Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

18 janeiro 2007

As razões da escolha IX

Os argumentos que tenho lido contra e a favor no próximo referendo, têm colocado o ênfase na distinção entre despenalização e liberalização. Argumentam uns que, o que está em causa, o que importa decidir é se as mulheres que abortam devem ou não ser julgadas e, eventualmente, presas, pelo facto de abortarem. E acusam quem não defende a despenalização de querer mandar as mulheres para a prisão.
Argumentam outros que a pergunta, da forma como está formulada, vai além da despenalização, conduzindo a uma verdadeira liberalização.
Passando por cima do lado fácil - quase cabotino - da imagem das mulheres pobres e desgraçadas entregues às garras da justiça, é necessário, para uma discussão séria, perceber que, na pergunta estão em causa quatro variáveis, sendo as segunda, terceira e quarta limitativas e explicativas da primeira. E são estas quatro variáveis que vão a referendo, não apenas a primeira.

A primeira variável é apresentada no início da pergunta: «Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez...».
Despenalização, neste caso, significa isenção de pena, não significa, necessariamente, licitude do acto. Já li a explicação de vários juristas em relação a esta distinção. Dizem eles que um acto ilícito pode ser isento de pena por variadas razões (necessidade, desconhecimento, legítima defesa, etc.) sem que passe a ser lícito.
Esta despenalização (isenção de pena) pode abranger todos os agentes do acto (grávida, médicos, parteiras, companheiro...) ou pode abranger apenas alguns agentes, em particular aquela ou aqueles que se encontrem (presumivel ou comprovadamente) em estado de necessidade desculpante. A pergunta poderia ser colocada nos termos em que está ou poderia contemplar uma variável: «Concorda com a despenalização da grávida pela interrupção voluntária da gravidez...», caso em que só a grávida seria isenta de pena mas os restantes agentes poderiam ser detidos, julgados e punidos.
Seria possível colocar a referendo uma pergunta nestes termos mas não é esta a pergunta que vai a referendo.

A segunda parte da pergunta contém uma variável que limita a primeira parte: «...se realizada, por opção da mulher...» mas não acrescenta muito. Na verdade, se a mulher não desse o seu consentimento nunca poderia ser penalizada, ainda que o aborto fosse provocado. Estaríamos, neste caso, na presença de um outro ilícito, mais grave, que seria o aborto provocado por terceiros contra a vontade da mulher. Por isso, para o que interessa - a "despenalização das mulheres que abortam" - esta segunda parte da pergunta nada acrescenta a menos que esteja implícita, também, a despenalização dos "terceiros", dos que praticam ou incitam à prática do aborto.
Mas não se pode deduzir desta pergunta que esteja em causa a ilicitude do acto de abortar.

A terceira parte da pergunta contém uma variável que limita cronologicamente a primeira: «...nas primeiras dez semanas...». Imediatamente se deduz que, a partir das 10 semanas, o acto (além de ilícito) passa a ser penalizável. Serão investigados, detidos, julgados e punidos todos os agentes desse acto, sejam os médicos e parteiras, seja a mulher grávida não havendo qualquer distinção, qualquer nuance, entre uns e outra.
Verdadeiramente, começam aqui os problemas que encontro na pergunta: se o objectivo é evitar que as mulheres que abortam sejam perseguidas, humilhadas, julgadas e condenadas, um prazo tão curto não deixará "desabrigada" aquela percentagem de mulheres que recorrem - e continuarão a fazê-lo - depois destas dez semanas? Porque é que estas mulheres são dignas de menos atenção, respeito e protecção do que aquelas que o fazem até às dez semanas? Mais, sendo o aborto tanto mais perigoso (e mais caro, também) quanto mais adiantada estiver a gravidez, não ficarão desprotegidas precisamente as mulheres que mais necessitam de protecção, aquelas que mais arriscam, aquelas que mais "pagam" com a sua saúde pelo acto de abortar?

A quarta e última parte da pergunta tem duas faces opostas: por um lado, limita a primeira mas, por outro lado alarga-a. Eu explico.
«...em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?» limita, porque deixa de fora - penaliza, portanto - as mulheres e agentes que pratiquem o aborto fora de um estabelecimento de saúde legalmente autorizado. E alarga porque só aqui, nesta frase, se percebe que o aborto não deixa apenas de ser penalizado, dentro de determinadas circunstâncias; passa também a ser lícito. Passa a ser lícito porque pode ser realizado num estabelecimento legalmente autorizado. Num hospital público, por exemplo. Ou numa clínica.
E é aqui que está o busílis. É que, enquanto em relação às três primeiras partes da pergunta, toda a gente está de acordo, com mais ou menos reservas (nunca ouvi alguém que tencione votar Não defender que se atirem as mulheres para a cadeia), em relação a esta última parte já não se passa assim. Não se trata apenas de não penalizar quem pratica o acto mas de autorizar a prática desse acto. De dar a esse acto uma protecção legal. Não será liberalizar mas é, incontestavelmente, legalizar.

Por outro lado, esta última parte da pergunta gera uma situação, no mínimo, bizarra: o acto de abortar, em si mesmo, deixa de ser ilícito, o que passa a ser ilícito é praticá-lo fora de um estabelecimento autorizado. É um pouco como se eu pudesse ser punida por recorrer à bruxa em vez de ir ao médico. Quero dizer, a mulher que recorre a uma parteira clandestina põe a sua vida em risco e ainda é punida por isso. Não por abortar.
Um estabelecimento de saúde não autorizado configura prática ilegal de medicina e é a prática ilegal de medicina que deve ser punida, não o recurso a ela. Ora, o que esta pergunta nos diz é que uma mulher que recorra a um estabelecimento não autorizado para praticar um aborto lícito (dentro das dez semanas) incorre na mesma pena que uma outra que pratique um aborto ilícito (necessariamente num estabelecimento não autorizado). É absurdo!

As razões da escolha VIII. VII. VI. V. IV. III. II. I.

17 janeiro 2007

As razões da escolha VIII

Um dos chavões mais frequentes entre os defensores da legalização do aborto é de que «sou contra o aborto mas não imponho a minha opinião a ninguém». O Sim tem, sem dúvida, argumentos de peso mas este não é, certamente, um deles. Porque é completamente estapafúrdio.
O que quer dizer «sou contra o aborto»? Alguém é a favor? Aliás, o que é isso de ser "a favor" do aborto? Como é que se faz para se ser a favor do aborto? Anda-se a bater à portas, tipo Testemunhas de Jeová, a aliciar mulheres para fazerem abortos? Defende-se que se devem fazer x abortos por ano? Sugere-se às mulheres que engravidem de propósito só para fazer um aborto? «Faça um aborto. Vai ver que se sente logo melhor!». «Você não é a favor do aborto? Aceite fazer uma demonstração sem compromisso e logo verá que não quer outra coisa!». Fantástico, Melga!
Ser "a favor" do aborto não existe. Ninguém é a favor do aborto. Ser a favor do aborto é, no mínimo, psicopata.
Como sequência lógica, também não faz sentido o resto da frase «... não imponho a minha opinião a ninguém». Isso quer dizer que, quem diz isso, admite que haja quem seja "a favor" do aborto? Que quem aborta o faz por ser a favor do aborto?
De todos os argumentos tolos que tenho ouvido nesta polémica este é o mais absurdo de todos.

Estranhamente, é um argumento bem acolhido e frequentemente repetido devido a uma crescente cultura individualista, economicista e pragmática que se tem feito sentir nos últimos anos. «Não imponho a minha opinião a ninguém» soa bem, parece moderno, liberal, tolerante, tipo «todos diferentes, todos iguais». Mesmo que não queira dizer nada, fica bem. E é como o preto: não compromete. Hoje em dia ninguém se quer comprometer. Ninguém assume que tem um ideal e que quer fazê-lo valer. Lutar por ideais é uma coisa estética, romântica, antigamente usava-se imenso, as pessoas até iam presas por causa dos seus ideais; hoje não se usa. Hoje em dia ninguém vai preso por causa de ideais e isso torna os ideais pouco atraentes.
Este é um fenómeno muito mais amplo que tem (acho eu) a ver com a decadência ideológica posterior à queda do bloco de Leste. Uma decadência ideológica que conduziu a uma decadência ética.
Se a ausência de consciência moral é uma das características do psicopata, o que chamar a uma sociedade que perde a consciência moral?
Voltarei ao tema, numa abordagem mais abrangente, para além do aborto.

