«Se o livro que estamos a ler não nos despertar, como um punho a martelar-nos o crânio, para que o leremos? Para que o livro nos faça felizes? Valha-me Deus, seríamos igualmente felizes se não tivéssemos livros, e livros que nos façam felizes, podemos, se quisermos, escrevê-los nós. Mas aquilo que nos falta são esses livros que caem em cima de nós como uma desgraça, e nos afligem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como o suicídio. Um livro tem de ser uma picareta de gelo que quebre o mar gelado dentro de nós».
(Kafka, numa carta citada por George Steiner)
23 abril 2015
28 março 2015
Na senda do Milénio
Na senda do Milénio, de Norman Cohn, não é uma obra de ficção mas até
parece. Trata-se de um ensaio muito bem documentado, resultante de uma
década de investigação séria sobre aspectos muito obscuros de uma época
que, no seu todo, também é pouco conhecida.
Estou a lê-lo pela segunda vez (a primeira foi há mais de 25 anos). Faz uma interessantíssima viagem pelos movimentos milenaristas, pelas seitas heréticas e libertárias de origem popular e pelas suas ideologias surpreendentemente próximas dos movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX. Anti-clericalismo, comunismo, liberdade sexual, igualitarismo, messianismo e todos os ideais utópicos de sociedade que atravessaram a Idade Média deixando rastos muito ténues para os historiadores pois, na maior parte dos casos, os seus mentores e seguidores pouco ou nada deixaram escrito. É maioritariamente por fontes secundárias que o autor consegue reconstituir este fascinante puzzle de extraordinária diversidade, contrariando a visão habitual de uma sociedade medieval monolítica.
Estou a lê-lo pela segunda vez (a primeira foi há mais de 25 anos). Faz uma interessantíssima viagem pelos movimentos milenaristas, pelas seitas heréticas e libertárias de origem popular e pelas suas ideologias surpreendentemente próximas dos movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX. Anti-clericalismo, comunismo, liberdade sexual, igualitarismo, messianismo e todos os ideais utópicos de sociedade que atravessaram a Idade Média deixando rastos muito ténues para os historiadores pois, na maior parte dos casos, os seus mentores e seguidores pouco ou nada deixaram escrito. É maioritariamente por fontes secundárias que o autor consegue reconstituir este fascinante puzzle de extraordinária diversidade, contrariando a visão habitual de uma sociedade medieval monolítica.
27 março 2015
Carta Aberta do PEN Clube Português
Carta Aberta do PEN Clube Português ao Presidente da República Portuguesa, aos membros do Governo e da Assembleia da República, aos órgãos de comunicação social e à população em geral, respeitante à língua portuguesa
A língua portuguesa é o nosso património comum com o qual convivemos e que
utilizamos no domínio público e privado, oralmente e por escrito. Bastaria esta
razão para fazer dela algo mais do que um património imaterial, que nunca
deveria poder ser intervencionado sem uma ampla consulta pública e o apoio de
pareceres qualificados. Ora sabemos que tal consulta pública nunca existiu e
que em 2008, aquando da votação do chamado “2º Protocolo Modificativo” que
permitia a imposição do “Acordo Ortográfico de 1990) ” (AO 1990), foram
ignorados tanto uma petição com mais de 100000 assinaturas como opiniões e
pareceres de qualificados especialistas, tendo sido tomado em conta apenas o
parecer de um dos autores do AO 1990. Três anos após essa forçada
“implementação”, os resultados estão à vista e decorrem não só da precipitação
da mesma como da contradição básica entre as facultatividades previstas pelo
texto do AO 1990 e a acção redutora do programa Lince, elaborado por uma
instância (ILTEC) sem legitimidade para tal.
O PEN Clube Português segue com profunda apreensão tal processo que se
traduz numa crescente iliteracia e num ostensivo caos linguístico, que chegou
até às escolas e aos órgãos administrativos, e fornece diariamente exemplos que
seriam ridículos se não fossem tristes sinais de insensibilidade e ignorância
face a um património que é de todos. Logo nos primeiros dias após o início da
forçada “implementação”, o PEN organizou uma sessão sobre o “Mal-estar com o
Acordo Ortográfico” (9.1.2012) e desde então não deixou de apresentar, nas
Assembleias do PEN Nacional e Internacional, propostas construtivas visando a
suspensão de uma situação crescentemente insustentável até à conclusão de um
amplo e sério debate que tenha em conta a experiência entretanto verificada.
