Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

27 julho 2007

Empréstimo ou aluguer? (2)

Quem me conhece, mesmo que só aqui deste vosso espaço, sabe que eu sou uma rapariga imparcial. Demonstrei-o suficientemente, na altura do referendo ao aborto, apresentando argumentos de um e outro lado, apesar de eu própria ter uma posição sobre o assunto.
Faço o mesmo em relação à questão do empréstimo pago nas bibliotecas. Por essa razão transcrevo aqui, integralmente, sem correcções à pontuação e sem qualquer censura, o artigo publicado no site da Sociedade Portuguesa de Autores. Os destaques são os originais.
Espero que a SPA não me venha cobrar direitos...

«Transposição Incorrecta de Directiva Comunitária
«O Tribunal de Justiça Europeu (TJE), por acórdão de 6 de Julho último, decidiu que a República Portuguesa transpôs incorrectamente para a ordem jurídica nacional a directiva comunitária relativa ao direito de aluguer, ao direito de comodato e a certos direitos conexos ao direito de autor. Isto é: o TJE considerou que o Estado português, ao isentar, do pagamento da remuneração devida aos autores, a generalidade das instituições que entre nós emprestam livros e outras obras protegidas, não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força de tal directiva.

«"Uma isenção que isenta todos não é uma isenção, mas a anulação da obrigação subjacente" - diz, numa conversa com a "Autores", o colaborador da SPA na área jurídica Dr. João Laborinho Lúcio, que tem vindo a acompanhar o desenvolvimento desta questão.

«As consequências reais da decisão do TJE em breve serão conhecidas - mas a SPA sublinha que atempada e repetidamente tomou posição sobre esta questão, protestando contra a forma, canhestra e com anos de atraso, como o Estado português transpôs tal directiva, prejudicando gravemente os autores nacionais. E tinha razão, como agora se vê. Falta ver como serão os autores portugueses ressarcidos.

«Legisladores autistas. "A transposição da directiva em causa foi feita através do decreto-lei 332/97, de 27 de Novembro e importava, portanto, que o legislador nacional tivesse seguido as directrizes emanadas do dispositivo legal comunitário, sem prejuízo da liberdade que a mesma lhe confere, mas dentro dos seus limites" - começou por destacar João Laborinho Lúcio.

«Contudo, não foi isso o que aconteceu: "A forma como o legislador nacional ampliou a exclusão de não remunerar o direito exclusivo de comodato não a determinadas categorias de estabelecimentos, como impunha a directriz, mas a todos os estabelecimentos que promovem o comodato público é, em nosso entender, claramente violadora dos direitos dos autores porquanto estes, em circunstância alguma, vêem a utilização pelo comodato do seu trabalho criativo remunerada" - acrescentou JLL.

«Mais grave ainda: o legislador nacional, apesar de insistentemente alertado pela SPA, fez ouvidos de mercador. João Laborinho Lúcio explica como: "O governo defendeu a abrangência do conjunto de estabelecimentos beneficiários da isenção com o fundamento de que o estado de desenvolvimento cultural do país e a necessidade de incentivar a leitura aconselhavam a usar, de uma forma extensiva, a possibilidade de aplicação da isenção. E aí o governo viu a sua posição fortemente apoiada quer pelo Instituto Português do Livro e da Biblioteca quer pela Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas".

«Ora - diz JLL - "a SPA sempre entendeu que o governo tinha feito um uso excessivo da faculdade constante do artigo 5º, nº 3 da Directiva, ao estender o benefício da isenção a um número tão alargado de estabelecimentos. Dificilmente se encontra em Portugal uma entidade que proceda ao comodato de originais ou cópias de obras intelectuais protegidas que não se reconduza às categorias contempladas na lei".
«A SPA sempre assim entendeu e alertou em tempo útil, repetidas vezes, quem de direito. Mas em vão: o pior surdo é o que não quer ouvir.

«Argumento ultrapassado. Recorda o jurista: "Não deixando de ser sensível aos argumentos adiantados pelo governo, a SPA defende, como sempre defendeu, que a promoção da cultura e do acesso à mesma não poderão nunca ser prosseguidas desprotegendo o autor e o Direito de Autor, sob pena de não serem alcançados os objectivos pretendidos mas o seu inverso. "Aliás" - destaca - "velha é já a discussão entre a alegada bifurcação entre o direito de acesso à cultura e o direito à criação intelectual e respectiva protecção dos autores e dos seus direitos, dois direitos estribados na lei fundamental. Parece-nos, contudo, que esta bifurcação é aparente, pois que ambos os direitos só podem conduzir a um mesmo fim".

«Em abono desta tese, João Laborinho Lúcio diz depois: "Nunca é demais ressaltar um dos pensamentos saídos do II Congresso Ibero-Americano de Direito de Autor e Direitos Conexos de Lisboa (1994), a ele trazido por Carlos Alberto Villalba, um perito da OMPI (Organização Mundial de Propriedade Intelectual) segundo o qual a participação significativa na vida cultural e a utilização dos benefícios do progresso científico só são possíveis se existir uma protecção efectiva dos direitos de autor e uma conservação adequada da herança cultural. Na realidade, os primeiros necessitados de aceder às obras intelectuais são os criadores já que toda a criação procede de uma ordem cultural onde existe intercomunicação. A criação não procede do nada, o criador, em especial o criador de obras literárias e artísticas, tem pelo mesmo acto da criação uma incoercível necessidade de que a sua obra seja difundida e conhecida.

«Trata-se, portanto, de um argumento ultrapassado e desprovido de sentido, o da alegada dicotomia entre o direito de acesso à cultura e o direito de autor".

«Um pouco de história... Em resultado necessário e directo da forma como o Estado português transpôs a directiva comunitária n.º 92/100/CEE, a Comissão das Comunidades Europeias intentou contra a República Portuguesa o processo a que veio a ser dado o número C-53/05.

«Em síntese, a Comissão alegou que o artigo 5.°, n.°3 da directiva permite que os Estados-membros isentem "determinadas categorias" de estabelecimentos do pagamento da remuneração normalmente garantida pelo artigo 5.°, n.°1, em derrogação dos direitos exclusivos de comodato conferidos pelo artigo 1.°.
«No entanto, o artigo 6.°, n.°3, do Decreto-Lei 332/97 isenta todas as bibliotecas públicas, escolares, universitárias, museus, arquivos públicos, fundações públicas e instituições privadas sem fins lucrativos. Por conseguinte, a derrogação abrange todos os serviços administrativos centrais do Estado, os organismos da Administração indirecta do Estado, como os institutos públicos e as associações públicas, todos os serviços e organismos da Administração Local, todas as pessoas colectivas de direito privado que desempenhem funções de natureza pública e até mesmo escolas e universidades privadas e instituições privadas sem fins lucrativos.

«Diz João Laborinho Lúcio: "Esta lista inclui todos os estabelecimentos que emprestam a título gratuito, portanto, todos os organismos que praticam o "comodato" nos termos do artigo 1.°, n.°3. Uma isenção que isenta todos não é uma isenção, mas a anulação da obrigação subjacente. Da transposição do artigo 5.° da directiva efectuada pela República Portuguesa resulta que nenhum estabelecimento que pratique o comodato público está obrigado ao pagamento da remuneração prevista no artigo 5.°, n.°1. Isto viola o direito de comodato exclusivo e a protecção que lhe confere a directiva".

«No âmbito deste processo, e depois das Conclusões da Advogada Geral Eleonor Sharpston apresentadas em 4 de Abril de 2006 que foi de opinião de que a República Portuguesa não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força do artigo 5.º, conjugado com o artigo 1.º, da directiva, o Tribunal de Justiça (Terceira Secção), por acórdão de 6 de Julho de 2006, decidiu que a República Portuguesa, ao isentar todas as categorias de estabelecimentos que praticam o comodato público da obrigação de remuneração devida aos autores a título de comodato, não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força dos artigos 1.º e 5.º da Directiva 92/100/CEE do Conselho, de 19 de Novembro de 1992, relativa ao direito de aluguer, ao direito de comodato e a certos direitos conexos aos direitos de autor em matéria de propriedade intelectual.

