30 janeiro 2015
Momento poético
Ja não sou o teu pequeno
Ja não sou o teu amor
Tu me fojes, tu me deixas
Eu te sigo, minha flor.
Já que emgrata te mostraste
Que tirana, que cruel.
07 janeiro 2015
HITCHCOCK, George, 1850-1913 - Fuga para o Egipto (1892)
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George Hitchcock,
Natal,
Pintura
01 janeiro 2015
No Dia da Paz
«Possa eu ser em todos os tempos, hoje e sempre,
«O protector dos que não têm protecção
«O guia dos que perderam o caminho
«Um barco para os que têm de atravessar oceanos
«Uma ponte para os que têm de atravessar rios
«Um santuário para os que estão em perigo
«Uma lâmpada para os que não têm luz
«Um refúgio para os que não têm abrigo
«E o servente de todos os que precisam.»
(Dalai Lama)
«O protector dos que não têm protecção
«O guia dos que perderam o caminho
«Um barco para os que têm de atravessar oceanos
«Uma ponte para os que têm de atravessar rios
«Um santuário para os que estão em perigo
«Uma lâmpada para os que não têm luz
«Um refúgio para os que não têm abrigo
«E o servente de todos os que precisam.»
(Dalai Lama)
31 dezembro 2014
Votos para 2015
Há precisamente um ano eu escrevia aqui o seguinte:
«Procurei uma imagem de esperança para vos oferecer como votos para 2014. Procurei um poema animador, procurei uma frase, procurei uma música. Nada conseguiu exprimir o meu sentimento contraditório de optimista emocional - que sou - e pessimista racional - a que a realidade me obriga. Foi então que encontrei este poema do alquimista das palavras, António Gedeão. Não consigo acrescentar nada. Quanto à pergunta final, responda quem souber. Para todos os visitantes da Biblioteca de Jacinto, os meus votos de um 2014 melhor do que as mais optimistas expectativas. E que caia, que caia este ano, que caia o mais depressa possível, que caia o que já tarda em cair, o que já devia ter caído, que caia o nosso triste desespero».
Um ano depois, o meu estado emocional não se alterou. As mais optimistas expectativas não foram atingidas, quanto mais superadas. O que se esperava que caísse não caíu. O nosso triste desepero continua desesperadamente triste.
O ano que agora entra é ano de eleições. Tenhamos esperança nos portugueses, no discernimento dos portugueses que, em outros momentos limite da nossa História, souberam mostrar que sabem deitar pela janela fora os Miguéis de Vasconcelos. Dizem que a Esperança é a última a morrer.
Em 2015, tenhamos Esperança.
«Procurei uma imagem de esperança para vos oferecer como votos para 2014. Procurei um poema animador, procurei uma frase, procurei uma música. Nada conseguiu exprimir o meu sentimento contraditório de optimista emocional - que sou - e pessimista racional - a que a realidade me obriga. Foi então que encontrei este poema do alquimista das palavras, António Gedeão. Não consigo acrescentar nada. Quanto à pergunta final, responda quem souber. Para todos os visitantes da Biblioteca de Jacinto, os meus votos de um 2014 melhor do que as mais optimistas expectativas. E que caia, que caia este ano, que caia o mais depressa possível, que caia o que já tarda em cair, o que já devia ter caído, que caia o nosso triste desespero».
Um ano depois, o meu estado emocional não se alterou. As mais optimistas expectativas não foram atingidas, quanto mais superadas. O que se esperava que caísse não caíu. O nosso triste desepero continua desesperadamente triste.
O ano que agora entra é ano de eleições. Tenhamos esperança nos portugueses, no discernimento dos portugueses que, em outros momentos limite da nossa História, souberam mostrar que sabem deitar pela janela fora os Miguéis de Vasconcelos. Dizem que a Esperança é a última a morrer.
Em 2015, tenhamos Esperança.
18 dezembro 2014
Concerto de Natal com música portuguesa pelo Grupo Vocal Arsis
Igreja de Nossa Senhora da Pena | Calçada de Santana (Lisboa) Domingo 21 de Dezembro de 2014 | 16h00
07 dezembro 2014
Banquetes de Platão VII
«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)
Esta é a sétima receita de minha invenção que aqui publico. Não é completamente de minha invenção pois baseei-me numa outra do Chef Hernâni Ermida mas alterei-a bastante portanto esta é minha.
LOMBINHO DE PORCO COM PURÉ DE BATATA-DOCE
1 lombinho de porco
Colorau em pó q.b.
Sal q.b.
1 dl de azeite
3 ou 4 dentes de alho
1 cálice de vinho branco
3 ou 4 cebolas pequenas
½ cálice de cachaça
Esfreguei todo o lombinho com sal e colorau em pó. Num tacho alourei o lombinho no azeite virando-o para ficar todo por igual.
Deitei os alhos esmagados e refresquei com o vinho branco. Deixei evaporar o álcool por uns cinco minutos.
