Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
(Alexandre O'Neill)
14 agosto 2014
No dia da Batalha de Aljubarrota
13 agosto 2014
O Bibliotecário Anarquista explica porque a Internet não substitui as bibliotecas
As quinta e sexta razões porque a Internet não substitui as bibliotecas. Depois destas, o bibliotecário anarquista parece ter desistido de publicar as restantes quatro razões. Talvez por não ter gostado da sexta. Em todo o caso, deixo-vos a fonte para o texto original, da American Library Association, aqui.
5. Pode o Estado comprar apenas um e-book e distribui-lo por todas as bibliotecas universitárias?
Sim, e nós podemos também ter apenas uma escola secundária nacional, uma universidade nacional, e um pequeno número de professores universitários, que irão ensinar toda gente pela Internet. (…)
Desde 1970 cerca de 50.000 títulos académicos foram publicados anualmente. Dos cerca de 1,5 milhões de títulos publicados desde então apenas alguns milhares estão disponíveis. Dos títulos publicados antes de 1925 (títulos que muito provavelmente já caíram no domínio público) apenas 20.000 estão disponíveis. Por quê? Se não existem nenhumas restrições de copyright que façam os preços elevar-se. Por último, os vendedores que fornecem os e-books permitem apenas a existência de uma cópia por biblioteca. Se o leitor x está a ler o e-book, o leitor y tem de esperar que o x o “devolva” para aceder ao seu conteúdo…
5. Pode o Estado comprar apenas um e-book e distribui-lo por todas as bibliotecas universitárias?
Sim, e nós podemos também ter apenas uma escola secundária nacional, uma universidade nacional, e um pequeno número de professores universitários, que irão ensinar toda gente pela Internet. (…)
Desde 1970 cerca de 50.000 títulos académicos foram publicados anualmente. Dos cerca de 1,5 milhões de títulos publicados desde então apenas alguns milhares estão disponíveis. Dos títulos publicados antes de 1925 (títulos que muito provavelmente já caíram no domínio público) apenas 20.000 estão disponíveis. Por quê? Se não existem nenhumas restrições de copyright que façam os preços elevar-se. Por último, os vendedores que fornecem os e-books permitem apenas a existência de uma cópia por biblioteca. Se o leitor x está a ler o e-book, o leitor y tem de esperar que o x o “devolva” para aceder ao seu conteúdo…
6. Ei amigo! Já te esqueceste dos leitores de e-books?...
“A maioria de nós já se esqueceu do que foi dito em tempos sobre o microfilme («vamos reduzir as bibliotecas para o tamanho duma caixa de sapatos») ou quando a televisão educativa foi inventada («no futuro vão ser necessários poucos professores»). Tente obrigar um leitor a utilizar um e-book mais de meia hora. Dores de cabeça e fadiga visual serão provavelmente os melhores resultados que conseguirá. Além disso se tiver de ler mais de duas páginas o leitor irá certamente imprimir o texto…”
…
Esta razão, sinceramente, não me convence… Fico na mesma. “So what?...”
“A maioria de nós já se esqueceu do que foi dito em tempos sobre o microfilme («vamos reduzir as bibliotecas para o tamanho duma caixa de sapatos») ou quando a televisão educativa foi inventada («no futuro vão ser necessários poucos professores»). Tente obrigar um leitor a utilizar um e-book mais de meia hora. Dores de cabeça e fadiga visual serão provavelmente os melhores resultados que conseguirá. Além disso se tiver de ler mais de duas páginas o leitor irá certamente imprimir o texto…”
…
Esta razão, sinceramente, não me convence… Fico na mesma. “So what?...”
12 agosto 2014
O Bibliotecário Anarquista explica porque a Internet não substitui as bibliotecas
Não vou publicar um post por dia com as dez razões porque a Internet não substitui as bibliotecas, já que se trata de revisitar um blogue antigo que está disponível, ainda, para quem o quiser ler. E bem merece. Mas vou publicá-las todas, com a devida vénia, não vá o Adalberto Barreto decidir retirar o seu blogue «O bibliotecário anarquista» do nosso convívio. Desde já, as segunda, terceira e quarta razões porque a Internet não substitui as bibliotecas.
