Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

11 agosto 2014

Banquetes de Platão VI

«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)

Sete anos e meio depois da primeira receita, e quase dois desde a quinta, eis que me decido a publicar a sexta. Desta vez é de bifes de atum mas o interessante aqui é o tempero. Nunca tinha usado zimbro. Na verdade, para mim, o zimbro era a erva que o Panoramix usa para fazer a poção mágica. Vi um frasquinho com bagas de zimbro na prateleira do supermercado, fiquei curiosa e comprei.
Em casa, ao abrir o frasco, senti um intenso odor a resina e descobri, num livro sobre especiarias, que o zimbro é o ingrediente principal do gin mas que também serve como tempero de carnes. Bem, o atum não é carne mas quase. Resolvi fazer a experiência e superou as expectativas.

BIFES DE ATUM COM ZIMBRO E PIMENTA ROSA


Esmaguei no almofariz bagas de zimbro, pimenta rosa, sal marinho, azeite e umas gotas de vinagre. Marinei os bifes de atum nesta mistura e grelhei-os na chapa bem quente, deixando-os tostadinhos por fora e ligeiramente mal passados por dentro. Ficou delicioso!

30 julho 2014

Sinfonia da ópera "La Spinalba" de Francisco António de Almeida - "Os Mú...

Provavelmente um dos meus compositores preferidos. Não, não só dos portugueses. De todos os lugares e de todos os tempos. Assim assinalo o meu regresso às publicações na biblioteca de Jacinto.

23 maio 2014

Oh, Deus d'Ourique, vêm ahi os castelhanos!

«Ega porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.
Alencar, patriota á antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu alli apenas "um dos paradoxos do nosso Ega". Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar e marítima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as allianças que teríamos, a troco das colonias - das colonias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, n’um momento de guerra europea, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o creado, apresentando-lhe a travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a salvação do paiz, n’essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
- N’isto: no ressuscitar do espirito publico e do génio portuguez! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscripção, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e intelligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outr’ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... Oh Deus d’Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, n’um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprar-se á America - e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas do século XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de gallegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas cousas me põe o coração negro! E como vocés podem fallar n’isso, a rir, quando se trata do paiz, d’esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de accordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d’outra cousa, fallemos de mulheres!»

(Eça de Queiroz - Os Maias)

14 maio 2014

Joly Braga Santos: 90 anos

Quando, em Janeiro de 2009, trabalhei no processo de doação do espólio de Joly Braga Santos à Biblioteca Nacional, estava longe de imaginar o quanto este acontecimento me iria marcar.
Eu não posso dizer que conhecesse a música de Joly Braga Santos. Tinha-a ouvido, decerto, uma vez ou outra, na Antena 2, com pouca atenção, das poucas vezes que a “rádio clássica” passava música de compositores portugueses, mas, não possuindo nenhum disco deste compositor, a verdade é que não posso dizer que conhecia a sua música. Quando me vi na contingência de tratar do processo com a filha mais velha do compositor, achei por bem ouvir alguma coisa da sua música para não passar pela vergonha de não conhecer nada da obra de um dos compositores mais importantes do século XX e – bem pior – passar por essa vergonha perante a sua filha.
A descoberta da música de Joly Braga Santos foi, deste modo, uma feliz contingência. A sua produção contempla mais de 170 obras que abrangem praticamente todos os géneros possíveis: música para orquestra de sopros, de cordas e sinfónica (é justamente considerado o maior sinfonista português de sempre e um dos maiores do século XX), música de câmara, música coral a capella e coral sinfónica, música vocal de câmara, música para teatro, óperas, bandas sonoras, música para piano e arranjos de obras de outros compositores. Só não se dedicou à música sacra tendo, ainda assim, composto um Requiem à memória de Pedro de Freitas Branco. Com uma obra tão vasta e diversificada, é lamentável que apenas uns dez por cento estejam gravados.
Mas falava da minha experiência pessoal. Descobrir a música de Joly Braga Santos foi uma feliz contingência que acompanhou a igualmente feliz descoberta da sua genialidade e da sua personalidade muito particular, durante as longas conversas que mantive com a Piedade, nos dias em que preparei o inventário e transporte do seu espólio. Um homem absolutamente genial, que compunha como respirava, sem nunca ter apresentado nenhuma daquelas idiossincrasias insuportáveis dos génios. Todos os que o conheceram sem referem a ele como um génio musical que mantinha, não obstante, uma simplicidade e ternura enternecedoras e uma amor incondicional pela família e pelas coisas simples que enriquecem a alma.
A música de Joly Braga Santos é maravilhosa e só o azar de nascer português lhe vedou uma maior projecção no panorama internacional onde, ainda assim, é mais conhecido do que em Portugal.
Pouco depois de receber a encomenda de uma ópera a estrear na “Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura”, morreu, em sua casa, aos 64 anos. Cedo de mais. Hoje, 14 de Maio, poderia estar ainda vivo a celebrar o 90ª aniversário. Celebramos nós. Os grandes génios não morrem, apenas deixamos de os ver.