Cortei as cebolas aos gomos (quartos ou oitavos conforme o tamanho das cebolas), juntei-as ao lombinho e reguei tudo com a cachaça. Deixei cozinhar em lume brando por uns 15 a 20 minutos com o tacho tapado, virando a carne uma ou duas vezes.
Acompanhei com puré de batata-doce. Ficou uma delícia!
Esta é a sétima receita de minha invenção que aqui publico. Não é completamente de minha invenção pois baseei-me numa outra do Chef Hernâni Ermida mas alterei-a bastante portanto esta é minha.
LOMBINHO DE PORCO COM PURÉ DE BATATA-DOCE
1 lombinho de porco
Colorau em pó q.b.
Sal q.b.
1 dl de azeite
3 ou 4 dentes de alho
1 cálice de vinho branco
3 ou 4 cebolas pequenas
½ cálice de cachaça
Esfreguei todo o lombinho com sal e colorau em pó. Num tacho alourei o lombinho no azeite virando-o para ficar todo por igual.
Deitei os alhos esmagados e refresquei com o vinho branco. Deixei evaporar o álcool por uns cinco minutos.
Cortei as cebolas aos gomos (quartos ou oitavos conforme o tamanho das cebolas), juntei-as ao lombinho e reguei tudo com a cachaça. Deixei cozinhar em lume brando por uns 15 a 20 minutos com o tacho tapado, virando a carne uma ou duas vezes.
Acompanhei com puré de batata-doce. Ficou uma delícia!
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Batata-doce,
Culinária,
Lombinho de porco
20 novembro 2014
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Acordo Ortográfico,
Língua portuguesa
17 novembro 2014
Políticos
Por vezes questiono-me «Mas será possível que não exista um único
político honesto, impoluto, que não esteja metido em esquemas ou
negócios inconfessáveis, que não tenha ligações a bancos, a grandes
empresas, a sociedades secretas, que esteja na política pelo serviço ao
País? Mas será possível que não haja um único, um só, para amostra, para
me devolver alguma esperança na classe política?!?».
E depois continuo na minha reflexão: «Ora bolas, não é possível! Tem de haver. Se eu estivesse na política não me metia nessas coisas, seria honesta, não me meteria em negócios, mesmo que tivesse oportunidade... e conheço tanta gente honesta, ora essa, a maioria das pessoas que eu conheço é honesta...».
E finalmente, caio na realidade: «Pois... mas eu não conheço ninguém na política...».
E depois continuo na minha reflexão: «Ora bolas, não é possível! Tem de haver. Se eu estivesse na política não me metia nessas coisas, seria honesta, não me meteria em negócios, mesmo que tivesse oportunidade... e conheço tanta gente honesta, ora essa, a maioria das pessoas que eu conheço é honesta...».
E finalmente, caio na realidade: «Pois... mas eu não conheço ninguém na política...».
14 novembro 2014
à espera que saia
Nos anos 70 havia uma "revista semanal dos programas da TV" chamada Tele-Semana. Lembro-me bem de quando apareceu, em 1973. Num anúncio na TV, um homem sentado num banco (acho que na rua) era interpelado por outro que chegava:
- O que é que estás aqui a fazer?
- Estou à espera.
- À espera de quê?
- À espera que saia.
E o anúncio ficou assim durante dias, causando grande surpresa aos espectadores pouco habituados a métodos inovadores de publicidade.
Do que estaria o homem à espera? Durante muito tempo a expressão «à espera que saia» permaneceu na linguagem corrente, como aconteceu com frases como «Palavras para quê? É um artista português!», «Foi você que pediu...» ou, mais recentemente, «Estou que nem posso» e «Jovem: Leite! Onde está o leite?».
Ao fim de uns dias, o diálogo concluía-se:
- À espera que saia a... Tele-Semana!!!
E pronto. Estava lançada a primeira revista de televisão em Portugal.
Quem terá hoje, ainda, algum tipo de evocação perante a pergunta «Estás à espera de quê?». Quem ainda se lembrará de responder «À espera que saia»?
Lembrei-me agora deste anúncio mas não para responder «À espera que saia».
A minha resposta actualmente é mais: «À espera que grave»...
02 outubro 2014
Os Maias
Fui ver a versão completa d'Os Maias, de João Botelho.
Os Maias - o romance - é uma obra prima e um dos (se não o) meu romance preferido de toda a literatura portuguesa. Ia com algum receio porque verter um romance em filme costuma dar mau resultado.
Optei por ver a versão integral - 3h05' - e foi uma agradável surpresa.
Gostei de alguns aspectos em particular:
O facto de o filme não se centrar na história de amor entre Carlos e Maria Eduarda. A opção fácil de reduzir Os Maias a um caso de amor incestuoso seria matar a obra.
