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06 julho 2009

Aos 97 anos

Há dois anos e meio escrevi aqui sobre o recente blogue de uma idosa, então com 95 anos, a quem o neto oferecera pelo aniversário... um blogue.
Fala-se muito dos malefícios sociais da internet, do isolamento que provoca, mas este é um caso paradigmático do contrário. Esta senhora, residente em Muxía, pequena povoação da Galiza onde nascera em 1911, tornou-se em pouco tempo um fenómeno de sucesso sem efeitos perversos. Continuando a residir calmamente na sua casa, rodeada do carinho da família, durante dois anos e meio foi conhecida e lida em todo o mundo, descobriu realidades que lhe eram totalmente estranhas, recebeu 1812016 visitas no seu blogue, dos 5 continentes, e mensagens de todo o mundo às quais respondeu sempre com simpatia, foi encorajada quando esteve doente, recebeu felicitações quando foi bisavó, viajou até ao Brasil e contou as suas impressões no seu blogue. Tudo isto graças ao acompanhamento e apoio de um neto exemplar que discretamente, sem aparecer nunca, foi digitando com paciência tudo o que ela lhe ditava em plena liberdade. Escreveu que «Mis blogueros son la alegría de mi vejez».
Teve uma vida feliz até ao último dia, no passado 20 de Maio. Não podia deixar de a referir aqui, não como um fenómeno de popularidade ou mediatismo mas como um exemplo de vontade, de gosto pela vida, de família e, sempre, de uma grande simplicidade.
Descanse em paz, Aboiña.

4 comentários:

Miguel Correia disse...

Simplesmente, uma delícia de exemplo, de vigor e de juventude. Agora, que descanse em paz.

entremares disse...

Estes são, sem dúvida alguma, os momentos mais felizes do meu dia; aqueles em que, isolado do mundo, me sento à sombra das acácias para te escrever estas simples palavras de amor.
Enquanto escrevo, imagino-te aqui ao meu lado, sorrindo – com aquele sorriso que só tu consegues fazer – iluminado o meu olhar com a tua alegria, a tua ternura, a tua...

Passou de novo o lenço de linho branco pelos olhos. Uma lágrima teimosa insistia em cair-lhe sobre o rosto, os olhos brilhantes de emoção, as mãos a segurar ávidas a pequena folha de papel, com aquela caligrafia de escola primária, geométrica, muito direita, as vírgulas bem carregadas e os acentos todos perfilados com a mesma inclinação.
Não precisava de ver a folha de papel, há muito que decorara todo o perfume, os versos imperfeitos da segunda página, o modo mais carregado da palavra Amor – já a relera tantas e tantas vezes que a poderia recitar de memória, sem se enganar.
Deolinda de Jesus era uma mulher apaixonada, tremendamente apaixonada. Por muitos motivos, o destino levara-lhe o amor da sua vida para terras distantes, emigrante num país longínquo de Africa.
Um ano – é só um ano, dissera ele – demoraria a separação, era o prometido.
Haviam passado dois, o terceiro ia a meio... mas ele voltaria, voltaria para casa no Natal, ela tinha a certeza, ele prometia-lhe isso em todas as cartas que escrevia.
E ele escrevia-lhe muitas e longas cartas, a que ela respondia do mesmo modo.

- “...ontem, minha querida Deolinda... fui ao cinema com os meus colegas, ver um filme novo que ...”
Desviou o olhar. A pequena Susana acabara de entrar na sala e ela, numa desnecessária timidez, prontamente dobrou a folha de papel, voltando a colocá-la no sobrescrito.
- Então, avó.... vamos tomar os comprimidos ? Já são cinco da tarde...
Cinco da tarde ?
Como o tempo passava depressa. Até a própria Susana lhe parecia mais velha, assim com um corpo já de mulherzinha... para os seus – a memória não estava a ajudar – doze? treze anos?
- Olá, minha Susaninha... que bom ver-te... estás linda, como sempre... mas diz-me, estava aqui a tentar lembrar-me... e já sabes que a memória gosta de me pregar partidas... quantos anos tens? Não te ofendas de te perguntar isto... mas é que sinceramente... não me consigo lembrar da data do teu aniversário...
- Oh, avó... não faz mal, não tem importância... tenho 21, quase 22... vou fazer anos para o mês que vem, no dia 17... lembra-se? No mesmo dia do tio Joaquim, que Deus o tenha em descanso...
- 22 ? Oh, minha querida... esta minha cabeça... pois é claro... dia 17... o tio Joaquim...
- Aqui tem um copo com água. Quer que lhe endireite um pouco mais a cama?
E, sem esperar pela resposta, rodou um pouco a manivela e logo a a cabeceira da cama subiu um pouco mais.
- Está melhor assim, avó?
Ela sorriu-lhe, ternurenta. Levou obedientemente os comprimidos à boca e lá os foi acompanhando de pequenos goles de água, enquanto a neta aproveitava para prender melhor os lençóis nas extremidades da cama.
- Vá... agora já chega de leituras, está bem ? Precisa de descansar... Tente dormir um pouquinho, está bem?
A avó assentiu com um movimento da cabeça, sem largar o precioso sobrescrito.
- Até já, avó... já sabe... se precisar de alguma coisa... toque a campainha, está bem? Estou lá em baixo, a arrumar a cozinha...

- Então, como está ela hoje?
- Como está? Está na mesma, creio...
- Reconheceu-te? Falou contigo?
- Reconheceu... não se lembrava da minha idade, mas fora isso, até falou normalmente.... e claro que estava a ler de novo a carta...
- Outra vez? Aquela carta... a que tu escreveste no Natal ?
- Shiu.... fala baixo.... a avó tem Alzheimer... mas não é surda. Sim.... essa mesma carta. Ela continua a acreditar que ainda tem 30 anos... que o avô ainda é vivo e que ainda está emigrado lá para Africa...

(continua...)

entremares disse...

(...continuação)

- Mas isso já foi há mais de querenta anos, Susana...
- E depois ? Deixa estar, Rodrigo, que eu trato disso... prefiro que ela continue assim... feliz... a reviver aquele passado... do que a pensar no presente... é melhor assim...
- Não sei se concordo contigo...
- Eu sei, já falámos disso... mas ela é minha avó, não é tua... e acredita, eu tenho mesmo que fazer isto...
- ... muito bem, tu é que sabes... e olha, a propósito, lembrei-me que talvez pudéssemos ir hoje ao cinema... o Jorge disse-me que ia passar...
- Não posso, Rodrigo... a sério, gostava muito... mas tenho que ir escrever a carta desta semana...
- A carta?
- Sim... a carta que a avó tem que receber do avô... amanhã é sexta feira... e sexta feira é o dia em que ela está sempre à espera de uma carta do avô...

- Susana...
- Sim, Rodrigo ?
- Sabes que eu te adoro, não sabes?
- Claro que sei... por alguma razão casei contigo, não foi ?

MCA disse...

Entremares. Obrigada.