O PEN Clube Português apela ao bom senso político dos agentes decisores no
sentido de, no mínimo, não impor um grafolecto deficientemente elaborado e
aniquilador das raízes etimológicas. Sublinhamos, dento do espírito de diálogo
aberto e crítico que sempre cultivámos, a conveniência da sua suspensão
enquanto se debatem medidas de fundo para colmatar o caos resultante da
aplicação arbitrária de um instrumento comprovadamente ineficaz para alcançar
os propósitos estabelecidos. Estes são por natureza incongruentes e absurdos:
nem uma língua se pode “unificar” nas suas variantes (como o comprovam o
inglês, francês e espanhol) nem uma escrita se pode “simplificar” fazendo cada
indivíduo recorrer à instabilidade da sua pronúncia própria.
Lisboa, 25 de Março de 2015
Os sócios do PEN Clube Português, reunidos na Assembleia Geral ordinária
22 março 2015
Primavera
«Avisadas pelo calendário, sabemos que estamos na primavera, mas não porque as delícias da linda estação se fizessem já sentir, e cremos mesmo que as próprias andorinhas devem estar um pouco arrependidas de terem precipitado a sua chegada...»
Alma Nova. III série, n.º 1 (Abril 1922)
(Fonte: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/…/AlmaNo…/AlmaNova.htm)
Alma Nova. III série, n.º 1 (Abril 1922)
(Fonte: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/…/AlmaNo…/AlmaNova.htm)
18 março 2015
Ideais
MINISTÉRIO DO INTERIOR
Decreto com força de Lei de 18 de março, reorganizando os serviços das bibliotecas e archivos nacionais dependentes da Direcção Geral da Instrucção Secundaria, Superior e Especial
No interesse da Pátria e da República, urge que as Bibliotecas e Archivos portugueses operem a cultura mental funccionando, como universidades livres, facultando ao povo, na lição do livro, o segredo da vida social moderna; destruindo a ignorância, que foi o mais forte sustentaculo do antigo regime; investigando, no documento do passado, o papel de Portugal na civilização.
Pondo a população portuguesa a par da intelligencia mundial, provando scientificamente a acção social do povo que iniciou a idade moderna, pelos descobrimentos marítimos, compete ás Bibliotecas e Archivos uma das mais elevadas missões na revolução nacional.
Não é conservar os livros, mas torná-los úteis, o fim das Bibliotecas. Estabelecimentos de ensino público destinados ao progresso da intelligencia, á extensão da cultura scientifica; focos de intensa irradiação mental, quer na frequencia da sua sede, quer na leitura domiciliária, ou na expansão das collecções moveis; instituições de objectivo pedagogico, actuando pela franca e illimitada communicação com o publico; as Bibliotecas são sempre elemento de instrucção, por mais que as suas collecções pareçam dever ser apenas alvo da avara contemplação dos bibliomanos, pois que, quanto maior for a importancia das suas obras de genio, tanto maior será a acção emancipadora do pensamento, franqueando ás novas gerações o caminho do progresso incessante, a conquista de mais felicidade e de mais justiça.
Tem sido Portugal deliberadamente mantido alheio aos elementos de elevação mental que desenvolvem o esforço collectivo. O franco accesso á Biblioteca, a ampla leitura domiciliaria, as collecções moveis, as salas para crianças, a leitura no caminho de ferro, nos hospitaes e nas prisões — esse conjunto de meios que, alem de facilitar o livro, solicitam o leitor, offerecendo-lh’o em todas as condições, enviando-lh’o para todos os pontos, tem sido completamente posto á margem neste país.
Serviram em Portugal as Bibliotecas para sequestrar o livro, defendendo o povo do peccado de saber, repellindo a criança e o operario, contrariando o estudioso, trahindo o principio que manda reservar o volume raro, para impedir a leitura do livro emancipador, exercendo a censvra sobre a requisição do leitor, annullando de facto o livro, como o fazia a Inquisição, cujo crime não era destruir pelo fogo o exemplar, mas impedir pelo fogo a sua leitura.
Para o antigo regime, o perigo era pensar; para a República, o perigo é a ignorancia, crime publico, attentado contra a patria, tão prejudicial no operario como no burguês, confinando aquelle na barbara depressão da miseria, inutilizando-lhe o esforço pela incapacidade profissional e annullando este na rotina e na incultura.