A opção assumida por uma versão não realista. Gostei muito do recurso aos cenários. Introduziu um contraste (na minha opinião) interessantíssimo entre o duro e cru do realismo literário e o assumido irrealismo dos cenários e das tomadas de cena. Há um ambiente teatral (câmara estática, as personagens viradas para a câmara em vez de se virarem umas para as outras), um ritmo literário nos diálogos que, em conjugação com o excelente trabalho dos actores, cria um certo distanciamento por parte do espectador, um envolvimento contido com o drama.
A concentração nos pontos-chave do romance. Estão lá quase todas as cenas que esperamos encontrar. Eu sou daquelas pessoas que sabem falas de cor e completam mentalmente os diálogos, por isso agradou-me imenso ver o diálogo do reencontro inicial entre João da Ega e Carlos da Maia - com o famoso episódio da peste em Celorico -, a cena do Hotel Central, a preparação do baile de máscaras, etc. Até a cena de infância entre Carlos e Eusébiosinho vestido de anjo aparece durante o sonho de Afonso da Maia. Estão lá as nossas referências todas ou quase todas.
As personagens estão muito bem caracterizadas: João da Ega está magistral, João Perry É o Afonso da Maia (não acho possível fazer melhor, estamos a ver em carne e osso o Afonso da Maia que imaginamos), a Gouvarinho está muito bem, com «os seus cabelos ruivos, cor de brasa ás luzes, dum encrespado forte, como crestados da chama interna». Dâmaso Salcede correponde perfeitamente ao «mocinho imberbe, de olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento», com a sua pose ridícula e sabuja mas sem nunca caír no excesso da caricatura.
A única que não corresponde minimamente ao que imaginava é a Raquel Cohen. Não me refiro ao trabalho da actriz mas à figura descrita por Eça, cuja «maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meia solta sobre as costas, como num desalinho de nudez».
A cena da revelação não tem a intensidade dramática que eu esperava. É difícil, porém, porque a tremenda descrição de Eça (é uma das cenas mais violentamente dramáticas que já li) baseia-se no que o João da Ega está a pensar enquanto se mantem aparentemente impassível perante o Guimarães.
Finalmente, a cena do incesto parece-me intensa e dramática. É aliás, a cena mais intensa do filme, a única onde há movimentos de câmara, efeitos de "chiaroscuro" quase pictóricos, para representar o conflito interior de Carlos.
Recomendo a versão completa. A mim não cansou nada, foram três horas de prazer que passaram rapidamente.
Parabéns ao João Botelho e a todos os actores pelo magnífico trabalho.
Os Maias - o romance - é uma obra prima e um dos (se não o) meu romance preferido de toda a literatura portuguesa. Ia com algum receio porque verter um romance em filme costuma dar mau resultado.
Optei por ver a versão integral - 3h05' - e foi uma agradável surpresa.
Gostei de alguns aspectos em particular:
O facto de o filme não se centrar na história de amor entre Carlos e Maria Eduarda. A opção fácil de reduzir Os Maias a um caso de amor incestuoso seria matar a obra.
A opção assumida por uma versão não realista. Gostei muito do recurso aos cenários. Introduziu um contraste (na minha opinião) interessantíssimo entre o duro e cru do realismo literário e o assumido irrealismo dos cenários e das tomadas de cena. Há um ambiente teatral (câmara estática, as personagens viradas para a câmara em vez de se virarem umas para as outras), um ritmo literário nos diálogos que, em conjugação com o excelente trabalho dos actores, cria um certo distanciamento por parte do espectador, um envolvimento contido com o drama.
A concentração nos pontos-chave do romance. Estão lá quase todas as cenas que esperamos encontrar. Eu sou daquelas pessoas que sabem falas de cor e completam mentalmente os diálogos, por isso agradou-me imenso ver o diálogo do reencontro inicial entre João da Ega e Carlos da Maia - com o famoso episódio da peste em Celorico -, a cena do Hotel Central, a preparação do baile de máscaras, etc. Até a cena de infância entre Carlos e Eusébiosinho vestido de anjo aparece durante o sonho de Afonso da Maia. Estão lá as nossas referências todas ou quase todas.
As personagens estão muito bem caracterizadas: João da Ega está magistral, João Perry É o Afonso da Maia (não acho possível fazer melhor, estamos a ver em carne e osso o Afonso da Maia que imaginamos), a Gouvarinho está muito bem, com «os seus cabelos ruivos, cor de brasa ás luzes, dum encrespado forte, como crestados da chama interna». Dâmaso Salcede correponde perfeitamente ao «mocinho imberbe, de olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento», com a sua pose ridícula e sabuja mas sem nunca caír no excesso da caricatura.
A única que não corresponde minimamente ao que imaginava é a Raquel Cohen. Não me refiro ao trabalho da actriz mas à figura descrita por Eça, cuja «maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meia solta sobre as costas, como num desalinho de nudez».
