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06 março 2007

"A lei da vida" (Jack London)

«O velho Koskoosh escutava com ansiedade. Embora a vista lhe tivesse há muito enfraquecido, o seu ouvido era muito sensível e o mínimo som penetrava na inteligência viva que ainda habitava aquela testa enrugada, mas que já não olhava as coisas do mundo. Ah! Aquilo era a Sitcum-to-ha a praguejar contra os cães enquanto lhes batia para lhes pôr os arreios. Sitcum-to-ha, era a filha da sua filha, mas andava demasiado ocupada para perder tempo com o avô doente, ali sozinho, sentado na neve, desamparado e abandonado. O acampamento já devia estar desfeito. O longo trilho esperava, enquanto o curto dia se recusava a deter-se. A vida chamava-a, as obrigações da vida, não as da morte. E ele estava já muito perto da morte.
«Esta ideia fez com que o velho ficasse em pânico, e estendeu a mão entrevada, que vagueou trémula sobre o monte de lenha seca a seu lado. Depois de se assegurar de que a lenha lá estava realmente, a mão voltou a refugiar-se nas suas peles miseráveis, e ele pôs-se de novo à escuta. O monótono estalar das peles meio geladas dizia-lhe que a cabana de pele de alce do chefe já tinha sido desarmada e nesse preciso momento estava a ser reduzida a um volume de tamanho transportável. O chefe era o seu filho, forte e resoluto, chefe da tribo e grande caçador. Enquanto as mulheres se afadigavam com as bagagens do acampamento, a voz dele elevou-se a ralhar-lhes pela sua lentidão. O velho Koskoosh apurou o ouvido. Lá foi a tenda do Geehow! E a do Tusken! Sete, oito, nove; só a do feiticeiro estava ainda de pé. Lá vai ela! Estavam agora a tratar dela. Estava a ouvir o feiticeiro a resmungar enquanto a empilhava no trenó. Uma criança choramingava e uma mulher acalmava-a com um cantado sussurro gutural. É o pequeno Kootee, pensou o velho, uma criança rabugenta e não muito robusta. Ia morrer em breve, talvez, e eles iam cavar um buraco na tundra gelada e empilhar umas pedras por cima para afastar os lobos. Bem, e que importava isso? Alguns anos apenas na melhor das hipóteses, para fortes e fracos. E no fim a Morte esperava, a eterna faminta, a mais faminta de todos.
O que foi aquilo? Oh, eram os homens com os chicotes nos trenós, e a apertarem as correias. Escutou, e fê-lo pela última vez. Os chicotes estalavam sobre os cães. Ouçam como eles ganem! Como eles odeiam o trabalho e o trilho! Partiram! Trenó atrás de trenó, foram todos deslizando no meio daquela agitação, sumindo-se depois no silêncio. Foram-se. Desapareceram da sua vida, e ele enfrentava sozinho o amargor da última hora. Não. A neve rangeu sob uma bota; estava ali um homem a seu lado; uma mão pousou-lhe delicadamente sobre a cabeça. Era bom o filho ter-lhe feito aquilo. Lembrava-se de outros velhos cujos filhos não tinham esperado. Mas o seu filho tinha. E vagueou pelo passado até que a voz do filho o fez regressar.
«— Está tudo bem consigo? — perguntou.
«E o velho respondeu:
«— Tudo bem, sim.
«— Está aí lenha ao pé de si — continuou o jovem — e a fogueira está a arder bem. A manhã está cinzenta, e o frio abrandou. Vai nevar daqui a pouco. Já está mesmo a nevar.
«— Sim, já está a nevar.
«— Os homens estão com pressa. Os fardos estão pesados e eles de barriga vazia por falta de refeição. O caminho é longo e eles andam depressa. Agora vou-me embora. Está bem?
«— Está bem. Sou como uma folha velha, presa ao caule por um fio. Ao primeiro sopro, caio. A minha voz ficou como a de uma velha. Os olhos já não me mostram o caminho, e os meus pés estão pesados, e eu estou cansado. Está bem.