Ingleses e Americanos, querendo levantar a cultura pelo self-instruction, proporcionando ao povo os meios de se instruir por si mesmo, operaram uma verdadeira revolução nas Bibliotecas. Ao tradicional conservador, cujo ideal era impedir que se folheasse o livro, substituiram o moderno propagandista, cujo orgulho profissional consiste em destruir pelo fogo milhões de volumes que, no apostolado da instrucção, se fizeram circular até completamente se inutilizarem.
Segundo o criterio dessas instituições modelares, os Palacios de Leitura, que caracterizam a nova civilização, teem um triplice fim: ensinar, informar, distrahir.
Distrahindo, facilitando a obra de entretenimento, as Bibliotecas educam para a vida mental, criando o habito da leitura, encaminhando o povo para a vida intellectual, afastando-o dos meios deprimentes, dos habitos dispersivos, dos locaes material e moralmente insalubres.
Com relação ás questões de momento, devem as Bibliotecas publicar listas de livros que possam pôr o cidadão ao corrente dos negocios publicos, habilitando-o a conhecer as leis eleitoraes, as constituições, as reformas de instrucção, os planos financeiros, tudo quanto é submetido ao seu exame pelas publicações officiais, pela discussão do Parlamento e pelo programma dos candidatos ao mandato eleitoral.
Assim, tornam se as Bibliotecas um elemento de ordem, orientando intellectualmente os cidadãos, agrupando-os pela comprehensão dos assuntos sociaes, defendendo-os da impulsão irreflectida ou da resistencia rotineira.
A Biblioteca é, pois, uma officina sempre aberta; o que representa uma economia de tempo e de trabalho, com todos os seus serviços consagrados exclusivamente ao fornecimento de livros ao publico.
Não bastam, porem, á instrucção do povo português as actuaes Bibliotecas dos grandes centros; é preciso instituir Bibliotecas Populares em todos os municipios, e fazer irradiar d’esses nucleos a corrente intellectual das Bibliotecas Moveis, que levarão os livros a todas as aldeias, engrandecendo a união da escola e tornando-a o principal centro de interesse da população.
Chamando desde já a criança á Biblioteca, prepara a Republica a nova geração consciente dos seus deveres e dos seus direitos, conhecedora de que a moderna vida social é orientada pelo livro e está expressa no livro.
Evidenciada a missão das Bibliotecas e o fira que teem em vista, procurou o Governo o meio de pôr termo á sua orientação rotineira e de apagar os traços das más administrações anteriores.
Franqueada sem restricção, a Biblioteca terá de ora ávante tal acolhimento, que o povo considerará como um prazer mental voltar ali, collaborar na vigilancia, promover doações, propagar as collecções moveis, etc. Não haverá naquele estabelecimento fins superiores ao de aumentar a leitura, fazendo irradiar o livro, quaesquer que sejam os prejuizos da sua deterioração, porque o mal irreparavel para a Patria e para a Republica seria manter a actual incultura, propositadamente conservada pelo antigo regime.
E, assim como a revolução engrandeceu a missão das Bibliotecas, de que depende o futuro; assim tambem criou aos Archivos um papel de importancia decisiva, de que depende o passado.
Urge recolher, installar, catalogar, connexar cuidadosamente, como peça justificativa do processo movido pelo povo ao regime que o opprimia, os milhares de documentos das extinctas casas religiosas, que provam o crime de entenebrecimento do povo, os montões de papeis suspeitos em que permanece o traço da dissipação.
Valerão as Bibliotecas, nesta hora de enthusiasmo, em que se torna urgente recuperar o tempo perdido, pela sua frequencia e pelas suas raridades; é aos Archivos que pertence valorizar os testemunhos de outras eras, integrando- os nas respectivas collecções.
Teremos assim Bibliotecas votadas, umas á expansão do livro, outras ao repositório da alta cultura philosophica, scientifica, literaria e artistica, e Archivos destinados aos estudos historicos, que reivindicarão o verdadeiro legado, pertencente, na historia da civilização, ao glorioso povo português.
