas/hormônios; Irão/Irã; desporto/esporte; Checo/Tcheco; câmara/câmera (máquina fotográfica); alforge/alforje; beringela/berinjela; missanga/miçanga. Isto já para não falar nas enormes discrepâncias entre termos científicos e técnicos existentes entre os dois lados do Atlântico, particularmente no que respeita à Informática;
3 - na Base IV, no ponto 1.º, fala-se da conservação ou eliminação das consoantes mudas c e p, conforme são proferidas ou não na pronúncia das palavras. Aqui começam as grandes contradições deste Acordo:
1ª - de unificador nada tem, pois deixa ao critério de cada um a sua prolação, grafia ou não, o que, juntamente com o exposto no ponto 2, vai aumentar exponencialmente o número de casos de múltiplas grafias;
2ª - a sua eliminação entra em contradição com o que foi escrito anteriormente na Base II, 1.º a);
3ª - estas consoantes eram mantidas não só por força da etimologia, mas, na esmagadora maioria dos casos, para acentuar a tonicidade da vogal anterior, ou seja: se a sua eliminação não for substituída por acento (como tem vindo a acontecer no nome Victor/Vítor), na prática o que está/vai acontecer é que muitas das palavras, além de serem escritas de forma diferente (o que contraria mais uma vez a finalidade unificadora deste acordo, pois algumas dessas consoantes são pronunciadas deste lado do Atlântico e não do outro lado e vice-versa), estão a ser/vão passar a ser pronunciadas de forma diferente em ambos os lados do Atlântico… ou então, a exemplo do que sucedeu do outro lado do Atlântico, com o tempo iremos passar a pronunciar essas vogais fechadas e não abertas como actualmente. [...]
4 - o ponto 2.º da mesma Base IV apenas e só vem reforçar o que anteriormente escrevi acerca do contínuo afastamento entre o Português de ambos os lados do Atlântico, não só graficamente como também foneticamente. Isto fará com que brevemente este acordo esteja total e completamente obsoleto e também é bem provável que o Português se cinda definitivamente se nada de concreto for feito para a sua real unificação, não só gráfica, mas também fonética;
5 - na Obs. à alínea a) do ponto 1.º da Base VIII está escrito o seguinte, e passo a citar: "Em algumas (poucas) palavras...". Bem... "poucas" oxítonas, mas, no contexto geral ainda há a somar as paroxítonas que constam nas Obs. às alíneas a) e b) do ponto 2.º da Base IX e as proparoxítonas que constam no ponto 3.º da Base XI. Tudo isto faz com que as palavras grafadas de forma diferente não sejam assim tão "poucas", como nos querem fazer crer, mas muitas, pois nestas Obs. e pontos apenas estão alguns exemplos, não toda a extensão da diferença. [...];
6 - se se puser em prática o que está no ponto 3.º da base IX, o que vai acontecer é o desvirtuamento fonético dos ditongos representados por oi, pois temos o exemplo em que o acento foi retirado dos ditongos representados por ei, em que essas palavras passaram a ser pronunciadas êi em vez de éi. Exemplo disso são também as palavras "acerca" e "inclusive" que muitas pessoas já pronunciam "acerca"(a fechado) em vez de "àcerca"(a aberto) e "inclusive"(e fechado) em vez de "inclusivè"(e aberto). Isto para ficarmos só por aqui, pois muitos outros exemplos haveria...;
7 - com base no ponto 9.º da mesma base IX como vamos interpretar, e ler, a seguinte frase, título que há algum tempo atrás um jornal trazia na sua primeira página: "Falta de seguros pára transplantes em hospital"? Não se esqueça de que com este acordo o acento agudo é retirado do vocábulo "para"...;
8 - na Obs. ao ponto 1.º da Base XV vamos começar a ver os primeiros "resultados" práticos deste famigerado Acordo no que respeita, por exemplo, à palavra "pára-quedas". Para começar direi o que vi em dois dicionários de diferentes editoras: num aparecia escrito "paraquedas" enquanto noutro estava grafado "para quedas"... Bem... em que ficamos??? E este é apenas um de muitos exemplos... Depois gostaria de dizer que esta palavra com o tempo irá querer dizer "aparelho para provocar quedas" em vez do actual "aparelho em forma de guarda-chuva destinado a diminuir a velocidade de queda de um objecto ou de uma pessoa despenhada de grande altura". [...];
[...]
10 - o ponto 2.º da Base XVII diz o seguinte: «Não se emprega o hífen nas ligações da preposição de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.». Porquê esta excepção??? Para não haver excepções não seria melhor acabar com os hífens nos verbos compostos??? "Facilitaria" muita coisa... ou complicaria??? [...]
11 - o parágrafo 4 do capítulo 2 do Anexo II é falacioso no que respeita à não-aceitação do acordo de 1945 por parte dos brasileiros, pois não diz que tal acordo não foi aprovado por motivos políticos e não por motivos culturais, pois a Academia Brasileira de Letras, além de ter aprovado o acordo, ficou incumbida de elaborar o Vocabulário Resumido da Língua Portuguesa. Ora neste caso deve ser a cultura a impor-se e não os políticos...;
[...]
13 - em relação ao parágrafo 4 do capítulo 3 do Anexo II, se é o critério da pronúncia que determina a supressão das consoantes mudas, então estas, para manterem a pronúncia correcta deveriam passar a ser acentuadas na vogal anterior, mas nisso este dito acordo não fala...;