«... e várias perguntas. Neste contexto, no ar ficam várias e pertinentes interrogações, como aponta João Laborinho Lúcio: "Sabendo-se de antemão, e não obstante a decisão ora proferida pelo Tribunal de Justiça, que o art. 5.°, n.°3 da directiva foi incluído para responder ao desejo de Estados-membros que pretendiam conservar a faculdade de isentar apenas as bibliotecas dos estabelecimentos de ensino e as bibliotecas públicas da obrigação de pagamento do direito de comodato público, pergunta-se se a opção legislativa nacional que não permite efectuar uma distinção válida entre as categorias de estabelecimentos não conduz, ao contrário do que se pretendia, à obrigação de impor a todos os estabelecimentos em causa o pagamento da remuneração em questão.

«Seja de que forma for, e responda-se como se responder à questão anterior, permitimo-nos levantar a questão de saber em que medida é que os autores ficaram lesados por não terem visto ao longo de anos o seu trabalho criativo devidamente remunerado por força da publicação de uma norma legal em clara violação de outra norma comunitária, e de que forma poderão ver esses seus eventuais danos devidamente ressarcidos".»

25 julho 2007

Empréstimo ou aluguer?

Não posso ficar indiferente a uma (mais uma) aberração imposta pela União Europeia. A história já é antiga e vou contá-la com as palavras da Luísa Alvim (os destaques são meus):

«A Comunidade Europeia aprovou, em 1992, uma directiva relativa ao direito de comodato e a certos direitos conexos de autor em matéria de propriedade intelectual, passando as bibliotecas, museus, arquivos e outras instituições privadas sem fins lucrativos a ter que pagar pelo empréstimo público dos seus documentos abrangidos por estes direitos de autor.
«Depois de algumas intervenções em defesa pelo não pagamento, e lembro a famosa petição portuguesa em favor do empréstimo público gratuito nas bibliotecas, patrocinada pela BAD (Associação de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas), com 20.000 assinaturas em 2004, a situação é de condenação pelo Tribunal de Justiça da União Europeia sobre Portugal que isentou todas as categorias de estabelecimentos que praticam o comodato público da obrigação de pagar aos autores.
«Esta é a grande questão. Actualmente, a Assembleia da República terá que apresentar uma proposta de lei diminuindo o número de isenções ao pagamento da remuneração pelo empréstimo público de documentos.
«Entendo que esta normativa europeia e o decreto-lei vão contra todos os princípios que os profissionais da informação defendem e lutam, desde sempre, em apoiar a disponibilização de documentos que possibilitem a educação individual, a autoformação, a educação formal, o oferecer possibilidades de um criativo desenvolvimento pessoal, o estimular a imaginação, o promover o conhecimento e o apreço pelas artes e inovações científicas, o facilitar o acesso às diferentes formas de expressão cultural, o fomentar o diálogo inter-cultural, a assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação à comunidade, nas instituições públicas e privadas onde trabalham de forma gratuita, explícitos no Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas, no Código de Ética.
«Princípios defendidos internacionalmente pela IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions) e pela EBLIDA (European Association of Library Information and Documentation Associations).
«A missão das bibliotecas sempre foi garantir aos cidadãos o acesso livre ao conhecimento, à cultura e à informação. O papel das bibliotecas públicas, escolares, universitárias, e outras, em Portugal, nos últimos anos é inquestionável no exercício das suas missões sociais e culturais.
«A BAD, apesar de defender estes princípios, optou, e muito bem, por apresentar uma proposta de alteração da lei, à Comissão da Assembleia da República, no sentido de salvaguardar algumas questões, como o não pagamento de direitos de autor pela consulta presencial de documentos nas bibliotecas, o mesmo se passando com o empréstimo inter-bibliotecas e a transmissão de obras em rede.
«Relativamente ao empréstimo de documentos, que seja pago não pelo utilizador/cidadão mas pelos organismos que tutelam as bibliotecas (Ministério da Cultura/Câmaras?), e que este pagamento não se repercuta nos orçamentos das bibliotecas.
«Ainda não sabemos como a lei vai figurar em Portugal, mas sabemos que já não é possível que a utilização de documentos seja disponibilizada gratuitamente nas
bibliotecas
. É necessário continuar a falar sobre este assunto, e de outras questões associadas, como o estabelecimento dos critérios para a fixação da remuneração a pagar, etc.
«O papel dos profissionais da informação, e das associações, terá que ser de sensibilizar a opinião pública para a "indiscutível" defesa do direito à informação gratuita disponibilizada pelas instituições públicas, na nossa dita "sociedade democrática".

«1. Solicito que reenviem esta mensagem, manifestem-se e discutam nos blogues, linkem os posts sobre este assunto entre blogues, escrevam nos jornais e em artigos nas redes sociais e fóruns, pelo menos não fiquemos calados quando nos pedirem alguns cêntimos pela consulta de um livro que precisamos para estudar ou para os nossos filhos aprenderem, numa qualquer biblioteca.
«2. Aconselhemos os nossos amigos - Autores - (de livros, música, bd, cinema, etc.) que disponibilizem os seus conteúdos em livre acesso, com etiquetas de Creative Commons, GNU License (documentos-software), copyleft, etc. e prescindam dos direitos de autor, sempre que as suas obras sejam consultadas/emprestadas em bibliotecas, arquivos, centros de documentação e museus.»

Agradeço à Luisa Alvim ter-me enviado esta mensagem.

Também o Adalberto deu a sua valiosa contribuição para este debate, esclarecendo-nos acerca das causas mais profundas e obscuras de tamanha aberração.

Claro, como directiva comunitária que é, não nos afecta só a nós. Também em Espanha e Itália os bibliotecários se têm batido contra o empréstimo pago. Em Itália há mesmo uma petição de autores contra esta legislação.

Quanto a mim, voltarei ao assunto. Na biblioteca de Jacinto, claro, o empréstimo é e continuará ser sempre gratuito. Jacintus Galeanus dixit.

23 julho 2007

Homens!

A J. estava lavada em lágrimas. Eu reparei nisso desde manhã, via-a muito cabisbaixa, umas olheiras até ao queixo. De roda dela, como que a protegê-la de olhares curiosos ou maledicentes, D. não a largou toda a manhã. Almoçou com ela, no canto do snack, ao pé da janela, só as duas. Percebia-se o clima de drama doméstico. A seguir ao almoço não resisti. Puxei D. para um canto e perguntei-lhe o que se passava com a J.
«O A., que é que tu queres? A pobrezinha está p'ra ali um trapo!». Não podia ser, quem diria, o A.?... o que é que ele...?
«Não adivinhas?» Adivinhava mas nem queria acreditar. Não, o A. não seria capaz.
«Pois eu digo-te que sim. É mesmo o que estás a pensar.»
«Não pode...»
«Tanto pode que fez! Ele contou-lhe o fim do Harry Potter!»
Filho da mãe... Os homens são mesmo todos uns sacanas!

Um acontecimento feliz

Aqui, na biblioteca de Jacinto, é ocasião de grande felicidade. Acabo de saber que, no dia 17 de Julho, os meus amigos Dorian e Eloise tiveram a sua pequenina Giselle. Os meus votos atravessam o grande mar oceano, para lhes desejar que os progressos deste século só lhe tragam alegrias!

Best wishes to you Dorian, Eloise and Giselle! May Alah be with you.

20 julho 2007

A nova poltrona

A biblioteca de Jacinto adquiriu mais uma poltrona, generosa oferta da Celina a quem agradeço penhoradamente.

16 julho 2007

Iberismo (a propósito desta entrevista a Saramago)

Costumo dizer que tenho estômago de avestruz. Graças à Natureza, que me dotou de bons genes, tenho saudáveis digestões que me permitem comer praticamente de tudo, desde alheiras a iogurtes fora de prazo, sem sofrer abalos estomacais.

Pelo contrário, o meu estômago é muito sensível aos abalos morais. Há coisas que me deixam mal disposta, às vezes, mesmo, à beira de um refluxo gastro-esofágico. E não são poucas essas coisas. Uma delas é o iberismo. Confesso, sou uma patriota à maneira antiga, daquelas que se enrolariam românticamente na bandeira, de olho em alvo, pronta a gritar «independência ou morte!» ao primeiro assomo fronteiriço da tropa castelhana. Levanto-me em silêncio quando tocam o hino nacional, esteja onde estiver, em casa ou num lugar público. Quando vou a Espanha, olho melancolicamente o pôr-de-Sol e penso: «Ali é Portugal...»; «Ali há sopa...»; «Ali há pão de centeio...»; «Ali há café...»; «Ali há pastéis de bacalhau...». Quando regresso, emociono-me ao ver o nome Portugal nas placas azuis rodeadas de estrelinhas e corro em busca da primeira baiuca de estrada para beber uma bica ou comer uma sandes de paio. Um simples acorde de guitarra faz-me pele de galinha e levo sempre no carro uma boa provisão de Amália, Madredeus, Zeca Afonso e Fausto: fora de Portugal só oiço música portuguesa.