2. A agulha (a sua pesquisa) num palheiro (a Web)
«A Internet é como uma extensa biblioteca por catalogar. Se utilizarmos o Hotbot, o Lycos, o Dogpile, o INFOSEEK, ou qualquer outro motor de busca ou de meta dados não estamos, na verdade, a pesquisar a Internet inteira. Os motores de busca prometem frequentemente pesquisar e recuperar tudo mas na verdade não o fazem. Por outro lado, o que pesquisam não tem em conta actualizações diárias, semanais, ou ainda mensais, independentemente do que anunciam. Se um bibliotecário disser: «aqui estão 10 artigos sobre nativos americanos, temos mais 40 mas para já não o deixamos ver. Vamos esperar que encontre noutra biblioteca», nós mandamo-lo àquela parte. Na Internet isto acontece com frequência e ninguém se importa»
3. Não existe controlo de qualidade
Sim, precisamos da Internet, mas para além de toda informação científica, médica e histórica, a Net é também um poço cheio de lixo. Quando os jovens cibernautas não se estão a dedicar à educação sexual através de sites XXX [que por sinal acho muito bem!], estão provavelmente a aprender política através da freeman Web page, ou a bondade das relações inter-étnicas através do site do Ku Klux Klan, ou pior ainda, Biblioteconomia avançada através do Bibliotecário Anarquista. Não existe, portanto, controlo de qualidade na Internet e não parece que alguma vez venha a existir. Ao contrário das bibliotecas onde a imprensa cor-de-rosa não entra ou entra raramente, a vaidade e o ego são muitas vezes o fio condutor da Net [e este weblogue é disso um exemplo flagrante] onde qualquer tolo pode pôr online qualquer espécie de dejecto tóxico sem o menor problema.
4. Aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal
«Uma das grandes conquistas dos leitores nas bibliotecas tem sido o acesso online aos jornais eletrónicos. Contudo os magníficos sites que disponibilizam os textos completos, nem sempre o fazem de forma “completa”. E aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal.
Assim:
- Os artigos nestes sites são muitas vezes incompletos e entre outras lacunas não costumam apresentar “notas de rodapé”.
- Tabelas, gráficos e fórmulas também não costumam surgir de forma legível;
- Os títulos dos jornais online mudam muitas vezes sem qualquer espécie de aviso;
- Uma biblioteca pode começar com x títulos em Setembro e acabar com Y títulos em Maio. O problema é que esses títulos não são os mesmos que o pacote Setembro-Maio.
- Embora a biblioteca possa ter pago 100.000$ pela assinatura anual, raramente é notificada ou informada sobre qualquer mudança.
Não trocaria o acesso a jornais electrónicos por nada neste mundo, contudo a sua utilização deve ser bem medida, ajuizada e planeada, não se devendo conferir de imediato uma confiança total, completa e exclusiva».
2. A agulha (a sua pesquisa) num palheiro (a Web)
«A Internet é como uma extensa biblioteca por catalogar. Se utilizarmos o Hotbot, o Lycos, o Dogpile, o INFOSEEK, ou qualquer outro motor de busca ou de meta dados não estamos, na verdade, a pesquisar a Internet inteira. Os motores de busca prometem frequentemente pesquisar e recuperar tudo mas na verdade não o fazem. Por outro lado, o que pesquisam não tem em conta actualizações diárias, semanais, ou ainda mensais, independentemente do que anunciam. Se um bibliotecário disser: «aqui estão 10 artigos sobre nativos americanos, temos mais 40 mas para já não o deixamos ver. Vamos esperar que encontre noutra biblioteca», nós mandamo-lo àquela parte. Na Internet isto acontece com frequência e ninguém se importa»
3. Não existe controlo de qualidade
Sim, precisamos da Internet, mas para além de toda informação científica, médica e histórica, a Net é também um poço cheio de lixo. Quando os jovens cibernautas não se estão a dedicar à educação sexual através de sites XXX [que por sinal acho muito bem!], estão provavelmente a aprender política através da freeman Web page, ou a bondade das relações inter-étnicas através do site do Ku Klux Klan, ou pior ainda, Biblioteconomia avançada através do Bibliotecário Anarquista. Não existe, portanto, controlo de qualidade na Internet e não parece que alguma vez venha a existir. Ao contrário das bibliotecas onde a imprensa cor-de-rosa não entra ou entra raramente, a vaidade e o ego são muitas vezes o fio condutor da Net [e este weblogue é disso um exemplo flagrante] onde qualquer tolo pode pôr online qualquer espécie de dejecto tóxico sem o menor problema.
4. Aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal
«Uma das grandes conquistas dos leitores nas bibliotecas tem sido o acesso online aos jornais eletrónicos. Contudo os magníficos sites que disponibilizam os textos completos, nem sempre o fazem de forma “completa”. E aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal.
Assim:
- Os artigos nestes sites são muitas vezes incompletos e entre outras lacunas não costumam apresentar “notas de rodapé”.
- Tabelas, gráficos e fórmulas também não costumam surgir de forma legível;
- Os títulos dos jornais online mudam muitas vezes sem qualquer espécie de aviso;
- Uma biblioteca pode começar com x títulos em Setembro e acabar com Y títulos em Maio. O problema é que esses títulos não são os mesmos que o pacote Setembro-Maio.
- Embora a biblioteca possa ter pago 100.000$ pela assinatura anual, raramente é notificada ou informada sobre qualquer mudança.
Não trocaria o acesso a jornais electrónicos por nada neste mundo, contudo a sua utilização deve ser bem medida, ajuizada e planeada, não se devendo conferir de imediato uma confiança total, completa e exclusiva».
O Bibliotecário Anarquista explica porque A Internet não substitui as bibliotecas
Apesar de ter, oficialmente, morrido a 24 de Outubro de 2010, O Bibliotecário Anarquista, do meu amigo Adalberto Barreto, é um blogue que tenho sempre prazer em revisitar.