A cena da revelação não tem a intensidade dramática que eu esperava. É difícil, porém, porque a tremenda descrição de Eça (é uma das cenas mais violentamente dramáticas que já li) baseia-se no que o João da Ega está a pensar enquanto se mantem aparentemente impassível perante o Guimarães.
Finalmente, a cena do incesto parece-me intensa e dramática. É aliás, a cena mais intensa do filme, a única onde há movimentos de câmara, efeitos de "chiaroscuro" quase pictóricos, para representar o conflito interior de Carlos.
Recomendo a versão completa. A mim não cansou nada, foram três horas de prazer que passaram rapidamente.
Parabéns ao João Botelho e a todos os actores pelo magnífico trabalho.
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26 setembro 2014
Ainda a propósito do Acordo Ortográfico
«É grande o mistério da língua; a responsabilidade por uma língua e pela sua pureza é de natureza simbólica e espiritual; é uma responsabilidade que não se limita ao plano estético. A responsabilidade pela língua é, na sua essência, uma responsabilidade humana».
(Thomas Mann, citado por George Steiner)
15 setembro 2014
Diálogo imaginário
- Escreveste "concepção" e o acordo ortográfico diz que é "conceção".
- Mas o acordo ortográfico também diz que se escreve como se pronuncia e eu pronuncio "concepção".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico não tem "p".
- Mas antes tinha e eu sempre pronunciei.
- Por isso é que fizeram o acordo ortográfico. Para as pessoas saberem como se pronuncia.
- Mas assim eu pronuncio "conc'ção" como em "concessão".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico pronuncia-se "concéção".
- Mas eu aprendi a ler todas as vogais fechadas excepto...
- Exceto.
- ?...
- Agora diz-se "exceto".
- ... "exceto" quando são a silaba tónica ou são seguidas pela consoantes "pt", "ct" ou "pç".
- Esquece tudo o que aprendeste. Agora quem manda é o acordo ortográfico. Senta-te direito e come a sopa de letras.
- Mas o acordo ortográfico também diz que se escreve como se pronuncia e eu pronuncio "concepção".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico não tem "p".
- Mas antes tinha e eu sempre pronunciei.
- Por isso é que fizeram o acordo ortográfico. Para as pessoas saberem como se pronuncia.
- Mas assim eu pronuncio "conc'ção" como em "concessão".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico pronuncia-se "concéção".
- Mas eu aprendi a ler todas as vogais fechadas excepto...
- Exceto.
- ?...
- Agora diz-se "exceto".
- ... "exceto" quando são a silaba tónica ou são seguidas pela consoantes "pt", "ct" ou "pç".
- Esquece tudo o que aprendeste. Agora quem manda é o acordo ortográfico. Senta-te direito e come a sopa de letras.
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Língua portuguesa
14 agosto 2014
No dia da Batalha de Aljubarrota
Portugal
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
(Alexandre O'Neill)
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
(Alexandre O'Neill)
13 agosto 2014
O Bibliotecário Anarquista explica porque a Internet não substitui as bibliotecas
As quinta e sexta razões porque a Internet não substitui as bibliotecas. Depois destas, o bibliotecário anarquista parece ter desistido de publicar as restantes quatro razões. Talvez por não ter gostado da sexta. Em todo o caso, deixo-vos a fonte para o texto original, da American Library Association, aqui.
5. Pode o Estado comprar apenas um e-book e distribui-lo por todas as bibliotecas universitárias?
Sim, e nós podemos também ter apenas uma escola secundária nacional, uma universidade nacional, e um pequeno número de professores universitários, que irão ensinar toda gente pela Internet. (…)
Desde 1970 cerca de 50.000 títulos académicos foram publicados anualmente. Dos cerca de 1,5 milhões de títulos publicados desde então apenas alguns milhares estão disponíveis. Dos títulos publicados antes de 1925 (títulos que muito provavelmente já caíram no domínio público) apenas 20.000 estão disponíveis. Por quê? Se não existem nenhumas restrições de copyright que façam os preços elevar-se. Por último, os vendedores que fornecem os e-books permitem apenas a existência de uma cópia por biblioteca. Se o leitor x está a ler o e-book, o leitor y tem de esperar que o x o “devolva” para aceder ao seu conteúdo…
5. Pode o Estado comprar apenas um e-book e distribui-lo por todas as bibliotecas universitárias?
Sim, e nós podemos também ter apenas uma escola secundária nacional, uma universidade nacional, e um pequeno número de professores universitários, que irão ensinar toda gente pela Internet. (…)
Desde 1970 cerca de 50.000 títulos académicos foram publicados anualmente. Dos cerca de 1,5 milhões de títulos publicados desde então apenas alguns milhares estão disponíveis. Dos títulos publicados antes de 1925 (títulos que muito provavelmente já caíram no domínio público) apenas 20.000 estão disponíveis. Por quê? Se não existem nenhumas restrições de copyright que façam os preços elevar-se. Por último, os vendedores que fornecem os e-books permitem apenas a existência de uma cópia por biblioteca. Se o leitor x está a ler o e-book, o leitor y tem de esperar que o x o “devolva” para aceder ao seu conteúdo…