Amo o meu país «com todos os amores que há no amor» (como diria o meu querido Eça). Com um amor filial, porque me gerou, me acolheu, me ouviu chorar a primeira vez. Com um amor fraternal, porque ando às turras com ele, porque me chateia e porque gosto de o chatear mas compreende-me como ninguém porque cresceu comigo e eu cresci com ele. Com um amor maternal, porque os seus filhos são os filhos que eu não tenho e o seu futuro é o futuro que eu não verei.
Amo-o da única maneira verdadeira de amar: como ele é. Com defeitos, com problemas, com trapalhadas, com políticos estúpidos e com jogadores de futebol bimbos. Tal como a minha família, que tem defeitos como todas as famílias, não o trocava por nada. Gostava que ele fosse melhor? Gostava. Gostava que houvesse menos injustiça, menos pobreza, menos miséria, menos assimetrias? Claro que sim. Mas alguém (moralmente saudável) trocaria os pais pobres por outros mais ricos? Alguém trocaria os pais analfabetos por outros eruditos?
Eu não trocava o meu país por nenhum outro tal como não diria aos meus Pais, «desculpem lá mas vocês são pobres, eu vou ali pedir ao Belmiro para me adoptar».
Compreendo que haja pessoas que, em busca de uma vida melhor, saiam do país e até mudem de nacionalidade. Porém, o emigrante nunca parte a pensar em não voltar. O seu coração fica sempre cá. Emigrar não é renunciar à pátria. Para algumas pessoas a vida é mais difícil do que eu consigo imaginar e não serei eu a mandar os famintos comerem bolos quando lhes falta o pão.

O que eu não consigo aceitar e me dá a volta ao estômago é que haja portugueses que, porque gostavam de ser espanhóis (estão no seu direito), pretendam que todo o país passe a ser espanhol. Pior: pretendem que isso não só era melhor para todos (o que me inclui, contra a minha vontade) como era a única solução. Quer dizer, as pessoas seriam as mesmas, o território seria o mesmo mas, por um qualquer passe de mágica, abdicar da independência iria tornar-nos a todos mais felizes e mais prósperos.

Claro, os iberistas não gostam de responder a perguntas difíceis:
Gostariam de ser tratados no estrangeiro como cidadãos espanhóis?
Gostariam que a nossa História fosse reescrita numa versão "oficial" ibérica, passando a fazer parte da História de Espanha (como acontece com a Catalunha)?
Gostariam que os Descobrimentos Portugueses passassem a ser conhecidos como os Descobrimentos Espanhóis?
Gostariam que, quando um atleta português ganhasse uma competição desportiva, se levantasse a bandeira espanhola e se tocasse o hino espanhol?
Gostariam que a língua portuguesa passasse a ser a segunda língua oficial e apenas para efeitos domésticos?
Gostariam de ser atendidos em castelhano nos serviços públicos portugueses?
Gostariam de dirigir-se a um polícia na rua e receberem uma resposta em castelhano?
Gostariam de deixar órfãos os milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados pelo mundo e que têm em Portugal um ponto de referência, uma raiz, um orgulho?

A maioria dos iberistas que conheço está melhor na vida do que eu. Pelo contrário, nunca, mas nunca ouvi um emigrante defender a união ibérica. Porque será?

12 julho 2007

Tempo de eleições

«Todos os jornais, na época de eleições, têm os seus candidatos predilectos. Os jornais franceses apresentam os nomes deles à adesão pública, no alto da página, num tipo enorme; os jornais portugueses diluem-nos numa prosa fluida, nos artigos de fundo. Nós temos também dois candidatos queridos.
«São:
«O Dr. João das Regras!
«O condestável D. Nuno Álvares Pereira!
«São estes dois cavalheiros — cidadãos! — a expressão gloriosa da sua Pátria: um é o seu pensamento jurídico, outro o seu valor heróico. Qual será o liberal e inteligente que recuse o seu voto a estes dois homens históricos? Valerá mais o Sr. José de Morais, ou o Sr. Coelho do Amaral?! E depois quem, como o Dr. João das Regras, velaria pelos foros populares? Quem como o condestável saberia manter a independência da Pátria? — À urna, cidadãos!
«Podem apenas pôr-nos uma objecção — pequena por si, mas que talvez influa nos ânimos timoratos — é que o doutor e o condestável morreram há quatro séculos!
«Pois bem! nós afirmamos que nada importa isso, porque eles estão em identidade de circunstâncias com a grande parte dos candidatos que se apresentam por esses círculos, de Norte a Sul do País! Sim, todos esses senhores — estão tão mortos como João das Regras, como D. Nuno Alvares Pereira!
«Debalde passeiam! Debalde falam! Estão mortos. Viver para sentir fisicamente é simples — basta que o sangue circule, que o alimento se digira, que os pulmões trabalhem.
«Mas viver para legislar e pensar é mais complexo — é necessário que a inteligência, a imaginação, a consciência trabalhem, actuem, estejam em vigor. Ora grande parte dos senhores candidatos têm aquela porção do seu ser tão morta como o Dr. Regras, ou o condestável Pereira.
«Com efeito, no sentido de legislar, organizar, dirigir um país — viver é ser do seu tempo, estar no seu momento histórico, estar na corrente de ideias da sua época, ajudar a criação social do seu século, estar na direcção do progresso e na comunhão das ideias novas. Ser legitimista de 1820, ou cartista de 36, ou cabralista de 45, ou regenerador de 51 — não é viver, é recordar-se. Ora, por este lado, quem sabe também se os mortos se recordarão?
«Por consequência, como a maioria dos candidatos estão mortos e embalsamados no seu próprio corpo — estão na categoria em que se acham os defuntos Regras e Álvares Pereira.
«Propomos pois:
«O Doutor!
«O Condestável!

«Podem todavia observar-nos que:
«Sendo verdade (como é) que os srs. deputados estão mortos no seu espírito — é também verdade que estão vivos no seu corpo — e que podem dizer presentes! na chamada — e que nesta condição não está o doutor e o condestável, os quais, sendo um punhado hipotético de pó, não podem ter a pretensão, verdadeiramente tirânica, de dizerem presentes! — como o Sr. Melício, ou o Sr. Carlos Bento, que são de carne esses!
«Pois bem! Uma vez que é necessário um vulto, um corpo, uma pouca de matéria, para que os senhores secretários os possam tomar como personalidades — propomos:
«A estátua de Camões.
«A estátua de João de Barros.
«Não nos dirão decerto que estes não tenham vulto, medida, forma e peso! À urna, pois!
«Mas podem fazer-nos sentir:
«Que se estes últimos cavalheiros têm a condição corpórea, lhes falta a condição vocal — aquela grande condição de deputado que consiste em dizer:
« — Apoiado!
«Nesse caso, como nós não temos a pretensão de provar que o bronze e a pedra sejam de uma extrema facilidade de locução — propomos:
«Dois papagaios, à escolha do Sr. Marquês de Ávila!»

(Eça de Queirós In: As farpas: chronica mensal da política das letras e dos costumes. Junho de 1871 / Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz. Lisboa: Typographia Universal, 1871)

Transcrição com ortografia actualizada, feita a partir da 1ª edição, existente na Biblioteca Nacional de Portugal e disponível em linha em http://purl.pt/256

Este é um texto jornalístico escrito em 1871. Qualquer semelhança com acontecimentos ou pessoas actuais será mera coincidência não intencionada pela editora do blogue.

11 julho 2007

Una voce poco fa

ROSSINI, Gioacchino - Il barbiere di Siviglia. Ária «Una voce poco fa».

Às vezes, tenho o supremo azar de ouvir de manhã uma daquelas músicas que se agarram ao ouvido com unhas e dentes. Passo depois o dia a cantarolar coisas horrorosas (mas que têm honras de TSF, deve ser do sotaque brasileiro, se fossem portuguesas só passavam em rádios locais) como "o que eu gosto é de rosas" ou "eu não sei parar de te olhar". É uma coisa invasiva e insuportável.
Nos últimos dias, pelo contrário, ando a cantarolar incessantemente, com gargarejos e tudo, Una voce poco fa. Não sei que me deu "foi feitiço talvez". Deve ser um sinal: «Tens de postar isto... tens de postar isto...».
Aqui vai, numa versão que eu desconhecia, por uma senhora que nunca me foi apresentada: Ewa Podleś. Gostei.