Reencontrei esta série de posts com o título genérico «A Internet não substitui as bibliotecas: 10 razões (uma por dia)», publicados em 2006. Apesar dos números apontados estarem claramente desactualizados e o volume de informação disponível na Internet ser, oito anos depois, incomparavelmente maior, estas dez razões não perderam pertinência nem actualidade. Infelizmente, o bibliotecário anarquista só publicou a seis primeiras mas deixou a ligação para a fonte. Essa ligação está desactualizada mas o texto original pode continuar a ser lido aqui. Por isso as recordo aqui, mais uma vez, para os leitores que só recentemente chegaram à biblioteca de Jacinto.
A primeira pode ser lida aqui mas receando que, depois de morto, o blogue se decomponha, transcrevo-a com a merecida vénia.
1. NEM TUDO ESTÁ DISPONÍVEL NA INTERNET
«Com mais de um bilião de páginas WEB, nunca o diríamos pela simples observação. No entanto, muito poucos materiais com conteúdo certificado estão disponíveis na Internet em acesso livre. Por exemplo, apenas 8% dos jornais científicos estão online e quanto aos livros a percentagem ainda é menor. Ainda assim quando estão acessíveis o seu acesso não é gratuito (ao contrário das bibliotecas). Se quisermos aceder ao Journal of Biochemistry, Physics Today, Journal of American History, temos de pagar e não é pouco».
«Com mais de um bilião de páginas WEB, nunca o diríamos pela simples observação. No entanto, muito poucos materiais com conteúdo certificado estão disponíveis na Internet em acesso livre. Por exemplo, apenas 8% dos jornais científicos estão online e quanto aos livros a percentagem ainda é menor. Ainda assim quando estão acessíveis o seu acesso não é gratuito (ao contrário das bibliotecas). Se quisermos aceder ao Journal of Biochemistry, Physics Today, Journal of American History, temos de pagar e não é pouco».
11 agosto 2014
Banquetes de Platão VI
«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)
Sete anos e meio depois da primeira receita, e quase dois desde a quinta, eis que me decido a publicar a sexta. Desta vez é de bifes de atum mas o interessante aqui é o tempero. Nunca tinha usado zimbro. Na verdade, para mim, o zimbro era a erva que o Panoramix usa para fazer a poção mágica. Vi um frasquinho com bagas de zimbro na prateleira do supermercado, fiquei curiosa e comprei.
Em casa, ao abrir o frasco, senti um intenso odor a resina e descobri, num livro sobre especiarias, que o zimbro é o ingrediente principal do gin mas que também serve como tempero de carnes. Bem, o atum não é carne mas quase. Resolvi fazer a experiência e superou as expectativas.
BIFES DE ATUM COM ZIMBRO E PIMENTA ROSA
Sete anos e meio depois da primeira receita, e quase dois desde a quinta, eis que me decido a publicar a sexta. Desta vez é de bifes de atum mas o interessante aqui é o tempero. Nunca tinha usado zimbro. Na verdade, para mim, o zimbro era a erva que o Panoramix usa para fazer a poção mágica. Vi um frasquinho com bagas de zimbro na prateleira do supermercado, fiquei curiosa e comprei.
Em casa, ao abrir o frasco, senti um intenso odor a resina e descobri, num livro sobre especiarias, que o zimbro é o ingrediente principal do gin mas que também serve como tempero de carnes. Bem, o atum não é carne mas quase. Resolvi fazer a experiência e superou as expectativas.
BIFES DE ATUM COM ZIMBRO E PIMENTA ROSA
Esmaguei no almofariz bagas de zimbro, pimenta rosa, sal marinho, azeite e umas gotas de vinagre. Marinei os bifes de atum nesta mistura e grelhei-os na chapa bem quente, deixando-os tostadinhos por fora e ligeiramente mal passados por dentro. Ficou delicioso!
30 julho 2014
Sinfonia da ópera "La Spinalba" de Francisco António de Almeida - "Os Mú...
Provavelmente um dos meus compositores preferidos. Não, não só dos portugueses. De todos os lugares e de todos os tempos.
Assim assinalo o meu regresso às publicações na biblioteca de Jacinto.
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Música
23 maio 2014
Oh, Deus d'Ourique, vêm ahi os castelhanos!
«Ega porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.
Alencar, patriota á antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu alli apenas "um dos paradoxos do nosso Ega". Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar e marítima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as allianças que teríamos, a troco das colonias - das colonias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, n’um momento de guerra europea, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o creado, apresentando-lhe a travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a salvação do paiz, n’essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
- N’isto: no ressuscitar do espirito publico e do génio portuguez! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscripção, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e intelligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outr’ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... Oh Deus d’Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, n’um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprar-se á America - e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas do século XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de gallegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas cousas me põe o coração negro! E como vocés podem fallar n’isso, a rir, quando se trata do paiz, d’esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de accordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d’outra cousa, fallemos de mulheres!»
(Eça de Queiroz - Os Maias)
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.