6. Ei amigo! Já te esqueceste dos leitores de e-books?...
“A maioria de nós já se esqueceu do que foi dito em tempos sobre o microfilme («vamos reduzir as bibliotecas para o tamanho duma caixa de sapatos») ou quando a televisão educativa foi inventada («no futuro vão ser necessários poucos professores»). Tente obrigar um leitor a utilizar um e-book mais de meia hora. Dores de cabeça e fadiga visual serão provavelmente os melhores resultados que conseguirá. Além disso se tiver de ler mais de duas páginas o leitor irá certamente imprimir o texto…”
…
Esta razão, sinceramente, não me convence… Fico na mesma. “So what?...”
“A maioria de nós já se esqueceu do que foi dito em tempos sobre o microfilme («vamos reduzir as bibliotecas para o tamanho duma caixa de sapatos») ou quando a televisão educativa foi inventada («no futuro vão ser necessários poucos professores»). Tente obrigar um leitor a utilizar um e-book mais de meia hora. Dores de cabeça e fadiga visual serão provavelmente os melhores resultados que conseguirá. Além disso se tiver de ler mais de duas páginas o leitor irá certamente imprimir o texto…”
…
Esta razão, sinceramente, não me convence… Fico na mesma. “So what?...”
12 agosto 2014
O Bibliotecário Anarquista explica porque a Internet não substitui as bibliotecas
Não vou publicar um post por dia com as dez razões porque a Internet não substitui as bibliotecas, já que se trata de revisitar um blogue antigo que está disponível, ainda, para quem o quiser ler. E bem merece. Mas vou publicá-las todas, com a devida vénia, não vá o Adalberto Barreto decidir retirar o seu blogue «O bibliotecário anarquista» do nosso convívio. Desde já, as segunda, terceira e quarta razões porque a Internet não substitui as bibliotecas.
2. A agulha (a sua pesquisa) num palheiro (a Web)
«A Internet é como uma extensa biblioteca por catalogar. Se utilizarmos o Hotbot, o Lycos, o Dogpile, o INFOSEEK, ou qualquer outro motor de busca ou de meta dados não estamos, na verdade, a pesquisar a Internet inteira. Os motores de busca prometem frequentemente pesquisar e recuperar tudo mas na verdade não o fazem. Por outro lado, o que pesquisam não tem em conta actualizações diárias, semanais, ou ainda mensais, independentemente do que anunciam. Se um bibliotecário disser: «aqui estão 10 artigos sobre nativos americanos, temos mais 40 mas para já não o deixamos ver. Vamos esperar que encontre noutra biblioteca», nós mandamo-lo àquela parte. Na Internet isto acontece com frequência e ninguém se importa»
3. Não existe controlo de qualidade
Sim, precisamos da Internet, mas para além de toda informação científica, médica e histórica, a Net é também um poço cheio de lixo. Quando os jovens cibernautas não se estão a dedicar à educação sexual através de sites XXX [que por sinal acho muito bem!], estão provavelmente a aprender política através da freeman Web page, ou a bondade das relações inter-étnicas através do site do Ku Klux Klan, ou pior ainda, Biblioteconomia avançada através do Bibliotecário Anarquista. Não existe, portanto, controlo de qualidade na Internet e não parece que alguma vez venha a existir. Ao contrário das bibliotecas onde a imprensa cor-de-rosa não entra ou entra raramente, a vaidade e o ego são muitas vezes o fio condutor da Net [e este weblogue é disso um exemplo flagrante] onde qualquer tolo pode pôr online qualquer espécie de dejecto tóxico sem o menor problema.
4. Aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal
«Uma das grandes conquistas dos leitores nas bibliotecas tem sido o acesso online aos jornais eletrónicos. Contudo os magníficos sites que disponibilizam os textos completos, nem sempre o fazem de forma “completa”. E aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal.
Assim:
- Os artigos nestes sites são muitas vezes incompletos e entre outras lacunas não costumam apresentar “notas de rodapé”.
- Tabelas, gráficos e fórmulas também não costumam surgir de forma legível;
- Os títulos dos jornais online mudam muitas vezes sem qualquer espécie de aviso;
- Uma biblioteca pode começar com x títulos em Setembro e acabar com Y títulos em Maio. O problema é que esses títulos não são os mesmos que o pacote Setembro-Maio.
- Embora a biblioteca possa ter pago 100.000$ pela assinatura anual, raramente é notificada ou informada sobre qualquer mudança.
Não trocaria o acesso a jornais electrónicos por nada neste mundo, contudo a sua utilização deve ser bem medida, ajuizada e planeada, não se devendo conferir de imediato uma confiança total, completa e exclusiva».