Paços do Governo da Republica, em 18 de março de 1911 = O Ministro do Interior, Antonio José de Almeida
Diário do Governo, n.º 65 (1911, terça-feira, 21 de março)
25 fevereiro 2015
Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
Maria do Rosário Pedreira
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
Maria do Rosário Pedreira
30 janeiro 2015
Momento poético
Ja não sou o teu pequeno
Ja não sou o teu amor
Tu me fojes, tu me deixas
Eu te sigo, minha flor.
Já que emgrata te mostraste
Que tirana, que cruel.
07 janeiro 2015
01 janeiro 2015
No Dia da Paz
«Possa eu ser em todos os tempos, hoje e sempre,
«O protector dos que não têm protecção
«O guia dos que perderam o caminho
«Um barco para os que têm de atravessar oceanos
«Uma ponte para os que têm de atravessar rios
«Um santuário para os que estão em perigo
«Uma lâmpada para os que não têm luz
«Um refúgio para os que não têm abrigo
«E o servente de todos os que precisam.»
(Dalai Lama)
«O protector dos que não têm protecção
«O guia dos que perderam o caminho
«Um barco para os que têm de atravessar oceanos
«Uma ponte para os que têm de atravessar rios
«Um santuário para os que estão em perigo
«Uma lâmpada para os que não têm luz
«Um refúgio para os que não têm abrigo
«E o servente de todos os que precisam.»
(Dalai Lama)
31 dezembro 2014
Votos para 2015
Há precisamente um ano eu escrevia aqui o seguinte:
«Procurei uma imagem de esperança para vos oferecer como votos para 2014. Procurei um poema animador, procurei uma frase, procurei uma música. Nada conseguiu exprimir o meu sentimento contraditório de optimista emocional - que sou - e pessimista racional - a que a realidade me obriga. Foi então que encontrei este poema do alquimista das palavras, António Gedeão. Não consigo acrescentar nada. Quanto à pergunta final, responda quem souber. Para todos os visitantes da Biblioteca de Jacinto, os meus votos de um 2014 melhor do que as mais optimistas expectativas. E que caia, que caia este ano, que caia o mais depressa possível, que caia o que já tarda em cair, o que já devia ter caído, que caia o nosso triste desespero».
Um ano depois, o meu estado emocional não se alterou. As mais optimistas expectativas não foram atingidas, quanto mais superadas. O que se esperava que caísse não caíu. O nosso triste desepero continua desesperadamente triste.
O ano que agora entra é ano de eleições. Tenhamos esperança nos portugueses, no discernimento dos portugueses que, em outros momentos limite da nossa História, souberam mostrar que sabem deitar pela janela fora os Miguéis de Vasconcelos. Dizem que a Esperança é a última a morrer.
Em 2015, tenhamos Esperança.
«Procurei uma imagem de esperança para vos oferecer como votos para 2014. Procurei um poema animador, procurei uma frase, procurei uma música. Nada conseguiu exprimir o meu sentimento contraditório de optimista emocional - que sou - e pessimista racional - a que a realidade me obriga. Foi então que encontrei este poema do alquimista das palavras, António Gedeão. Não consigo acrescentar nada. Quanto à pergunta final, responda quem souber. Para todos os visitantes da Biblioteca de Jacinto, os meus votos de um 2014 melhor do que as mais optimistas expectativas. E que caia, que caia este ano, que caia o mais depressa possível, que caia o que já tarda em cair, o que já devia ter caído, que caia o nosso triste desespero».
Um ano depois, o meu estado emocional não se alterou. As mais optimistas expectativas não foram atingidas, quanto mais superadas. O que se esperava que caísse não caíu. O nosso triste desepero continua desesperadamente triste.
O ano que agora entra é ano de eleições. Tenhamos esperança nos portugueses, no discernimento dos portugueses que, em outros momentos limite da nossa História, souberam mostrar que sabem deitar pela janela fora os Miguéis de Vasconcelos. Dizem que a Esperança é a última a morrer.
Em 2015, tenhamos Esperança.
18 dezembro 2014
Concerto de Natal com música portuguesa pelo Grupo Vocal Arsis
Igreja de Nossa Senhora da Pena | Calçada de Santana (Lisboa) Domingo 21 de Dezembro de 2014 | 16h00
07 dezembro 2014
Banquetes de Platão VII
«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)
Esta é a sétima receita de minha invenção que aqui publico. Não é completamente de minha invenção pois baseei-me numa outra do Chef Hernâni Ermida mas alterei-a bastante portanto esta é minha.