[...]
17 - no que respeita ao que está escrito no 2.º parágrafo da alínea c) do subcapítulo 4.2 do Anexo II eu apenas tenho quatro, por exemplo, perguntas a fazer: 1ª - Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que o plural, por exemplo, de "mão" é "mãos" e o plural de "pão" é "pães"?; 2ª - Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que, no interior duma palavra, a letra "n" antes dum "b" ou dum "p" tem que se transformar num "m"?; Como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que a letra "x" pode ser pronunciada com o som de "ch", "is", "s" ou "z", por exemplo, dependendo da palavra onde se encontra? Porque é que este acordo "unificador" não resolve também estes "problemas"?;
[...]
19 - em relação à alínea e) do subcapítulo 4.2 do Anexo II, não entendo como se poderá falar de "unificação ortográfica da língua Portuguesa" (mesmo com "P" maiúsculo, para dar a importância devida ao idioma, e não um redutor "p" minúsculo como este acordo faz ao idioma) se o próprio acordo não prevê essa tão propalada unificação [...];
[...]
22 - no que respeita ao que está escrito no 9.º parágrafo do subcapítulo 5.1 do Anexo II, é de muito mau tom (para não dizer parcialidade) referir que apenas "o facto de a língua oral preceder a língua escrita,...", pois pelos poucos exemplos que já dei no ponto 2, no ponto 3, 3ª, e no ponto 6 podemos ver que não é só a língua oral precede a língua escrita, mas que o inverso também acontece(u) em muitos casos;
23 – em relação ao subcapítulo 5.2 do Anexo II, este apenas vem reforçar o que já foi dito acerca da dupla grafia. No que respeita ao sub-subcapítulo 5.2.4 só se pode considerar, no mínimo, o argumento aqui aduzido como falacioso. É que separadamente até parecem poucas palavras, mas juntando este exemplo ao que está no subcapítulo 4.1 e ao que eu exponho no ponto 2 são muito mais de 2.000 vocábulos. Outro dos factos que os autores do acordo omitem é que um falante médio utiliza cerca de 10.000 palavras e não o corpus de 110.000 aqui aduzido. Ou seja: na prática o que vai acontecer é que muito mais de 20% dos vocábulos usados no dia-a-dia da esmagadora maioria dos falantes de Português vão ter dupla grafia;
24 – relativamente ao argumento utilizado na alínea b) do subcapítulo 5.3 do Anexo II, “Eventual influência da língua escrita sobre a língua oral, …”, já é interessante a conveniência da utilização deste argumento. Mas nem mesmo com o exemplo que vem do outro lado do Atlântico, a alteração fonética da esmagadora maioria das palavras às quais retiraram as consoantes mudas não proferidas, os supostos eruditos em língua Portuguesa aprenderam que não é benéfico para o idioma a supressão das consoantes mudas. Conveniências…;
25 – na alínea c) do mesmo subcapítulo 5.3 do Anexo II está mais um motivo para a não supressão de acentos gráficos ou consoantes mudas. Como são palavras que um falante médio rarissimamente irá ler e/ou pronunciar ao longo da sua vida, decerto que as vai ler e/ou pronunciar incorrectamente…;
26 – é duma insensatez tal (para não utilizar outro adjectivo) aduzir o argumento que está na alínea d) do subcapítulo 5.3 do Anexo II quando quase tudo o que está neste acordo vem prejudicar essa aprendizagem. É precisamente por este motivo (entre outros) que no Brasil já quase ninguém pronuncia (ou escreve) a conjunção “mas”, mas usa o vocábulo “mais”… alguém pensou nisto???;
[...]
28 – no ponto 24 falei do exemplo que vem do outro lado do Atlântico. No sub-subcapítulo 5.4.2 do Anexo II vou falar do exemplo Português, em que a supressão do acento agudo do ditongo ei fez com que todas as palavras singulares contendo aquele ditongo se pronunciassem com a vogal “e” fechada. Não saberão os ditos peritos em língua Portuguesa que, se tivessem aprendido com o passado, num futuro breve a esmagadora maioria dos vocábulos com o ditongo oi passarão a ser pronunciados com o timbre fechado e não aberto como é actualmente???;
[...]
Como considerações finais, tenho a dizer que não é mau, mas sim péssimo para o Idioma Pátrio que este tenha sofrido três grandes alterações ortográficas a par de outras tantas mais reduzidas em menos de um século. Melhor dizendo: os bisavós escreveram duma maneira, os avós de outra, os filhos de outra e os netos ainda vão escrever de outra… e, sem grande esperança, espero que fiquemos por aqui… Além disso, e como ficou provado, mais de 20% (contas por baixo) dos vocábulos usados por um falante médio vão poder ser grafados à vontade de cada qual, o que em nada abona o Português junto da Comunidade Internacional, antes pelo contrário, contribui para o seu descrédito. Este descrédito é tanto mais evidente quanto em lado nenhum leio que este acordo é para honrar o Idioma Lusitano
Também gostaria de dizer que só agora estou a enviar estes factos, pois tenho estado a observar a pequena fracção que me chega às mãos do que tem vindo a acontecer com a degradação do Português, começando por este famigerado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa até ao acima citado Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, isto para ficarmos só por aqui…
Cordialmente,
João Carlos Cardoso da Silva Reis.»