Alencar, patriota á antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu alli apenas "um dos paradoxos do nosso Ega". Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar e marítima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as allianças que teríamos, a troco das colonias - das colonias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, n’um momento de guerra europea, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o creado, apresentando-lhe a travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a salvação do paiz, n’essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
- N’isto: no ressuscitar do espirito publico e do génio portuguez! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscripção, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e intelligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outr’ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... Oh Deus d’Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, n’um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprar-se á America - e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas do século XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de gallegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas cousas me põe o coração negro! E como vocés podem fallar n’isso, a rir, quando se trata do paiz, d’esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de accordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d’outra cousa, fallemos de mulheres!»
(Eça de Queiroz - Os Maias)
14 maio 2014
Joly Braga Santos: 90 anos
Quando, em Janeiro de 2009, trabalhei no processo de doação do espólio de Joly Braga Santos à Biblioteca Nacional, estava longe de imaginar o quanto este acontecimento me iria marcar.
Eu não posso dizer que conhecesse a música de Joly Braga Santos. Tinha-a ouvido, decerto, uma vez ou outra, na Antena 2, com pouca atenção, das poucas vezes que a “rádio clássica” passava música de compositores portugueses, mas, não possuindo nenhum disco deste compositor, a verdade é que não posso dizer que conhecia a sua música. Quando me vi na contingência de tratar do processo com a filha mais velha do compositor, achei por bem ouvir alguma coisa da sua música para não passar pela vergonha de não conhecer nada da obra de um dos compositores mais importantes do século XX e – bem pior – passar por essa vergonha perante a sua filha.
A descoberta da música de Joly Braga Santos foi, deste modo, uma feliz contingência. A sua produção contempla mais de 170 obras que abrangem praticamente todos os géneros possíveis: música para orquestra de sopros, de cordas e sinfónica (é justamente considerado o maior sinfonista português de sempre e um dos maiores do século XX), música de câmara, música coral a capella e coral sinfónica, música vocal de câmara, música para teatro, óperas, bandas sonoras, música para piano e arranjos de obras de outros compositores. Só não se dedicou à música sacra tendo, ainda assim, composto um Requiem à memória de Pedro de Freitas Branco. Com uma obra tão vasta e diversificada, é lamentável que apenas uns dez por cento estejam gravados.
Mas falava da minha experiência pessoal. Descobrir a música de Joly Braga Santos foi uma feliz contingência que acompanhou a igualmente feliz descoberta da sua genialidade e da sua personalidade muito particular, durante as longas conversas que mantive com a Piedade, nos dias em que preparei o inventário e transporte do seu espólio. Um homem absolutamente genial, que compunha como respirava, sem nunca ter apresentado nenhuma daquelas idiossincrasias insuportáveis dos génios. Todos os que o conheceram sem referem a ele como um génio musical que mantinha, não obstante, uma simplicidade e ternura enternecedoras e uma amor incondicional pela família e pelas coisas simples que enriquecem a alma.
A música de Joly Braga Santos é maravilhosa e só o azar de nascer português lhe vedou uma maior projecção no panorama internacional onde, ainda assim, é mais conhecido do que em Portugal.
Pouco depois de receber a encomenda de uma ópera a estrear na “Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura”, morreu, em sua casa, aos 64 anos. Cedo de mais. Hoje, 14 de Maio, poderia estar ainda vivo a celebrar o 90ª aniversário. Celebramos nós. Os grandes génios não morrem, apenas deixamos de os ver.
Eu não posso dizer que conhecesse a música de Joly Braga Santos. Tinha-a ouvido, decerto, uma vez ou outra, na Antena 2, com pouca atenção, das poucas vezes que a “rádio clássica” passava música de compositores portugueses, mas, não possuindo nenhum disco deste compositor, a verdade é que não posso dizer que conhecia a sua música. Quando me vi na contingência de tratar do processo com a filha mais velha do compositor, achei por bem ouvir alguma coisa da sua música para não passar pela vergonha de não conhecer nada da obra de um dos compositores mais importantes do século XX e – bem pior – passar por essa vergonha perante a sua filha.
A descoberta da música de Joly Braga Santos foi, deste modo, uma feliz contingência. A sua produção contempla mais de 170 obras que abrangem praticamente todos os géneros possíveis: música para orquestra de sopros, de cordas e sinfónica (é justamente considerado o maior sinfonista português de sempre e um dos maiores do século XX), música de câmara, música coral a capella e coral sinfónica, música vocal de câmara, música para teatro, óperas, bandas sonoras, música para piano e arranjos de obras de outros compositores. Só não se dedicou à música sacra tendo, ainda assim, composto um Requiem à memória de Pedro de Freitas Branco. Com uma obra tão vasta e diversificada, é lamentável que apenas uns dez por cento estejam gravados.