As razões da escolha VII. VI. V. IV. III. II. I.

Mais três bons posts sobre o aborto

Outro bom post sobre o aborto (não toma posição).

E uma abordagem jurídica feita por um Professor de Direito.

Razoabilidade: Sobre os limites da liberdade individual.

Outros posts sobre o aborto já referenciados n'A biblioteca de Jacinto, aqui e aqui.

15 janeiro 2007

Para a Anabela (In memoriam)

«Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
«colhidos no mais íntimo de mim...
«Suas palavras seriam as mais simples do mundo,
«porém não sei que luz as iluminaria,
«que terias de fechar teus olhos para os ouvir...
«Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
«como essa que acende inesperadas cores
«nas lanternas chinesas de papel.
«Trago-te palavras, apenas...
«e que estão escritas do lado de fora do papel...
«Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
«e este poema vai morrendo,
«ardente de puro, ao vento da Poesia...
«como uma pobre lanterna que incendiou!»
(Mário Quintana)

14 janeiro 2007

As razões da escolha VII

Por ocasião do Natal, o Bispo do Porto comparou o aborto à "roda dos expostos" medieval. Acho uma péssima comparação que fornece um óptimo argumento para a defesa da legalização do aborto. Na verdade é comparar o incomparável. Partindo do princípio (que o Senhor Bispo do Porto, decerto, defende) de que abortar é matar um ser humano, comparar o aborto ao abandono de uma criança é diminuir em muito a gravidade do aborto. Logo choveram comentários e críticas dos defensores da legalização, usando este argumento em seu favor e muito a propósito. Talvez a argumentação não fosse a melhor mas, com argumentos destes, os defensores da legalização não precisam de fazer campanha. Os representantes da Igreja Católica, de uma maneira geral - salvaguardadas algumas excepções - têm perdido boas oportunidades para ficarem calados, a bem da sua própria causa. Há alguns meses, o padre Domingos Oliveira, da paróquia de Lordelo do Ouro, proferiu esta frase espantosa: «Matar uma criança no seio materno é mais violento que matar uma criança de cinco anos». E fê-lo, pasme-se, durante a missa de sétimo dia da Vanessa Pereira, a menina de cinco anos que foi encontrada morta, no Rio Douro, depois de ter sido vítima de maus tratos. A campanha pelo Sim bem pode convidar um destes sacerdotes para um debate e deixá-lo falar à vontade.

As razões da escolha VI. As razões da escolha V. As razões da escolha IV. As razões da escolha III. As razões da escolha II. As razões da escolha I.

12 janeiro 2007

Mais alguns bons posts sobre o aborto

Não é, em rigor, um post. É a sondagem do Público com resultados, no mínimo, estranhos: «embora a maioria defenda o "sim" no referendo, são mais (45%) os que dizem não dever ser autorizada a IVG "quando a mãe não deseja ter um filho" do que os que acham que deveria ser autorizada (43%)». Esquizofrenia ou falta de informação?

Agora, sim, alguns bons posts sobre o aborto:

Um post do movimento Médicos pela escolha, esclarece aspectos relacionados com a "depressão pós-aborto" (ou sua inexistência).

Um post do Blogue do Não, com um texto da Ordem dos Médicos que esclarece aspectos relacionados com as "lesões psíquicas irreversíveis" (ou a sua inexistência) causadas por uma gravidez indesejada.

Um conjunto de respostas aos argumentos do Não por alguém que vai votar Sim.

Um post do Blogue do Não em defesa da actual lei.

Outros posts sobre o aborto já referenciados n'A biblioteca de Jacinto.

As razões da escolha VI

A despenalização do aborto tem sido objecto de debate desde há muitos anos em muitos países. Até há alguns anos atrás, o debate situava-se, exclusivamente, no domínio das convicções íntimas, da fé. Um cristão consideraria que, a partir do momento da concepção, o pequeno ser é dotado de uma alma imortal feita à imagem e semelhança do Criador. Essa concepção religiosa tem contaminado o debate da pior forma porque o desvia da discussão humanista para a discussão de fé. Quando os Estados Unidos despenalizaram o aborto, no início da década de 70, pouco se sabia ao certo sobre a vida intra-uterina e o argumento religioso era, de facto, o principal entrave. Entretanto, não é só Deus que não dorme, a Ciência também não tem estado parada. Desde o uso da ecografia, durante os anos 70, a tecnologia que permite conhecer e compreender a vida intra-uterina não parou de evoluir mas os argumentos não acompanharam essa evolução; principalmente os argumentos dos que defendem a legalização. Para estes, parece absolutamente irrelevante toda a qualquer descoberta científica que possa abalar ou exigir um reajustamento nos seus argumentos.
E, afinal, esse conhecimento é essencial para formar uma opinião: porquê dez semanas e não oito ou doze? é irrelevante? qualquer número serve desde que se despenalize? quem concorda com as dez semanas concordaria com as catorze? e quem discorda das dez semanas, concordaria com oito? ou com seis? não interessa? em que fundamentamos a nossa decisão? no sim porque sim, no não porque não?

Infelizmente, tenho lido e ouvido muito "sim porque sim" e muito "não porque não". Essas respostas não me satisfazem, de todo. Sempre gostei de formar as minhas opiniões com base em fundamentos sólidos e tenho acompanhado assiduamente o debate, principalmente nos blogues pró e contra a despenalização. Não sou médica, nem sequer tenho uma formação de base em Ciências, e tudo o que sei sobre o assunto resulta de pesquisas na Internet, em sites especializados. E o que encontrei levantou-me algumas questões: por exemplo, ainda não consegui perceber como será feita a contagem das semanas: pelo critério clínico, ou seja, a contar da última menstruação (duas semanas antes da concepção), ou pelo critério genético, ou seja, a contar da concepção. Para quem a resposta é "sim porque sim" ou "não porque não" esta questão é irrelevante porque o referendo só serve para levar a água a um certo moinho. Para quem pretende dar uma resposta fundamentada não é uma questão dispicienda porque não estamos a discutir uma pergunta generalista mas uma pergunta específica que refere, expressamente, um determinado número de semanas.
Se as dez semanas forem contadas a partir da última menstruação, este prazo corresponderá a um embrião com oito semanas de idade (o período embrionário dura oito semanas, contadas a partir da concepção). Se as dez semanas forem contadas a partir da concepção, este prazo corresponderá a um feto de dez semanas de idade (quase todos os órgãos e estruturas do feto estão formados, só precisam de crescer e desenvolver-se até o parto) mas todos os sites da especialidade consideram que, nesta altura, temos uma gravidez de doze semanas e não de dez.
Não haverá debate sério nem esclarecedor enquanto estes critérios não forem muito bem definidos. Poderão, de um lado e de outro da "barricada", argumentar que isso não interessa nada, as pessoas já estão suficientemente baralhadas e isso só iria confundir mais. Mas, então, porque é que meteram o número de semanas na pergunta?

As razões da escolha V. As razões da escolha IV. As razões da escolha III. As razões da escolha II. As razões da escolha I.

11 janeiro 2007

Eu sou Clara mas...

Apesar de estar a dedicar mais tempo e espaço n'A biblioteca de Jacinto ao tema do aborto, não quero deixar passar uma polémica que está a decorrer, neste momento, no blogue do provedor do leitor do Público sobre um plágio particado pela jornalista Clara Barata, daquele diário e denunciado por um leitor.
Depois da Clara Pinto Correia ter sido apanhada a, digamos eufemisticamente, esquecer-se de mencionar a fonte, e agora esta Clara Barata fazer o mesmo, aviso desde já... eu sou Clara mas nada de confusões!