24 abril 2014

Em 24 de Abril

«Desde que reste uma injustiça que seja na terra, nada está feito».
(Fernando Pessoa, O Eremita da Serra Negra)

17 abril 2014

Veja as diferenças

Há uma diferença essencial, fundamental, estrutural entre o período que estamos a viver e o que se vivia há quarenta anos.
Em 1974 Portugal era uma ditadura caduca anacrónica numa Europa democrática e moderna. Olhava-se para fora e via-se um futuro promissor.
Hoje, Portugal é uma ditadura modernaça às ordens de uma Europa saudosista de ditaduras.
Olha-se para fora e vê-se um passado de terror.

12 março 2014

Operação bem sucedida, paciente morto - António Cluny

Este texto saíu no i online, há um ano, e, aparentemente, já não está disponível.

Operação bem sucedida, paciente morto - António Cluny

1. É importante, quando se gosta de um livro, termos em mente que não o devemos emprestar, a não ser a quem tenhamos a certeza de que o vai devolver.
Vem isto a propósito de “História de Um Alemão”, de Sebastian Haffner, que emprestei, não me lembro a quem, e, por não encontrar em livraria um exemplar na nossa língua, vi-me obrigado a comprar uma tradução inglesa, “Defying Hitler”.
As frases que vou citar são tradução minha, a partir da referida versão, mas creio não ter alterado o sentido primacial do texto.
“No início de 1930, a Müller sucedeu, como chanceler, Heinrich Brüning. [...] Para provar o absurdo dos pagamentos devidos pelas reparações de guerra, levou-os ao extremo e conduziu assim a economia da Alemanha à beira do colapso, levando muitos bancos a fechar as suas portas e o número dos desempregados a atingir os 6 milhões. Para manter o orçamento equilibrado, o seu férreo espírito sombrio impôs o tacanho método do bom pater familias: “Apertem os vossos cintos.”
A cada seis meses, cadenciadamente, apareciam novos “decretos de emergência”, reduzindo cada vez mais os salários, as pensões, as prestações sociais e, finalmente, até mesmo os proventos privados e as taxas de juro.
Cada um destes decretos era a consequência lógica do anterior e, de cada vez, Brüning, cerrando os dentes, ia impondo essa lógica dolorosa [...]
Brüning não conseguia oferecer mais ao país do que maior pobreza, a redução da liberdade e a garantia de que não havia alternativa. Na melhor das hipóteses, a sua política consistia apenas num repetido apelo à austeridade. Os seus sucessos - e indubitavelmente teve alguns - podiam sempre ser descritos pelo seguinte slogan: ‘Operação bem-sucedida, paciente morto.’”
Sebastian Haffner não atribuiu a Brüning o aparecimento e a influência do nazismo na sociedade alemã, é claro, mas não deixa de sugerir a importância que, na vitória deste, tiveram as suas medidas económicas e financeiras, e as que, de natureza política, para as impor, limitaram as liberdades, debilitando assim a já então frágil democracia alemã.
2. Em Portugal não se vê, por ora, qualquer indício explícito do surgimento de alguma força de extrema- -direita ou movimento populista radical que possa, com sucesso, aproveitar o descontentamento que a ineficaz dureza das medidas de austeridade, aplicadas em nome da troika vêm produzindo entre os cidadãos.
Elas aparecem, contudo, cada vez mais, e aos olhos de muitos, como uma espécie de injustos “pagamentos de guerra”, de um conflito que o nosso povo não provocou nem infligiu a ninguém.
Acresce que, no nosso caso, não se pode dizer, em rigor, que a dívida ou o deficit portugueses tenham penalizado outro povo que não o nosso e, pelo contrário, começa a ser perceptível que eles têm constituído até um bom negócio para muitos interesses estrangeiros.
A memória histórica não é curta. Ainda estão vivas e activas várias gerações de portugueses que viveram sob a ditadura e sabem - têm conseguido transmitir às que lhe sucederam - que a miséria forçada e o autoritarismo não são o caminho para o fim das dificuldades actuais.
O problema não é pois, de imediato, o do regresso ao fascismo.
A angústia colectiva dos portugueses reside pois no facto de não vislumbrarem uma alternativa séria, em que acreditem e que os mobilize para pôr fim ao empobrecimento que alastra e ao desânimo que os paralisa, degradando a democracia e assinando o óbito da economia.