Mas falava da minha experiência pessoal. Descobrir a música de Joly Braga Santos foi uma feliz contingência que acompanhou a igualmente feliz descoberta da sua genialidade e da sua personalidade muito particular, durante as longas conversas que mantive com a Piedade, nos dias em que preparei o inventário e transporte do seu espólio. Um homem absolutamente genial, que compunha como respirava, sem nunca ter apresentado nenhuma daquelas idiossincrasias insuportáveis dos génios. Todos os que o conheceram sem referem a ele como um génio musical que mantinha, não obstante, uma simplicidade e ternura enternecedoras e uma amor incondicional pela família e pelas coisas simples que enriquecem a alma.
A música de Joly Braga Santos é maravilhosa e só o azar de nascer português lhe vedou uma maior projecção no panorama internacional onde, ainda assim, é mais conhecido do que em Portugal.
Pouco depois de receber a encomenda de uma ópera a estrear na “Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura”, morreu, em sua casa, aos 64 anos. Cedo de mais. Hoje, 14 de Maio, poderia estar ainda vivo a celebrar o 90ª aniversário. Celebramos nós. Os grandes génios não morrem, apenas deixamos de os ver.
25 abril 2014
24 abril 2014
Em 24 de Abril
«Desde que reste uma injustiça que seja na terra, nada está feito».
(Fernando Pessoa, O Eremita da Serra Negra)
(Fernando Pessoa, O Eremita da Serra Negra)
22 abril 2014
Generalidade dos portugueses descontente com evolução da democracia
Pois, sabem, é que a Democracia não é como os autocarros, que a gente se senta à espera e há-de vir um. Temos de a fazer nós, é uma chatice...
Generalidade dos portugueses descontente com evolução da democracia
Generalidade dos portugueses descontente com evolução da democracia
17 abril 2014
Veja as diferenças
Há uma diferença essencial, fundamental, estrutural entre o período que estamos a viver e o que se vivia há quarenta anos.
Em 1974 Portugal era uma ditadura caduca anacrónica numa Europa democrática e moderna. Olhava-se para fora e via-se um futuro promissor.
Hoje, Portugal é uma ditadura modernaça às ordens de uma Europa saudosista de ditaduras.
Olha-se para fora e vê-se um passado de terror.
Em 1974 Portugal era uma ditadura caduca anacrónica numa Europa democrática e moderna. Olhava-se para fora e via-se um futuro promissor.
Hoje, Portugal é uma ditadura modernaça às ordens de uma Europa saudosista de ditaduras.
Olha-se para fora e vê-se um passado de terror.
10 abril 2014
09 abril 2014
12 março 2014
Operação bem sucedida, paciente morto - António Cluny
Este texto saíu no i online, há um ano, e, aparentemente, já não está disponível.
Operação bem sucedida, paciente morto - António Cluny
1. É importante, quando se gosta de um livro, termos em mente que não o devemos emprestar, a não ser a quem tenhamos a certeza de que o vai devolver.
Vem isto a propósito de “História de Um Alemão”, de Sebastian Haffner, que emprestei, não me lembro a quem, e, por não encontrar em livraria um exemplar na nossa língua, vi-me obrigado a comprar uma tradução inglesa, “Defying Hitler”.
As frases que vou citar são tradução minha, a partir da referida versão, mas creio não ter alterado o sentido primacial do texto.
“No início de 1930, a Müller sucedeu, como chanceler, Heinrich Brüning. [...] Para provar o absurdo dos pagamentos devidos pelas reparações de guerra, levou-os ao extremo e conduziu assim a economia da Alemanha à beira do colapso, levando muitos bancos a fechar as suas portas e o número dos desempregados a atingir os 6 milhões. Para manter o orçamento equilibrado, o seu férreo espírito sombrio impôs o tacanho método do bom pater familias: “Apertem os vossos cintos.”
A cada seis meses, cadenciadamente, apareciam novos “decretos de emergência”, reduzindo cada vez mais os salários, as pensões, as prestações sociais e, finalmente, até mesmo os proventos privados e as taxas de juro.
Cada um destes decretos era a consequência lógica do anterior e, de cada vez, Brüning, cerrando os dentes, ia impondo essa lógica dolorosa [...]
Brüning não conseguia oferecer mais ao país do que maior pobreza, a redução da liberdade e a garantia de que não havia alternativa. Na melhor das hipóteses, a sua política consistia apenas num repetido apelo à austeridade. Os seus sucessos - e indubitavelmente teve alguns - podiam sempre ser descritos pelo seguinte slogan: ‘Operação bem-sucedida, paciente morto.’”
Sebastian Haffner não atribuiu a Brüning o aparecimento e a influência do nazismo na sociedade alemã, é claro, mas não deixa de sugerir a importância que, na vitória deste, tiveram as suas medidas económicas e financeiras, e as que, de natureza política, para as impor, limitaram as liberdades, debilitando assim a já então frágil democracia alemã.
2. Em Portugal não se vê, por ora, qualquer indício explícito do surgimento de alguma força de extrema- -direita ou movimento populista radical que possa, com sucesso, aproveitar o descontentamento que a ineficaz dureza das medidas de austeridade, aplicadas em nome da troika vêm produzindo entre os cidadãos.