«Satisfeito, baixou a cabeça até o último gemido da neve se extinguir, sabendo agora que o filho já não tinha regresso. Então a mão estendeu-se apressada para a lenha. Só aquela lenha o separava da eternidade que lhe escancarava as portas. Finalmente a sua vida era do tamanho de uma braçada de lenha. As cavacas, uma a uma, iriam alimentar o fogo, e, exactamente no mesmo ritmo, passo a passo, viria a morte a rastejar ter com ele. Depois da última cavaca ter fornecido o seu calor, o gelo começaria a ganhar forças. Primeiro seriam os pés, depois as mãos; depois, o torpor avançaria lentamente das extremidades para o resto do corpo. A cabeça cairia sobre os joelhos e ele ficaria em paz. Era fácil. Todos os homens têm de morrer.
«Não se queixava. Era a vida, e estava certo. Ele nascera junto da terra, e junto da terra vivera, e a lei da terra não era novidade para ele. Era a lei de toda a carne. A Natureza não era amável para com a carne. Para ela aquela coisa concreta chamada indivíduo não era importante. O que lhe importava era a espécie, a raça. Este foi o conceito abstracto mais profundo a que o espírito bárbaro de Koskoosh conseguiu chegar, e agarrou-o com força. Viu-o exemplificado em toda a vida. A subida da seiva, o verde rebentar do botão de salgueiro, a queda da folha amarela — nisto apenas, estava escrita toda a história. Mas de uma missão incumbiu a Natureza o indivíduo. Se não a cumprisse, morria. Mas se a cumprisse, morria também. Isso, para a Natureza, não era importante; eram muitos os que lhe obedeciam, mas, neste caso, era apenas a obediência, e não o obediente, que vivia, e vivia sempre. A tribo de Koskoosh era muito antiga. Os velhos que ele conhecera quando ainda rapaz, já tinham conhecido outros velhos antes deles. Portanto era verdade que a tribo vivia, que ela representava a obediência ao longos dos séculos dos séculos de todos os seus membros, de cujas sepulturas já nem havia memória. Estes não contavam, eram apenas episódios. Tinham desaparecido como as nuvens de um céu de verão. E ele era também um simples episódio e ia também desaparecer. A Natureza não se importava com isso. Estabelecia uma missão para a vida, e uma lei. Perpetuar era a missão da vida, e a lei, a morte. Uma virgem era uma criatura boa de se ver, de seios cheios e rijos, com a primavera no andar e a luz nos olhos. Mas a sua missão estava ainda por cumprir. O brilho do olhar aumentava, o andar acelerava e começava a ser ora atrevida ora tímida com os rapazes, e transmitia-lhes a sua própria inquietação. E ficava cada vez mais bonita, cada vez mais bela de olhar, até que um qualquer caçador, incapaz já de ser conter, a leva para a sua tenda para cozinhar e trabalhar para ele e para se tornar a mãe dos seus filhos. E com a vinda dos filhos, vai-se a beleza. Braços e pernas ficam lentos e arrastados, os olhos esmorecem, e só os filhos encontram alegria na cara enrugada daquela squaw junto da fogueira. A sua missão estava cumprida. E dentro em pouco, no primeiro aperto de uma fome, ou na primeira grande migração, ela será abandonada, mesmo como ele fora, na neve, com um montinho de lenha junto dela. Esta era a lei.
«Pôs uma cavaca na fogueira e retomou a sua meditação. Era o mesmo em toda a parte e com todas as coisas. Os mosquitos desapareciam com os primeiros gelos. Os pequenos esquilos fugiam a rastejar para morrer. O coelho, quando a velhice chegava, tornava-se vagaroso e já não conseguia bater os inimigos em corrida. Até a grande águia se tornava desajeitada, cega e quezilenta, para depois acabar por ser apanhada e arrastada por meia dúzia de cães a latir. Ele lembrava-se bem de como também tinha abandonado o pai num campo junto do Klondyke, um inverno, o inverno antes da vinda do missionário com os seus livros e a sua caixa de remédios. Muitas vezes tinha ele, Koskoosh, lambido os beiços só de se lembrar daquela caixa, embora agora a boca já se lhe recusasse a salivar. O “tira-dores” em especial era muito bom. Mas aquele missionário, acabou por ser um problema, porque não trazia carne e comia com todo o apetite, e os caçadores começaram a resmungar. Mas acabou por morrer nas montanhas do Mayo e depois os cães farejaram-no, afastaram as pedras e engalfinharam-se em luta pelos ossos.