08 julho 2007

A minha escolha

Não necessariamente por esta ordem. Foi nestas que eu votei.









P.S. em 11.07.2007: As pirâmides do Egipto não estavam a concurso. Entraram como candidato honorário devido, em primeiro lugar, a serem as únicas sobreviventes das 7 Maravilhas da Antiguidade e, por outro, à sua indiscutível importância. Não correram assim o risco de ficarem de fora como sucedeu com a Acrópole. Pelas escolhas que eu fiz dá para adivinhar que as pirâmides de Gizé seriam a minha primeira escolha, se eu tivesse podido votar nelas. Nesse caso, das 7 "maravilhas" acima, não sei bem qual teria de ficar de fora para entrarem as pirâmides. Talvez a ópera de Sydney ou o Taj Mahal. Teria de pensar bem. Mas agora já não faz diferença.

06 julho 2007

Tu serás Presidente do Conselho!

«Os Marcelos da política»
«Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, numa explosão de risadas.
«Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão – os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País e outras injúrias pequenas, mais particularmente dirigidas aos seus caracteres e às suas famílias.
«Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, os interesses do País e a Pátria.
«Mas, coisa notável! – os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem - intrigam, trabalham, para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser – o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais, e os interesses do País!
«Até que enfim caem os cinco do poder e os outros, – os verdadeiros liberais – entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de amargura – a vir ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
«Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do País...
«Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...
«Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas – pela imprensa, pela palavra dos oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...
«E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, coberto de luz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto triunfante!
«Ora dá-se na política um caso singular:
«Um homem é tanto mais célebre, tanto mais consagrado, quantas mais vezes tem sido ministro – isto é, quantas mais vezes tem sido incompatível com a felicidade do país, quantas mais vezes tem mostrado a sua incapacidade nos negócios!
«Assim o Sr. Carlos Bento foi uma primeira vez ministro da fazenda. Teve a sua demissão, e não foi naturalmente pelos serviços que estava fazendo à sua pátria, pelo engrandecimento que estava dando à receita pública, etc... Se caiu foi porque naturalmente a opinião, a imprensa, os partidos coligados, o poder moderador, etc. o julgaram menos conveniente para administrar a riqueza nacional.
«Por isto foi ministro da fazenda uma segunda vez: caíu. Mostrou de novo a sua incompatibilidade ou a sua incapacidade – pelo menos assim o julgou, por essa ocasião, o poder moderador. E a importância do Sr. Carlos Bento cresceu!
«Por consequência foi terceira vez ministro: caiu; devemos ainda supor que naturalmente deu provas de não ser competente para estar na direcção dos negócios. E a sua importância política aumentou prodigiosamente.
«É novamente ministro: se tiver a fortuna de ser derrubado do poder, se tiver a extrema felicidade de ser convencido, pela opinião, de uma incapacidade absoluta, será elevado a um título, dar-se-lhe-ão embaixadas, entrará permanentemente no Almanach de Gotha. E o que não conseguiu sendo espirituoso e fino, alcançá-lo-á logo que o poder moderador, demitindo-o, tenha provado que ele é incapaz.
Honrada política! Tu é santa, bela, pura, imaculada, coberta de coisas!
«Ora tudo isto nos faz pensar – que quanto mais um homem prova a sua incapacidade, tanto mais apto se torna para governar o seu país!
«O que fará proceder o Chefe de Estado da maneira seguinte na apreciação dos homens:
«O menino Eleutério fica reprovado no seu exame de francês. O poder moderador deita-lhe logo o olho.
«O menino Eleutério, continuando a sua bela carreira política – fica reprovado no seu exame de história. O poder moderador agita-se e acena-lhe com um lenço branco.
«O caloiro Eleutério fica reprovado no 1º ano da Faculdade de Direito. O poder moderador exulta e quer a todo o transe ter com ele umas falas.
«O Sr. Eleutério fica reprovado no 5º ano. O poder moderador não pode conter o júbilo e fá-lo ministro da justiça.
«E a opinião aplaude.
«De modo que, se um homem pudesse apresentar-se ao chefe do Estado com os seguintes documentos:
«Espírito de tal modo bronco que nunca pôde aprender a somar;
«Estupidez tão espessa que nunca pôde distinguir as letras do ABC;
«Reprovações sucessivas em todas as matérias de todos os cursos;
«O Chefe do Estado tomá-lo-ia pela mão, e dir-lhe-ia, sufocado em júbilo:
«– Tu Marcellus eris! Tu serás Presidente do Conselho!»
(Eça de Queirós In: As farpas: chronica mensal da política das letras e dos costumes. Junho de 1871 / Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz. Lisboa: Typographia Universal, 1871)

Nota: O título do artigo é o original. Transcrição com ortografia actualizada, feita a partir da 1ª edição, existente na Biblioteca Nacional de Portugal e disponível em linha em http://purl.pt/256

Este é um texto jornalístico escrito em 1871. Qualquer semelhança com acontecimentos ou pessoas actuais será mera coincidência não intencionada pela editora do blogue.

04 julho 2007

America



É desta América que eu gosto.

Nascida a 4 de Julho


Imagem tirada daqui.
Admiro profundamente os Estados Unidos. Admiro os ideais fundadores, admiro o extraordinário voluntarismo do povo americano, a imaginação, a criatividade, a ambição e também a generosidade. Se existe nação que reúne e sintetiza tudo o que de bom e de mau existe na espécie humana, essa é a nação americana.
E tanto mais os admiro quanto mais me revolta aquilo em que os Estados Unidos se tornaram. Se existir vida para além da morte George Washington e Benjamin Franklin estão a revoltar-se na tumba. Não foi, seguramente, esta nação a que eles sonharam.

02 julho 2007

Alvíssaras! Alvíssaras!

Fernandes, J. - Vénus. Opereta de Augusto Machado (1906)

Informam-se os estimados visitantes d'A Biblioteca de Jacinto que a Área de Iconografia da Biblioteca Nacional reabriu as suas portas. Brindemos ao feliz evento.

29 junho 2007

Miguel Esteves Cardoso (1991)

Não tenho por hábito fazer posts à custa de outros blogues. Mas, neste caso, abro uma excepção. Adorei este texto e agradeço ao André Alves Correia tê-lo indicado no Confidências e, naturalmente, ao André Moura e Cunha tê-lo publicado no In absentia.

28 junho 2007

Sol de Inverno (1965)

Nada de confusões! Aqui eu nem era nascida. Mas esta é, para mim, uma das melhores canções de sempre do Festival RTP da canção. Eu nem gosto muito do estilo da Simone de Oliveira mas a música, essa, é mesmo muito bonita. E, numa época em que as músicas não passavam de moda de 3 em 3 meses, ouvi-a repetidamente na rádio, durante os primeiros anos da minha infância. Mais uma que faz a banda sonora da minha vida.

Sonhos que sonhei, onde estão?
Horas que vivi, quem as tem?
De que serve ter coração,
E não ter o amor, de ninguém?

Beijos que te dei, onde estão?
A quem foste dar o que é meu?
Vale mais não ter coração,
Do que ter e não ter como eu.

Eu em troca de nada,
Dei tudo na vida.
Bandeira vencida,
rasgada no chão.
Sou a data esquecida,
A coisa perdida,
Que vai a leilão.

Sonhos que sonhei, onde estão?
Horas que vivi, quem as tem?
De que serve ter coração,
E não ter o amor, de ninguém?

Vivo de saudades, amor.
A vida perdeu o fulgor.
Como o sol de inverno,
Não tenho, calor.

Sonhos que sonhei, onde estão?
Horas que vivi, quem as tem?
De que serve ter coração,
E não ter o amor, de ninguém?

Vivo de saudades, amor.
A vida perdeu o fulgor.
Como o sol de inverno,
Não tenho, calor.

26 junho 2007

Gente di mare


Umberto Tozzi e Raf - Gente di mare
Festival Eurovisão 1987.

Há vinte anos! Meu Deus, como o tempo passa!!!...