Elas aparecem, contudo, cada vez mais, e aos olhos de muitos, como uma espécie de injustos “pagamentos de guerra”, de um conflito que o nosso povo não provocou nem infligiu a ninguém.
Acresce que, no nosso caso, não se pode dizer, em rigor, que a dívida ou o deficit portugueses tenham penalizado outro povo que não o nosso e, pelo contrário, começa a ser perceptível que eles têm constituído até um bom negócio para muitos interesses estrangeiros.
A memória histórica não é curta. Ainda estão vivas e activas várias gerações de portugueses que viveram sob a ditadura e sabem - têm conseguido transmitir às que lhe sucederam - que a miséria forçada e o autoritarismo não são o caminho para o fim das dificuldades actuais.
O problema não é pois, de imediato, o do regresso ao fascismo.
A angústia colectiva dos portugueses reside pois no facto de não vislumbrarem uma alternativa séria, em que acreditem e que os mobilize para pôr fim ao empobrecimento que alastra e ao desânimo que os paralisa, degradando a democracia e assinando o óbito da economia.
http://www.ionline.pt/opiniao/operacao-bem-sucedida-paciente-morto
Operação bem sucedida, paciente morto - António Cluny
1. É importante, quando se gosta de um livro, termos em mente que não o devemos emprestar, a não ser a quem tenhamos a certeza de que o vai devolver.
Vem isto a propósito de “História de Um Alemão”, de Sebastian Haffner, que emprestei, não me lembro a quem, e, por não encontrar em livraria um exemplar na nossa língua, vi-me obrigado a comprar uma tradução inglesa, “Defying Hitler”.
As frases que vou citar são tradução minha, a partir da referida versão, mas creio não ter alterado o sentido primacial do texto.
“No início de 1930, a Müller sucedeu, como chanceler, Heinrich Brüning. [...] Para provar o absurdo dos pagamentos devidos pelas reparações de guerra, levou-os ao extremo e conduziu assim a economia da Alemanha à beira do colapso, levando muitos bancos a fechar as suas portas e o número dos desempregados a atingir os 6 milhões. Para manter o orçamento equilibrado, o seu férreo espírito sombrio impôs o tacanho método do bom pater familias: “Apertem os vossos cintos.”
A cada seis meses, cadenciadamente, apareciam novos “decretos de emergência”, reduzindo cada vez mais os salários, as pensões, as prestações sociais e, finalmente, até mesmo os proventos privados e as taxas de juro.
Cada um destes decretos era a consequência lógica do anterior e, de cada vez, Brüning, cerrando os dentes, ia impondo essa lógica dolorosa [...]
Brüning não conseguia oferecer mais ao país do que maior pobreza, a redução da liberdade e a garantia de que não havia alternativa. Na melhor das hipóteses, a sua política consistia apenas num repetido apelo à austeridade. Os seus sucessos - e indubitavelmente teve alguns - podiam sempre ser descritos pelo seguinte slogan: ‘Operação bem-sucedida, paciente morto.’”
Sebastian Haffner não atribuiu a Brüning o aparecimento e a influência do nazismo na sociedade alemã, é claro, mas não deixa de sugerir a importância que, na vitória deste, tiveram as suas medidas económicas e financeiras, e as que, de natureza política, para as impor, limitaram as liberdades, debilitando assim a já então frágil democracia alemã.
2. Em Portugal não se vê, por ora, qualquer indício explícito do surgimento de alguma força de extrema- -direita ou movimento populista radical que possa, com sucesso, aproveitar o descontentamento que a ineficaz dureza das medidas de austeridade, aplicadas em nome da troika vêm produzindo entre os cidadãos.
Elas aparecem, contudo, cada vez mais, e aos olhos de muitos, como uma espécie de injustos “pagamentos de guerra”, de um conflito que o nosso povo não provocou nem infligiu a ninguém.
Acresce que, no nosso caso, não se pode dizer, em rigor, que a dívida ou o deficit portugueses tenham penalizado outro povo que não o nosso e, pelo contrário, começa a ser perceptível que eles têm constituído até um bom negócio para muitos interesses estrangeiros.
A memória histórica não é curta. Ainda estão vivas e activas várias gerações de portugueses que viveram sob a ditadura e sabem - têm conseguido transmitir às que lhe sucederam - que a miséria forçada e o autoritarismo não são o caminho para o fim das dificuldades actuais.
O problema não é pois, de imediato, o do regresso ao fascismo.
A angústia colectiva dos portugueses reside pois no facto de não vislumbrarem uma alternativa séria, em que acreditem e que os mobilize para pôr fim ao empobrecimento que alastra e ao desânimo que os paralisa, degradando a democracia e assinando o óbito da economia.
http://www.ionline.pt/opiniao/operacao-bem-sucedida-paciente-morto
07 março 2014
Crónica - Boaventura Sousa Santos
Esta crónica tem um ano.