«Koskoosh pôs outra cavaca na fogueira e voltou a repisar no passado. Foi no tempo da Grande Fome, quando os homens se acocoravam de barriga vazia à volta da fogueira, quando narravam tradições já esbatidas dos velhos tempos em que as águas do Yukon corriam livremente durante três invernos e depois ficavam geladas durante três verões. Ele perdera a mãe nessa fome. No verão o salmão não aparecera e a tribo ansiava pelo inverno e pela chegada do caribu. Depois veio o inverno, mas sem caribu. Ninguém se lembrava de uma coisa assim, nem mesmo os velhos. E o caribu não veio, e já era o sétimo inverno assim, e os coelhos não se tinham reproduzido e os cães eram apenas montes de ossos. E na escuridão das longas noites as crianças gemiam e morriam, e as mulheres e os velhos; e na tribo, nem um em cada dez viveu para ver chegar o sol, quando ele voltou na primavera. Aquilo é que foi uma fome!
«Mas também vivera tempos de abundância, quando a carne se chegava a estragar, e os cães andavam gordos e malandros de tanto comer—tempos em que eles até deixavam caça por matar e as mulheres eram férteis e nas tendas era uma algazarra de filhos e filhas por ali estendidos. Depois eram os homens bem comidos que reviviam velhas querelas e atravessavam as montanhas para sul, para matar os Pellys, e para oeste para se sentarem junto das fogueiras extintas dos Tananas. Lembrava-se, quando ainda rapaz, durante um período de abundância, de ver um alce americano arrastado pelos lobos. Zing-ha estava com ele, e estavam os dois deitados na neve a observar — Zing-ha, que mais tarde se veio a tornar no mais astuto dos caçadores, e que acabou por cair num poço de ar no Yukon. Encontraram-no, um mês depois, na posição em que tinha ficado, meio de fora e completamente gelado.
«Mas, voltando ao alce. Ele e Zing-ha tinham ido brincar aos caçadores, imitando o que os pais faziam. No leito do ribeiro viram o rasto de alce e junto dele também as pegadas de muitos lobos. «É velho,» disse Zing-ha, que era mais rápido a ler os sinais. «É um alce velho que não conseguiu acompanhar a manada. Os lobos cortaram-lhe o contacto com os irmãos e nunca mais o deixaram.» E foi mesmo assim. Era assim que eles faziam. Noite e dia, sem parar, a latir na sua peugada, a tentar abocanhá-lo no focinho, continuaram sempre atrás dele até ao fim. Como o sangue os espicaçou, a ele e a Zing-ha! O final foi uma coisa digna de se ver!
«Movidos pela avidez, seguiram o rasto, e até ele, Koskoosh, observador lento e não versado em rastos, seria capaz de o seguir de olhos fechados, tão largo ele era. E que quentes eles iam na peugada da caçada, a ler a cada passo a triste tragédia acabada de escrever. E agora chegavam a um ponto onde o alce tinha feito uma pausa. A neve tinha sido remexida numa extensão de três vezes o comprimento de um homem. No meio estavam as marcas fundas dos cascos chatos da presa e à volta, por toda a parte, viam-se as marcas mais leves das patas dos lobos. Alguns, enquanto os seus irmãos se atiravam para a matança, deitaram-se de lado a descansar. As marcas dos corpos eram tão perfeitas como se tivessem sido deixadas um instante antes. Um dos lobos tinha sido apanhado por uma investida desordenada da vítima enlouquecida e morrera esmagado. Alguns ossos, bem descarnados, testemunhavam-no.
«Mais adiante, outra pausa na corrida. E aqui o grande animal lutou desesperadamente. Fora arrastado para o chão por duas vezes, como mostrava a neve, e por duas vezes tinha ele escapado dos assaltantes e recuperado a posição normal. Ele já tinha cumprido há muito a sua missão, mas continuava, mesmo assim, agarrado à vida. Zing-ha disse que era uma coisa estranha, um alce derrubado libertar-se outra vez; mas este tinha-o conseguido. O feiticeiro, quando eles lhe contaram, viu nisto presságios e milagres.