29 fevereiro 2012

216 anos da Biblioteca Nacional de Portugal

«O Alvará régio de 29 de Fevereiro de 1796 fundou a Real Biblioteca Pública da Corte, a mais antiga antecessora formal da BNP. A primitiva instituição recebeu, como núcleo original, a Biblioteca da Real Mesa Censória, criada em 1768. O referido diploma conferiu-lhe a natureza de Biblioteca Pública, tendo a mesma sido instalada no Torreão Ocidental da Praça do Comércio (Terreiro do Paço).

Durante a primeira fase da sua existência, a Real Biblioteca beneficiou, além das dotações do orçamento régio, de doações privadas e de obras entradas por via da aplicação da primeira lei de depósito legal (1805), que tornou extensiva às tipografias a obrigatoriedade de depositarem um exemplar de todas as obras que imprimissem.

Com a vitória dos liberais e a extinção das ordens religiosas (1834), a Instituição foi transformada em Biblioteca Nacional de Lisboa, incorporando no seu acervo, por determinação oficial, a totalidade ou parcelas das livrarias de numerosos mosteiros e conventos. O afluxo de grandes colecções tornou imprescindível a sua transferência para um local mais espaçoso, tendo a escolha recaído no Convento de S. Francisco.

Durante os mais de 130 anos em que funcionou no Chiado, a BNL conheceu épocas de modernização e enriquecimento, bem como períodos sombrios e letárgicos. Devem salientar-se os esforços desenvolvidos no século XIX para absorver as colecções dos extintos estabelecimentos religiosos, organizar exposições bibliográficas e publicar catálogos de diversas colecções.

Na sequência da proclamação da República (1910) ocorreu um novo surto de incorporação de livrarias de congregações religiosas extintas. No período de 1920-1926, a Instituição conheceu uma fase de grande actualização biblioteconómica e de florescimento cultural promovido pelo chamado «Grupo da Biblioteca».