Crónica | Visão 7 Março 2013
Boaventura Sousa Santos
A mãe de todas as mensagens das manifestações do passado fim de semana foi a afirmação da vida contra a morte. Uma afirmação com três nomes: dignidade, democracia e patriotismo. E uma canção, onde coube todo o país excepto o governo. Sentindo um perigo e uma ameaça viscerais, os portugueses recusam-se a deixar de gostar de si e do seu país. Vivem um momento de intensa inteligência intuitiva que está além e aquém do que os discursos e representações oficiais dizem deles. Recusam-se a aceitar que uma vida honesta feita de muito trabalho e estudo possa ser apelidada de preguiçosa, leviana e aventureira, que os impostos e os descontos pagos ao longo da vida tenham sido em vão, que quem menos pagou seja quem é mais protegido num momento de dificuldade colectiva. Recusam-se a aceitar que a democracia seja uma máquina de triturar a esperança, um moinho que só sabe moer o moleiro, uma farsa onde só são reais os fios que sustentam as marionetas, uma engrenagem encalhada num parlamento à beira-mar enterrado. Recusam-se a aceitar que os representantes eleitos pelo povo representem exclusivamente os interesses de credores predadores, que os governantes tenham outra pátria que não a dos governados, que a riqueza do país e o bem-estar dos cidadãos se transformem em penhora de um futuro hipotecado, que o roubo deixe de o ser apenas por estar institucionalizado e cotado internacionalmente. Recusam-se a aceitar que um governo nacional se comporte como a comissão liquidatária do país, reduza a história e a cultura a números, de que aliás retira tantas previsões quantas imprevisões, viaje às escondidas pelo país e só fale em público quando o público é estrangeiro.
Esta inteligência intuitiva, que afirma a dignidade, a democracia e o patriotismo, permite entender o que parece inexplicável: que o governo seja indigno, apesar de ocupar instituições dignas; antidemocrático, apesar de ter sido eleito democraticamente; e antipatriótico, apesar de se dizer nosso ante outros países. A inteligência intuitiva não dispensa razões nem desconhece riscos, mas tem com umas e outros uma relação indirecta ou fractal. Tem assim uma leveza traiçoeira que torna o seu tratamento político complexo. Eis algumas das razões. Cerca de 20% da receita fiscal vai para pagar juros (por cada 100 euros, 20 vão para os credores); pagamos em juros mais do que gastamos com a educação (108%) e 86% do que gastamos com a saúde; os juros representam 15% da despesa efectiva total do Estado; a política de austeridade aniquila os devedores até ao ponto de nada mais lhes poder tirar senão a vida nua que ainda lhes restar; se propuséssemos uma renegociação da dívida e não pagássemos juros durante o período de negociação (moratória), o nosso orçamento estaria equilibrado e seria possível libertar recursos para investimento e criação de emprego.
Quais os riscos? Se a política actual se mantiver, os portugueses passarão os próximos trinta anos a transferir a sua poupança para o exterior; com o ritmo migratório de 40.000 pessoas por ano, na grande maioria jovens e muitos deles altamente qualificados, daqui a dez anos Portugal será um imenso deserto com balões Google de resorts para turistas. Mais do que riscos, estas são certezas. Contra elas, há que ponderar os riscos da moratória. Portugal ficará sem acesso aos mercados? Mas não é esta a situação actual? O que aconteceu com a Islândia? Os credores, confrontados com uma ameaça credível de moratória, serão rígidos ou negociarão receber alguma coisa em vez de nada? A UE deixará cair definitivamente a periferia, como tem vindo a fazer, ou entenderá finalmente que a crise do Sul da Europa só é grave porque há um Norte que se alimenta dela e dispõe de uma moeda apenas coerente com a sua economia? Ante riscos de desastre e certezas desastrosas, a inteligência intuitiva não hesita.
O hino à vida que se ouviu pelo país inteiro foi uma moção popular pela demissão do governo. Parafraseando o que Humberto Delgado disse sobre o que faria de Salazar se ganhasse as eleições: obviamente, demitam-se!
Boaventura Sousa Santos
Boaventura Sousa Santos
A mãe de todas as mensagens das manifestações do passado fim de semana foi a afirmação da vida contra a morte. Uma afirmação com três nomes: dignidade, democracia e patriotismo. E uma canção, onde coube todo o país excepto o governo. Sentindo um perigo e uma ameaça viscerais, os portugueses recusam-se a deixar de gostar de si e do seu país. Vivem um momento de intensa inteligência intuitiva que está além e aquém do que os discursos e representações oficiais dizem deles. Recusam-se a aceitar que uma vida honesta feita de muito trabalho e estudo possa ser apelidada de preguiçosa, leviana e aventureira, que os impostos e os descontos pagos ao longo da vida tenham sido em vão, que quem menos pagou seja quem é mais protegido num momento de dificuldade colectiva. Recusam-se a aceitar que a democracia seja uma máquina de triturar a esperança, um moinho que só sabe moer o moleiro, uma farsa onde só são reais os fios que sustentam as marionetas, uma engrenagem encalhada num parlamento à beira-mar enterrado. Recusam-se a aceitar que os representantes eleitos pelo povo representem exclusivamente os interesses de credores predadores, que os governantes tenham outra pátria que não a dos governados, que a riqueza do país e o bem-estar dos cidadãos se transformem em penhora de um futuro hipotecado, que o roubo deixe de o ser apenas por estar institucionalizado e cotado internacionalmente. Recusam-se a aceitar que um governo nacional se comporte como a comissão liquidatária do país, reduza a história e a cultura a números, de que aliás retira tantas previsões quantas imprevisões, viaje às escondidas pelo país e só fale em público quando o público é estrangeiro.
