Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

03 janeiro 2008

1988

1988 foi um dos anos mais marcantes da minha vida pessoal. Por uma razão ou por outra, tudo o que é a minha vida hoje (desde a profissão que tenho à pessoa com quem casei) teve o seu ponto de partida nesse ano. E não, não foi o ano em que escolhi o curso nem foi nesse ano que entrei para a faculdade. Pelo contrário, em 1988 acabei a licenciatura por isso essa parte já deveria estar definida há, pelo menos, uns quatro anos. Também não foi nesse ano que decidi fazer a Especialização em Ciências Documentais. Pelo contrário, nunca tinha pensado em ser bibliotecária e só entraria para esse curso em 1992, para a variante de Arquivo. Também não foi em 1988 que conheci o meu marido ou quem mo apresentou. Não foi nada tão óbvio.
Quando recuo nas minhas memórias, reconstituindo um encadeado de acontecimentos em sentido inverso, chego a um ponto, um momento, uma conversa curta e aparentemente irrelevante, um fait divers, algures em finais de Maio, cujas consequências não poderia prever no momento, nem pude avaliar durante muito tempo mas que me permitem hoje, a esta distância, afirmar com toda a segurança: se não tem sido esse momento, a minha vida hoje seria outra. Melhor ou pior não sei. Seguramente, outra.
Preocupamo-nos tanto com as grandes decisões que tomamos na vida - o curso, o emprego, a casa... - porque achamos que ali está toda a nossa vida. No entanto, o ponto de viragem, o momento absolutamente decisivo, aquele a partir do qual tudo se define pode estar na escolha banal entre ir tomar um café ou ir ao cinema. Sem nos apercebermos, podemos estar a "mudar a agulha" e a traçar o nosso destino.
Nunca sabemos a verdadeira dimensão dos nossos passos.

Ano novo

A Biblioteca de Jacinto tem estado com a porta encostada. As últimas semanas têm sido complicadas. Não necessariamente más, mas complicadas, por várias razões.
Para aqueles visitantes que vêm cá espreitar, entreabrem a porta e encontram a Biblioteca com um ar meio abandonado, peço desculpa. Não merecem esta desconsideração.
Neste novo ano, espero retomar a minha presença assídua na biblioteca de Jacinto. Escanqueirar a porta e receber-vos com um cafézinho.

13 dezembro 2007

Vem aí o Natal

AFONSO, Jorge, ca 1470 - ca 1540 - Anunciação, ca 1500

Não tenho tempo para escrever mas tenho tempo para desejar a todos os visitantes da Biblioteca de Jacinto um feliz Natal.

21 novembro 2007

Holding back the years

Simply Red - Holding back the years (1985).

Uma das bandas pop minhas preferidas da década de 80. Embora com bastante sucesso, este grupo irlandês nunca foi um fenómeno de popularidade como os seus compatriotas U2 ou os ingleses Duran Duran. O seu álbum de estreia, em 1985 (esse ano!), ao qual pertence este Holding back the years, esteve nos tops bastante tempo. Hoje, esta canção não é das minhas preferidas pois, entretanto, fizeram mais e melhor; ao contrário da maioria, a banda de Mick Hucknall conseguiu manter um nível constante de qualidade ao longo de mais de 20 anos. A prova de como é possível fazer boa música num registo comercial.



Thinking of the fear I’ve had so long
When somebody hears
Listen to the fear that’s gone
Strangled by the wishes of pater
Hoping for the arms of mater
Get to me the sooner or later

Holding back the years
Chance for me to escape from all I’ve known
Holding back the tears
Cause nothing here has grown
I’ve wasted all my tears
Wasted all those years
And nothing had the chance to be good
Nothing ever could yeah

I’ll keep holding on
I’ll keep holding on
I’ll keep holding on
I’ll keep holding on
So tight

I’ve wasted all my tears
Wasted all of those years
And nothing had the chance to be good
Cause nothing ever could oh yeah

I’ll keep holding on
I’ll keep holding on
I’ll keep holding on
I’ll keep holding on
Holding, holding, holding

That’s all I have today
It’s all I have to say

15 novembro 2007

É hoje! É hoje...

... à meia-noite que sai o último livro do Harry Potter!
Não me interessa o que pensem, eu estou em pulgas! Sou uma néscia, prontes!

14 novembro 2007

Bloggers...?

«Os sábios falam porque têm alguma coisa para dizer. Os néscios falam porque têm de dizer alguma coisa».
(Atribuída a Platão. Mas se non é vero, é bene trovato...)

