Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

03 abril 2021

Domingo de Páscoa

Pela primeira vez na minha vida, o Domingo de Páscoa vai ser um dia igual aos outros. Como não tenho qualquer prática religiosa, nem sequer isso tenho para distinguir este dia dos dias profanos. A Páscoa foi sempre passada em família e, no ano passado, em pleno confinamento, passei algumas horas com a minha Mãe, desencontrada dos meus irmãos. Não foi uma Páscoa em família, no sentido próprio, mas foi, ainda assim, um dia marcado pela visita à casa onde vivi vinte e dois anos e onde passei em família todas as Páscoas desde 1984.
Amanhã não será assim. Na casa agora vazia já não há ninguém para visitar.
Quando o meu Pai deixou este mundo, o Domingo de Páscoa foi a primeira vez que a família se reuniu sem ele. É impressionante como uma sala com doze pessoas pode parecer vazia com a falta de apenas uma. Ainda assim, as festas e reuniões de família continuaram, ao longo de treze anos, a replicar o que tinham sido todas as anteriores, com as mesmas pessoas, as mesmas iguarias, tudo igual como se ele ainda estivesse connosco. Não sendo igual, havia continuidade e essa continuidade dava-nos o conforto de sentir que o essencial não tinha mudado, que éramos os mesmos a fazer as mesmas coisas e que o nosso Pai, no fundo, de algum modo, continuava presente. Como sempre vimos os nossos pais como uma unidade, uma espécie de dois em um, estar com a nossa Mãe era um bocadinho estar com o nosso Pai. Habituei-me a dar sempre dois tchim-tchim, bem destacados, na taça da minha Mãe, sempre que fazia um brinde. Um para ela, outro para o meu Pai, que estava ali com ela; que estava ali nela.
Agora já não há ninguém naquela casa, o confinamento mantém-me afastada dos meus irmãos e o Domingo de Páscoa vai ser um dia como os outros. Um dia estranho. O primeiro dia estranho de muitos dias estranhos que me esperam. Nada voltará a ser parecido, sequer. Depois deixará de ser estranho, será apenas o novo normal. Desculpem-se a citação mas não sou poeta e não conheço melhor maneira de dizer isto: raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira.

 

07 março 2021

Seguindo as alunas de Medicina do post de ontem, dois anos e meio depois, em Novembro de 1923, concluíam o seu curso Maria José Paixão e Georgina Pimenta. Às outras não sabemos o que aconteceu. Talvez tenham terminado os cursos mais tarde, talvez tenham desistido para casar, talvez tenham morrido. Se souber novidades, informarei os leitores da biblioteca de Jacinto.

 


06 março 2021

Há precisamente cem anos, a revista Ilustração Portuguesa publicava uma reportagem sobre um professor da Faculdade de Medicina, Prof. Adelino Padesca, e os seus alunos que posaram numa fotografia de grupo.

Em primeiro plano, quatro mulheres: Maria Carolina Ramos, Maria José Paixão, Georgina Pimenta e Henriqueta dos Santos. Quatro mulheres notáveis mas uma delas mais ainda do que as outras. Georgina Pimenta, provavelmente a primeira mulher negra a licenciar-se em Medicina em Portugal.


 Ilustração Portuguesa. 2.ª série, n.º 785 (5 Mar. 1921)

Os funcionários exemplares

 


 Ilustração Portuguesa. 2.ª série, n.º 841 (1 Abr. 1922)

30 janeiro 2021

Adeus, Mãe

Para sempre

Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite, é tempo sem hora,
luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba,
veludo escondido na pele enrugada,
água pura,
ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça, é eternidade.
Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora,
será pequenino feito grão de milho.

(Carlos Drummond de Andrade)

31 março 2020

Pesadelo

Esta noite tive um pesadelo.
Um vírus desconhecido tinha invadido o planeta e contaminado toda a Humanidade. Começado num país asiático, tinha-se propagado insidiosamente como uma mancha de óleo por vários países tornando-se rapidamente incontrolável. Era um vírus muito estranho, aparentemente inofensivo mas tão contagioso que qualquer pessoa que o apanhasse rapidamente o propagava por todos aqueles com quem contactasse. O vírus tinha outra característica especialmente tenebrosa: os jovens saudáveis mal notavam os seus efeitos mas os velhos e doentes adoeciam gravemente e morriam.