LOMBINHO DE PORCO COM PURÉ DE BATATA-DOCE
1 lombinho de porco
Colorau em pó q.b.
Sal q.b.
1 dl de azeite
3 ou 4 dentes de alho
1 cálice de vinho branco
3 ou 4 cebolas pequenas
½ cálice de cachaça
Esfreguei todo o lombinho com sal e colorau em pó. Num tacho alourei o lombinho no azeite virando-o para ficar todo por igual.
Deitei os alhos esmagados e refresquei com o vinho branco. Deixei evaporar o álcool por uns cinco minutos.
Cortei as cebolas aos gomos (quartos ou oitavos conforme o tamanho das cebolas), juntei-as ao lombinho e reguei tudo com a cachaça. Deixei cozinhar em lume brando por uns 15 a 20 minutos com o tacho tapado, virando a carne uma ou duas vezes.
Acompanhei com puré de batata-doce. Ficou uma delícia!
Esta é a sétima receita de minha invenção que aqui publico. Não é completamente de minha invenção pois baseei-me numa outra do Chef Hernâni Ermida mas alterei-a bastante portanto esta é minha.
LOMBINHO DE PORCO COM PURÉ DE BATATA-DOCE
1 lombinho de porco
Colorau em pó q.b.
Sal q.b.
1 dl de azeite
3 ou 4 dentes de alho
1 cálice de vinho branco
3 ou 4 cebolas pequenas
½ cálice de cachaça
Esfreguei todo o lombinho com sal e colorau em pó. Num tacho alourei o lombinho no azeite virando-o para ficar todo por igual.
Deitei os alhos esmagados e refresquei com o vinho branco. Deixei evaporar o álcool por uns cinco minutos.
Cortei as cebolas aos gomos (quartos ou oitavos conforme o tamanho das cebolas), juntei-as ao lombinho e reguei tudo com a cachaça. Deixei cozinhar em lume brando por uns 15 a 20 minutos com o tacho tapado, virando a carne uma ou duas vezes.
Acompanhei com puré de batata-doce. Ficou uma delícia!
20 novembro 2014
17 novembro 2014
Políticos
Por vezes questiono-me «Mas será possível que não exista um único
político honesto, impoluto, que não esteja metido em esquemas ou
negócios inconfessáveis, que não tenha ligações a bancos, a grandes
empresas, a sociedades secretas, que esteja na política pelo serviço ao
País? Mas será possível que não haja um único, um só, para amostra, para
me devolver alguma esperança na classe política?!?».
E depois continuo na minha reflexão: «Ora bolas, não é possível! Tem de haver. Se eu estivesse na política não me metia nessas coisas, seria honesta, não me meteria em negócios, mesmo que tivesse oportunidade... e conheço tanta gente honesta, ora essa, a maioria das pessoas que eu conheço é honesta...».
E finalmente, caio na realidade: «Pois... mas eu não conheço ninguém na política...».
E depois continuo na minha reflexão: «Ora bolas, não é possível! Tem de haver. Se eu estivesse na política não me metia nessas coisas, seria honesta, não me meteria em negócios, mesmo que tivesse oportunidade... e conheço tanta gente honesta, ora essa, a maioria das pessoas que eu conheço é honesta...».
E finalmente, caio na realidade: «Pois... mas eu não conheço ninguém na política...».
14 novembro 2014
à espera que saia
Nos anos 70 havia uma "revista semanal dos programas da TV" chamada Tele-Semana. Lembro-me bem de quando apareceu, em 1973. Num anúncio na TV, um homem sentado num banco (acho que na rua) era interpelado por outro que chegava:
- O que é que estás aqui a fazer?
- Estou à espera.
- À espera de quê?
- À espera que saia.
E o anúncio ficou assim durante dias, causando grande surpresa aos espectadores pouco habituados a métodos inovadores de publicidade.
Do que estaria o homem à espera? Durante muito tempo a expressão «à espera que saia» permaneceu na linguagem corrente, como aconteceu com frases como «Palavras para quê? É um artista português!», «Foi você que pediu...» ou, mais recentemente, «Estou que nem posso» e «Jovem: Leite! Onde está o leite?».
Ao fim de uns dias, o diálogo concluía-se:
- À espera que saia a... Tele-Semana!!!
E pronto. Estava lançada a primeira revista de televisão em Portugal.
