Pai, Dizem-me que Ainda Te Chamo
Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.
(Maria do Rosário Pedreira, in 'Nenhum Nome Depois')
25 fevereiro 2016
05 fevereiro 2016
A propósito das reacções à tolerância de ponto no Carnaval
Às vezes gostava de ter o poder mágico de, por um dia (bastava um dia)
acabar com toda a administração pública, todos os serviços públicos,
toda a função pública. Tudo o que é Estado ou que depende directa ou
indirectamente da Administração Central, Regional e Local, tudo o que é
pago pelo chorado dinheiro dos contribuintes. Não só repartições
públicas, escolas, museus e bibliotecas, mas também hospitais, higiene
urbana, transportes, obras, cemitérios, polícia, forças armadas,
manutenção de esgotos, abastecimento de água, emergência médica,
bombeiros, serviços de meteorologia, parar tudo, tudo, tudo. Sem
serviços mínimos, acontecesse o que acontecesse. Como se o Estado, por
um dia, deixasse pura e simplesmente de existir.
Bastava um dia.
Bastava um dia.
15 setembro 2015
Aquilo que eu não fiz - Tiago Bettencourt
Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei
Não fui eu que gastei
Mais do que era para mim
Não fui eu que tirei
Não fui eu que comi
Não fui eu que comprei
Não fui eu que escondi
Quando estavam a olhar
Não fui eu que fugi
Não é essa a razão
Para me querem moldar
Porque eu não me escolhi
Para a fila do pão
Este barco afundou
Houve alguém que o cegou
Não fui eu que não vi
Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei
Talvez do que não sei
Talvez do que não vi
Foi de mão para mão
Mas não passou por mim
E perdeu-se a razão
Todo o bom se feriu
foi mesquinha a canção
Desse amor a fingir
Não me falem do fim
Se o caminho é mentir
Se quiseram entrar
Não souberam sair
Não fui eu quem falhou
Não fui eu quem cegou
Já não sabem sair
Meu sonho é de armas e mar
Minha força é navegar
Meu Norte em contraluz
Meu fado é vento que leva e conduz.
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei
Não fui eu que gastei
Mais do que era para mim
Não fui eu que tirei
Não fui eu que comi
Não fui eu que comprei
Não fui eu que escondi
Quando estavam a olhar
Não fui eu que fugi
Não é essa a razão
Para me querem moldar
Porque eu não me escolhi
Para a fila do pão
Este barco afundou
Houve alguém que o cegou
Não fui eu que não vi
Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz
Não me fazem ver que a luta é pelo meu país
Eu não quero pagar depois de tudo o que dei
Não me fazem ver que fui eu que errei
Talvez do que não sei
Talvez do que não vi
Foi de mão para mão
Mas não passou por mim
E perdeu-se a razão
Todo o bom se feriu
foi mesquinha a canção
Desse amor a fingir
Não me falem do fim
Se o caminho é mentir
Se quiseram entrar
Não souberam sair
Não fui eu quem falhou
Não fui eu quem cegou
Já não sabem sair
Meu sonho é de armas e mar
Minha força é navegar
Meu Norte em contraluz
Meu fado é vento que leva e conduz.
10 setembro 2015
A política
«A política é uma occupação dos ociosos, uma sciencia dos ignorantes uma riqueza dos pobres e uma fidalguia dos plebeus. – Reside em S. Bento».
Eça de Queirós In: As farpas: chronica mensal da política das letras e dos costumes. Janeiro de 1872 / Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz. Lisboa: Typographia Universal, 1871)
09 setembro 2015
A gargalhada
«A unica critica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem uma idéia, nem um sentimento, nem uma critica: nem é o desdém, nem é a indignação; nem julga, nem repelle, nem pensa; não cria nada, destroe tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único inventario do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Falla? Gargalhada. Reprime? gargalhada. Cae? gargalhada. E sempre esta politica, aqui, ou pensando ou creando, ou liberal ou oppressiva, terá em redor d’ella, diante d’ella, sobre ella, envolvendo-a, como a palpitação d’azas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, cruel, implacavel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça.»