A noi che siamo gente di pianura
navigatori esperti di citta'
il mare ci fa sempre un po' paura
per quell'idea di troppa liberta'.
Eppure abbiamo il sale nei capelli
del mare abbiamo le profondita'
e donne infreddolite negli scialli
che aspettano che cosa non si sa.
Gente di mare
che se ne va
dove gli pare
dove non sa.
Gente che muore
di nostalgia
ma quando torna
dopo un giorno muore
per la voglia di andare via.
E quando ci fermiamo sulla riva
lo sguardo all'orizzonte se ne va
portandoci i pensieri alla deriva
per quell'idea di troppa liberta'.

Gente di mare
che se ne va
dove gli pare
dove non sa.
Gente corsara che non c'e' piu'
gente lontana che porta nel cuore
questo grande fratello blu.

Al di la' del mare
c'e' qualcuno che
c'e' qualcuno che non sa
niente di te.

Gente di mare
che se ne va
dove gli pare
dove non sa.
Noi prigionieri in questa citta'
viviamo sempre di oggi e di ieri
inchiodati dalla realta'...
e la gente di mare va.

Gente di mare
che se ne va
dove gli pare
dove non sa.
Noi prigionieri in questa citta'
viviamo sempre di oggi e di ieri
inchiodati dalla realta'...
e la gente di mare va.

25 junho 2007

Modernices de linguagem: Antecipar

Voltando às modernices de linguagem, esta é outra que está muito na moda:
Antecipar (do inglês anticipate) em vez de prever.

19 junho 2007

Palmira Bastos (1875-1967)

Fez no passado dia 10 de Maio 40 anos que a grande actriz Palmira Bastos faleceu. Percorrendo o espólio do compositor Augusto Machado encontrei esta nota manuscrita, datada de 1903 - Palmira Bastos tinha 28 anos - que não sei se alguma vez chegou a ser publicada.


Aqui fica o testemunho, quiça inédito, 104 anos depois de ter sido escrito:

«Só aos grandes artistas é dado produzir o que se chama: impressão de arte.
«Palmyra Bastos tem este condão; ella é interprete, creadora e musa: executa, colabora e inspira. A.M.»

Dúvida existencial

«Mas quem sabe se o Diabo não será o Mister Hyde de Deus?»*


*Mário Quintana - Da preguiça como método de trabalho, 1987

12 junho 2007

Olh'ó balão!



Olha o balão, na noite de São João
Para poder dançar bastante com quem tenho à minha espera
Ó-i-ó-ai, pedi licença ao meu Pai, e corri com o meu estudante
Que ficou como uma fera

Ó-i-ó-ai, fui comprar um manjerico
Ó-i-ó-ai, vou daqui pró bailarico
E tenho um gaiato aqui dependurado,
Que é mesmo o retrato do meu namorado

Toca o fungagá, toca o Sol e Dó,
Vamos lá, nesta marcha a um fulambó
Olha o balão, na noite de São João,
Para não andar maçado da pequena me livrei
Ó-i-ó-ai, não sei com quem ela vai, cá para mim estou governado
Com uma outra que eu cá sei
Ó-i-ó-ai, fui comprar um manjerico
Ó-i-ó-ai, vou daqui pró bailarico
Tenho uma gaiata aqui dependurada
Que tem mesmo a lata, lá da namorada

08 junho 2007

Corpus Christi

A festa do Corpus Christi ou Corpo de Deus é, talvez, uma das festas católicas menos compreendidas por crentes e por não crentes. Aparentemente desgarrada do tempo pascal, aparece sempre a uma Quinta Feira, quase sempre em Junho. Os católicos vão à Missa neste dia mas aposto que a grande maioria nem sabe porquê. Os não católicos esfregam as mãos de contentes e aproveitam para ir à praia. Eu, que não vou à Missa nem à praia, explico o que é o Corpus Christi:

O princípio fundamental da fé cristã é a divindade de um homem que viveu na Palestina há cerca de 2000 anos, de nome Jesus, cognominado Cristo (o Ungido) pelos seus seguidores. Este homem, que terá morrido no dia anterior ao Sábado e, para os cristãos, ressuscitado no dia a seguir ao Sábado, teria deixado instruções no sentido de ser periodicamente (ele não especificou a periodicidade) realizada uma cerimónia em que o pão e o vinho fossem abençoados e distribuídos aos crentes numa celebração daquela que ficaria conhecida por Última Ceia e que se teria realizado na véspera da sua crucifixão.

Os cristãos sempre acreditaram que, nesta ceia fundadora, Jesus teria transformado de factu (e não apenas simbolicamente) o pão e o vinho no seu corpo e no seu sangue como antecipação do seu próprio sacrifício. Ao fazê-lo, instituía o sacramento da Eucaristia e os cristãos acreditam também que, de cada vez que repetem este gesto, repetem essa transformação à qual dão o nome de "transubstanciação" (ou seja, transformação de uma substância em outra).

Acontece que a teologia cristã teve os seus altos e baixos durante os primeiros séculos do cristianismo, surgiram muitas "variantes" da doutrina oficial da Igreja e a Igreja tratou de, por diversos meios, uns mais inóquos que outros, fazer valer a sua versão da doutrina. Um desses meios foi a instituição dos dogmas. Os dogmas são crenças que, uma vez estabelecidas, não se discutem mais, deixam de estar sujeitas ao debate teológico. De uma maneira geral, os dogmas só foram estabelecidos como resposta às versões "desviantes" ou seja, às versões consideradas heréticas pela Igreja Católica: temos como exemplos, o dogma da Santíssima Trindade (posto em causa por Ario), o da Virgindade Perpétua de Maria (posto em causa por várias tradições cristãs) e... o da transubstanciação. Pois, esse mesmo. O da transformação real do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus durante a celebração da Eucaristia. Este dogma (que ainda não era dogma) é posto em causa pelo teólogo Berengário de Tours (999-1086). Apesar de se ter retratado no fim da vida, deixou seguidores - os Berengários - e a Igreja sentiu necessidade de reforçar a crença na transubstanciação, tanto mais que esta era a base do sacramento da Eucaristia. E fê-lo em 1264, pela mão do Papa Urbano IV, com a bula Transiturus a qual instituíu a festa do Corpus Christi, com missa e ofício próprios. Celebra-se no 60º dia após a Páscoa e calha sempre a uma Quinta Feira para acentuar a relação com a Última Ceia, celebrada a Quinta Feira Santa.

E pronto, agora que já sabem porque é têm ordem de soltura na Quinta Feira do Corpo de Deus... que não venha o pessoal do Bloco agora dizer que isto é um estado laico e patati patatá porque eu também gosto de ficar a dormir até mais tarde, mesmo sem ir à Missa nem à praia.

05 junho 2007

Cate Blanchetticelli

A propósito do post anterior: é impressão minha ou esta senhora teve uma sósia, há uns 500 e tal anos atrás?...


31 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação (5)

A propósito das falhas tecnológicas durante o Encontro...

«— E tu, que tens feito, Jacinto?
«O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera - cumprira com serenidade todas as funções, as que pertencem à matéria e as que pertencem ao espírito...
«— E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o 202!
«Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga vivacidade:
«— Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências.» (A cidade e as serras)

Web 2.0 e a Ciência da Informação (4)

O texto do Adalberto aqui... a que se seguiu o meu:

A Biblioteca de Jacinto

A inspiração

«A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caramânia até ao tecto de onde alternadamente, através de cristais, o sol e a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma - continha vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o bibliotecário apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezassete!
Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando este economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência - e mesmo da estupidez. E o único inconveniente deste monumental armazém do saber era que todo aquele que lá penetrava inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas, que providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o Corpo encontrava logo, para mal do Espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de um leito.» (A civilização)

A frase lapidar

«Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o bibliotecário apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezassete!»

Está cá tudo: a exaustividade, a pertinência e a especificidade; a gestão de recursos; a imparcialidade.