O crescimento das colecções e a necessidade de condições de conservação adequadas ao rico espólio à sua guarda tornaram imperiosa a construção de um edifício de raiz destinado a instalar condignamente a maior colecção bibliográfica portuguesa. Com projecto do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, as obras iniciaram-se em 1958, tendo a transferência para o edifício do Campo Grande ocorrido em 1969.

Na década de oitenta iniciou-se o processo de informatização da Biblioteca, concomitante com o projecto mais alargado de apoio às bibliotecas portuguesas nessa matéria, de que resultou a criação da Base Nacional de Dados Bibliográficos – PORBASE. A par da adaptação à evolução tecnológica, a Instituição continuou a enriquecer as suas colecções – com destaque para a criação de um Arquivo de Espólios –, tendo, também, desenvolvido significativas iniciativas nas áreas da normalização biblioteconómica, da preservação e conservação e das actividades culturais.

No início do presente século, a Instituição acompanhou a tendência internacional para a digitalização de fundos, tendo criado a Biblioteca Nacional Digital (BND) que se encontra em permanente crescimento e em articulação com instituições europeias.


Com mais de 200 anos, a BNP iniciou, em 2007, um processo de reestruturação que visa contribuir para o enriquecimento e divulgação do património bibliográfico nacional, bem como para modernizar, racionalizar e incrementar o seu funcionamento com vista a servir o público, a comunidade profissional, e os editores e livreiros.»

(Fonte: sítio da BNP)

25 fevereiro 2012

Sei que dormes em paz

Deste-me o nome e a lua
A lua não tem morada
Alumia qualquer rua
Mas só a mim me foi dada

Não entendo onde tu estás
Nem porque chegaste ao fim
Não entendo onde tu estás
Mas sei que dormes em paz
Descansas dentro de mim

Já nasci com a saudade
Nada mais herdei de ti
Deste-me o nome e a idade
Da lua quando nasci

Não sei se há lugar no céu
À minha espera ao teu lado
Não sei se há lugar no céu
O lugar que Deus me deu
Para viver é o Fado

("Fado da herança". Poema de João Monge para música de Alfredo Marceneiro)

17 fevereiro 2012

«É raro encontrar épocas em que a generalizada decadência dos valores seja tão vasta como hoje. Nas grandes crises do passado pode ter havido infracções generalizadas de preceitos morais ou discrepâncias graves acerca dos valores a defender mas não se punha em causa a bondade dos valores em si mesmos nem se podia admitir que uma sociedade pudesse viver sem eles. Houve lutas implacáveis em nome de sistemas de valores opostos entre si mas não descrença na sua eficácia ou na sua necessidade para a integração do indivíduo na sociedade e a preservação do bem comum. [...]
Hoje, porém, põe-se em causa a própria fundamentação teórica da escala de valores que herdámos do passado; essa dúvida estende-se a todo o globo terrestre porque afecta uma civilização, a europeia, e esta tornou-se universal. Não se trata só de verificar a ineficácia prática dos valores ou a incapacidade de qualquer instância moral suficiente para os ditar [...].
Pense-se nos valores transcendentais de bem, de beleza ou de justiça e nos mais políticos (isto é, relativos à polis) de liberdade, progresso, democracia, solidariedade, bem comum ou autoridade. Fala-se muito nestes ideiais mas os discursos não persuadem ninguém. Julga-se que quem mais os invoca é quem menos acredita neles. [...]
Uma análise global do mundo de hoje conduz, portanto, a uma visão terrivelmente pessimista do futuro.»

(José Mattoso, 2000)

15 fevereiro 2012

«Sobre as mulheres brrabas.
[...] que porquanto as mulheres que são bravas e de más linguas com sua soberba dizem muitas coisas malditas que não são, com que afrontam a muitas mulheres e homens de que se segem grandes damnos e brigas e diferenças e mortes e ferimentos. E de suas ruins linguas resultam grandes prejuizos que para isto se evitar; que nenhuma mulher nas praças nem nas ruas nem de suas... casas nem de suas portas ou genelas adoeste nem chame nenhuns nomes a nenhuma outra mulher de qualquer qualidade e condição que seja nem a nenhum homem sob pena [...] de 500 rs [...] ainda que seja compreendida em adoestar por acenos e remoques. E a que for compreendida em terceira vez será presa e da cadeia pagará a dita pena e além disso será enfreada com um freio na boca.»
Despacho da Câmara Municipal de Beja, Lv. 1º (1604-1735). In Arquivo de Beja. Vol. 15 (1958)