Eça de Queirós In: As farpas: chronica mensal da política das letras e dos costumes. Julho de 1871 / Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz. Lisboa: Typographia Universal, 1871)
14 agosto 2015
03 junho 2015
JOLY BRAGA SANTOS: A PORTUGUESE PORTRAIT
No próximo sábado, dia 6, vai ocorrer em Londres um acontecimento da maior importância para a projecção da cultura portuguesa no mundo: a estreia internacional do Concerto para Piano e Orquestra, op. 52 de Joly Braga Santos.
Já vos contei como estive envolvida, em Janeiro de 2009, no processo de doação do espólio de Joly Braga Santos à Biblioteca Nacional de Portugal e o impacto que teve em mim esse facto, aparentemente rotineiro.
O Concerto para Piano e Orquestra de Joly Braga Santos foi composto em 1973 para ser tocado por Sérgio Varela Cid, pianista português de prestígio mundial, especialmente reconhecido pelo seu virtuosismo. Contudo, o pianista, residente em São Paulo e desaparecido (literalmente) em 1981, nunca chegou a executá-lo.
A estreia em Lisboa deu-se em 1978, no São Luíz, pela grande pianista
Helena Sá e Costa e só voltaria a ser tocado em 1999 no Centro Cultural de Belém. Parece que terá sido ainda tocado em Paris mas não tenho informação sobre esta apresentação. Vai ser agora apresentado em Londres, pela jovem e talentosa pianista portuguesa Ana Beatriz Ferreira que, com apenas 23 anos, se abalança, com este concerto, ao maior desafio da sua ainda curta carreira como profissional.
Ana Beatriz Ferreira nasceu em 1991 e iniciou os seus estudos musicais aos sete anos, na Academia de Música de Santa Cecília. Prosseguiu os estudos no Conservatório Nacional e concluíu a licenciatura em piano no Royal College of Music de Londres, cidade onde reside e onde se encontra agora a frequentar o Mestrado. Vencedora de vários prémios e distinções, incluindo o 1º Prémio no Concurso Nacional Maria Christina Pimentel, 1º Prémio no Concurso Lopes Graça e três Mérito e Prémios de Excelência pela Fundação Eugénio de Almeida, estreou-se como solista com a Orquestra Filarmonia das Beiras, em 2012, tocando o Concerto para piano n.º 2 de Shostakovich, e participou em festivais no Centro Cultural de Belém (Main Hall e Sala Amália Rodrigues), Teatro de São Luiz (Jardim de Inverno), Pavilhão de Portugal e Palácio Foz (Sala dos Espelhos) e em recitais na Fundação Eugénio de Almeida e Centro Cultural de São Lourenço.
A partitura que agora vai ser tocada nunca tinha sido publicada o que significa que não estava facilmente acessível a qualquer pianista ou maestro que a desejasse executar. Falei nela à Ana Beatriz Ferreira, há cerca de um ano e o seu interesse por conhecer a obra foi imediato. O manuscrito autógrafo (assinado e datado de Lisboa,
19 de Setembro de 1973) encontra-se depositado - juntamente com o restante espólio do compositor - na Biblioteca Nacional de Portugal, onde a pianista o consultou pela primeira vez. O primeiro contacto com a partitura, realizado no piano digital da Sala de Leitura de Música, permitiu-lhe perceber a extraordinária qualidade da música e a urgência de a dar a conhecer. O próprio Royal College of Music cuidou de adquirir a cópia do manuscrito, a Ava Musical Editions procedeu à publicação da partitura (com edição e revisão técnica da própria Ana Beatriz Ferreira) e agora, graças a esta conjugação de esforços, já é possível adquirir um exemplar para que este magnífico Concerto possa ser apresentado em qualquer parte do mundo.