Mas há mais. Todas as questões actuais associadas às novas tecnologias (da época) e à informação estão presentes no conto e na novela de Jacinto, designadamente aquilo que nós consideramos ser uma característica dos nossos dias como o excesso de informação, a poluição informativa ligada à globalização:

«Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. [...]. Nesse instante rompeu de outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no telefone:
«— Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr.
«E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria!
«Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o prejudicava directamente aquela avaria da Azoff.
«— Da Azoff?... A avaria? A mim?... Não! É uma notícia.» (A cidade e as serras)

A biblioteca de Jacinto é, assim, no espírito e na forma, o meu imaginário de biblioteca. Fascinou-me logo, desde a primeira vez que li a «Civilização», teria 9 ou 10 anos. Que me desculpem os colegas das bibliotecas públicas, a mim nunca atraíram as estantes coloridas e os pufes. Em criança eu gostava de mistério. Gostava de sítios escuros onde tivesse de entrar pé ante pé, espreitando atrás de cada porta ou de cada estante. Gostava de imaginar que, por detrás de um armário de madeira escura, fazendo deslizar um painel, podia encontrar um túnel secreto. Gostava de palácios e de casas antigas. Adorava o corredor sombrio, em chão de tábua, por detrás do guichet de madeira escura – cujo tampo me dava pelo queixo – da Conservatória do Registo Civil do meu bairro, ao qual (corredor) eu não conseguia ver o fundo: uma Conservatória que me veio imediatamente à memória ao ler «Todos os Nomes», de Saramago.
Passava horas a ler, enfiada no sótão da casa de campo dos meus pais, enquanto o Sol brilhava cá fora e a minha Mãe me chamava «está um dia tão lindo, porque é que não vais lá para fora brincar?».

Mas a biblioteca de Jacinto é, simultaneamente, o contrário do ideal de biblioteca:

«- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
«- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
«- Não sei.
«Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta.» (A cidade e as serras)

Se o bibliotecário de Jacinto, com a sua «justa prudência», tentara a gestão óptima do espaço e do saber, esse saber ficara fechado, armazenado, falhara a comunicação.

A biblioteca de Jacinto, «monumental armazém do saber» «formidavelmente abastecido [...] de todas as obras essenciais da inteligência - e mesmo da estupidez» é assim um microcosmos. Tem tudo o que, de bom e de mau, uma biblioteca pode ter e isso torna-a tremendamente real.

Os bibliotecários e os blogues

Tenho-me interrogado – e levantei essa questão no painel do Congresso BAD, em Ponta Delgada – o que leva tantos bibliotecários a terem blogues? Se os sites e páginas pessoais não fascinaram tantos bibliotecários quanto os blogues, qual será a razão? E porquê tantos bibliotecários e tão poucos arquivistas? E o que é que caracteriza os blogues dos bibliotecários, o que os distingue dos outros (se é que algo os distingue)? Haverá uma forma própria de se ser um blogueiro bibliotecário?
Para um bibliotecário, o fenómeno blogue não é uma coisa assim tão nova. Na verdade, é algo muito familiar. Talvez por isso os bibliotecário se sintam tão “em casa” nos blogues.
A edição privada, de carácter "artesanal", existe desde os primeiros tempos da tipografia. A publicação de textos críticos ou de intervenção social, com carácter panfletário, tem, pelo menos, dois séculos. Um óptimo exemplo disso é «As farpas» de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão:
«Nesta jornada, longa ou curta, vamos sós. Não levamos bandeira nem clarim. Pelo caminho não leremos A Nação nem o Almanach das Cacholetas. Vamos conversando um pouco, rindo muito. [...] Assim vamos. E na epiderme de cada facto contemporâneo cravaremos uma farpa: apenas a porção de ferro estritamente indispensável para deixar pendente um sinal.»

Este “blogue” avant la lettre durou de 1871 até 1883. Se Eça de Queirós e Ramalho Ortigão tivessem tido acesso à tecnologia actual, teriam, seguramente, publicado as suas Farpas num blogue.
A estrutura cronológica do blogue é um retorno à lógica linear do livro impresso (ou até do rolo) que contraria a ideia difundida há alguns anos, de que a estrutura hipertextual era o futuro e que a lógica linear tinha os dias contados.
Outro aspecto curioso em relação aos blogues tem a ver com a ideia mais ou menos difundida de que vêm substituir alguma coisa. Há uns anos perguntava-se se a imprensa on-line iria substituir a imprensa escrita. Antes perguntava-se se o CD e a Internet iriam substituir os livros. Mas antes disso perguntou-se se o cinema iria substituir o teatro, se a fotografia iria substituir a pintura e, séculos antes, perguntou-se se a tipografia iria substituir a escrita manual. Na antiga Grécia houve quem acreditasse que a escrita iria eliminar a tradição oral. Tudo tem o seu lugar e a sua função. E os bibliotecários sabem disso muito bem.
É certo que a Internet se tornou, nos últimos anos, um meio privilegiado de comunicação e um espaço de liberdade de expressão individual e colectiva. Neste meio, os blogues têm assumido particular relevo, se não pela qualidade (a maioria das vezes, duvidosa) certamente pela sua ampla acessibilidade. Se «não há cão nem gato» que não tenha um blogue, hoje em dia, também é certo que nunca, como neste meio, a selecção se fez tanto pelo lado do "mercado" pois, livres dos constrangimentos comerciais, os blogues estão todos igualmente acessíveis a quem usa a Internet e a sua consulta depende única e exclusivamente do interesse que despertam nos cibernautas.

Acho que subjacente à criação de um blogue há sempre uma certa petulância, mesmo que inconsciente. O que me leva a pensar que tenho alguma coisa de interessante para dizer?!? Seja como meio de escape, seja como oportunidade para conhecer pessoas com interesses afins, seja como espaço de debate e de troca de informações, a criação de um blogue tem sempre uma carga voluntarista muito forte e, algures entre o consciente e o inconsciente, revela sempre uma vontade de espreitar o mundo (por detrás do balcão?...) e de perguntar «Está aí alguém?».

30 maio 2007

Paper Music


Criei um novo blogue. Tudo coisas do entusiasmo com que vim de Vila do Conde.
Chama-se Paper Music e é profissional. Sim, este é um blogue de uma bibliotecária sobre bibliotecas... de música.

Web 2.0 e a Ciência da Informação (3)

Parabéns à ESEIG!
O III Encontro "Web 2.0 e a Ciência da Informação" do curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (CTDI), correu muitíssimo bem, as comunicações foram muito interessantes e a organização impecável. Impressionante a dinâmica e o empenhamento de professores e alunos do curso. Tudo foi feito para tornar o mais agradável possível esta naturalmente cansativa "maratona", desde o transporte de e para Vila do Conde, ao alojamento, passando pelo almoço servido nas instalações da ESEIG. Uma palavra de especial apreço para o Júlio Anjos, que se esteve nisto de corpo e alma. Nada podia ter corrido melhor. Perfeito é a palavra. Muito, muito obrigada por tudo!

28 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação (2)

Estou de partida para Vila do Conde, para participar no III Encontro do curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (CTDI) da ESEIG, subordinado ao tema "Web 2.0 e a Ciência da Informação". É amanhã. Lá para as três e tal da tarde vou apresentar o texto do Adalberto Barreto «O blogue pessoal/profissional como escape terapêutico = Silly library blogs worldwide» e vou também dar a minha achega a este tema. Vou falar da Biblioteca de Jacinto, claro, mas também deste mundo dos blogues, do que tem de novo e do que nem por isso. E porque é que nós, os bibliotecários, gostamos tanto de blogues. Porque será?...

23 maio 2007

O meu olhar sobre a ilha de São Miguel (4)

No dia 3 de Abril fomos passear ao acaso por estradas secundárias. Eram seis e vinte cinco da tarde e parece que estava na hora de levar as vaquinhas à ordenha. Encontrámos a estrada bloqueada por uma manada. As vaquinhas à nossa frente, a gente atrás, o Jorge dentro do carro e eu do lado de fora, a fotografar sofregamente. «Eis senão quando, caso nunca visto!» percebo que as vaquinhas se tinham enganado no caminho. Vai um vaqueiro à frente, mais outro atrás, a fazê-las voltar. Uma manada de vacas leiteiras a fazer inversão de marcha num caminho estreito! Num minuto deixámos de ir atrás das vacas para termos as vacas a correr para nós. Toca de fazer marcha atrás em tempo recorde, que elas vêm ai!!! E eu a fotografar, a fotografar, a fotografar...


Ah, e foi neste dia que eu fiquei a perceber porque é que estes vaqueiros usam galochas...

22 maio 2007

O meu olhar sobre a ilha de São Miguel (3)

Sete Cidades. Este foi um encontro inesperado. Já a tinhamos visto do outro lado (lá ao fundo) e reencontrámo-la, dois dias depois, ao cimo de uma estrada que eu não sabia onde ia dar (não ia a acompanhar no mapa...). Esplendoroso!


2-05-2007, 17:26

21 maio 2007

O meu olhar sobre a ilha de São Miguel (2)

Gostei especialmente de fazer esta sequência:













Imagens captadas no dia 1 de Abril de 2007, entre as 13h39 e as 13h43. As pessoas retratadas autorizaram ser fotografadas e por isso lhes agradeço.