2. A agulha (a sua pesquisa) num palheiro (a Web)
«A Internet é como uma extensa biblioteca por catalogar. Se utilizarmos o Hotbot, o Lycos, o Dogpile, o INFOSEEK, ou qualquer outro motor de busca ou de meta dados não estamos, na verdade, a pesquisar a Internet inteira. Os motores de busca prometem frequentemente pesquisar e recuperar tudo mas na verdade não o fazem. Por outro lado, o que pesquisam não tem em conta actualizações diárias, semanais, ou ainda mensais, independentemente do que anunciam. Se um bibliotecário disser: «aqui estão 10 artigos sobre nativos americanos, temos mais 40 mas para já não o deixamos ver. Vamos esperar que encontre noutra biblioteca», nós mandamo-lo àquela parte. Na Internet isto acontece com frequência e ninguém se importa»
3. Não existe controlo de qualidade
Sim, precisamos da Internet, mas para além de toda informação científica, médica e histórica, a Net é também um poço cheio de lixo. Quando os jovens cibernautas não se estão a dedicar à educação sexual através de sites XXX [que por sinal acho muito bem!], estão provavelmente a aprender política através da freeman Web page, ou a bondade das relações inter-étnicas através do site do Ku Klux Klan, ou pior ainda, Biblioteconomia avançada através do Bibliotecário Anarquista. Não existe, portanto, controlo de qualidade na Internet e não parece que alguma vez venha a existir. Ao contrário das bibliotecas onde a imprensa cor-de-rosa não entra ou entra raramente, a vaidade e o ego são muitas vezes o fio condutor da Net [e este weblogue é disso um exemplo flagrante] onde qualquer tolo pode pôr online qualquer espécie de dejecto tóxico sem o menor problema.
4. Aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal
«Uma das grandes conquistas dos leitores nas bibliotecas tem sido o acesso online aos jornais eletrónicos. Contudo os magníficos sites que disponibilizam os textos completos, nem sempre o fazem de forma “completa”. E aquilo que ficamos sem saber pode ser fatal.
Assim:
- Os artigos nestes sites são muitas vezes incompletos e entre outras lacunas não costumam apresentar “notas de rodapé”.
- Tabelas, gráficos e fórmulas também não costumam surgir de forma legível;
- Os títulos dos jornais online mudam muitas vezes sem qualquer espécie de aviso;
- Uma biblioteca pode começar com x títulos em Setembro e acabar com Y títulos em Maio. O problema é que esses títulos não são os mesmos que o pacote Setembro-Maio.
- Embora a biblioteca possa ter pago 100.000$ pela assinatura anual, raramente é notificada ou informada sobre qualquer mudança.
Não trocaria o acesso a jornais electrónicos por nada neste mundo, contudo a sua utilização deve ser bem medida, ajuizada e planeada, não se devendo conferir de imediato uma confiança total, completa e exclusiva».
O Bibliotecário Anarquista explica porque A Internet não substitui as bibliotecas
Apesar de ter, oficialmente, morrido a 24 de Outubro de 2010, O Bibliotecário Anarquista, do meu amigo Adalberto Barreto, é um blogue que tenho sempre prazer em revisitar.
Reencontrei esta série de posts com o título genérico «A Internet não substitui as bibliotecas: 10 razões (uma por dia)», publicados em 2006. Apesar dos números apontados estarem claramente desactualizados e o volume de informação disponível na Internet ser, oito anos depois, incomparavelmente maior, estas dez razões não perderam pertinência nem actualidade. Infelizmente, o bibliotecário anarquista só publicou a seis primeiras mas deixou a ligação para a fonte. Essa ligação está desactualizada mas o texto original pode continuar a ser lido aqui. Por isso as recordo aqui, mais uma vez, para os leitores que só recentemente chegaram à biblioteca de Jacinto.
A primeira pode ser lida aqui mas receando que, depois de morto, o blogue se decomponha, transcrevo-a com a merecida vénia.
1. NEM TUDO ESTÁ DISPONÍVEL NA INTERNET
«Com mais de um bilião de páginas WEB, nunca o diríamos pela simples observação. No entanto, muito poucos materiais com conteúdo certificado estão disponíveis na Internet em acesso livre. Por exemplo, apenas 8% dos jornais científicos estão online e quanto aos livros a percentagem ainda é menor. Ainda assim quando estão acessíveis o seu acesso não é gratuito (ao contrário das bibliotecas). Se quisermos aceder ao Journal of Biochemistry, Physics Today, Journal of American History, temos de pagar e não é pouco».
«Com mais de um bilião de páginas WEB, nunca o diríamos pela simples observação. No entanto, muito poucos materiais com conteúdo certificado estão disponíveis na Internet em acesso livre. Por exemplo, apenas 8% dos jornais científicos estão online e quanto aos livros a percentagem ainda é menor. Ainda assim quando estão acessíveis o seu acesso não é gratuito (ao contrário das bibliotecas). Se quisermos aceder ao Journal of Biochemistry, Physics Today, Journal of American History, temos de pagar e não é pouco».