Esta inteligência intuitiva, que afirma a dignidade, a democracia e o patriotismo, permite entender o que parece inexplicável: que o governo seja indigno, apesar de ocupar instituições dignas; antidemocrático, apesar de ter sido eleito democraticamente; e antipatriótico, apesar de se dizer nosso ante outros países. A inteligência intuitiva não dispensa razões nem desconhece riscos, mas tem com umas e outros uma relação indirecta ou fractal. Tem assim uma leveza traiçoeira que torna o seu tratamento político complexo. Eis algumas das razões. Cerca de 20% da receita fiscal vai para pagar juros (por cada 100 euros, 20 vão para os credores); pagamos em juros mais do que gastamos com a educação (108%) e 86% do que gastamos com a saúde; os juros representam 15% da despesa efectiva total do Estado; a política de austeridade aniquila os devedores até ao ponto de nada mais lhes poder tirar senão a vida nua que ainda lhes restar; se propuséssemos uma renegociação da dívida e não pagássemos juros durante o período de negociação (moratória), o nosso orçamento estaria equilibrado e seria possível libertar recursos para investimento e criação de emprego.
Quais os riscos? Se a política actual se mantiver, os portugueses passarão os próximos trinta anos a transferir a sua poupança para o exterior; com o ritmo migratório de 40.000 pessoas por ano, na grande maioria jovens e muitos deles altamente qualificados, daqui a dez anos Portugal será um imenso deserto com balões Google de resorts para turistas. Mais do que riscos, estas são certezas. Contra elas, há que ponderar os riscos da moratória. Portugal ficará sem acesso aos mercados? Mas não é esta a situação actual? O que aconteceu com a Islândia? Os credores, confrontados com uma ameaça credível de moratória, serão rígidos ou negociarão receber alguma coisa em vez de nada? A UE deixará cair definitivamente a periferia, como tem vindo a fazer, ou entenderá finalmente que a crise do Sul da Europa só é grave porque há um Norte que se alimenta dela e dispõe de uma moeda apenas coerente com a sua economia? Ante riscos de desastre e certezas desastrosas, a inteligência intuitiva não hesita.
O hino à vida que se ouviu pelo país inteiro foi uma moção popular pela demissão do governo. Parafraseando o que Humberto Delgado disse sobre o que faria de Salazar se ganhasse as eleições: obviamente, demitam-se!
Boaventura Sousa Santos
25 fevereiro 2014
Ficou vazio o teu lugar à mesa.
Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio,
as visitas são desejadas apenas
a outras mesas.
Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.
(Maria do Rosário Pedreira)
Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio,
as visitas são desejadas apenas
a outras mesas.
Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, como à tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.
(Maria do Rosário Pedreira)
24 fevereiro 2014
Há seis anos
Neste dia, há seis anos, vi o meu Pai pela última vez. Nem eu nem ele imaginávamos que era a última vez. No dia seguinte ele já não acordou e eu também não, porque nessa noite não dormi. O Sol nasceu como todos os dias, era segunda-feira e as filas formaram-se à entrada de Lisboa, como todos os dias, milhões de pessoas levantaram-se para ir trabalhar como todos os dias, as lojas abriram, as ruas encheram-se de gente, nasceram crianças, apaixonados viram-se pela primeira vez, namorados desentenderam-se, casais divorciaram-se, houve quem começasse nesse dia um novo emprego ou se despedisse para começar uma nova vida noutro lado. As ameixoeiras começaram a dar flôr nesse dia, os pássaros reuniram-se a chilrear, nos ramos das árvores, às cinco tarde como nos outros dias, a vida seguiu o seu curso normal sem que ninguém percebesse que havia menos uma pessoa nessa azáfama diária. Há seis anos, no dia de hoje, estive com o meu Pai pela última vez. Quando compreendi que não voltaria a vê-lo tentei visualizar os próximos dez, vinte, trinta anos, talvez mais até e tentei visualizar esses anos todos sem ele. Outro tanto tempo que já tinha vivido. Metade da minha vida. Toda uma história por partilhar. Todas as coisas de que não falava com mais ninguém ou que não falava da mesma maneira. Há seis anos, neste dia, falei com o meu Pai pela última vez. Conversas que não acabavam ou que continuavam sempre no encontro seguinte. A mesma conversa em contínuo, retomada no ponto em que tinha sido deixada. Conversas que não vou retomar. Há seis anos, neste dia, beijei o meu Pai pela última vez. Como se fosse ontem. Como se fosse hoje. O tempo não passou.
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