http://www.ionline.pt/opiniao/operacao-bem-sucedida-paciente-morto

07 março 2014

Crónica - Boaventura Sousa Santos

Esta crónica tem um ano.
 
Crónica | Visão 7 Março 2013
Boaventura Sousa Santos

A mãe de todas as mensagens das manifestações do passado fim de semana foi a afirmação da vida contra a morte. Uma afirmação com três nomes: dignidade, democracia e patriotismo. E uma canção, onde coube todo o país excepto o governo. Sentindo um perigo e uma ameaça viscerais, os portugueses recusam-se a deixar de gostar de si e do seu país. Vivem um momento de intensa inteligência intuitiva que está além e aquém do que os discursos e representações oficiais dizem deles. Recusam-se a aceitar que uma vida honesta feita de muito trabalho e estudo possa ser apelidada de preguiçosa, leviana e aventureira, que os impostos e os descontos pagos ao longo da vida tenham sido em vão, que quem menos pagou seja quem é mais protegido num momento de dificuldade colectiva. Recusam-se a aceitar que a democracia seja uma máquina de triturar a esperança, um moinho que só sabe moer o moleiro, uma farsa onde só são reais os fios que sustentam as marionetas, uma engrenagem encalhada num parlamento à beira-mar enterrado. Recusam-se a aceitar que os representantes eleitos pelo povo representem exclusivamente os interesses de credores predadores, que os governantes tenham outra pátria que não a dos governados, que a riqueza do país e o bem-estar dos cidadãos se transformem em penhora de um futuro hipotecado, que o roubo deixe de o ser apenas por estar institucionalizado e cotado internacionalmente. Recusam-se a aceitar que um governo nacional se comporte como a comissão liquidatária do país, reduza a história e a cultura a números, de que aliás retira tantas previsões quantas imprevisões, viaje às escondidas pelo país e só fale em público quando o público é estrangeiro.

Esta inteligência intuitiva, que afirma a dignidade, a democracia e o patriotismo, permite entender o que parece inexplicável: que o governo seja indigno, apesar de ocupar instituições dignas; antidemocrático, apesar de ter sido eleito democraticamente; e antipatriótico, apesar de se dizer nosso ante outros países. A inteligência intuitiva não dispensa razões nem desconhece riscos, mas tem com umas e outros uma relação indirecta ou fractal. Tem assim uma leveza traiçoeira que torna o seu tratamento político complexo. Eis algumas das razões. Cerca de 20% da receita fiscal vai para pagar juros (por cada 100 euros, 20 vão para os credores); pagamos em juros mais do que gastamos com a educação (108%) e 86% do que gastamos com a saúde; os juros representam 15% da despesa efectiva total do Estado; a política de austeridade aniquila os devedores até ao ponto de nada mais lhes poder tirar senão a vida nua que ainda lhes restar; se propuséssemos uma renegociação da dívida e não pagássemos juros durante o período de negociação (moratória), o nosso orçamento estaria equilibrado e seria possível libertar recursos para investimento e criação de emprego.