Os meus outros posts sobre o tema estão aqui em baixo:
Outro plágio desmascarado? II (25-10-2006). Outro plágio desmascarado? (24-10-2006). Plágio desmascarado (16-10-2006). De novo o plágio (7-10-2006). O plágio (20-09-2006).

As razões da escolha V

Os defensores do Sim à despenalização do aborto têm usado frequentemente como argumento que nenhuma mulher pratica um aborto de ânimo leve e que essa é, sempre, uma decisão difícil. Querem, com isto, dizer que uma mulher só faz um aborto se tiver razões muito fortes e se a isso fôr forçada pelas circunstâncias.
Ora esse argumento vira-se facilmente contra a legalização. Passo a explicar, dissecando o argumento:

Em primeiro lugar, se o aborto é sempre um acto difícil é porque é um acto condenado ou considerado indesejável pela nossa cultura. Não é uma verdade absoluta. É uma questão cultural tal como o é a pena de morte ou a eutanásia. Tem a ver com as nossas concepções de vida e de sociedade. Ora, os valores sociais mudam, o que ontem era considerado mau (ou pecaminoso) como o sexo antes do casamento, hoje é considerado normal ou, pelo menos, um assunto do foro privado e sobre o qual a sociedade não tem, sequer, de opinar. Não é completamente disparatado pensar que, com a despenalização, o aborto comece, gradualmente, a deixar de ser considerado como uma coisa má e indesejável e passe, com o tempo e a banalização, a ser considerado como um método vulgar de controlo de fertilidade. Como não há valores imutáveis, é fácil de prever que isso venha a suceder como, aliás, já sucede em outros países. O contrário é que não é previsível.
Este argumento joga, pois, muito mais a favor do Não do que do Sim uma vez que a mensagem que o Não quer passar é, precisamente, a de que o aborto é uma coisa má e que, com a despenalização, deixará de ser considerado assim. Pelo contrário, o Sim tenta passar a mensagem de que o aborto é um direito e um direito nunca pode ser uma coisa má.

Em segundo lugar, se uma mulher só faz um aborto se tiver razões muito fortes, então não seria necessário instituir o aborto a pedido; bastaria alargar as actuais excepções legais a essas fortes razões para que pudessem abortar legalmente. Mais uma vez, este argumento joga mais a favor do Não do que do Sim porque a mensagem que os defensores mais moderados do Não querem passar é, precisamente, de que é preciso que haja razões muito fortes para que uma mulher seja autorizada e ajudada a abortar.

Em terceiro lugar, se essas razões muito fortes são circunstâncias que forçam uma mulher a abortar - circunstâncias que, a não existirem, lhe permitiriam levar a gravidez até ao fim - então, mais uma vez, este argumento joga a favor do Não, mais do que do Sim. É que, enquanto a campanha do Sim se tem batido pela criação de condições para que as mulheres possam abortar com condições e dignidade, a campanha do Não tem-se batido pela criação de condições para que as mulheres possam ter os filhos com condições e dignidade. Vir proclamar, em campanha pela despenalização, que as mulheres até gostariam de ter os filhos e, se abortam, é só porque não têm condições para os ter, é o mesmo que dizer que, no fundo, no fundo, os defensores do Não escolheram o caminho certo que é o de dar às mulheres aquilo que elas querem: condições para terem os filhos em vez de abortar.

Em quarto lugar, e em continuação da observação anterior, se as mulheres só abortam porque são forçadas a isso (nenhuma decide de ânimo leve, é sempre doloroso, é sempre difícil) isso significa que as mulheres que o praticam o fazem coagidas e não estão a exercer um direito. Um óptimo argumento prêt-a-porter que a campanha pela legalização dá, de mão beijada, aos defensores do Não.

Se a campanha pela legalização quiser argumentar de forma sólida e coerente, sem se deixar enredar em argumentos contraditórios, só tem um caminho: convencer as pessoas de que um aborto não é, na sua essência, uma coisa má; que as dificuldades emocionais de praticar um aborto são apenas culturais; que o embrião é apenas um conjunto de células e é parte integrante do corpo da mulher; que, por isso, não tem de ser legalmente protegido, tal como um sinal ou uma verruga não o são; e que isto é válido até às dez semanas de gestação e não depois.

Tudo o resto - mulheres presas, dramas pessoais, miséria material e moral - todos estes são argumentos boomerangue, só param na cabeça de quem os atirou.

Lascia ch'io pianga

Gostava tanto de saber fazer isto...

10 janeiro 2007

As razões da escolha IV

Um argumento usado pelos defensores do Não no referendo ao aborto é o da absoluta igualdade de direitos e de dignidade do bebé nascituro em relação ao nascido. É um argumento frágil. Tendo, certamente, vastas razões de defesa sob um ponto de vista médico, tem algumas fragilidades culturais e é discutível, mesmo no terreno dos defensores mais radicais do Não.
Ainda que, numa abordagem puramente médica, o ovo ou zigoto (primeiros dias), o embrião (até à 8ª semana), o feto (a partir da 9ª semana) e o bébé sejam todos seres humanos em distintas fases do seu desenvolvimento (aliás, muito mais próximos entre si do que um recém-nascido de um adulto), numa abordagem instintiva e cultural, há uma diferença que se intui mas não se explica.
É por essa razão que não é obrigatório registar uma gravidez logo que ela é conhecida. É ainda por essa razão que o DIU e a pílula do dia seguinte (que, como toda a gente sabe, são métodos abortivos) não são proibidos.
Coerente, como sempre, a Igreja condena estes métodos mas a nossa cultura não os condena. Quer o DIU quer a pílula do dia seguinte actuam num momento imediatamente posterior à concepção, antes da nidação do ovo ou zigoto. A fecundação dá-se mas o zigoto, nos dias seguintes à concepção, não consegue instalar-se no útero e é expulso por métodos naturais. A mulher não chega, verdadeiramente, a ficar grávida, e a literatura dessas pílulas ressalva, expressamente, que a pílula do dia seguinte «não é eficaz numa gravidez já iniciada». Há concepção mas não há gravidez, portanto.
É com base nesta diferença intuitiva que os defensores moderados do Não aceitam todos os métodos contraceptivos e ainda o aborto em casos justificados.
O facto de haver esta diferença intuitiva não significa, porém, que haja uma clivagem total entre um zigoto, um embrião, um feto e um bebé já nascido. É uma clivagem desse tipo que serve de argumento aos defensores do Sim: segundo eles, «o feto ou embrião ainda não é vida humana». Os defensores moderados do Não defendem, pelo contrário, que, desde o momento em que se inicia a gravidez, o embrião ou feto deve gozar de direitos mas que esses direitos aumentam ao longo do seu desenvolvimento. Quanto a direitos exactamente iguais e a uma dignidade exactamente igual, essa posição, defendida em teoria pela Igreja e por muitos católicos, não é exercida, na prática, nem pela Igreja nem pelos católicos: alguma mulher católica que sofra um aborto espontâneo se lembra de fazer o funeral ao seu feto? ou de baptizá-lo se a gravidez estiver em risco?

As razões da escolha III
As razões da escolha II
As razões da escolha I

09 janeiro 2007

As razões da escolha III

Os defensores do Sim no referendo ao aborto têm usado muitas vezes, como analogia, a luta de algumas décadas atrás pelo uso da pílula, ou seja, uma luta contra a prepotência masculina sobre a vida sexual e reprodutiva da mulher e pelo direito da mulher ao seu próprio corpo. Esta comparação não resiste a uma primeira análise. Por duas razões: primeira, porque o que está em causa não é o próprio corpo da mulher mas um outro corpo de um outro ser cujos direitos, se são discutíveis, não são ignoráveis; a segunda razão, ligada à anterior, é que os direitos sexuais e reprodutivos se exercem a montante, ao nível da contracepção. Isto não contradiz o que eu já disse num post anterior - que a contracepção tem problemas de eficácia, por razões de ordem social - na medida em que é certo que a mensagem dos "direitos reprodutivos" não colhe nestes casos: se uma mulher não usa um método contraceptivo porque não sabe ou não tem meios ou o companheiro não quer, ela não está, à partida, a exercer os seus direitos sexuais e reprodutivos, no momento em que estes devem ser exercidos.