Quem terá hoje, ainda, algum tipo de evocação perante a pergunta «Estás à espera de quê?». Quem ainda se lembrará de responder «À espera que saia»?
Lembrei-me agora deste anúncio mas não para responder «À espera que saia».
A minha resposta actualmente é mais: «À espera que grave»...
02 outubro 2014
Os Maias
Fui ver a versão completa d'Os Maias, de João Botelho.
Os Maias - o romance - é uma obra prima e um dos (se não o) meu romance preferido de toda a literatura portuguesa. Ia com algum receio porque verter um romance em filme costuma dar mau resultado.
Optei por ver a versão integral - 3h05' - e foi uma agradável surpresa.
Gostei de alguns aspectos em particular:
O facto de o filme não se centrar na história de amor entre Carlos e Maria Eduarda. A opção fácil de reduzir Os Maias a um caso de amor incestuoso seria matar a obra.
A opção assumida por uma versão não realista. Gostei muito do recurso aos cenários. Introduziu um contraste (na minha opinião) interessantíssimo entre o duro e cru do realismo literário e o assumido irrealismo dos cenários e das tomadas de cena. Há um ambiente teatral (câmara estática, as personagens viradas para a câmara em vez de se virarem umas para as outras), um ritmo literário nos diálogos que, em conjugação com o excelente trabalho dos actores, cria um certo distanciamento por parte do espectador, um envolvimento contido com o drama.
A concentração nos pontos-chave do romance. Estão lá quase todas as cenas que esperamos encontrar. Eu sou daquelas pessoas que sabem falas de cor e completam mentalmente os diálogos, por isso agradou-me imenso ver o diálogo do reencontro inicial entre João da Ega e Carlos da Maia - com o famoso episódio da peste em Celorico -, a cena do Hotel Central, a preparação do baile de máscaras, etc. Até a cena de infância entre Carlos e Eusébiosinho vestido de anjo aparece durante o sonho de Afonso da Maia. Estão lá as nossas referências todas ou quase todas.
As personagens estão muito bem caracterizadas: João da Ega está magistral, João Perry É o Afonso da Maia (não acho possível fazer melhor, estamos a ver em carne e osso o Afonso da Maia que imaginamos), a Gouvarinho está muito bem, com «os seus cabelos ruivos, cor de brasa ás luzes, dum encrespado forte, como crestados da chama interna». Dâmaso Salcede correponde perfeitamente ao «mocinho imberbe, de olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento», com a sua pose ridícula e sabuja mas sem nunca caír no excesso da caricatura.
A única que não corresponde minimamente ao que imaginava é a Raquel Cohen. Não me refiro ao trabalho da actriz mas à figura descrita por Eça, cuja «maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meia solta sobre as costas, como num desalinho de nudez».
A cena da revelação não tem a intensidade dramática que eu esperava. É difícil, porém, porque a tremenda descrição de Eça (é uma das cenas mais violentamente dramáticas que já li) baseia-se no que o João da Ega está a pensar enquanto se mantem aparentemente impassível perante o Guimarães.
Finalmente, a cena do incesto parece-me intensa e dramática. É aliás, a cena mais intensa do filme, a única onde há movimentos de câmara, efeitos de "chiaroscuro" quase pictóricos, para representar o conflito interior de Carlos.
Recomendo a versão completa. A mim não cansou nada, foram três horas de prazer que passaram rapidamente.
Parabéns ao João Botelho e a todos os actores pelo magnífico trabalho.
Os Maias - o romance - é uma obra prima e um dos (se não o) meu romance preferido de toda a literatura portuguesa. Ia com algum receio porque verter um romance em filme costuma dar mau resultado.
Optei por ver a versão integral - 3h05' - e foi uma agradável surpresa.
Gostei de alguns aspectos em particular:
O facto de o filme não se centrar na história de amor entre Carlos e Maria Eduarda. A opção fácil de reduzir Os Maias a um caso de amor incestuoso seria matar a obra.
A opção assumida por uma versão não realista. Gostei muito do recurso aos cenários. Introduziu um contraste (na minha opinião) interessantíssimo entre o duro e cru do realismo literário e o assumido irrealismo dos cenários e das tomadas de cena. Há um ambiente teatral (câmara estática, as personagens viradas para a câmara em vez de se virarem umas para as outras), um ritmo literário nos diálogos que, em conjugação com o excelente trabalho dos actores, cria um certo distanciamento por parte do espectador, um envolvimento contido com o drama.