07 fevereiro 2012

«As mulheres portuguezas são singulares na formusura e proporcionadas no corpo, a côr natural dos seus cabellos é a preta, mas algumas tingem-n'os de côr loira; o seu gesto é delicado, os lineamentos graciosos, os olhos pretos scintillantes, o que lhes accrescenta a belleza; e podemos affirmar com verdade que em toda a peninsula as mulheres que nos pareceram mais formosas foram as de Lisboa; posto que as castellanas, e outras hespanholas arrebiquem o rosto de branco e encarnado, para tornarem a pelle, que é algum tanto ou antes muito trigueira, mais alva e rosada, persuadidas de que todas as formusuras são feias. O trajo feminino em Lisboa é o commum de toda a Hespanha, isto é o manto grande de lan ou de seda, segundo a qualidade da pessoa. Com elle cobrem o rosto e o corpo inteiro, e vão aonde querem, tão disfarçadas que nem os proprios maridos as conhecem, vantagem esta que lhes dá maior liberdade do que convem a mulheres bem nascidas e bem morigeradas.»

Viagem a Portugal dos Cavalleiros Tron e Lipomain, ca 1580, In. "A tradição : revista mensal d'ethnographia portugueza ilustrada. A. 4, n.º 7 (Julho 1902)

03 fevereiro 2012

A voz da maioria silenciada

Uma vez conhecida a notícia de que o recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém fez distribuir ontem à tarde uma circular interna na qual dá instruções aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico e para que os conversores sejam desinstalados de todos os computadores da instituição, uma onda de comentários percorreu a principal rede social da Internet.
O Dr. Graça Moura acaba de fazer o que a maioria dos portugueses há muito desejava ver feito por alguém com poder para isso, contrariando a velha máxima segundo a qual a maioria dos problemas não se resolve porque «quem quer não pode e quem pode não quer».
O movimento contra o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90) foi encabeçado, desde a primeira hora, por Vasco Graça Moura e pela nata dos intelectuais portugueses, desde linguistas, escritores e poetas a professores, historiadores, artistas plásticos, músicos, cientistas e jornalistas. As assinaturas para a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o AO90 estão a ser recolhidas há anos e crescem a "passo de caracol" devido à pouca esperança que os portugueses costumam ter no exercício da cidadania. No entanto, hoje pode ser o ponto de viragem. Todas as iniciativas contra o AO90 pareciam, até agora, votadas ao fracasso. Em conversas de café e em comentários no Facebook, o que predominava era a ideia de que nada valia a pena contra o rolo compressor dos interesses económicos e que todos os que discordam do AO90 acabariam, cedo ou tarde, por ceder, fosse pelo hábito, fosse pelo medo de retaliações (mormente na Administração Pública onde o receio de processos disciplinares por desobediência é fundado) fosse para não ir contra interesses instalados. Ouvi numerosas vezes dizer que toda esta luta não era mais do que um descargo de consciência.

Para surpresa de muitos, o Dr. Vasco Graça Moura fez o que não é costume fazer-se: ser coerente. Sem rodeios, deu ordens, na instituição a que preside, para que o Acordo Ortográfico não seja aplicado. Nada de paninhos quentes, nada de politicamente correcto, nada da vulgar "conversa da treta" com que se sempre enganam os tolos. Assumiu o lugar e, ao contrário do que é normal, agiu de acordo com o que tinha andado a defender.

Esta medida teve o efeito de um rastilho: trouxe o acordo para a agenda mediática com uma dimensão inédita e está a provocar uma onda de alívio e esperança nas redes sociais. Até aqui, todos os que estão contra o AO90, todos os que se têm sentido injustiçados e até violentados pela obrigação de o aplicar nos seus locais de trabalho, todos os que se sentem espetados na alma de cada vez que lêem "espetador", todos nós - e somos muitos! - nos sentíamos como mudos esbracejando para avisar de um incêndio.

