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01 fevereiro 2007

O debate sobre o aborto no seu melhor VI

O inacreditável homem das neves

Assisti ontem, entre o atónita e o incrédula, ao debate na TSF entre Daniel Oliveira e João César das Neves.
Só conheço estes senhores de nome, já aqui tinha elogiado um texto de Daniel Oliveira (certamente o mais inteligente e sério argumentário a favor do Sim que já tive a ocasião de ler) e nunca tinha lido nada de César das Neves embora conheça as suas posições. Depois dos debates civilizados entre Inês Pedrosa e Rosário Carneiro (com uma acentuada vitória desta última) e entre Helena Roseta e a Maria José Nogueira Pinto (com uma folgada vitória da primeira), só a incredulidade me podia assaltar ao assistir ao debate de ontem.

César das Neves pode ser um homem de convicções e pode ser muito honesto em relação a essas convicções. Mas não foi honesto no debate de ontem. Não foi honesto e deu muitos, muitos argumentos a Daniel Oliveira que conseguiu facilmente deixar ficar mal todos aqueles que, com honestidade e sem radicalismo, estão contra a legalização do aborto a pedido. Dei comigo a "torcer" por Daniel Oliveira e a mandar calar César das Neves (exercício inútil porquanto a comunicação por rádio é unívoca...). A mandar calar porque já nos tinha enterrado o suficiente, a nós, aos que vamos votar Não. Se o Prof. João César das Neves não conhece, entre os defensores do Não, quem concorde com as excepções contempladas na actual lei, é porque anda muito distraído ou se está nas tintas para o que pensam aqueles que o rodeiam. Eu não estava na Marcha pela Vida porque não vou a marchas nem a manifestações nem a comícios. Não faz o meu género. Mas ouvi esse senhor dizer que, na dita Marcha, não havia quem estivesse a favor da actual lei. Engana-se. Há muitas pessoas no "Não" que acham que a actual lei devia mudar mas no sentido do alargamento das excepções, não na sua eliminação.

O Prof. João César das Neves afirmou-se contra o direito legal a abortar em caso de violação. Daniel Oliveira disse a única coisa que um homo sapiens pode dizer: isso é uma desumanidade. É, Prof. César das Neves. Compreendo que o senhor não consiga imaginar o horror de uma violação. Mesmo eu, que sou mulher, tenho dificuldade em imaginar. Mas a sua filantropia cristã podia ajudá-lo a compreender o incompreensível. Também não sabe o que é passar fome, também não sabe o que é sofrer um atentado terrorista, também não sabe o que é ter febre hemorrágica. Precisa de passar por isso para compreender e para se compadecer de quem sofre esses horrores? Ou também responde aos famintos "se não têm pão comam bolos"? Forçar uma mulher violada a levar até ao fim o fruto dessa violação é uma violência somada a outra violência.

Claro, Daniel Oliveira aproveitou oportunamente estas declarações de César das Neves para afirmar que os defensores do Não pensam todos como ele mas não têm coragem de o confessar. Não é verdade. É absolutamente falso. A maioria das pessoas que estão contra a legalização concordam com as actuais excepções e há muitas que concordam com o seu alargamento.
Mas não posso criticar Daniel Oliveira por este recurso retórico, até porque o seu interlocutor não negou. E ele aproveitou. Eu faria o mesmo, principalmente se estivesse a debater com alguém que, em pouco mais de 5 minutos, me chamasse ignorante e estúpida, em directo na rádio. Pensando melhor, não, eu não faria o mesmo. Acho que lhe teria ido às goelas.
Será por isso que não me chamam para debates?...

O debate sobre o aborto no seu melhor V. IV. III. II. I.

4 comentários:

PJA disse...

Só uma minoria do NÃO pensa como o abominável referido. Começo a achar que ele é um infiltrado do SIM para dar cabo da nossa campanha.

MCA disse...

Eu estava a ouvi-lo e a pensar "quantos votos estaremos a perder?..."

3Picuinhas disse...

Deixa estar que estão a ter mais ajudas... nomeada mente da Igreja e passo a citar «"Um dia quando estava feliz a brincar no mais íntimo das tuas entranhas senti algo de muito estranho, que não sabia como explicar: algo que me fez estremecer. Senti que me tiravam a vida!... Uma faca surpreendeu-me quando eu brincava feliz e quando só desejava nascer para te amar (...) Mãe, como foste capaz de me matar?..." Este é apenas um excerto de uma carta que foi colocada nas mochilas de crianças de dois infantários de Setúbal, o Aquário e a Nuvem, da rede de instituições particulares de solidariedade social (IPSS), e por isso comparticipados pelo Estado, no caso dirigidos pelo Centro Paroquial de Nossa Senhora da Anunciada. A missiva de apelo ao "não" ao aborto, sem estar assinada, motivou a indignação de alguns pais, que protestaram junto das educadoras. E ontem já circulava na Internet em vários blogues.»
Um miminho!!!!! É a tolerância em todo o seu esplendor!

MCA disse...

É horrível, tens razão...