11 agosto 2014
Banquetes de Platão VI
«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)
Sete anos e meio depois da primeira receita, e quase dois desde a quinta, eis que me decido a publicar a sexta. Desta vez é de bifes de atum mas o interessante aqui é o tempero. Nunca tinha usado zimbro. Na verdade, para mim, o zimbro era a erva que o Panoramix usa para fazer a poção mágica. Vi um frasquinho com bagas de zimbro na prateleira do supermercado, fiquei curiosa e comprei.
Em casa, ao abrir o frasco, senti um intenso odor a resina e descobri, num livro sobre especiarias, que o zimbro é o ingrediente principal do gin mas que também serve como tempero de carnes. Bem, o atum não é carne mas quase. Resolvi fazer a experiência e superou as expectativas.
BIFES DE ATUM COM ZIMBRO E PIMENTA ROSA
Sete anos e meio depois da primeira receita, e quase dois desde a quinta, eis que me decido a publicar a sexta. Desta vez é de bifes de atum mas o interessante aqui é o tempero. Nunca tinha usado zimbro. Na verdade, para mim, o zimbro era a erva que o Panoramix usa para fazer a poção mágica. Vi um frasquinho com bagas de zimbro na prateleira do supermercado, fiquei curiosa e comprei.
Em casa, ao abrir o frasco, senti um intenso odor a resina e descobri, num livro sobre especiarias, que o zimbro é o ingrediente principal do gin mas que também serve como tempero de carnes. Bem, o atum não é carne mas quase. Resolvi fazer a experiência e superou as expectativas.
BIFES DE ATUM COM ZIMBRO E PIMENTA ROSA
Esmaguei no almofariz bagas de zimbro, pimenta rosa, sal marinho, azeite e umas gotas de vinagre. Marinei os bifes de atum nesta mistura e grelhei-os na chapa bem quente, deixando-os tostadinhos por fora e ligeiramente mal passados por dentro. Ficou delicioso!
30 julho 2014
Sinfonia da ópera "La Spinalba" de Francisco António de Almeida - "Os Mú...
Provavelmente um dos meus compositores preferidos. Não, não só dos portugueses. De todos os lugares e de todos os tempos.
Assim assinalo o meu regresso às publicações na biblioteca de Jacinto.
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23 maio 2014
Oh, Deus d'Ourique, vêm ahi os castelhanos!
«Ega porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.
Alencar, patriota á antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu alli apenas "um dos paradoxos do nosso Ega". Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar e marítima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as allianças que teríamos, a troco das colonias - das colonias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, n’um momento de guerra europea, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o creado, apresentando-lhe a travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a salvação do paiz, n’essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
- N’isto: no ressuscitar do espirito publico e do génio portuguez! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscripção, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e intelligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outr’ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... Oh Deus d’Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, n’um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprar-se á America - e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas do século XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de gallegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas cousas me põe o coração negro! E como vocés podem fallar n’isso, a rir, quando se trata do paiz, d’esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de accordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d’outra cousa, fallemos de mulheres!»
(Eça de Queiroz - Os Maias)
- Portugal não necessita refórmas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.
Alencar, patriota á antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu alli apenas "um dos paradoxos do nosso Ega". Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia elle, invasão não significa perda absoluta de independencia. Um receio tão estupido é digno só de uma sociedade tão estupida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um paiz que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguem consentiria em deixar cahir nas mãos de Hespanha, nação militar e marítima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as allianças que teríamos, a troco das colonias - das colonias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, n’um momento de guerra europea, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisação, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galliza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o creado, apresentando-lhe a travessa.
E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a salvação do paiz, n’essa catastrophe que tornaria povoação hespanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heroes, berço dos Egas...
- N’isto: no ressuscitar do espirito publico e do génio portuguez! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bella situação nos achavamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscripção, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e intelligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outr’ora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tarêa... Oh Deus d’Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, n’um rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma bella resistencia! Cohen affiançava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprar-se á America - e Craft offereceu logo a sua collecção de espadas do século XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de gallegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas cousas me põe o coração negro! E como vocés podem fallar n’isso, a rir, quando se trata do paiz, d’esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de accordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, fallemos d’outra cousa, fallemos de mulheres!»
(Eça de Queiroz - Os Maias)
14 maio 2014
Joly Braga Santos: 90 anos
Quando, em Janeiro de 2009, trabalhei no processo de doação do espólio de Joly Braga Santos à Biblioteca Nacional, estava longe de imaginar o quanto este acontecimento me iria marcar.
