Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

21 junho 2018

Pensavam que a Democracia não corria riscos?
Pensavam que os direitos sociais e laborais conquistados nos últimos cem anos eram irreversíveis?
Pensavam que o nazismo jamais poderia voltar?
Pensem outra vez.
Seja o que for... pensem que pode, está e vai acontecer.
(Nota: a minha resposta para qualquer das perguntas é Não. Não, eu nunca pensei nada disso. Não, eu não estou surpreendida. Eu sempre tive a certeza que tudo voltaria a acontecer. Tal como um terramoto em Lisboa, sabemos que vai acontecer um dia mas guardamos a secreta esperança de não acontecer no nosso tempo...)

04 abril 2018

Eu tenho um sonho, hoje!


Martin Luther King
(15 Jan. 1929 – 4 de Abr. 1968)

«Tenho o sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos que estas verdades são evidentes por si mesmas: todos os homens são criados iguais".

«Tenho o sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

«Tenho o sonho que um dia, até o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

«Tenho o sonho que os meus quatro filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caractér.

«Eu tenho um sonho, hoje.

«Tenho o sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de obstaculização e anulação, seja transformado ao ponto de os rapazinhos negros, e as rapariguinhas negras, possam dar-se as mãos com outros rapazinhos brancos e rapariguinhas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

«Eu tenho um sonho, hoje.

«Tenho o sonho que um dia todos os vales serão elevados, todas as colinas e montanhas serão abaixadas, os lugares acidentados serão aplanados e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão conjuntamente.

«Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias da nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.

«Será esse o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".

[...]

«Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: "Livres, finalmente! Livres, finalmente! Graças a Deus, Todo Poderoso, finalmente somos livres!"»

(Tradução baseada nesta, com pequenas alterações minhas)

31 dezembro 2017

2018

Com a idade que tenho já não consigo escrever coisas como "tenham um ano fantástico". Não existem anos fantásticos. Quando perdi o meu Pai pensei (mesmo) que nunca mais iria sentir alegria na vida. Mas a vida não é assim, as coisas não são assim. Muitas pessoas que conheço vão entrar no novo ano com menos o pai, a mãe, um filho, um irmão, um amigo. Outras com um amor perdido ou um casamento acabado. Outras, ainda, já não vão ter emprego. Muitas pessoas que conheço estão a aprender a viver com perdas irreparáveis. Outras vão entrar no novo ano com mais um filho, um neto ou um sobrinho ou com um novo amor na sua vida; ou um novo emprego, uma nova carreira. Algumas tiveram (ou terão) as duas coisas ao mesmo tempo. Um pai que morre no mesmo ano em que nasce uma filha... Não há anos fantásticos, desculpem. Não é da idade, é da experiência.

Ninguém sabe o que o espera e ninguém controla a vida e a morte, os amores e os desamores. A vida é feita de perdas, não de ganhos. Um recém-nascido é um mundo em potência, não importa onde ou como nasce ou quão rico ou pobre. É a vida que vai eliminando as opções e esculpindo o que cada um vem a ser. Somos o que perdemos. Ou antes, somos o que vai ficando do que perdemos.

Por isso, meus caros amigos, façam o melhor possível do que são e do que têm. Agarrem as oportunidades. Controlem os danos. Aproveitem enquanto têm pais, prestem atenção aos vossos filhos, mantenham o contacto com os vossos amigos e afastem-se de quem vos faz mal. Se querem muito alguma coisa, façam por a conseguir. Não ignorem a vossa consciência mas não deixem que ela vos paralise. Lembrem-se de que terão de viver convosco a vida toda e é melhor manter essa relação saudável.

Um 2018 bem vivido.

28 agosto 2017

Paolo Fresu - Ninna Nanna Pitzinnu

Paolo Fresu - Noi due


Vasco Rossi - Come Vorrei

Niccolò Fabi - Attesa Inaspettata

Há muito tempo que me interrogo o que aconteceu à música italiana, nos últimos vinte anos. Pura e simplesmente, desapareceu do espaço mediático e o pouco que aparece é francamente mau. Por isso resolvi fazer umas pesquisas por conta própria. Ainda não encontrei nada de extraordinário mas vou apanhando algumas coisas interessantes. Por exemplo, este Niccolò Fabi, de quem nunca tinha ouvido falar.

