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08 junho 2007

Corpus Christi

A festa do Corpus Christi ou Corpo de Deus é, talvez, uma das festas católicas menos compreendidas por crentes e por não crentes. Aparentemente desgarrada do tempo pascal, aparece sempre a uma Quinta Feira, quase sempre em Junho. Os católicos vão à Missa neste dia mas aposto que a grande maioria nem sabe porquê. Os não católicos esfregam as mãos de contentes e aproveitam para ir à praia. Eu, que não vou à Missa nem à praia, explico o que é o Corpus Christi:

O princípio fundamental da fé cristã é a divindade de um homem que viveu na Palestina há cerca de 2000 anos, de nome Jesus, cognominado Cristo (o Ungido) pelos seus seguidores. Este homem, que terá morrido no dia anterior ao Sábado e, para os cristãos, ressuscitado no dia a seguir ao Sábado, teria deixado instruções no sentido de ser periodicamente (ele não especificou a periodicidade) realizada uma cerimónia em que o pão e o vinho fossem abençoados e distribuídos aos crentes numa celebração daquela que ficaria conhecida por Última Ceia e que se teria realizado na véspera da sua crucifixão.

Os cristãos sempre acreditaram que, nesta ceia fundadora, Jesus teria transformado de factu (e não apenas simbolicamente) o pão e o vinho no seu corpo e no seu sangue como antecipação do seu próprio sacrifício. Ao fazê-lo, instituía o sacramento da Eucaristia e os cristãos acreditam também que, de cada vez que repetem este gesto, repetem essa transformação à qual dão o nome de "transubstanciação" (ou seja, transformação de uma substância em outra).

Acontece que a teologia cristã teve os seus altos e baixos durante os primeiros séculos do cristianismo, surgiram muitas "variantes" da doutrina oficial da Igreja e a Igreja tratou de, por diversos meios, uns mais inóquos que outros, fazer valer a sua versão da doutrina. Um desses meios foi a instituição dos dogmas. Os dogmas são crenças que, uma vez estabelecidas, não se discutem mais, deixam de estar sujeitas ao debate teológico. De uma maneira geral, os dogmas só foram estabelecidos como resposta às versões "desviantes" ou seja, às versões consideradas heréticas pela Igreja Católica: temos como exemplos, o dogma da Santíssima Trindade (posto em causa por Ario), o da Virgindade Perpétua de Maria (posto em causa por várias tradições cristãs) e... o da transubstanciação. Pois, esse mesmo. O da transformação real do pão e do vinho no corpo e no sangue de Jesus durante a celebração da Eucaristia. Este dogma (que ainda não era dogma) é posto em causa pelo teólogo Berengário de Tours (999-1086). Apesar de se ter retratado no fim da vida, deixou seguidores - os Berengários - e a Igreja sentiu necessidade de reforçar a crença na transubstanciação, tanto mais que esta era a base do sacramento da Eucaristia. E fê-lo em 1264, pela mão do Papa Urbano IV, com a bula Transiturus a qual instituíu a festa do Corpus Christi, com missa e ofício próprios. Celebra-se no 60º dia após a Páscoa e calha sempre a uma Quinta Feira para acentuar a relação com a Última Ceia, celebrada a Quinta Feira Santa.

E pronto, agora que já sabem porque é têm ordem de soltura na Quinta Feira do Corpo de Deus... que não venha o pessoal do Bloco agora dizer que isto é um estado laico e patati patatá porque eu também gosto de ficar a dormir até mais tarde, mesmo sem ir à Missa nem à praia.

10 comentários:

André Alves Correia disse...

Gostei muito do "patati patatá". Excelente!

... pena é não ter participado na Eucaristia :) Talvez um dia destes?

MCA disse...

André, obrigada pelas visitas recorrentes à BdJ. Pois, quanto à Eucaristia, eu não vou mas é minha convicção que a cultura religiosa (e não só) nunca fez mal a ninguém e hoje mais do que há uns vinte ou trinta anos atrás. Eu prezo-me de ter alguma. Muito menos do que gostaria mas mais do que alguns católicos que eu conheço...

André Alves Correia disse...