O espectáculo terá lugar na igreja de St. James's, Picadilly,
numa noite dedicada a Joly Braga Santos: na primeira parte serão tocadas
em orquestra obras de Schubert e Tchaikovsky, que se sabe terem sido
apreciadas pelo compositor português, e a segunda parte incluirá a estreia absoluta de uma composição de Edmund Hartzell completada este ano e inspirada por
Braga Santos. A segunda parte terminará com o Concerto para Piano Op.
52.
Eu lá estarei, para ouvir e aplaudir.
É sempre uma emoção indescritível quando a música silenciada nas prateleiras da BNP vem cá para fora gritar que existe e que está viva.
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20 maio 2015
Ortografia e chocolates
Estava aqui a lembrar-me de como o meu Pai prometia uma tablete de chocolate
por cada ditado com zero erros que eu fizesse. As minhas preferidas
eram aquelas da Regina, com sabor a ananás.
Como eu, muito rapidamente, deixei de dar erros de ortografia, comecei a
ter um enorme crédito de tabletes de chocolate (o meu Pai não me
autorizava a comer os chocolates à mesma velocidade a que os ganhava) e a
brincadeira acabou quando ele percebeu que eu nunca mais ia dar erros
de ortografia e iria fazer uma reserva infinita de chocolates na
despensa.
E depois lembrei-me de que, a partir de agora, ao fim de 40 anos, vou voltar a dar - oficialmente - erros de ortografia.
E depois lembrei-me de que, a partir de agora, ao fim de 40 anos, vou voltar a dar - oficialmente - erros de ortografia.
23 abril 2015
Dia mundial do livro
«Se o livro que estamos a ler não nos despertar, como um punho a martelar-nos o crânio, para que o leremos? Para que o livro nos faça felizes? Valha-me Deus, seríamos igualmente felizes se não tivéssemos livros, e livros que nos façam felizes, podemos, se quisermos, escrevê-los nós. Mas aquilo que nos falta são esses livros que caem em cima de nós como uma desgraça, e nos afligem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como o suicídio. Um livro tem de ser uma picareta de gelo que quebre o mar gelado dentro de nós».
(Kafka, numa carta citada por George Steiner)
28 março 2015
Na senda do Milénio
Na senda do Milénio, de Norman Cohn, não é uma obra de ficção mas até
parece. Trata-se de um ensaio muito bem documentado, resultante de uma
década de investigação séria sobre aspectos muito obscuros de uma época
que, no seu todo, também é pouco conhecida.
Estou a lê-lo pela segunda vez (a primeira foi há mais de 25 anos). Faz uma interessantíssima viagem pelos movimentos milenaristas, pelas seitas heréticas e libertárias de origem popular e pelas suas ideologias surpreendentemente próximas dos movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX. Anti-clericalismo, comunismo, liberdade sexual, igualitarismo, messianismo e todos os ideais utópicos de sociedade que atravessaram a Idade Média deixando rastos muito ténues para os historiadores pois, na maior parte dos casos, os seus mentores e seguidores pouco ou nada deixaram escrito. É maioritariamente por fontes secundárias que o autor consegue reconstituir este fascinante puzzle de extraordinária diversidade, contrariando a visão habitual de uma sociedade medieval monolítica.
Estou a lê-lo pela segunda vez (a primeira foi há mais de 25 anos). Faz uma interessantíssima viagem pelos movimentos milenaristas, pelas seitas heréticas e libertárias de origem popular e pelas suas ideologias surpreendentemente próximas dos movimentos revolucionários dos séculos XIX e XX. Anti-clericalismo, comunismo, liberdade sexual, igualitarismo, messianismo e todos os ideais utópicos de sociedade que atravessaram a Idade Média deixando rastos muito ténues para os historiadores pois, na maior parte dos casos, os seus mentores e seguidores pouco ou nada deixaram escrito. É maioritariamente por fontes secundárias que o autor consegue reconstituir este fascinante puzzle de extraordinária diversidade, contrariando a visão habitual de uma sociedade medieval monolítica.