O Dr. Vasco Graça Moura acaba de dar voz à maioria silenciada dos portugueses.

02 fevereiro 2012

Versão de "O Mostrengo" (de Fernando Pessoa), dedicada ao "corretor"/"conversor" LINCE

Com a devida vénia à autora, Madalena Homem Cardoso.

«O “corretor” lince que eu não quis instalar
Varreu o ecrã, ergueu-se a voar;
À roda do texto veio três vezes,
Roubou três letras a chiar,
E disse: «Quem ousa desafiar
As minhas razões que nem eu entendo,
Meu lápis invisível infecundo?»
E ao leme da tecla eu disse, tremendo:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

«De quem são as letras de que troço?
De quem o linguajar que leio e ouço?»
Disse o “corretor” lince, e arrotou três vezes,
Três vezes arrotou imundo e grosso.
«Quem vem escrever como não posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
Instalado no medo, mas do nada oriundo?»
E ao leme da tecla tremendo, eu disse:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

Três vezes do teclado as mãos ergui,
Três vezes ao leme de mim escrevi,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Tremo com fúria, sou mais do que eu:
O que este Povo escreve não é teu;
Mais que o raivoso lince que me a alma pisa
Mutilando palavras furibundo,
Mandam as raizes que erguem a divisa,
Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

(Madalena Homem Cardoso, a partir de “O Mostrengo” de Fernando Pessoa”)

26 janeiro 2012

«A educação com que se generalisasse a cultura das belas artes dava como resultado, em meio século, a regeneração de um povo.» (Niccolò Tommaseo, 1802-1874)

06 janeiro 2012

Escravos e assalariados (2)

«Karl Marx, um visionário, percebeu que se pode controlar muito melhor um escravo convencendo-o de que ele é um empregado.»
(Nassim Nicholas Taleb)

02 janeiro 2012

FELIZ 2012

Quase toda a gente com quem falo está a expressar votos de um 2012 «o melhor possível». Claro que sim, 2012 vai ser um ano difícil, vamos ter menos dinheiro, fazer menos férias (os que ainda puderem fazer férias...), comprar menos coisas e mais baratas, saír menos à noite... tudo isso é verdade e é péssimo. Com a bolsa reservada à sobrevivência, gastaremos menos no supérfluo mas, se calhar, também em outros bens essenciais ao espírito como os livros, os CD, o teatro, o cinema, os concertos. E isto é certo, é mau e não há votos de ano novo que alterem a dura realidade dos factos.

Mas... há sempre um "mas"...
Se desejarmos um Feliz 2012, estamos a dizer alguma bizarria? 2012 vai ser um ano INFELIZ? Quem disse? O que é que o dinheiro tem a ver com a felicidade? Quantas e quantas coisas que fazem a nossa felicidade não se compram? Que tal recuperar a antiga tradição de visitar e receber em casa? Que tal ir mais à biblioteca pública e levar livros emprestados? E umas sessões de cinema em casa com os amigos?
Haja saúde, a família junta e bem, o conforto dos amigos. Isso sim, é felicidade e não há p**** de dinheiro que compre isso!
UM FELIZ 2012 para todos os visitantes da biblioteca de Jacinto.

23 dezembro 2011

Zeca Afonso - Canção de Embalar

Com os votos de Feliz Natal para todos os visitantes da biblioteca de Jacinto, a mais bonita canção de Natal que conheço e que nem foi escrita para ser uma canção de Natal.

16 novembro 2011

Canta!

Com a devida vénia ao Luís Neves, que deixou este poema na minha caixa de comentários.

CANTA

Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.

Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.

E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.

Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.

E canta se te falta a liberdade.

Joaquim Pessoa

02 novembro 2011

Poema de agradecimento à corja (Joaquim Pessoa)

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada. Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade. E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade. Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço. E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são. Para que não sejamos também assim. E para que possamos reconhecer facilmente quem temos de rejeitar.

Joaquim Pessoa

20 outubro 2011

Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal fez vinte anos

A Área de Música da Biblioteca Nacional de Portugal fez vinte anos no dia 1 de Outubro, não por acaso Dia Mundial da Música.
Para assinalar a efeméride o Grupo Vocal Arsis apresenta-se hoje, pelas 18h30, no auditório da Biblioteca Nacional, com um concerto de música portuguesa dos séculos XVII, XX e XXI. Serão executadas obras de Estêvão Lopes Morago, D. João IV, Diogo Dias Melgaz, Paulo Brandão e Filipe Pires.