O pior do pesadelo era o medo que se entranhava nas pessoas. Não era um medo comum, não era o medo normal de uma doença. A maioria das pessoas não tinha medo de ficar doente. O pior deste vírus era causar um medo diferente e terrível: as pessoas tinham medo de matar os próprios pais.
Por causa deste medo, centenas de milhões de pessoas em todo o mundo fecharam-se em casa. Algumas das grandes cidades do mundo tornaram-se cidades-fantasma. Paris, Roma, Madrid, Lisboa, as avenidas, as praças monumentais, os grandes edifícios, os jardins estavam totalmente vazios como gigantes cenografias de um filme antigo.

No meu pesadelo ouvi um governante de um país rico e desenvolvido dizer que o seu Governo não iria cuidar dos velhos porque não valia a pena gastar dinheiro com quem já não era produtivo e útil à economia e, de qualquer maneira, iria morrer em breve. Ouvi-o dizer que era melhor deixar o vírus circular na população, deixando os jovens e saudáveis ganharem imunidade enquanto os velhos e doentes morriam. Também o ouvi falar com desdém dos povos de países menos ricos e da forma como as pessoas desses países se afeiçoavam aos seus familiares, da forma como netos e avós se amavam, acarinhavam e protegiam mutuamente e como todos pareciam precisar uns dos outros e sentirem-se felizes por isso.

Neste pesadelo também vi médicos, enfermeiros, auxiliares de saúde completamente esgotados, a trabalharem vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, sem irem a casa, sem dormirem, para salvar todas as vidas que pudessem e também vi a sua alegria sempre que puderam enviar um doente para casa por se encontrar curado.

O pesadelo não acabou, acordei sem lhe ver o desfecho. Pode ser que, um dia destes, volte a sonhar e já não seja um pesadelo.

28 março 2020

Parece que, finalmente, ao fim de quase 20 anos da entrada da China na Organização Mundial de Comércio e consequentes deslocalizações em massa, a Europa está a perceber a burrada que foi.

Covid 19

Queridos amigos, acho que muitos ainda não tomaram consciência de que os vossos pais, as vossas mães, aqueles tios ou amigos mais velhos de quem tanto gostam, ficarão sozinhos no hospital, sem visitas, se apanharem o Covid19. Sozinhos. Vocês só saberão deles pelos serviços hospitalares e eles não terão o conforto da vossa presença e da vossa mão. Se morrerem, morrerão sós e numa enorme angústia.
Por favor, pensem nisso.
Protejam-se para os protegerem.
Nada do que está a acontecer é normal. Não ajam normalmente.
Não saiam de casa. Se forem dar um passeio, façam-no em sítios isolados onde não se cruzem com pessoas. Não se sentem em bancos de jardim, não se encostem, não usem os aparelhos de ginástica que há nos jardins.
Protejam-se e protejam os vossos familiares mais vulneráveis.
Vamos ter muito tempo para estar juntos quando este pesadelo acabar. E vai acabar!

09 julho 2019

Memória

«Libraries, archives, museums and cultural institutions throughout Bosnia have been targeted for destruction, in an attempt to eliminate any material evidence - books, documents and works of art - that could remind future generations that people of different ethnic and religious traditions once shared a common heritage in Bosnia. The practitioners of ethnic 'cleansing' are not content to terrorise and kill the living; they want to eliminate all memory of the past as well.»
In: Riedlmayer, Andras - Killing the memory: The targeting of libraries and archives in Bosnia-Herzegovina. Newsletter of the Middle East Librarians
Association
, Nr. 61, (Autumn 1994), p. 6

27 junho 2019

A Instrucção

Aurora das almas, risonha alvorada
De luz bemfazeja divina instrucção!
Bemvinda tu sejas, ó chama sagrada
Bemdita mil vezes teu dôce clarão!

As trevas tu rasgas do espirito inculto
E as sombras convertes em próvida luz;
Saudar-te é um jubilo, amar-te é um culto,
Teu brilho é o facho que ao bem nos conduz.

Horror à ignorancia que os vicios fomenta,
Que as almas arroja ao crime fatal!
Entrar cumpre á mulher na guerra incruenta,
Da luz contra as trevas, do bem contra o mal.

Que todos se acerquem da luz que consola
Que todos se aqueçam ao fogo que apraz.
Franqueiem-se a todos as portas da escola,
Recinto d'esp'rança, santuario de paz!

Ó germen fecundo de paz e doçura
Que fructos de bençam tu sabes gerar!
Tu dás alegria, descanço e ventura
E és mãe das virtudes que adornam o lar.

O estudo é allivio nas mágoas da vida
E é socio jocundo na quadra feliz;
Com elle o obreiro não cança ha lida,
Não teme as fadigas e a sorte bemdiz. 

(Poema anónimo musicado por José Vianna da Motta em 1879, aos 11 anos de idade)