27 março 2015
Carta Aberta do PEN Clube Português
Carta Aberta do PEN Clube Português ao Presidente da República Portuguesa, aos membros do Governo e da Assembleia da República, aos órgãos de comunicação social e à população em geral, respeitante à língua portuguesa
A língua portuguesa é o nosso património comum com o qual convivemos e que
utilizamos no domínio público e privado, oralmente e por escrito. Bastaria esta
razão para fazer dela algo mais do que um património imaterial, que nunca
deveria poder ser intervencionado sem uma ampla consulta pública e o apoio de
pareceres qualificados. Ora sabemos que tal consulta pública nunca existiu e
que em 2008, aquando da votação do chamado “2º Protocolo Modificativo” que
permitia a imposição do “Acordo Ortográfico de 1990) ” (AO 1990), foram
ignorados tanto uma petição com mais de 100000 assinaturas como opiniões e
pareceres de qualificados especialistas, tendo sido tomado em conta apenas o
parecer de um dos autores do AO 1990. Três anos após essa forçada
“implementação”, os resultados estão à vista e decorrem não só da precipitação
da mesma como da contradição básica entre as facultatividades previstas pelo
texto do AO 1990 e a acção redutora do programa Lince, elaborado por uma
instância (ILTEC) sem legitimidade para tal.
O PEN Clube Português segue com profunda apreensão tal processo que se
traduz numa crescente iliteracia e num ostensivo caos linguístico, que chegou
até às escolas e aos órgãos administrativos, e fornece diariamente exemplos que
seriam ridículos se não fossem tristes sinais de insensibilidade e ignorância
face a um património que é de todos. Logo nos primeiros dias após o início da
forçada “implementação”, o PEN organizou uma sessão sobre o “Mal-estar com o
Acordo Ortográfico” (9.1.2012) e desde então não deixou de apresentar, nas
Assembleias do PEN Nacional e Internacional, propostas construtivas visando a
suspensão de uma situação crescentemente insustentável até à conclusão de um
amplo e sério debate que tenha em conta a experiência entretanto verificada.
O PEN Clube Português apela ao bom senso político dos agentes decisores no
sentido de, no mínimo, não impor um grafolecto deficientemente elaborado e
aniquilador das raízes etimológicas. Sublinhamos, dento do espírito de diálogo
aberto e crítico que sempre cultivámos, a conveniência da sua suspensão
enquanto se debatem medidas de fundo para colmatar o caos resultante da
aplicação arbitrária de um instrumento comprovadamente ineficaz para alcançar
os propósitos estabelecidos. Estes são por natureza incongruentes e absurdos:
nem uma língua se pode “unificar” nas suas variantes (como o comprovam o
inglês, francês e espanhol) nem uma escrita se pode “simplificar” fazendo cada
indivíduo recorrer à instabilidade da sua pronúncia própria.
Lisboa, 25 de Março de 2015
Os sócios do PEN Clube Português, reunidos na Assembleia Geral ordinária
22 março 2015
Primavera
«Avisadas pelo calendário, sabemos que estamos na primavera, mas não porque as delícias da linda estação se fizessem já sentir, e cremos mesmo que as próprias andorinhas devem estar um pouco arrependidas de terem precipitado a sua chegada...»
Alma Nova. III série, n.º 1 (Abril 1922)
(Fonte: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/…/AlmaNo…/AlmaNova.htm)
Alma Nova. III série, n.º 1 (Abril 1922)
(Fonte: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/…/AlmaNo…/AlmaNova.htm)
18 março 2015
Ideais
MINISTÉRIO DO INTERIOR
Decreto com força de Lei de 18 de março, reorganizando os serviços das bibliotecas e archivos nacionais dependentes da Direcção Geral da Instrucção Secundaria, Superior e Especial
No interesse da Pátria e da República, urge que as Bibliotecas e Archivos portugueses operem a cultura mental funccionando, como universidades livres, facultando ao povo, na lição do livro, o segredo da vida social moderna; destruindo a ignorância, que foi o mais forte sustentaculo do antigo regime; investigando, no documento do passado, o papel de Portugal na civilização.