A concentração nos pontos-chave do romance. Estão lá quase todas as cenas que esperamos encontrar. Eu sou daquelas pessoas que sabem falas de cor e completam mentalmente os diálogos, por isso agradou-me imenso ver o diálogo do reencontro inicial entre João da Ega e Carlos da Maia - com o famoso episódio da peste em Celorico -, a cena do Hotel Central, a preparação do baile de máscaras, etc. Até a cena de infância entre Carlos e Eusébiosinho vestido de anjo aparece durante o sonho de Afonso da Maia. Estão lá as nossas referências todas ou quase todas.
As personagens estão muito bem caracterizadas: João da Ega está magistral, João Perry É o Afonso da Maia (não acho possível fazer melhor, estamos a ver em carne e osso o Afonso da Maia que imaginamos), a Gouvarinho está muito bem, com «os seus cabelos ruivos, cor de brasa ás luzes, dum encrespado forte, como crestados da chama interna». Dâmaso Salcede correponde perfeitamente ao «mocinho imberbe, de olho esperto e duro, já com ares de emprestar a trinta por cento», com a sua pose ridícula e sabuja mas sem nunca caír no excesso da caricatura.
A única que não corresponde minimamente ao que imaginava é a Raquel Cohen. Não me refiro ao trabalho da actriz mas à figura descrita por Eça, cuja «maior beleza estava nos cabelos, magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ela deixava habilmente cair numa massa meia solta sobre as costas, como num desalinho de nudez».
A cena da revelação não tem a intensidade dramática que eu esperava. É difícil, porém, porque a tremenda descrição de Eça (é uma das cenas mais violentamente dramáticas que já li) baseia-se no que o João da Ega está a pensar enquanto se mantem aparentemente impassível perante o Guimarães.
Finalmente, a cena do incesto parece-me intensa e dramática. É aliás, a cena mais intensa do filme, a única onde há movimentos de câmara, efeitos de "chiaroscuro" quase pictóricos, para representar o conflito interior de Carlos.
Recomendo a versão completa. A mim não cansou nada, foram três horas de prazer que passaram rapidamente.
Parabéns ao João Botelho e a todos os actores pelo magnífico trabalho.
26 setembro 2014
Ainda a propósito do Acordo Ortográfico
«É grande o mistério da língua; a responsabilidade por uma língua e pela sua pureza é de natureza simbólica e espiritual; é uma responsabilidade que não se limita ao plano estético. A responsabilidade pela língua é, na sua essência, uma responsabilidade humana».
(Thomas Mann, citado por George Steiner)
15 setembro 2014
Diálogo imaginário
- Escreveste "concepção" e o acordo ortográfico diz que é "conceção".
- Mas o acordo ortográfico também diz que se escreve como se pronuncia e eu pronuncio "concepção".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico não tem "p".
- Mas antes tinha e eu sempre pronunciei.
- Por isso é que fizeram o acordo ortográfico. Para as pessoas saberem como se pronuncia.
- Mas assim eu pronuncio "conc'ção" como em "concessão".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico pronuncia-se "concéção".
- Mas eu aprendi a ler todas as vogais fechadas excepto...
- Exceto.
- ?...
- Agora diz-se "exceto".
- ... "exceto" quando são a silaba tónica ou são seguidas pela consoantes "pt", "ct" ou "pç".
- Esquece tudo o que aprendeste. Agora quem manda é o acordo ortográfico. Senta-te direito e come a sopa de letras.
- Mas o acordo ortográfico também diz que se escreve como se pronuncia e eu pronuncio "concepção".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico não tem "p".
- Mas antes tinha e eu sempre pronunciei.
- Por isso é que fizeram o acordo ortográfico. Para as pessoas saberem como se pronuncia.
- Mas assim eu pronuncio "conc'ção" como em "concessão".
- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico pronuncia-se "concéção".
- Mas eu aprendi a ler todas as vogais fechadas excepto...
- Exceto.
- ?...
- Agora diz-se "exceto".
- ... "exceto" quando são a silaba tónica ou são seguidas pela consoantes "pt", "ct" ou "pç".
- Esquece tudo o que aprendeste. Agora quem manda é o acordo ortográfico. Senta-te direito e come a sopa de letras.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


.%2Bp.%2B24.jpg)