Akiko Shikata - Contrasto

As coisas que se descobrem por acaso...

10 agosto 2017

Um sósia de Hitchcock... no século XVIII

Desde 2008 que não publicava um sósia. Não estão sempre a aparecer.
Este caíu-me nas mãos há pouco, um desenho no verso da última folha de uma sonata de Clementi, publicada em Paris, por volta de 1780, por Jean-Georges Sieber. Um aprendiz de cravista, farto da aula, resolveu desenhar o professor. Isto sou eu a imaginar...







17 julho 2017

Banquetes de Platão VIII

«Nas tardes em que havia "banquete de Platão" (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais)» (QUEIRÓS, Eça de - Civilização)

Esta é a oitava receita de minha invenção que aqui publico. Não é completamente de minha invenção pois baseei-me numa outra, de escalopes de vitela, que vi num supermercado mas alterei-a o suficiente para poder considerá-la minha. Além disso, interrogo-me se existirá absoluta originalidade em culinária? No fundo, todas as receitas se baseiam em outras.
Não dou quantidades, é tudo a olho.

FILETES DE PEIXE-ESPADA PRETO À MILANESA (À MINHA MANEIRA)

Filetes de peixe-espada preto (ou qualquer outro peixe)
Tomate pelado em pedaços pequenos
Alho picado
Manteiga
Farinha
Sal e pimenta

Passei os filetes por farinha, muito bem enfarinhados para ficarem bem sequinhos.
Numa frigideira suficientemente grande para caberem todos os filetes derreti manteiga e fritei os filetes rapidamente, até ficarem lourinhos de ambos os lados. Dispus os filetes numa travessa.
Na mesma manteiga deitei o tomate pelado em pedaços pequenos, temperado, e o alho muito picadinho.
Deixei cozinhar na manteiga. Juntei salsa picada e deitei este molho sobre os filetes.

Acompanhei com esparguete.


05 julho 2017

É o profissionalismo, estúpidos!

É um fenómeno do tempo em que vivemos. Depois da hiper-especialização do século XX (com as profissões cada vez mais e mais especializadas) no século XXI assiste-se à diluição das competências e das profissões. Embora fosse necessário pôr um fim à hiper-especialização, que estava a conduzir a que se soubesse cada vez mais acerca de cada vez menos até ao ponto de se chegar a saber tudo acerca de nada, é necessário não cair no extremo oposto. O saber específico do arquitecto não é o saber específico do engenheiro. Na minha área isto começou há mais tempo, quando as carreiras de bibliotecário e arquivista foram extintas e se diluiu a formação em diferentes cursos de uma coisa vaga denominada Ciência da Informação que é tudo e não é nada. Como se médicos, enfermeiros, analistas clínicos, fisioterapeutas pudessem ser colocados todos no mesmo saco a fazer as mesmas coisas e chamar-lhes Profissionais de Saúde.
Hoje, um bibliotecário que reclame o regresso da carreira e da regulação do exercício da profissão corre sérios riscos de ser acusado de corporativismo. Não é corporativismo. "É o profissionalismo, estúpido!"

Siza Vieira e Souto Moura reagem a pretensões de engenheiros

25 abril 2017

Ciência e Democracia

Defender a Ciência contra a crença também é uma forma de defender a Democracia, ainda que não pareça. As ditaduras, todas as ditaduras, promovem a crença: numa religião, numa ideologia escatológica, numa "mão invisível"...
E atenção, a Democracia não é uma ideologia. A Democracia está para as ideologias como a Ciência está para as crenças: é o único sistema que se auto-questiona, se problematiza, aprende com os erros e se adapta sem cessar. Também é o mais difícil de manter.
O Nazismo baseou em pseudo-ciência toda a sua ideologia racista. E não é por acaso, repito, não é por acaso que nunca, depois da II Guerra, a Ciência esteve tanto sob ataque (fora e até dentro das universidades) na Europa e no dito Mundo Ocidental, como nos últimos anos de escalada capitalista e neo-fascista. E obscurantista.