«E, contudo, eles chegaram a um sítio onde o alce conseguira trepar a margem e alcançar a floresta. Mas os seu inimigos atacaram-no por trás até que ele recuou e caiu sobre eles, esmagando dois contra a neve. Era evidente que a matança estava próxima, pois os seus irmãos tinham-nos deixado ficar. Passaram por mais duas paragens, curtas no tempo, mas muito próximas. O trilho agora estava vermelho e a passada do grande animal ficara mais curta e desordenada. Ouviram então os primeiros ruídos da batalha — não o coro da caçada, mas o ladrar curto e animado que anunciava proximidade e dentes na carne. Zing-ha deu a volta a rastejar pela neve, e com ele o próprio Koskoosh, que viria a ser o chefe da tribo uns anos mais tarde. Juntos, afastaram os ramos de um abeto jovem e espreitaram. E foi o final que eles viram.
«Aquela imagem, como todas as impressões da juventude, ainda estava muito nítida, e os seus olhos esmorecidos observavam ainda aquele final representado tão claramente como nesses tempos já tão longínquos. Koskoosh ficou maravilhado com aquilo, porque tempos depois, quando ele era condutor de homens e chefe de conselheiros, cometeu muitas proezas e tornou-se um nome amaldiçoado entre os Pellys, para não falar daquele homem branco desconhecido que ele tinha matado em luta aberta, punhal contra punhal.
«Pensou durante muito tempo nos seus tempos de juventude até que a fogueira começou a esmorecer e o gelo a apertar. Atiçou-a com duas cavacas desta vez e avaliou o seu tempo de vida pelas que restavam. Se ao menos Sit-cum-to-ha se tivesse lembrado do avô e lhe tivesse deixado uma braçada maior, as suas horas teriam sido mais longas. Teria sido fácil. Mas ela foi sempre muito descuidada e deixara de honrar os seus antepassados desde a primeira vez que o Beaver, filho do filho de Zing-ha, lhe pôs os olhos em cima. Bem, e que importava isso? Não tinha ele feito a mesma coisa no seu tempo de juventude? Por momentos ficou a escutar o silêncio. Talvez o seu filho se apiedasse e voltasse com os cães para levar o velho pai com a tribo para onde havia muitos caribus e a gordura escorria grossa sobre eles.
«Apurou o ouvido, parado o inquieto cérebro por momentos. Não havia a mínima agitação, nada. Só ele respirava no meio daquele enorme silêncio. Era uma grande solidão. Ouve! O que foi aquilo? Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Um prolongado uivo muito familiar encheu o silêncio, e foi ali muito perto. Então, nos seus olhos escurecidos projectou-se a imagem do alce — o velho alce-boi — flancos rasgados e lombos ensanguentados, a juba grossa, os grandes cornos ramificados, prostrado, a debater-se até ao fim. Viu aquelas formas cinzentas cintilantes, olhos a brilhar, línguas pendentes, presas babadas. E viu o inexorável círculo fechar-se até se tornar um ponto negro no meio da neve revolta.
«Um focinho frio tocou-lhe na cara, e ao seu toque o espírito saltou-lhe de volta para o presente. A mão disparou em direcção à fogueira e puxou um tição a arder. Dominado desta vez pelo hereditário medo do homem, o animal recuou, soltando um prolongado uivo a chamar os irmãos; e eles, cobiçosos, responderam, e por fim um círculo de lobos de mandíbulas babadas agachou-se à sua volta. O velho ouviu o círculo a fechar-se. Brandiu desordenadamente o tição, e o farejar deu lugar ao rosnar; mas os animais ofegantes recusavam debandar. E então um deles aproximou-se a rastejar, seguido de outro e depois de um terceiro; e não mais recuaram. Por que é que ele se havia de agarrar à vida? perguntou, e deixou cair o tição na neve. Este crepitou e apagou-se. O círculo rosnou inquieto, mas manteve-se firme. E Koskoosh viu de novo o velho alce-boi na sua última paragem; deixou pender a cabeça gasta sobre os joelhos. Que importava? Não era aquilo, afinal, a lei da vida?»

(London, Jack - A lei da vida. Trad. Luís Varela Pinto. Tít. original: The Law of Life. In: Selected northland tales. Oxford: Oxford University Press, 1996)

3 comentários:

F. do Valle disse...

Parece que sim...

jose quintela soares disse...

Belo texto.

Máquina Zero disse...

Sabe sempre bem - e é de bom gosto - lembrar Jack London.