12 novembro 2007

1985

Por vezes, a propósito desta loucura terrorista, anti-terrorista e terrorista-anti-terrorista que estamos a viver desde o malfadado 11 de Setembro de 2001, lembro-me de uma música que há muito tempo não ouvia. Ouvi-a há dias, na RFM, quando ia para a Biblioteca.
Corria o ano de 1985, ano extraordinário. 1985 foi um daqueles anos raros em que se sentiu a História a acontecer. Tal como sentiram os que viveram o ano de 1939 e todos sentimos em 2001.
Mikhail Gorbachev assumia o puder supremo do Império Soviético e lançava a Perestroika. Nada seria como dantes e nós percebemos isso.
Elton John compunha Nikita, aquela canção deliciosamente banal que andou nos ouvidos e na boca de toda agente. Nikita era aquela moça de olhos transparentes que guardava uma fronteira, mas era também o nome próprio de Krushov... «Oh Nikita you will never know, anything about my home... And if there comes a time Guns and gates no longer hold you in And if you're free to make a choice Just look towards the west and find a friend».
E o Live Aid! Esse concerto único, acompanhado gulosamente pela televisão, em que uma geração de adolescentes que crescia já em liberdade e pouco dada a ideais, teve o seu momento idealista, o seu cheirinho de anos 60, de peace and love, de Woodstock.
Eu, caloira em História, vivia a crise da Livre (a única universidade privada de então) e tentava concentrar-me para as frequências, enquanto os alunos das públicas - principalmente da Clássica - não tinham mais que fazer que manifestações contra o ensino superior privado. Eles, que podiam passar oito ou dez anos nos copos a fingir que faziam o curso porque, nessa época, não o pagavam, ao contrário de nós que pagávamos os nossos e os deles. Adiante, o que lá vai, lá vai...

Esquerda e Direita, Leste e Ocidente, «Progresso» e «Reacção», era essa a dicotomia neste já longínquo ano de 1985. Os russos - essa diabólica ameaça! - invadiam países estrangeiros para lhes imporem governos favoráveis. Nada que aconteça hoje, não senhor.

Realmente, eu fui daqueles que respiraram de alívio, que viram uma luz ao fundo do túnel, que imaginaram um futuro risonho, um longo período de paz e prosperidade para a espécie humana, quando finalmente caísse o Império Soviético.
Enquanto isso, Sting lembrava que os nossos «inimigos» também amam os seus filhos. Mas alguém se lembra disso?...

09 novembro 2007

Exposição de fotografia de Teresa Huertas (2)

Teresa Huertas perdeu a mãe aos dezasseis anos.
Na impossibilidade de lhe tocar hoje, de lhe falar hoje, de a compreender hoje (quem compreendia a sua mãe aos dezasseis anos?), de a fotografar hoje, o diálogo e o reencontro (im)possível entre a mulher adulta e a sua mãe é feito hoje através de fotografias de fotografias e fotografias de objectos. Um maço de cartas de amor, um colar de pérolas, uma fotografia da primeira comunhão. De uma simplicidade e beleza tocantes e de uma sensibilidade comovente, esta exposição (no mais pleno sentido da palavra) além de uma excelente exposição de fotografia (porque as fotografias são mesmo muito boas) é uma interpelação a cada um de nós, visitante, à relação que mantemos com o nosso passado adolescente, as nossas dores de crescimento, os nossos pequenos ressentimentos, tão irrelevantes quando comparados com a riqueza maravilhosa de ainda termos Mãe.

06 novembro 2007

Exposição de fotografia de Teresa Huertas

H. in memoriam

Sala Arendt da Fábrica Braço de Prata
Inauguração a 8 de Novembro (5ª feira) pelas 22 horas. Eu tenciono ir!

30 outubro 2007

Modernices de linguagem: Adição

Outra modernice de linguagem que me irrita: "adição" em vez de dependência.

Em português existe a palavra "adicto" (que se apega ou afeiçoa a, dedicado, devotado) derivada do latim addictus (adjudicado ao seu credor, submisso, escravizado) de onde deriva, seguramente, a palavra inglesa. Poder-se-ia, pois, adoptar a forma "adicção" (pronuncionado-se mesmo o "c"), que decorre da raiz latina, embora mediante um sinuoso percurso pelo inglês. Mas a palavra "adição" com o sentido de dependência é uma mera adopção acrítica do inglês addiction sem qualquer respeito pela etimologia.

Quando eu andava na escola, "adição" (do lat. additionis = acção de juntar) era uma operação aritmética... hoje, já o próprio dicionário Huaiss contempla um significado psicológico para o termo (propensão a ter hábitos compulsivos, consumo persistente de drogas, dependência) mas este significado deve-se apenas ao aportuguesamento de termos ingleses, tão usual no português falado do outro lado do Atlântico (onde o grito do Ipiranga em relação aos Estados Unidos parece cada vez mais difícil de acontecer).

Poderemos considerar esta persistência em usar termos ingleses aportuguesados uma forma de adição, de adicção ou apenas... saloice?

26 outubro 2007

Indústrias culturais

Estive ontem no lançamento do livro "Indústrias culturais: imagens, valores e consumos" (Edições 70), homónimo do excelente blogue que Rogério Santos criou em 2003.

A amizade que me liga a Rogério Santos poderia tornar-me suspeita na avaliação do livro ou do blogue mas os visitantes da Biblioteca de Jacinto têm a oportunidade de avaliar por si aquele que eu considero um dos melhores blogues portugueses, pela diversidade temática, pelo distanciamento crítico e pelo rigor de análise. Aos mais distraídos, recordo que Indústrias culturais é uma das mais antigas presenças no meu blogroll.

«Para a Clara e o Jorge...»

23 outubro 2007

Das Serras para a Cidade

Voltei, depois de duas semanas de afastamento dos admiráveis progressos deste século.
Não me despedi, há duas semanas, porque tencionava continuar a "postar", lá das serras para onde me exilei. Mas os admiráveis progressos deste século ainda não estão disponíveis em todo o lado e o acesso à net ainda não é o melhor nos montes e vales deste nosso Portugal. Agora volto a escrever-vos mas ainda tem de aquecer o carburador...