Eu não posso dizer que conhecesse a música de Joly Braga Santos. Tinha-a ouvido, decerto, uma vez ou outra, na Antena 2, com pouca atenção, das poucas vezes que a “rádio clássica” passava música de compositores portugueses, mas, não possuindo nenhum disco deste compositor, a verdade é que não posso dizer que conhecia a sua música. Quando me vi na contingência de tratar do processo com a filha mais velha do compositor, achei por bem ouvir alguma coisa da sua música para não passar pela vergonha de não conhecer nada da obra de um dos compositores mais importantes do século XX e – bem pior – passar por essa vergonha perante a sua filha.
A descoberta da música de Joly Braga Santos foi, deste modo, uma feliz contingência. A sua produção contempla mais de 170 obras que abrangem praticamente todos os géneros possíveis: música para orquestra de sopros, de cordas e sinfónica (é justamente considerado o maior sinfonista português de sempre e um dos maiores do século XX), música de câmara, música coral a capella e coral sinfónica, música vocal de câmara, música para teatro, óperas, bandas sonoras, música para piano e arranjos de obras de outros compositores. Só não se dedicou à música sacra tendo, ainda assim, composto um Requiem à memória de Pedro de Freitas Branco. Com uma obra tão vasta e diversificada, é lamentável que apenas uns dez por cento estejam gravados.
Mas falava da minha experiência pessoal. Descobrir a música de Joly Braga Santos foi uma feliz contingência que acompanhou a igualmente feliz descoberta da sua genialidade e da sua personalidade muito particular, durante as longas conversas que mantive com a Piedade, nos dias em que preparei o inventário e transporte do seu espólio. Um homem absolutamente genial, que compunha como respirava, sem nunca ter apresentado nenhuma daquelas idiossincrasias insuportáveis dos génios. Todos os que o conheceram sem referem a ele como um génio musical que mantinha, não obstante, uma simplicidade e ternura enternecedoras e uma amor incondicional pela família e pelas coisas simples que enriquecem a alma.
A música de Joly Braga Santos é maravilhosa e só o azar de nascer português lhe vedou uma maior projecção no panorama internacional onde, ainda assim, é mais conhecido do que em Portugal.
Pouco depois de receber a encomenda de uma ópera a estrear na “Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura”, morreu, em sua casa, aos 64 anos. Cedo de mais. Hoje, 14 de Maio, poderia estar ainda vivo a celebrar o 90ª aniversário. Celebramos nós. Os grandes génios não morrem, apenas deixamos de os ver.
Eu não posso dizer que conhecesse a música de Joly Braga Santos. Tinha-a ouvido, decerto, uma vez ou outra, na Antena 2, com pouca atenção, das poucas vezes que a “rádio clássica” passava música de compositores portugueses, mas, não possuindo nenhum disco deste compositor, a verdade é que não posso dizer que conhecia a sua música. Quando me vi na contingência de tratar do processo com a filha mais velha do compositor, achei por bem ouvir alguma coisa da sua música para não passar pela vergonha de não conhecer nada da obra de um dos compositores mais importantes do século XX e – bem pior – passar por essa vergonha perante a sua filha.
A descoberta da música de Joly Braga Santos foi, deste modo, uma feliz contingência. A sua produção contempla mais de 170 obras que abrangem praticamente todos os géneros possíveis: música para orquestra de sopros, de cordas e sinfónica (é justamente considerado o maior sinfonista português de sempre e um dos maiores do século XX), música de câmara, música coral a capella e coral sinfónica, música vocal de câmara, música para teatro, óperas, bandas sonoras, música para piano e arranjos de obras de outros compositores. Só não se dedicou à música sacra tendo, ainda assim, composto um Requiem à memória de Pedro de Freitas Branco. Com uma obra tão vasta e diversificada, é lamentável que apenas uns dez por cento estejam gravados.
Mas falava da minha experiência pessoal. Descobrir a música de Joly Braga Santos foi uma feliz contingência que acompanhou a igualmente feliz descoberta da sua genialidade e da sua personalidade muito particular, durante as longas conversas que mantive com a Piedade, nos dias em que preparei o inventário e transporte do seu espólio. Um homem absolutamente genial, que compunha como respirava, sem nunca ter apresentado nenhuma daquelas idiossincrasias insuportáveis dos génios. Todos os que o conheceram sem referem a ele como um génio musical que mantinha, não obstante, uma simplicidade e ternura enternecedoras e uma amor incondicional pela família e pelas coisas simples que enriquecem a alma.
A música de Joly Braga Santos é maravilhosa e só o azar de nascer português lhe vedou uma maior projecção no panorama internacional onde, ainda assim, é mais conhecido do que em Portugal.
Pouco depois de receber a encomenda de uma ópera a estrear na “Lisboa 94 Capital Europeia da Cultura”, morreu, em sua casa, aos 64 anos. Cedo de mais. Hoje, 14 de Maio, poderia estar ainda vivo a celebrar o 90ª aniversário. Celebramos nós. Os grandes génios não morrem, apenas deixamos de os ver.
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