As razões da escolha II
As razões da escolha I

08 janeiro 2007

Alguns bons posts sobre o aborto

A par das minhas próprias reflexões, vou apresentar aqui ligações para bons posts, com bons argumentos sérios e intelectualmente honestos.

Começo por uma análise muito inteligente sobre o aborto, publicada já há uns dois anos, no blogue Crítica na rede.
Neste post o autor, Pedro Madeira, menciona um mau argumento usado pelos defensores da legalização do aborto e um mau argumento usado pelos opositores da legalização do aborto. Tenta fornecer «uma análise tanto quanto possível imparcial de todos os argumentos, de modo a que não seja possível perceber-se qual é [a sua] posição acerca do assunto». Acho que todos, pró e contra a legalização, devem ler. O autor revela, no fim, a sua posição que não é, necessariamente, a minha mas que é uma posição bem fundamentada (ou não fosse ele da área da Filosofia...).

"Porque voto Sim", de Daniel Oliveira: talvez o melhor texto que encontrei, até agora, em defesa da legalização.

"Bases de inteligibilidade do Não": um bom post, da jurista Mafalda Barbosa, muito bem argumentado, contra a legalização.

"Ecco perché sono contro l’aborto": a entrevista de Norberto Bobbio, um agnóstico assumido, com argumentos não religiosos contra a legalização.

"Aborto e eugenia": um post da autoria do médico Fernando G. Costa, com argumentos a ter em conta, contra a legalização.

As razões da escolha II

Um dos argumentos usados por quem tenciona votar Não no próximo referendo ao aborto é de que existe hoje informação mais do que suficiente para se prevenir uma gravidez indesejada.
Esse é um mau argumento. É verdade que hoje existe muita informação mas também é verdade que os processos de assimilação dessa informação são pouco eficazes, e não apenas em relação à contracepção. Existe muita informação sobre os perigos da condução sob efeito do álcool no entanto as pessoas continuam a fazê-lo. Existe muita informação sobre a forma como as crianças devem ser transportadas nos automóveis, no entanto, continuamos a ver senhoras no banco da frente com o bébé ao colo. Existe muita informação sobre as consequências do tabaco e as pessoas continuam a fumar. Existe muita informação sobre a transmissão sexual de doenças como a SIDA ou a Hepatite B e continua a haver muitos comportamentos de risco. Existe muita informação sobre os perigos da exposição solar e as pessoas continuam a torrar ao sol Verão após Verão. Existe muita informação sobre as drogas e os números da toxicodependência não param de crescer. E poderíamos continuar esta lista por muitos mais exemplos, todos de situações graves que põem em risco a saúde e a vida dos próprios e de terceiros.
Poderemos perguntar-nos porque é que, havendo tanta informação disponível, esta não se reflecte nos comportamentos. Não sei. Hoje temos um verdadeiro arsenal de informação sobre tudo e mais alguma coisa, a escolaridade obrigatória aumentou para mais do dobro nos últimos 30 anos, há rádio e televisão dentro de casa, o nível de alfabetização é elevado, o acesso à internet cresce continuamente nos últimos anos, publicam-se guias de tudo e mais alguma coisa, há associações, campanhas publicitárias, gabinetes de atendimento, tudo o que pode ser necessário para informar e esclarecer a população sobre os riscos inerentes aos seus comportamentos. No entanto, os comportamentos não mudam ou, pelo menos, não mudam a um ritmo proporcional à informação disponível. Porquê, então? Porque é que a informação não passa? Se passa, porque é que não é interiorizada? Não sei. O facto é desmentível, não há como negar ou escamotear.
Por essa razão, se o argumento da falta informação não justifica, por si só, o Sim à despenalização, o argumento da informação, por si só, é um argumento frágil contra a despenalização.

As razões da escolha I

05 janeiro 2007

Depois dos Reis

Depois dos Reis vou começar a publicar aqui uma série de reflexões sobre o referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Procurarei ser isenta e imparcial. No fundo, procurarei ser intelectualmente honesta. Sei que não sou dona da verdade, mas tenho uma opinião formada àcerca do assunto e irei votar. A minha opinião resultou de uma reflexão profunda e depois de ponderar vários aspectos. Rejeito aquilo a que um amigo meu designa por "achismo". Num assunto tão grave não podemos limitar-nos a "achar", assim como quem acha que o Porto vai ganhar o campeonato ou que a Lili Caneças está melhor agora que antes da última operação plástica. "Achar" e "ter opinião" não são a mesma coisa. Achar resulta de um impulso, de uma percepção, de uma impressão, contém uma forte dose de intuição. Ter opinião implica reflectir, informar-se junto de quem sabe mais do que nós, pesquisar e ponderar os vários factores em causa. Eu tenho opinião. Certa ou errada? Não creio que isso exista. A minha opinião é compatível com a reflexão que fiz e é coerente com os meus valores e com o meu modelo de sociedade. É coerente com o que desejo para os filhos que ainda espero ter.
Não revelarei de imediato a conclusão das minhas reflexões. Limitar-me-ei a apresentá-las, ao longo de alguns dias, e, quem se der ao trabalho de as ler, poderá avaliar da sua pertinência, da sua lógica e da sua coerência. Poderá confrontá-las com as suas próprias reflexões (se as fez) ou poderá - quem sabe? - aproveitar agora para reflectir.
Os comentários são livres, como sempre, na Biblioteca de Jacinto. Aqui não há censura. A liberdade de exprimir opiniões é total. Na Biblioteca de Jacinto só não há lugar para linguagem imprópria e para ataques pessoais, sejam quem forem os visados.
Mais tarde, revelarei se voto Sim ou Não. Se, até lá, eu conseguir que os visitantes da Biblioteca de Jacinto não consigam adivinhar o meu sentido de voto, terei conseguido o que pretendo: uma reflexão imparcial, isenta e intelectualmente honesta.

Pois, os Reis estão aí


BRUEGEL, Pieter, o Velho, 1525-1569 - Adoração dos Reis (1564)

BALDUNG GRIEN, Hans, 1484-1545 - Adoração dos Magos (1507)

FERNANDES, Vasco, 14---1542 - Adoração dos Magos (1501-1506)

GHIRLANDAIO, Domenico, 1449-1494 - Adoração dos Magos (1487)

BOTTICELLI, Sandro, 1445-1510 - Adoração dos Magos (1475)

STEFANO DA ZEVIO, 1375-1451 - Adoração dos Magos (1435)

04 janeiro 2007

Até aos Reis não abdico de falar no Natal


LORENZETTI, Ambrogio, 1290-1348 - Virgem do leite

A modelo deste quadro lembra-me alguém. Será uma actriz de cinema? Uma modelo? Alguém me ajuda a descobrir?...

Não parece, mas ainda estamos no Natal


TINTORETTO, Jacopo Robusti, 1518-1594 - A circuncisão (1587)

03 janeiro 2007

Uma curiosidade pictórico-natalícia

Nas minhas deambulações pela pintura sacra de tema natalício, encontrei uma curiosa característica nas representações de São José que quero partilhar convosco.
O pobre homem, quando não é representado com um ar confuso, como nestas...


In: BOUTS, Dieric, o Velho - Adoração dos Magos.


In: BALDUNG GRIEN, Hans - Adoração dos Magos


In: GHIRLANDAIO, Domenico - Adoração dos pastores

...é representado com um ar enfadado, como nestas...


In: UCCELLO, Paolo - Adoração dos Magos


In: PINTURICCHIO, Bernardino - Adoração de Cristo Menino


In: MAZZOLINO, Ludovico - Adoração dos Pastores


In: MANTEGNA, Andrea - Adoração dos Pastores


In: BASSANO, Jacopo - Adoração dos pastores


In: BOTTICELLI, Sandro - Adoração dos Magos


In: GHIRLANDAIO, Domenico - Adoração do Menino

31 dezembro 2006

Até pró ano

Como sempre, desde há uns anos, fui com o meu mais-que-tudo ver o último pôr-do-sol do ano, ao Cabo da Roca. O último pôr-do-sol do ano e o último do Continente Europeu. Normalmente não há ninguém mas hoje, como é Domingo, estava cheio de italianos, espanhóis, japoneses e russos (ou seriam ucranianos?...).
Aqui ficam as imagens que recolhi com o meu télélé.