Pondo a população portuguesa a par da intelligencia mundial, provando scientificamente a acção social do povo que iniciou a idade moderna, pelos descobrimentos marítimos, compete ás Bibliotecas e Archivos uma das mais elevadas missões na revolução nacional.
Não é conservar os livros, mas torná-los úteis, o fim das Bibliotecas. Estabelecimentos de ensino público destinados ao progresso da intelligencia, á extensão da cultura scientifica; focos de intensa irradiação mental, quer na frequencia da sua sede, quer na leitura domiciliária, ou na expansão das collecções moveis; instituições de objectivo pedagogico, actuando pela franca e illimitada communicação com o publico; as Bibliotecas são sempre elemento de instrucção, por mais que as suas collecções pareçam dever ser apenas alvo da avara contemplação dos bibliomanos, pois que, quanto maior for a importancia das suas obras de genio, tanto maior será a acção emancipadora do pensamento, franqueando ás novas gerações o caminho do progresso incessante, a conquista de mais felicidade e de mais justiça.
Tem sido Portugal deliberadamente mantido alheio aos elementos de elevação mental que desenvolvem o esforço collectivo. O franco accesso á Biblioteca, a ampla leitura domiciliaria, as collecções moveis, as salas para crianças, a leitura no caminho de ferro, nos hospitaes e nas prisões — esse conjunto de meios que, alem de facilitar o livro, solicitam o leitor, offerecendo-lh’o em todas as condições, enviando-lh’o para todos os pontos, tem sido completamente posto á margem neste país.
Serviram em Portugal as Bibliotecas para sequestrar o livro, defendendo o povo do peccado de saber, repellindo a criança e o operario, contrariando o estudioso, trahindo o principio que manda reservar o volume raro, para impedir a leitura do livro emancipador, exercendo a censvra sobre a requisição do leitor, annullando de facto o livro, como o fazia a Inquisição, cujo crime não era destruir pelo fogo o exemplar, mas impedir pelo fogo a sua leitura.
Para o antigo regime, o perigo era pensar; para a República, o perigo é a ignorancia, crime publico, attentado contra a patria, tão prejudicial no operario como no burguês, confinando aquelle na barbara depressão da miseria, inutilizando-lhe o esforço pela incapacidade profissional e annullando este na rotina e na incultura.
Ingleses e Americanos, querendo levantar a cultura pelo self-instruction, proporcionando ao povo os meios de se instruir por si mesmo, operaram uma verdadeira revolução nas Bibliotecas. Ao tradicional conservador, cujo ideal era impedir que se folheasse o livro, substituiram o moderno propagandista, cujo orgulho profissional consiste em destruir pelo fogo milhões de volumes que, no apostolado da instrucção, se fizeram circular até completamente se inutilizarem.
Segundo o criterio dessas instituições modelares, os Palacios de Leitura, que caracterizam a nova civilização, teem um triplice fim: ensinar, informar, distrahir.
Distrahindo, facilitando a obra de entretenimento, as Bibliotecas educam para a vida mental, criando o habito da leitura, encaminhando o povo para a vida intellectual, afastando-o dos meios deprimentes, dos habitos dispersivos, dos locaes material e moralmente insalubres.
Com relação ás questões de momento, devem as Bibliotecas publicar listas de livros que possam pôr o cidadão ao corrente dos negocios publicos, habilitando-o a conhecer as leis eleitoraes, as constituições, as reformas de instrucção, os planos financeiros, tudo quanto é submetido ao seu exame pelas publicações officiais, pela discussão do Parlamento e pelo programma dos candidatos ao mandato eleitoral.
Assim, tornam se as Bibliotecas um elemento de ordem, orientando intellectualmente os cidadãos, agrupando-os pela comprehensão dos assuntos sociaes, defendendo-os da impulsão irreflectida ou da resistencia rotineira.