"Muito menos do que gostaria mas mais do que alguns católicos que eu conheço... "

Isso também já tinha percebido :)

carlos disse...

estás um bocado como eu.
ateu e curioso da nossa herança cultural.
seja ela religiosa ou não.
talvez por ser ateu ache (modéstia não me falta..)que estou em melhores condições para 'olhar de fora'.

e quanto aos dogmas da igreja, as coisas vão variando conforme podem.
enquanto conseguem negar as evidências científicas, vão negando.
depois passam á fase da metáfora.

e a metáfora é a mãe de todas as desculpas.
a bíblia já foi um livro para ser venerado letra a letra. hoje a própria igreja já o descreve como metafórico.
ou, no dizer de um padre católico num recente programa na canal história a propósito dumas confissões em interrogatório: 'ali os presos era como na bíblia: espremindo sai tudo o que´se quiser'

carlos disse...

espremendo.. queria eu dizer
:)

MCA disse...

Infelizmente, esse não é apanágio das religiões. Aplica-se a tudo.
Obrigada pela visita. Volta sempre!

André Alves Correia disse...

Posso só lançar uma farpazinha ao Carlos?

...

Qual foi ou quais foram os dogmas da Igreja Católica que foram "variando"?

MCA disse...

Acho que o Carlos não vai voltar a este post para ler os comentários. Não sei se era aos dogmas (no sentido teológico) que ele se referia. Que eu saiba, nenhum dogma mudou. A Igreja tem sido de uma prudência impressionante quanto a isso. Só estabelece dogmas que não podem vir a ser derrubados pela ciência (como a Trindade, a Virgindade de Maria ou a Imaculada Concepção) o que não deixa de fazer pensar. O geocentrismo, por exemplo, apesar de ser defendido pela Igreja (e quantos morreram por causa disso!) nunca foi dogma. No fundo, no fundo, eles sabiam que, se olhassem pelo telescópio, podiam ter de engolir algumas coisas.
A inteligência calculista e o sentido político da Igreja sempre me impressionaram.

André Alves Correia disse...

"Só estabelece dogmas que não podem vir a ser derrubados pela ciência (como a Trindade, a Virgindade de Maria ou a Imaculada Concepção) o que não deixa de fazer pensar."

Claro que faz pensar. Mas aí entra a componente principal do dogma, na minha humilde opinião: a revelação:

Um dogma declarado pelo Papa ex cathedra ou por constituição dogmática conciliar tem subjacente uma verdade revelada - acreditam os católicos pela acção do Espírito Santo - e portanto visa esclarecer aquilo que não é empiricamente manifestável.

Bem, mas é por estas e por outras que gosto muito de por aqui passar. Porque se fala livremente e civilizadamente.

MCA disse...

Claro. Mas repara (e com todo o respeito por quem tem fé) seria muito arriscado considerar como dogma algo que fosse passível de vir a ser demonstrado falso. O que não é demonstrável cientificamente também não é refutável cientificamente. Isso denota uma prudência extraordinária e uma noção exacta do que é objecto de demonstração científica. O que, em plena Idade Média, só prova que os intelectuais da Igreja não eram nenhuns tontos. Cinismo? Eu iria por aí, mas reconheço que a palavra é um bocado forte. Também não acho que certos comportamentos possam ser ajuizados aos olhos de hoje: os homens da Igreja não eram ateus, não pensavam como ateus e não tinham uma visão puramente política das coisas. Daí o termo cinismo ser excessivo. Prudência? Seguramente. Uma coisa é certa: a confusão entre o domínio da fé e o domínio da ciência não era tão grande como às vezes se defende.
É como os milagres: repara que são sempre casos vagos, cuja causa estava mal explicada - paralíticos que não se sabe porque eram paralíticos, cancros que não se percebe porque regrediram, cardíacos que melhoraram... tudo situações que também acontecem a pessoas de outras religiões e até a ateus. Não há curas cegos de nascença, nem de mongolóides, nem de amputados. O domínio da fé anda sempre por áreas muito vagas onde a ciência não pode vir dar explicações definitivas. Eu não acredito em milagres (em última análise, a vida é um milagre mas isso já é outra conversa) e só acreditarei (juro!) no dia em que houver uma cura realmente impossível, do género dos exemplos que dei acima. Nessa altura, volto a ir à Missa. Até lá...
Aliás, essa é a grande contradição dos ateus. Pretendem afirmar como verdade que Deus não existe. Ora, é tão impossível provar a inxistência de Deus como a sua existência.