Às 17:20...

...às 17:21...

... e às 17:23.

Para todos os leitores e visitantes, habituais e ocasionais, da Biblioteca de Jacinto, um ano de 2007 muito feliz e cheio de realizações. Continuem a visitar, a acomodar-se e a reconfortar-se nas suas fofas poltronas. A casa é vossa.
Até pró ano.

29 dezembro 2006

Aos 95 anos

Não resisto a divulgar este blogue com honras de post.
A mis 95 años é o blogue de María Amelia, uma senhora galega de 95 anos que, com a ajuda do neto, começou a escrevê-lo na data em que completou 95 anos de idade: nasceu em Muxía (A Coruña) a 23 de Dezembro de 1911. Só espero que viva ainda uns bons anos e continue a escrevê-lo para podermos enriquecer todos com as suas memórias e as suas experiências. 95 anos é mais do dobro do que eu já vivi. Que maravilha! Só espero chegar àquela idade com a mesma lucidez.
E ainda há quem chame velhos às pessoas de idade!!!

É Natal até aos Reis


GHIRLANDAIO, Domenico, 1449-1494 - Adoração dos pastores (1482-1485)

27 dezembro 2006

Conto de Natal à minha maneira

Com um agradecimento à Paula Azevedo Macedo, futura bibliotecária, que divulgou este pequeno conto na lista "Bibliotecários". Um grande futuro para ela!

Conto de Natal à minha maneira / Ignácio de Loyola Brandão. In: O Estado de São Paulo (22/12/2006)

«Liliani viu quando ele entrou, foi até os fundos, fingiu olhar os livros, virou-se para ela, desviou o olhar, apanhou uma revista e folheou, a contemplá-la com o rabo dos olhos. Disfarça mal, ela pensou. Era a quarta vez na semana que ele surgia na hora do almoço, momento silencioso na biblioteca, os alunos saíam das classes e no restaurante encontravam pais, amigos, professores ou iam jogar alguma coisa, namorar. Ela se aproximou sorrateiramente, gostava dessa palavra sorrateira.
«- Então?
«Ele se assustou, como se tivesse sido pego em uma transgressão. Devia ter 18 anos, conservava o desajeitamento da adolescência.
«- Quer ajuda?
«- Nem sei o que quero.
«- Quer um livro, imagino. Por isso está na biblioteca. Ou não?
«Quando tinha fome, como agora, tornava-se irônica.
«- Quero uns livros para ler nos feriados de Natal.
«- Feriados? No Natal estaremos todos em férias.
«- Posso levar alguns livros para ler durante as férias?
«- Gosta de ler?
«- Gosto. E você, gosta de quem lê?
«- Sou bibliotecária, livros são minha paixão. Um dia ainda abro uma livraria.
«- Você admira quem lê?
«Liliani não entendeu bem o porquê da pergunta. Deixou passar batido. Seria aluno do colégio? Por que vinha com tanta freqüência, fingia que olhava os livros e ia embora?
«- O que gostaria que eu lesse?
«- Ler é uma decisão pessoal.
«- É...
«Ele parecia sem assunto e, ao mesmo tempo, dava a sensação de que estava ansioso para falar, a boca tremia, os lábios secos. Nesse momento um garotão colocou a cabeça na porta, gritou:
«- Pronta, Liliani? Vamos almoçar?
«- Num minuto, Bruno! Estou atendendo uma pessoa! Vai na frente!
«Ela podia jurar que uma expressão de desapontamento ensombreou o rosto do garoto, suas mãos tremeram, ele umedeceu os lábios com a língua.
«- Teu namorado?
«Em um segundo, Liliani compreendeu, as mulheres são intuitivas, rápidas. Comoveu-se. Riu, mesmo considerando que a pergunta invadia seu espaço. Quando ela ria, seu corpo inteiro acompanhava, como se fosse uma explosão, seus olhos ficavam generosos.
«- Não tenho namorado!
«- É casada?
«- Não, sou solteira!
«A resposta estilhaçou toda a tensão que sufocava o corpo dele, o jovem respirou, o ar veio de dentro com força, como se mil mãos tivessem feito uma massagem com pedras quentes.
«- Não quer voltar depois do almoço? Preciso comer e reabrir a biblioteca à tarde. Ou, melhor, quer almoçar comigo?
«Surpreendido, ele emudeceu de alegria e de temor. Liliani estava achando divertido, queria estender a situação, ver aonde chegava. Percebia que ele estava travado, é sempre assim quando se quer alguém. As mulheres conhecem os mecanismos do coração, os meandros misteriosos da alma, dizia o professor de lógica. Outro amigo, por quem ela tinha sido apaixonada, costumava definir: 'Teus olhos têm uma dose enorme de loucura, deixam as pessoas inquietas, são uma aventura.' O último namorado vivia dizendo: 'Quando você ri, o mundo vira de ponta cabeça.' E ela, com a ironia que a marcava, e às vezes prejudicava, porque os homens são crianças que não sabem brincar com a vida, se leva muito a sério: 'O mundo vira de ponta cabeça? Conte a verdade? Quem vira de ponta cabeça é você.' Lembrou-se também do namorado que perdera porque tinha deixado de usar sandálias de salto agulha, ele a queria o dia inteiro com aquele salto que quase quebrava a espinha, ainda que torneassem sensualmente suas pernas. Liliani se sabia bonita, insinuante, conhecia o fascínio que despertava a cor de sua pele, de um moreno que dava a sensação de ela estar saindo da praia.
«- Não posso almoçar, agora. Não posso, me desculpe, disse ele.
«- Almoçamos outro dia.
«- Como você se chama? Liliana?
«- Liliani. O i no lugar do a. Meu pai quis assim, para ficar um nome único, diferente.
«- Liliani é bonito, tem um ritmo. Meu professor de português diz que cada pessoa faz o seu próprio nome. O que significa Liliani?
«- O mesmo que Liliana. Ou Liliam. Meu pai disse que significa lírio, e lírio é pureza, inocência... O lírio está em algumas das pinturas mais famosas da Antiguidade. Nas Anunciações de Leonardo da Vinci, de Rafael e de Guido Reni. Anjos trazem lírios a Maria, mãe de Deus.
«Ele se espantou, admirou-a mais. Gostou. Como ela sabe coisas, pensou. Não percebeu que ela mudava o tom do sério ao gaiato, ainda que fosse verdade.
«- Lindo... lírio... inocência...
«- Mas não sou tão inocente assim, olhe lá!... Mas, decidiu o livro? Hoje é o último dia antes das férias, antes do Natal. Acho que você pode levar dois ou três, faço um cadastro, vou confiar em você. Estou boazinha esta semana.
«- Me diz uma coisa. Quem leu mais livros aqui?
«- Quem leu mais?
«- O campeão, o recordista.
«Tudo hoje são recordes, números, ela pensou.
«- Tem uma menina, a Mônica, que lê um livro por dia. Uma vez desconfiamos, fizemos testes, ela lê de verdade. Cabeça incrível.
«- Você admira essa mulher?
«- Claro. Uma pessoa assim tem outra cabeça.
«- Admira muito?
«- Vou dizer que sim. É alguém que tem onde se refugiar para fugir da mesmice, desta vida chata, rotineira, às vezes...
«- Puxa! Admira essa pessoa.
«- Tem gente que desde cedo mostra que ser vai diferenciada.
«- Se eu lesse muitos livros? Você me admiraria?
«- Claro que sim.
«- Quantos livros eu teria de ler?
«- Nunca pensei nisso.
«- Pois vou ler esta biblioteca inteira. Depois vou passar por todas as outras bibliotecas de São Paulo, do Brasil. Onde tiver livro, estarei lendo...
«Ele se encaminhou para a porta, voltou-se.
«- Por você vou ler 1 milhão de livros. Um bilhão. E aí você vai me admirar.
«Quase disse 'gostar de mim', se conteve, apenas pensou que ela veria quanto uma paixão move um homem.
«- Vou ler 1 trilhão de livros, vou ler todos os livros do mundo.
«Liliani fez um aceno de cabeça e pensou: tomando-se a média de 120 páginas por livro e imaginando que ele demore três minutos para ler uma página, lerá um livro a cada 360 minutos, ou seja seis horas. Seis trilhões de horas, calculando por baixo, significam 250 bilhões de dias. Mais ou menos uns 70 bilhões de anos. Acho que não vou esperar, concluiu. Estou com fome. E saiu para o almoço.»