09 agosto 2011

Domenico Modugno - Dio, come ti amo

Muito que eu gosto de canção italiana!
Uma vez ouvi alguém que dizia: gosto da música italiana, de toda, mesmo da má, lembra-me sempre carros descapotáveis e mulheres de lenços às bolinhas.
Pois passa-se exactamente o mesmo comigo. Adoro música italiana, adoro aquela lamechice, adoro aquela língua, adoro tudo.
Esta é do ano em que nasci.



Nel cielo passano le nuvole
Che vanno verso il mare
Sembrano fazzoletti bianchi
Che salutano il nostro amore.
Dio, come ti amo!
Non è possibile
Avere tra le braccia
Tanta felicità.
Baciare le tue labbra
Che odorano di vento
Noi due innamorati
Come nessuno al mondo.
Dio, come ti amo!
Mi vien da piangere.
In tutta la mia vita
Non ho provato mai
Un bene così caro
Un bene così vero
Chi può fermare il fiume
Che corre verso il mare.
Le rondini nel cielo
Che vanno verso il sole
Che può cambiar l'amore
L'amore mio per te.
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!
Dio, come ti amo!

Há lá língua mais bonita?...

04 agosto 2011

Casta Diva

Em miúda cantava-a no duche, aproveitando a acústica da casa-de-banho. Sempre gostei de a ouvir pela Callas, a minha preferida até ao dia em que a ouvi pela Bartoli.
Sem palavras. Escutai apenas.

12 julho 2011

MOZART - Batti, batti, o bel Masetto

Neste video apelo para a especial tolerância do caros visitantes da biblioteca de Jacinto em relação à grande gaffe lá para o meio...



Audição de alunos de canto do Professor Fernando Serafim, em 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos

MOZART - Porgi amor



Audição de alunos do Professor Fernando Serafim, dia 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos.

10 julho 2011

BELLINI - Vaga luna

Enfim, ganhei coragem para colocar uma audição minha no youtube. Resta-me agradecer a tolerância dos visitantes da biblioteca de Jacinto.



(Audição de alunos de canto do Professor Fernando Serafim, dia 9 de Julho de 2011, no Museu da Música (Lisboa). Ao piano, a Sr.ª D. Maria Helena Matos)

07 julho 2011

(Capa de Stuart Carvalhais para É bonito, não é?!... / versos e música de António Cândido Ferreira)

Que rapaz tão catita
Lá na Baixa encontrei!
Cara, assim, tão bonita,
Eu nunca namorei!

Oh, que lindo cabelo
E que olhar sedutor!
Que sorriso tão belo
E tão encantador!...

É bonito, não é?!...
Diga, faça favor!
Tão bonito que até
Eu receio, olaré,
Que ele tenha outro amor...

É bonito não é?!...
Ninguén há que o não diga!
Fazer dele o meu "Zé"...
Oxalá eu consiga!

É tão fino e galante
Que outro assim, nunca vi!
Todo ele é elegante,
Todo ele sorri!...

Quando o vejo, meu Deus!
Que desejos sem fim,
De ter os olhos seus,
Sempre junto de mim!...

É bonito, não é?!...
...

Portugal

Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


(Alexandre O'Neill)

26 junho 2011

A reminder of the important things in life

Recebido por e-mail.
Difundido para todos os amigos da Biblioteca de Jacinto.
Gostei. Espero que também gostem.

12 junho 2011

Ó, meu rico Santo António,
Segura o meu avião,
Aplaca ventos e brumas
E pousa-o com a tua mão.

A noite de Santo António
É noite santa e boa
Pr'atravessar o oceano
E aterrar em Lisboa.

01 junho 2011

Rachmaninov Piano Concerto No.2 in Rhapsody.

Já aqui publiquei este concerto de Rachmaninov, que há anos atrás me "reconciliou" com Deus. Mas nunca tinha encontrado esta cena do filme Rhapsody, com Elizabeth Taylor, onde pela primeira vez o ouvi, teria os meus dez anos e que nunca esqueci.