Adeus, Viseu, até ao meu regresso!

Aqui, n'A biblioteca de Jacinto, não há pressas. Tudo se faz muuuuito devagar...
Por isso, um dia destes, sem pressas, hei-de mostrar umas imagens do concerto do Grupo Vocal Arsis, em Viseu. Preciso de passar as imagens, seleccioná-las e decidir qual ou quais ponho aqui à vista de todos.
Até lá, saibam apenas que correu muito bem, o público aderiu, os jovens actores que nos acompanharam nos papéis de Camilo Castelo-Branco e Ana Plácido, fizeram um belíssimo trabalho e foi uma noite muito agradável no Museu Grão Vasco. O meu mais sincero agradecimento à Direcção do Museu que nos acolheu com simpatia e verdadeiro luxo, no "cinco estrelas" Montebelo e no restaurante Cortiço onde nos serviram um maravilhoso menu com especialidades regionais.
Vontade de regressar a Lisboa, essa é que mais faltou...

18 maio 2007

Concerto Arsis no Museu Grão Vasco

O Grupo Vocal Arsis vai actuar em Viseu, no Museu Grão Vasco, este Sábado às 10 da noite. Será um concerto muito interessante, no espaço do Museu, com percurso pelos dois pisos. O programa inclui Monteverdi, Morales, Francisco Martins, Pedro de Cristo, Elgar, Mendelssohn e Brahms.
Vai valer a pena!

É por ali...


17 maio 2007

O meu olhar sobre a ilha de São Miguel

Estas coisas dão trabalho! Apesar de já ter voltado dos Açores há mês e meio, só tenho tido uns minutinhos para ver, seleccionar e tratar as mais de 2000 fotografias que por lá tirei. E não é todos os dias...
Começo hoje a mostrar o meu olhar sobre a Ilha de São Miguel.

15 maio 2007

You take my breath away

Uma das mais pungentes, mais sentidas, mais emotivas canções de amor alguma vez escritas. You can reduce me to tears with a single sigh. Porque o amor, o amor mesmo, é simples...


Look into my eyes and you'll see
I'm the only one
You've captured my love
Stolen my heart
Changed my life
Every time you make a move you destroy my mind
And the way you touch
I lose control and shiver deep inside
You take my breath away

You can reduce me to tears with a single sigh
Ev'ry breath that you take
Any sound that you make
Is a whisper in my ear
I could give up all my life for just one kiss
I would surely die if you dismiss me from your love
You take my breath away

So please don't go
Don't leave me here all by myself
I get ever so lonely from time to time
I will find you
Anywhere you go
I'll be right behind you
Right until the ends of the earth
I'll get no sleep until I find you
To tell you that you just take my breath away

I will find you anywhere you go
Right until the ends of the earth
I'll get no sleep until I find you
To tell you when I've found you
I love you

14 maio 2007

Modernices de linguagem: Suposto

Mais uma modernice de linguagem, decalcadinha do inglês: «O que é que eu sou suposto fazer?» em vez de «O que é suposto que eu faça?» ou, melhor ainda, em portuguesinho mais chão «O que é que querem que eu faça?».

11 maio 2007

O amor

Aos meus Pais, que fazem hoje 49 anos de casados.







«O amor é sofredor,
«É benigno;
«O amor não é invejoso;
«O amor não trata com leviandade,
«Não se ensoberbece.
«Não se porta com indecência,
«Não busca os seus interesses,
«Não se irrita,
«Não suspeita mal;
«Não folga com a injustiça,
«Mas folga com a verdade;
«Tudo sofre,
«Tudo crê,
«Tudo espera,
«Tudo suporta.
«O amor nunca falha.»
(S. Paulo)

10 maio 2007

Bücherverbrennung

10 de Maio devia ser dia de luto para quem ama os livros. Foi neste dia do ano de 1933 que começou a Bücherverbrennung uma queima de livros organizada pelos Nazis para destruir na praça pública livros (a maioria pertencentes a bibliotecas públicas) de autores considerados undeutsch, ou seja, não alemães. Estas acções tiveram a participação activa e entusiasta de associações de estudantes e outros populares.

08 maio 2007

Madeleine

O país está em alvoroço por causa do misterioso desaparecimento de uma menina inglesa num condomínio de férias no Algarve. Quem lê os jornais online, quer os portugueses, quer os britânicos, vê também os comentários que os seus leitores, sempre muito opinativos, fazem a este acontecimento e às suas circunstâncias. Como em casa onde não há pão, onde todos ralham e ninguém tem razão.
A minha opinião é que os pais da menina falharam redondamente nas suas responsabilidades. Além do risco de acidentes não provocados como uma fuga de gás, um curto-circuito ou uma inundação, é de elementar bom senso não deixar três crianças pequenas sozinhas em casa, numa idade em que já conseguem correr pela casa - e uma casa desconhecida é sempre uma aventura de exploração - mas ainda não têm a noção dos riscos inerentes a uns dedinhos na ficha eléctrica, a uma frigideira em cima da bancada, a uma queda de um banco ou - tão comum nestas idades - um pequeno objecto levado à boca. Já para não falar do raptor que entra pela janela, em que normalmente ninguém pensa. Para um português isto é óbvio. Mas também compreendo que o comportamento destes pais é considerado normal na Europa setentrional. As crianças são entregues a si mesmas desde tenra idade para se tornarem independentes desde cedo. Aqueles pais fazem com os seus filhos o mesmo que os seus próprios pais fizeram com eles e os avós com os seus pais. Não têm a noção de terem negligenciado as crianças. Podemos pôr em causa a mentalidade que está subjacente a este comportamento e é essa mentalidade que eu ponho em causa, não este comportamento em particular.

Outra questão são as críticas à actuação da Polícia Judiciária (aliás, aproveitadas pela imprensa britânica) que não considero justas. Parece que toda a gente sabe como a polícia deveria actuar. Toda a gente menos a polícia, claro. De treinadores de bancada, os portugueses passaram, nos últimos dias, a detectives de sofá. Eu tenho por hábito e por princípio, confiar nos profissionais. Em todos os profissionais. Parto sempre do princípio de que, se uma pessoa recebeu formação para exercer uma determinada profissão e se a exerce não sou eu que vou dizer, precipitadamente, que essa pessoa não sabe o que está a fazer. Isto não invalida que, numa avaliação distanciada, se possa vir a perceber que houve erros e que determinado profissional não agiu correctamente, ou seja, de acordo com o que deveria ser o seu procedimento enquanto profissional. Mas essa avaliação deve ser feita a posteriori e deve ser feita por outros profissionais. Seja como for, as críticas têm sido apontadas a toda a actuação da própria Polícia Judiciária o que é gratuito. Alguém acha realmente que a PJ está a dizer tudo? E alguém acha isso desejável? Quem nos garante que as informações avançadas pela imprensa relativas a zonas vigiadas e a métodos utilizados correspondem à realidade? Isso, sim, seria de uma ingenuidade amadora. Não tenho a mínima dúvida de que a Polícia sabe mais do que declara, faz mais do que conta e usa métodos que não revela. E os detectives do sofá deveriam, no mínimo, estar calados porque deve ser terrivelmente desanimador para os profissionais da Polícia estarem a dar o seu melhor (há quantas noites não dormem nem comem decentemente?) e a ouvir as criticazinhas mordazes e mesquinhas de quem só sabe dizer mal. Sinto muitas vezes que alguns portugueses preferem que as coisas corram mal só para depois dizerem que tinham razão. Vejo isso no futebol, vejo isso na política, vejo isso quando há incêndios e desastres naturais e, por incrível que pareça, vejo isso agora, quando está em risco a segurança e a vida de uma criança. Também esta é uma questão de mentalidade e é um aspecto da mentalidade portuguesa que me desgosta particularmente.