Até aos Reis é Natal


BASSANO, Jacopo, 1510-1592 - Anunciação aos pastores (1533)

22 dezembro 2006

O significado do presépio para os ateus explicarem aos filhos

O presépio representa a pobreza e simplicidade em que nasceu um menino que, quando cresceu, conseguiu influenciar os que o rodeavam apenas pela força das suas palavras e o mundo pela força da sua mensagem.
Convém também explicar que os seguidores dele disseram e dizem, fizeram e fazem, em seu nome, muitas coisas que são o contrário do que ele andou a dizer. E que esses também influenciam o mundo, usando outras forças como a guerra, a opressão, a ignorância, a manipulação, etc. Mas que ele não tem culpa.

Vem aí o Natal!


MERSON, Luc-Olivier, 1846-1920 - A chegada a Belém (1897)

18 dezembro 2006

Quarenta, pois...


A minha primeira foto depois dos quarenta. Bom, devo ter outras (alguém me deve ter tirado no dia dos anos...) mas não as tenho comigo, não as vi, nem sei se existem, por isso não contam. Esta conta.

As razões da escolha

Existem duas posições radicais em relação à interrupção voluntária da gravidez (vulgo aborto): uma, que encara o feto como um dom divino, comum entre católicos, e que, por essa razão, não admite o aborto, sejam quais forem os motivos; outra, que encara o feto como uma parte do corpo da mulher, comum entre a extrema-esquerda, e que aceita o aborto, sejam quais forem os motivos.

Na minha modesta opinião, ambas as posições estão erradas: a primeira, porque pretende tornar verdade universalmente aceite uma ideia religiosa que, naturalmente, só é válida para os crentes; a segunda, porque faz tábua rasa de toda a investigação médica realizada durante as últimas três décadas sobre a vida intra-uterina e rejeita, sem qualquer fundamento científico, a existência de um ser humano (ainda que "incompleto" ou em desenvolvimento), logo "outro" em relação à mulher que o gerou.

Estas duas posições radicais geram, normalmente, atitudes radicais. Vemos os primeiros as chamarem assassinos aos segundos e estes a chamarem fanáticos àqueles. No contexto actual, este tipo de discussão não só não leva a lado nenhum como é contraproducente, numa altura em que o mais importante é esclarecer as pessoas para que, no momento do referendo, cada um tenha a consciência exacta do que está a fazer e das consequências do seu voto.

Existem, depois, as várias posições intermédias: os que defendem apenas o aborto terapêutico, ou seja, os casos em que a saúde ou até a vida da mulher grávida está em risco; os que defendem também o aborto eugénico, ou seja, os casos de mal-formação do feto; existem, ainda, os que, para além dos casos anteriores, defendem o aborto no caso de violação; e, finalmente, os que defendem também o aborto por razões socio-económicas, ou seja, os casos em que o prosseguimento da gravidez conduziria a consequências muito graves na estabilidade económica e social da mulher grávida.
Todas estas posições intermédias se baseiam no princípio do mal menor, mas todas exigem um motivo para realizar a interrupção da gravidez. Temos uma coisa indesejável - o aborto - que é colocada em confronto com outras coisas indesejáveis. Colocadas no prato da balança, o que varia nestas posições é o peso que cada uma atribui a cada um destes "males".

Enquanto entre posições radicais não há discussão possível, entre estas posições intermédias (a da maioria da população, reconheça-se) há todo um debate que urge fazer, sem proselitismo, sem radicalizar posições e nunca, nunca rotulando as pessoas que tomam uma ou outra posição.

Gostava de ver mais serenidade na campanha para o próximo referendo.

Actualização: nem de propósito, acabo de ler uma das exposições mais inteligentes e honestas a favor do Sim que encontrei até hoje. Não estou a dizer que concordo. Estou a dizer que assim vale a pena discutir.
Já agora, por uma questão de imparcialidade, remeto-vos também para um bom post argumentando pelo Não. E a entrevista de um agnóstico assumido, contra o aborto.

13 dezembro 2006

Canção dos Quarenta Anos

O meu leitor Gaspar deixou nos comentários este poema que eu adorei e decidi passar para um post.
Obrigada Gaspar.
Volta sempre!

Canção dos Quarenta Anos

Poema, suspende a taça
pelos dias que vivi,
Espelho, diz-me em que jaça
mais fiel me refleti.
Quarenta anos correram
e neles também corrí.

Quarenta anos, quarenta !
(Quantos mais ainda virão ?)
Morrerei hoje de infarto
ou amanhã de solidão ?
Serei pasto da malária ?
Serei presa do avião ?

A morte engendra a esperança.
A morte sabe fingir.
A morte apaga a lembrança
da morte que vai ferir.
E em cada instante que passa
a morte pode surgir.

Quem pode medir um homem ?
Quem pode um homem julgar ?
Um homem é terra de sonhos,
sonho é mundo a decifrar,
naveguei ontem no vento,
hoje cavalgo no mar.

Hoje sou. Ontem, não era.
Amanhã, de quem serei ?
Um homem é sempre segredos.
(Por qual deles purgarei ?)
Dos meus netos, qual o neto,
em que me repetirei ?

Que virtudes foram minhas ?
Que pecados confessar ?
Que territórios de enganos
a meus filhos vou legar ?
A quem passarei meu canto
quando meu canto passar !

Ah! como a vida é ligeira !
Ah! como o tempo deflui !
Este espelho não mais fala
da criança que já fui,
das minhas rugas ruindo
apenas um nome rui

Quedê rede balançando ?
Quedê peixinhos do mar ?
Quedê figo da figueira
pru passarinho bicar ?
E o anel que tu me deste
em que dedo foi parar ?

Dezembro chama janeiro,
(fevereiro vai chamar ?)
Monte-Cristo se me visse
não iria acreditar.
Como está velho, diria
a donzela Dagmar.

Um homem cresce espalhando
o reino em que foi feliz.
Onde Athos ? Onde Porthos ?
Onde o tímido Aramis ?
Um homem cresce querendo
e cresce quando não quis.

Crescer é rima de vida
mas também é de morrer.
Crescer é terna ferida,
que só dói no entardecer.
Em cada raiz da morte
há sempre um verbo crescer.

E cresço: macho e poeta.
(Subo em linha, volto em cor)
cresço violentamente,
cresço em rajadas de amor,
cresço nos filhos crescendo,
cresço depois que me for.

Cresço em tempo e eternidade,
cresço em luta, cresço em dor,
não fiz meu verso castrado
nem me rendo ao opressor,
cresço no povo crescendo,
cresço depois que me for.

E cresço na aurora livre
galopando esse corcel.
cresço no verso espumando
entre as linhas do papel.
cresço rubro de esperança
na barba de Don Fidel.

Quarenta anos, quarenta !
( E nem sequer percebi ! )
Quarenta anos correram
e neles também corri.
E nesses quarenta anos,
Oitenta de amor por ti.