28 maio 2011

MADREDEUS - Haja o Que Houver



Haja o que houver eu estou aqui
Haja o que houver espero por ti
Volta no vento, ó meu amor!
Volta depressa por favor.

Há quanto tempo já esqueci
Porque fiquei longe de ti
Cada momento é pior
Volta no vento por favor!

Eu sei, eu sei
Quem és para mim
Haja o que houver espero por ti

18 maio 2011

«Ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP» [FMV]

«Ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP» [FMV]

Bruxelas, 14 de Maio de 2011

Ex.mo Senhor
Dr. José Carlos Abrantes

Senhor Provedor do Telespetador [sic] da RTP,

Prometo a V. Ex.ª que tentarei evitar comentários demasiado técnicos, pedindo desculpa por eventuais imprecisões terminológicas, que se justificam (parece paradoxo, mas garanto que não é) por ser meu único objectivo explicar a leigos em fonologia e fonética (áreas diferentes do saber) e em grafemática e grafética (idem) o erro de se chamar “telespetador” a um telespectador. De antemão, portanto, as minhas sinceras desculpas.

Gostaria de chamar a atenção para o facto de a designação do cargo de V. Ex.ª violar as regras mais elementares quer dos compostos morfológicos da língua portuguesa (1), quer das regras do processo do vocalismo átono do português europeu (2), devendo V. Ex.ª rever com carácter de urgência a designação, pois existe solução para este problema (3).

(1) A palavra telespectador (com C) designa “Que ou aquele que assiste a um espectáculo de televisão”. Esta acepção (do dicionário em linha da Priberam) parece ser adepta da tese segundo a qual o elemento tele- é desconsiderado enquanto radical grego, preferindo afirmar-se que provém da palavra “televisão”. Não sou adepto desta tese, mas não é aqui o lugar para debater matérias do foro académico. Contudo, considerando o radical (espect), que sucede a um prefixo (tel) e precede uma vogal temática (a) e um sufixo (dor), peço a V. Ex.ª que se concentre no radical. ‘Espect’ explica-se pelo latim spectātor. Contudo, V. Ex.ª é “Provedor dos Telespetadores”. Teremos então um inexistente radical ‘espet’, que não se explica pelo latim spectātor, mas pelo germânico speuta, que deu palavras portuguesas como “espeto” (espet + o) e alemãs como Spieß .

(2) Direi a V. Ex.ª que, segundo o processo do vocalismo átono do português europeu, i.e., o processo que ocorre em português europeu, citando de cor palavras de Esperança Cardeira (poderei enviar mais tarde as referências a V. Ex.ª), “as vogais não acentuadas sofreram, na norma do português europeu, um acentuado processo de enfraquecimento”. Ou seja: perante “telespetador” é previsível que V. Ex.ª (ou qualquer outro falante de português europeu) pronuncie [tɛlɛʃpɨtɐ'doɾ] em vez de [tɛlɛʃpɛtɐ'doɾ].

(3) «telespectador/telespetador» são duas acepções aceites (princípio da facultatividade do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990) em português europeu, como verificará no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de João Malaca Casteleiro (caso V. Ex.ª não saiba, co-autor e negociador do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), publicado pela Porto Editora. Gostaria de perguntar a V. Ex.ª qual a razão de optar pela segunda e não pela primeira. A primeira é válida, conforme poderá verificar na página 555 da publicação que acabo de mencionar.

Tenho outros comentários sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, mas, para já, limito-me a esta matéria do “telespectador” vs. “telespetador”.

Para o esclarecimento de qualquer dúvida, encontro-me ao inteiro dispor de V. Ex.ª

Agradeço toda a atenção dispensada,
E envio os meus cordiais cumprimentos.

Francisco Miguel Valada

Intérprete de Conferência profissional junto das Instituições da União Europeia e autor do livro Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009), do artigo “Os lemas em ‘-acção’ e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990″, Diacrítica – Série Ciências da Linguagem, n.º 24/1, pp. 97-108, Braga: Universidade do Minho, 2010 e de artigos na imprensa sobre a matéria em apreço.

06 maio 2011

Creio

Não conhecia este poema de Natália Correia. Descobri-o hoje e adorei. Quero partilhá-lo convosco.


Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén

(Natália Correia)