Quais os riscos? Se a política actual se mantiver, os portugueses passarão os próximos trinta anos a transferir a sua poupança para o exterior; com o ritmo migratório de 40.000 pessoas por ano, na grande maioria jovens e muitos deles altamente qualificados, daqui a dez anos Portugal será um imenso deserto com balões Google de resorts para turistas. Mais do que riscos, estas são certezas. Contra elas, há que ponderar os riscos da moratória. Portugal ficará sem acesso aos mercados? Mas não é esta a situação actual? O que aconteceu com a Islândia? Os credores, confrontados com uma ameaça credível de moratória, serão rígidos ou negociarão receber alguma coisa em vez de nada? A UE deixará cair definitivamente a periferia, como tem vindo a fazer, ou entenderá finalmente que a crise do Sul da Europa só é grave porque há um Norte que se alimenta dela e dispõe de uma moeda apenas coerente com a sua economia? Ante riscos de desastre e certezas desastrosas, a inteligência intuitiva não hesita.

O hino à vida que se ouviu pelo país inteiro foi uma moção popular pela demissão do governo. Parafraseando o que Humberto Delgado disse sobre o que faria de Salazar se ganhasse as eleições: obviamente, demitam-se!


Boaventura Sousa Santos

25 fevereiro 2014

Ficou vazio o teu lugar à mesa.
Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio,
as visitas são desejadas apenas
a outras mesas.
Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.

No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.

(Maria do Rosário Pedreira)

24 fevereiro 2014

Há seis anos

Neste dia, há seis anos, vi o meu Pai pela última vez. Nem eu nem ele imaginávamos que era a última vez. No dia seguinte ele já não acordou e eu também não, porque nessa noite não dormi. O Sol nasceu como todos os dias, era segunda-feira e as filas formaram-se à entrada de Lisboa, como todos os dias, milhões de pessoas levantaram-se para ir trabalhar como todos os dias, as lojas abriram, as ruas encheram-se de gente, nasceram crianças, apaixonados viram-se pela primeira vez, namorados desentenderam-se, casais divorciaram-se, houve quem começasse nesse dia um novo emprego ou se despedisse para começar uma nova vida noutro lado. As ameixoeiras começaram a dar flôr nesse dia, os pássaros reuniram-se a chilrear, nos ramos das árvores, às cinco tarde como nos outros dias, a vida seguiu o seu curso normal sem que ninguém percebesse que havia menos uma pessoa nessa azáfama diária. Há seis anos, no dia de hoje, estive com o meu Pai pela última vez. Quando compreendi que não voltaria a vê-lo tentei visualizar os próximos dez, vinte, trinta anos, talvez mais até e tentei visualizar esses anos todos sem ele. Outro tanto tempo que já tinha vivido. Metade da minha vida. Toda uma história por partilhar. Todas as coisas de que não falava com mais ninguém ou que não falava da mesma maneira. Há seis anos, neste dia, falei com o meu Pai pela última vez. Conversas que não acabavam ou que continuavam sempre no encontro seguinte. A mesma conversa em contínuo, retomada no ponto em que tinha sido deixada. Conversas que não vou retomar. Há seis anos, neste dia, beijei o meu Pai pela última vez. Como se fosse ontem. Como se fosse hoje. O tempo não passou.

31 dezembro 2013

António Gedeão - Poema do alegre desespero (para 2014)

Procurei uma imagem de esperança para vos oferecer como votos para 2014. Procurei um poema animador, procurei uma frase, procurei uma música. Nada conseguiu exprimir o meu sentimento contraditório de optimista emocional - que sou - e pessimista racional - a que a realidade me obriga. Foi então que encontrei este poema do alquimista das palavras, António Gedeão. Não consigo acrescentar nada. Quanto à pergunta final, responda quem souber.
Para todos os visitantes da Biblioteca de Jacinto, os meus votos de um 2014 melhor do que as mais optimistas expectativas. E que caia, que caia este ano, que caia o mais depressa possível, que caia o que já tarda em cair, o que já devia ter caído, que caia o nosso triste desespero.

Poema do alegre desespero - António Gedeão
Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

24 dezembro 2013

Boas Festas

Para todos os amigos da biblioteca de Jacinto, os votos de um Feliz Natal, na melhor companhia.


Robert Campin (1375-1444) - Adoração dos pastores, 1420

20 dezembro 2013

"O roubo do presente" José Gil

Este texto tem um ano e o dom de estar ainda mais actual.
 
"O roubo do presente" José Gil
(Visão)

"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspectivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e colectivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstracta do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direcções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Actualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efectiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espectral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de acção. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

18 dezembro 2013

Leituras (3)

«Il arrive qu'un amour qui ne peut avoir lieu dévore l'âme
(Pascal Quignard - Vie secrète)