Ruy Paranatinga Barata

Violão de Rua - 1962
(Cadernos de Povo Brasileiro)

Vem aí o Natal


CAMPIN, Robert, 1375-1444 - Anunciação (1420)

11 dezembro 2006

Quarenta

Não tenho escrito nada nos últimos dias porque andei muito ocupada a preparar a minha festa de anos e, depois, a descansar da minha festa de anos.
Por isso, só hoje posso vir anunciar solenemente que passei a barreira mais temida das mulheres de todo o mundo e arredores. Os QUARENTA!
Quarenta é uma palavra tremenda.
Quarenta anos passou o povo eleito no deserto.
Quarenta dias jejuou Jesus Cristo.
Quarenta dias, também, tem a quaresma.
Quando se tem uma doença contagiosa fica-se de quarentena.
Também me lembro de um filme (provavelmente pouco recomendável) que esteve em cartaz quando eu tinha uns oito anos e que se chamava "Quarenta, idade perigosa".
Aos quarenta é-se quarentona, o que rima com matrona e maratona (que tem... quarenta quilómetros).
Decididamente, queira-se ou não, quarenta tem um peso muito grande.
E há duas atitudes possíveis perante tal bicho-papão. Fingir que não se vê ou pegá-lo de frente.
Optei pela segunda atitude.
Pronto. Havia de chegar o dia. Já chegou. Já passou. Já tenho quarenta anos e três dias.
Entrei na ternura dos quarenta...

05 dezembro 2006

Entrevista no KØNTRÅSTËS

O blogue KØNTRÅSTËS, do João Ferreira Dias, está a publicar um conjunto de conversas informais mantidas via e-mail com os mais diversos bloggers. O objectivo é, nas palavras do seu autor, «conhecer um pouco mais do blogger que dá vida ao blogue e abrir uma cortina para o que move cada autor de blogue». No dia 2 foi publicada a entrevista com a minha humilde pessoa.

A ideia das entrevistas foi importada, pelo KØNTRÅSTËS, do Miniscente , do Luís Carmelo - que eu já aqui tinha referido e que vale sempre a pena continuar a acompanhar.
Quanto à minha entrevista, não a transcrevo, porque acho que devem mesmo visitar o KØNTRÅSTËS.

29 novembro 2006

Dogosapiens


AGAPOV, Vladimir, n. 1953 - Dogosapiens

Imagem encontrada aqui e reproduzida com autorização do autor.

28 novembro 2006

A credibilidade da informação

«Não acredites em alguma coisa simplesmente porque a escutaste. Não acredites em tradições simplesmente porque provêm desde há muitas gerações. Não acredites em algo só porque é falado ou é motivo de rumor por muitos. Não acredites em algo simplesmente porque vem escrito nos teus livros religiosos. Não acredites em algo simplesmente porque é dito pelas tuas professoras ou anciãos. Mas, após observação e análise quando encontrares que algo vai de acordo com a razão e é conduzível à felicidade e benefício de uma só pessoa e de todas, então aceita e vive-o.»

Quem disse isto? Seria um bibliotecário? Seria um jornalista? Seria um cientista? Talvez Galileu? Newton? Einstein? Ou talvez Melvin Dewey?
Não. Foi Kalama Sutta, o Buda Shakyamuni (frase extraída do site da União Budista)

27 novembro 2006

Mailling list

«— E tu, que tens feito, Jacinto?
«O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera - cumprira com serenidade todas as funções, as que pertencem à matéria e as que pertencem ao espírito...
«— E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está tremendo, o 202!
«Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga vivacidade:
«— Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistências.
«Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «Está lá? — Está lá?», examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de trabalho, uma estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel, de aço, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei manejar — e logo uma ponta malévola me picou um dedo. Nesse instante rompeu de outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quase ansioso. Jacinto acudiu, com a face no telefone:
«— Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr.
«E, com efeito, de uma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma ténia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria!
«Já ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o prejudicava directamente aquela avaria da Azoff.
«— Da Azoff?... A avaria? A mim?... Não! É uma notícia.»

Obs.: Tinha-me esquecido de fazer a referência à fonte mas um leitor rapidamente identificou. Aqui fica a correcção: In: Queirós, Eça de - A Cidade e as Serras

23 novembro 2006

Uma questão de grau...

Este texto já é antigo (18 de Maio de 2005) mas, quando saíu em The chronicle of higher education, "A biblioteca de Jacinto" ainda não existia...
Os negritos são meus.

«If you're a Ph.D. in the humanities, do you need a master's degree in library and information science to pursue a career as an academic librarian or as a curator of special collections?
«That question has lately generated impassioned arguments among Ph.D.'s who seek to enter the field of librarianship, as well as among librarians and curators concerned over the integrity of their profession.
«My qualified answer is yes, the library-science credential is essential - unless the Ph.D. really, truly, and demonstrably has the equivalent experience. Before I elaborate, let me review my own background: I'm a Ph.D. in English who switched gears in the face of an abysmal faculty-job market, earned a master's in library science, and landed on my feet as an academic librarian at Yale University.
«Admittedly, Ph.D.'s who attend library school may or may not acquire such earth-shaking skills and wide-ranging theoretical knowledge as will justify the seemingly unreasonable outlay of time, effort, and expense required of one who has already endured the tribulations of a doctoral program. That is, at least in part, the motivation and justification for a new fellowship program and other recent initiatives that promise to set humanities Ph.D.'s on the fast (and free or low-cost) track to academic librarianship while bypassing most if not all library-school requirements.
«Still, the M.L.I.S., short for master's in library and information science (it's also known in some quarters as the M.L.S., for master's of library science), continues to serve as both a practical and an intellectual entreé into professional librarianship. What's more, the M.L.I.S. protects the library profession from becoming degraded in the way that teaching has been in academe.
[...]
«Equally damaging, hiring too many Ph.D.'s who skipped the M.L.I.S. training could create a glass ceiling for librarians who have that degree but no Ph.D. They would become (in status terms) the nurses to these doctors - even though this particular breed of doctors is not qualified to give orders to such nurses. In fact, the nurses would wind up teaching the doctors their jobs while still being held in lower esteem, a bitter irony that would force library morale down the tubes. And of course the library would then be run by those with the least experience in the profession.
«Irrespective of such potential dire consequences, we must consider the question of professional standards. What exactly have M.L.I.S.-trained librarians learned that those with Ph.D.'s haven't? Analytical, descriptive, physical, and textual bibliography. The history of books and printing. Issues in cataloging library materials. The book trade - current, rare, out of print, or all of those, including how best to manage vendors, approval plans, and standing orders. How to identify appropriate collecting levels for different subjects in different kinds and sizes of libraries. How to analyze a given library collection for purposes of, say, transfer to remote storage, filling in gaps, or preservation. How to analyze the pros and cons of a given electronic database or reference resource. How to manage acquisitions and other budgets. Digital library inititatives. The composition and scope of the essential bibliographic utilities like WorldCat, Eureka, and ESTC. How best to search any of the myriad electronic databases licensed by the modern library. What archivists do, how they do it, and why. You get the idea.
[...]
«Some Ph.D.'s who wish to be librarians doubtless have some of the training and experience necessary (particularly those who possess the aptitude to be librarians and are well-versed in bibliography), but they most certainly do not have enough of either to be taken seriously as library professionals. To argue that because you have spent years in libraries you are qualified to run one strikes me as claiming that because you have been visiting the dentist and brushing and flossing your teeth all your life you can perform a root canal.
«The creation of the profession of librarianship was an innovation of the late 19th century, by which point libraries had become too complicated to be run by dilettantes from academic departments. Hiring such people now to run our libraries - which are vastly more complicated than those that gave rise to our profession - sets us back over a hundred years. Indeed, the notion that we need professional librarians to run a modern library is even more valid today than it was in Melville Dewey's age.
[...]
«So while you might luck out and land one of those quirky plum jobs, if you hope to stay mobile in the library profession over the long term, you simply must earn the M.L.I.S.»

Todd Gilman é bibliotecário de Literatura em Língua Inglesa na Sterling Memorial Library da Yale University.

16 novembro 2006

Grão a grão

Há muitos anos (muitos mesmo) li um ditado índio que nunca mais esqueci. Não me lembro das palavras exactas mas era qualquer coisa como isto: «A consciência é uma coisa com três cantos dentro do meu coração. Se eu ajo mal, ela move-se e os cantos magoam; se continuo a agir mal, os cantos gastam-se e deixam de doer.»

Vem esta memória a propósito de uma notícia que li num post do blogue "(Des)conversas em família", o qual me levou a um post do blogue "Conversas vadias". Depois conferi a informação numa notícia do ABC News e noutra do DN.