Educação à inglesa

«Vilaça, sem óculos, um pouco arrepiado, passava a ponta da toalha molhada pelo pescoço, por trás da orelha, e ia dizendo: - Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é ele quem governa... mimos e mais mimos, naturalmente... Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desiludiu o sr. administrador. Mimos e mais mimos, dizia S. S.ª? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma vara de ferro! Se ele fosse a contar ao sr. Vilaça! Não tinha a criança cinco anos já dormia num quarto só, sem lamparina; e todas as manhãs, zás, para dentro de uma tina de água fria, às vezes a gear lá fora... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande paixão do avô pela criança, havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo... Mas não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às arvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas coisas... E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.» (In: Eça de Queirós - Os Maias)

07 maio 2007

Der Vogelfänger Bin Ich Ja

Apesar de os cantores de ópera não se quererem bonitos mas sim bons cantores, a coisa fica sempre mais credível quando o embrulho coincide com a prenda. Lembro-me sempre de uma ida a São Carlos, para ouvir (sim, fiquei cá em cima e não vi quase nada, só ouvi) a Turandot. O rapaz da fita passa todo o primeiro acto a elogiar a beleza estonteante da princesa Turandot pela qual está disposto a arriscar o pescoço. A dita princesa, de dotes físicos inigualáveis, só aparece à boca de cena no segundo acto: aquilo não era uma mulher, aquilo era um planeta, um autêntico Saturno, com anéis e tudo, que rodava, oscilava e trasladava pelo palco, seguida pelo seu satélite/admirador literalmente cego de paixão.

É raro as pobres sopranos, que são fatalmente a rapariga da fita, terem dotes físicos dignos das personagens que encarnam e o mesmo sucede com os tenores. Talvez por isso, eu costume gostar muito mais das personagens masculinas secundárias, isto no que diz respeito aos atributos não vocais, claro. Por alguma razão que eu não consigo desvendar, os barítonos são quase sempre mais giros que os tenores. Além de uma voz de barítono ser mesmo sempre mais sensual. Quando uma personagem simpática é interpretada por uma boa figura dotada de uma das mais belas vozes de barítono, não há como hesitar: Papageno é Hermann Prey. Para mim, O Papageno. The one.


MOZART, W. A. - Die zauberflöte. Ária «Der Vogelfänger Bin Ich Ja»

04 maio 2007

Web 2.0 e a Ciência da Informação

«O III Encontro do curso de Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (CTDI) da ESEIG (Vila do Conde), subordinado ao tema "Web 2.0 e a Ciência da Informação", pretende dar continuidade a uma iniciativa organizada, pela primeira vez, em 2005, tendo, então, assumido uma periodicidade anual.

«O êxito das edições anteriores deste evento reforçou a vontade de prosseguirmos com o objectivo então traçado: a partilha de saberes e experiências diversificadas, no âmbito das Ciências e Tecnologias da Informação, de modo a proporcionar o debate, a difusão e o desenvolvimento do conhecimento na matéria.

«Os Encontros têm como público alvo os actuais e futuros Profissionais da Informação bem como gestores de empresas.

«O Tema deste III Encontro, Web 2.0, é encarado por nós como verdadeiramente actual e pertinente pois vem realçar ainda mais a importância da Ciência da Informação, neste mundo em que o cidadão comum, ao invés de mero consumidor, se torna actor não só na produção de informação, como na sua distribuição e relevância, por virtude de novas aplicações e da, cada vez maior, ubiquidade de mecanismos e locais de acesso. Assim, qualquer cidadão pode ser também produtor com uma facilidade até agora nunca vista.

«A emergência do paradigma do "utilizador como conteúdo" é apenas uma das revoluções criadas pela adopção destas ferramentas a nível global: muitos outros novos desafios se colocam aos Profissionais da Informação, seja na projecção dos seus serviços na blogosfera, seja na avaliação da qualidade da informação agora disponível, seja na sempre crescente necessidade de dotar o cidadão das competências necessárias para aferir a relevância, autoridade e qualidade da informação recuperada.

«Por outro lado, as novas esferas de comunicação humana, desde a blogosfera aos mundos virtuais, passando pelas comunidades online, apresentam desafios aos Profissionais da Informação que, apesar de estarem perfeitamente contemplados nos referenciais de competências com que foram dotados no seu percurso académico, urge revisitar: Qual o nosso papel na web 2.0? Como acrescentar-lhe valor? Como expressar a nossa relevância? Como avaliar o valor? Como tornar os nossos serviços relevantes para os utilizadores nativos digitais? Como adaptar a docência da Ciência da Informação e mesmo a produção científica Web 2.0?

«Se não para responder a tudo isto, pelo menos para fazer novas perguntas, convidamos pois, todos os interessados, a estarem connosco no dia 29 de Maio.

«Para o curso de CTDI, Web 2.0 significa "a Web somos nós!".»

Quanto à bibliotecária da Biblioteca de Jacinto - Moi - vai ter uma modesta (mas divertida, espero) participação. Ainda não escrevi nada (se calhar vai de improviso) mas vou falar sobre a minha experiência n'A biblioteca de Jacinto, como o facto de ser bibliotecária profissional influencia a minha atitude enquanto blogger e também da minha participação em redes sociais (Bibliotecários 2.0, Librarians, Library 2.0) e da rede Paper Music, que criei para pôr em contacto bibliotecários e arquivistas de música em todo o mundo bem como todas aquelas pessoas que, não sendo bibliotecários nem arquivistas profissionais, trabalham com documentação e com património musical e têm experièncias a trocar.

03 maio 2007

Planet Earth

Voltando à banda sonora da minha vida. O que eu gostava destes rapazes de anquinhas! 1979 ou 1980, salvo erro, tinha eu 12 ou 13 anos.


Duran Duran - Planet Earth

Only came outside to watch the night fall with the rain
I heard you making patterns rhyme
Like some new romantic looking for the tv sound
You'll see I'm right some other time

Look now, look all around, there's no sign of life
Voices, another sound, can you hear me now?
This is planet earth, you're looking at planet earth
Bop bop bop bop bop bop bop bop this is planet earth

My head is stuck on something precious
Let me know if you're coming down to land
Is there anybody out there trying to get through?
My eyes are so cloudy I can't see you

Look now, look all around, there's no sign of life
Voices, another sound, can you hear me now?
Is is planet earth, you're looking at planet earth

Bop bop bop bop bop bop bop bop
This is planet earth
Bop bop bop bop bop bop bop bop
This calling planet earth
Bop bop bop bop bop bop bop bop
This looking at planet earth
Bop bop bop bop bop bop bop bop
This is planet earth

02 maio 2007

Ars integrata

Está na rede, desde 20 de Abril, o blogue Ars integrata. Trata-se de «um projecto aberto assente na criação e fruição artística multidisciplinar, aberto a criadores, investigadores e ao público em geral interessado nas suas diversas áreas, livre de preconceitos de género ou estilísticos».
Para os seus mentores, os votos de muito sucesso cibernáutico.

"A cidade e as Serras" em teatro de papel

Recebi e divulgo, da Fundação Eça de Queirós:

"A Cidade as Serras" de Eça de Queiroz, adaptada para teatro de papel: sensibilização para uma prática de consumo responsável.

«Trata-se de uma apresentação cénica da obra "A Cidade e as Serras" de Eça de Queiroz, em teatro de papel - actividade que conheceu grande popularidade na segunda metade do sec XIX. Constitui-se, até ao momento, como uma importante acção no âmbito da educação para a cidadania, desenvolvida no programa de visita de estudo ao espaço museológico da Fundação Eça de Queiroz – Casa de Tormes. Agora possível a sua deslocação e realização noutros espaços: pequenos auditórios e salas de aula.

«A peça inicia com o Jacinto, personagem principal da obra, em Paris, enquanto consumidor desenfreado, sempre pronto a adquirir as últimas produções tecnológicas, sendo que, Tormes, é o lugar onde este descobre a sua verdadeira felicidade - uma proximidade com a natureza e um refrear do seu consumo compulsivo. No final, a visita aos bastidores deste particular teatro, e a motivação do público para a criação em teatro de papel – estratégia entusiasmante, no trabalho com grupos infantis e juvenis, visando a promoção da leitura e o desenvolvimento da compreensão leitora, a par do gosto pela encenação teatral.»

Criação e encenação: Nuno José Silva e Vasco Monterroso
Dramaturgia, sonoplastia e interpretação: Vasco Monterroso
Cenografia e adereços: Nuno José Silva
Marionetas : Graça Sanches, Vasco Monterroso e Filipa Figueiredo
Produção: Fundação Eça de Queiroz – Serviço Educativo

Escolas, bibliotecas e diferentes serviços educativos interessados em desenvolver esta acção, poderão contactar o Serviço Educativo da Fundação Eça de Queiroz (Tormes. Baião. 4640-433 Santa Cruz do Douro. info@feq.pt).
Também poderão aceder ao vídeo promocional aqui.