A Biblioteca é, pois, uma officina sempre aberta; o que representa uma economia de tempo e de trabalho, com todos os seus serviços consagrados exclusivamente ao fornecimento de livros ao publico.
Não bastam, porem, á instrucção do povo português as actuaes Bibliotecas dos grandes centros; é preciso instituir Bibliotecas Populares em todos os municipios, e fazer irradiar d’esses nucleos a corrente intellectual das Bibliotecas Moveis, que levarão os livros a todas as aldeias, engrandecendo a união da escola e tornando-a o principal centro de interesse da população.
Chamando desde já a criança á Biblioteca, prepara a Republica a nova geração consciente dos seus deveres e dos seus direitos, conhecedora de que a moderna vida social é orientada pelo livro e está expressa no livro.
Evidenciada a missão das Bibliotecas e o fira que teem em vista, procurou o Governo o meio de pôr termo á sua orientação rotineira e de apagar os traços das más administrações anteriores.
Franqueada sem restricção, a Biblioteca terá de ora ávante tal acolhimento, que o povo considerará como um prazer mental voltar ali, collaborar na vigilancia, promover doações, propagar as collecções moveis, etc. Não haverá naquele estabelecimento fins superiores ao de aumentar a leitura, fazendo irradiar o livro, quaesquer que sejam os prejuizos da sua deterioração, porque o mal irreparavel para a Patria e para a Republica seria manter a actual incultura, propositadamente conservada pelo antigo regime.
E, assim como a revolução engrandeceu a missão das Bibliotecas, de que depende o futuro; assim tambem criou aos Archivos um papel de importancia decisiva, de que depende o passado.
Urge recolher, installar, catalogar, connexar cuidadosamente, como peça justificativa do processo movido pelo povo ao regime que o opprimia, os milhares de documentos das extinctas casas religiosas, que provam o crime de entenebrecimento do povo, os montões de papeis suspeitos em que permanece o traço da dissipação.
Valerão as Bibliotecas, nesta hora de enthusiasmo, em que se torna urgente recuperar o tempo perdido, pela sua frequencia e pelas suas raridades; é aos Archivos que pertence valorizar os testemunhos de outras eras, integrando- os nas respectivas collecções.
Teremos assim Bibliotecas votadas, umas á expansão do livro, outras ao repositório da alta cultura philosophica, scientifica, literaria e artistica, e Archivos destinados aos estudos historicos, que reivindicarão o verdadeiro legado, pertencente, na historia da civilização, ao glorioso povo português.
Paços do Governo da Republica, em 18 de março de 1911 = O Ministro do Interior, Antonio José de Almeida
Diário do Governo, n.º 65 (1911, terça-feira, 21 de março)
25 fevereiro 2015
Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
Maria do Rosário Pedreira
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
Maria do Rosário Pedreira
30 janeiro 2015
Momento poético
Ja não sou o teu pequeno
Ja não sou o teu amor
Tu me fojes, tu me deixas
Eu te sigo, minha flor.
Já que emgrata te mostraste
Que tirana, que cruel.
07 janeiro 2015
01 janeiro 2015
No Dia da Paz
«Possa eu ser em todos os tempos, hoje e sempre,
«O protector dos que não têm protecção
«O guia dos que perderam o caminho
«Um barco para os que têm de atravessar oceanos
«Uma ponte para os que têm de atravessar rios
«Um santuário para os que estão em perigo
«Uma lâmpada para os que não têm luz
«Um refúgio para os que não têm abrigo
«E o servente de todos os que precisam.»
(Dalai Lama)
«O protector dos que não têm protecção
«O guia dos que perderam o caminho
«Um barco para os que têm de atravessar oceanos
«Uma ponte para os que têm de atravessar rios
«Um santuário para os que estão em perigo
«Uma lâmpada para os que não têm luz
«Um refúgio para os que não têm abrigo
«E o servente de todos os que precisam.»
(Dalai Lama)
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