Referem-se todas estas fontes a uma decisão de um tribunal holandês que declarou a legitimidade de formação de um partido que pretende baixar a maioridade sexual para 12 anos, permitir que crianças desta idade possam actuar em filmes de carácter sexual e legalizar a detenção de material pornográfico em que essas crianças estejam envolvidas. Trata-se do PNVD, abreviatura neerlandesa para Amor Fraterno, Liberdade e Diversidade. Pretende também o PNVD que a televisão possa exibir pornografia a qualquer hora e que os jovens de 16 anos já possam exercer a prostituição. Baseiam-se estes "senhores" do PNVD numa lei holandesa que já considera as crianças com mais de 12 anos capazes de consentimento na questão da eutanásia.

Pois. É que, em 2002, a lei que despenalizava (esta palavrinha...) a eutanásia a doentes terminais foi estendida às crianças maiores de 12 anos, por se entender que, tal como os adultos, seriam capazes de produzir um consentimento informado.

Falta esclarecer que, na Holanda, desde 2000 que a eutanásia de adultos é permitida, desde que sejam capazes de decidir voluntariamente e de o solicitar por escrito.

Agora, no mesmo país (paraíso da liberdade individual) onde existe um partido pedófilo, cujo programa defende ainda que a nudez seja livre e que a instituição do casamento seja abolida, o Parlamento está a discutir o alargamento da despenalização da eutanásia a doentes que não sejam capazes de exprimir consentimento, como os doentes mentais e as crianças recém-nascidas.

Escusado será dizer que, na Holanda, o aborto a pedido é permitido até às 24 semanas (seis meses!) já há muitos anos. Mesmo que o pedido tenha apenas a ver com o sexo da criança ou com outro capricho qualquer.

Pois é. Por enquanto, 80% dos holandeses ainda considera que este partido deveria ser ilegal. Mas, pela teoria da evolução, os que nascerem a seguir (se os deixarem) já vêm sem cantos.

15 novembro 2006

Nos tempos da Livre

Livre

Tenho saudades da Universidade Livre. Não sei se era do ambiente intelectual, em pleno Chiado perto das Belas Artes, da Brasileira e do São Carlos. Ou se era da localização, num autêntico miradouro sobre o Tejo. Da sala de aula podíamos avistar o rio e a ponte, os cacilheiros a desenharem na água um trajecto de vai-vem e o sol a pôr-se detrás do Cristo-Rei.

Talvez fosse do edifício do Século XIX, do bar no sótão - onde passei mais tempo do que nas aulas - com os vigamentos à vista e as janelas em água-furtada. Não sei se era dos amigos que aí fiz e que mantenho preciosamente. Ou talvez fosse dos 17 anos e eu tenha saudades dos 17 anos... Era de tudo no conjunto.

Fico lamechas quando me lembro da Livre. Livre. Até o nome é bonito. Ao pé de Livre, nomes como independente, autónoma ou seja lá o que for soam patéticos. Livre! Não pode haver nome mais belo para uma instituição que se dedica ao ensino e à propagação do saber. O saber é uma fonte de liberdade e a liberdade é condição para o saber. Pertenço a uma geração marcada pela palavra Liberdade. Crescemos a ouvir falar de Liberdade. Ouvimo-la da boca de toda a gente. Uns empunhavam-na como um machado de guerra, outros deitavam as mãos à cabeça e gritavam "libertinagem" como se fosse um exorcismo. Foi usada e abusada por todos. E nós, com sete, oito, nove anos, ouvíamos e não percebíamos. Mas a palavra foi entrando por osmose. Para nós não é uma palavra vã. Soa, ecoa, reverbera. Independentemente da cor política, independentemente do que somos hoje, mais ou menos aburguesados, com casas, carros, telemóveis, computadores e "nets", crescemos a ouvir que a Liberdade é o maior dos valores, crescemos a acreditar que a Liberdade é condição para a escolha, logo para a responsabilidade, e que tudo aquilo que formos, de bom, mau ou nem por isso, só faz sentido se o formos em Liberdade.
Talvez por isso esta palavra me diga tanto. E talvez por tudo isto eu sinta tanta nostalgia quando passo hoje na Vítor Cordon e olho para a placa dourada - que ainda lá está - a dizer Universidade Livre.


(Este texto foi escrito por mim, há vários anos, em outro site. Transcrevo-o aqui por causa de um contacto, que recebi, de um velho amigo, colega da Livre, que já não via há anos)

14 novembro 2006

Pensavam que era só cá, pensavam?...

Desculpem mas não me apetece traduzir e o italiano não é assim tão difícil... os destaques são meus. Tirado daqui

«Infermieri, centralinisti, archivisti, impiegati, [aggiungo bibliotecari] sono diventati tutti lavoratori co.co.co, a progetto, interinali, noleggiati a ore, esternalizzati. Lavoratori pagati trecento, cinquecento, o se sono fortunati, ottocento euro al mese. E senza avere diritto alle ferie, ai giorni di malattia, e neppure alla pensione. [...]. Solo nella Pubblica Amministrazione sono 350 mila gli esternalizzati.[...] Spesso questi precari sono i soci lavoratori delle centinaia di cooperative che forniscono infermieri, ausiliari, cuochi, personale delle pulizie e quello per l’amministrazione.
La legge Biagi aveva, tra le altre cose, l’intenzione di trasformare il lavoratore a contratto di collaborazione continuativa, il cosiddetto co.co.co, in un lavoratore con compiti più delineati e con più garanzie. Nasceva così il lavoro a progetto. La sua applicazione é stata però un fallimento, che in alcuni casi ha aumentato la precarietà e ha pure portato a un’ evasione del versamento dei contributi. Ufficialmente si esternalizzano i servizi per risparmiare.
Alla fine si scopre che se questi lavoratori fossero internalizzati si risparmierebbe in alcuni casi fino al 40 % . Alla fine il lavoratore esternalizzato costa di più, e ha meno diritti di prima. Ma allora chi ci guadagna?
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Efeméride pessoal e intransmissível

Faz hoje um ano. À hora a que escrevo já tinha passado. Literalmente. Já tinham passado a angústia, os suores frios, a sensação de querer enfiar-me por qualquer buraco, um qualquer. Já tinha passado.
A foto junta revela o instantâneo do momento em que tomei consciência (com cerca de duas horas de atraso) de que já era Mestra. Os olhos de carneiro-mal-morto devem-se a uma noite em claro e a algumas horas de tortura psicológica. O sorriso mongo deve-se à surpresa emergente. Normalmente não sou assim.

08 novembro 2006

Como é feito um livro

Gostei deste filme divulgado no blog Biblioinfor do meu colega João Pedro Portugal. 8 minutos que passam muito depressa. A ver.

06 novembro 2006

O Perfumista

O meu colega (que eu não tenho o prazer de conhecer pessoalmente) bibliotecário da Biblioteca Municipal José Saramago, de Beja, Joaquim Mestre publicou há poucos meses um novo livro, o romance "O Perfumista". Joaquim Mestre já editou um livro de contos "O Livro do Esquecimento" e o romance "A Cega da Casa do Boiro".

«"O Perfumista" tem como pano de fundo a 1.ª Guerra Mundial, a Revolução Russa, as aparições de Fátima e a Pneumónica, passa-se no princípio do século XX e tem como cenário próximo o Alentejo, numa determinada região, entre Mértola e Alcoutim e conta a história de um homem que se apaixona por uma mulher. Não pelos seus olhos, não pelos seus cabelos, mas pelo seu odor, tal como contou à Voz da Planície o autor do livro. Um romance que aborda também o Alentejo na perspectiva do maravilhoso, do fantástico e do imaginário popular.»

No dia 9 de Novembro (quinta-feira), às 21h30, será feita uma apresentação deste romance, na Biblioteca Municipal de Espinho, pelo jornalista Sérgio Almeida.

Agradeço, desde já, a informação enviada pela minha colega Isabel Sousa. Apesar de "A biblioteca de Jacinto" não ser um blog de divulgação, aqui fica a informação, para quem estiver interessado. Eu não estarei lá mas, se pudesse, estaria.