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21 julho 2008

Modernices de linguagem: Deletar

Esta é uma modernice de linguagem que, felizmente, ainda não se vulgarizou na forma escrita, pelo menos deste lado do Atlântico. Na linguagem oral, porém, é cada vez mais usada.
Na origem da tecla "Del" está a palavra deleatur (do latim, apague-se)

símbolo de revisão tipográfica usado para indicar a supressão de uma palavra ou frase.
Deleatur é a 3ª pessoa do singular do presente do conjuntivo passivo do verbo latino deleo, que significa suprimir, destruir, apagar (Houaiss).
Quem não conhece a famosa frase (digna do Irão no seu melhor) Delenda Carthago! (Cartago tem de ser eliminada!) com a qual Catão terminava todos os seus discursos?

O mais curioso é que as pessoas que dizem "deletar" desconhecem que existe uma forma portuguesa para a palavrinha abreviada na tecla "Del" do teclado do seu computador: o inglês delete pode (e, no meu entender, deve) ser traduzido por "delir" (Houaiss).

Vá lá, não custa nada. Tem menos letras, é mais rápido de dizer e é português do melhor.

Conjugação do verbo delir.

14 comentários:

André A. Correia disse...

Epá, "delir" é completamente novidade para mim. Está-se sempre a aprender...

José Quintela Soares disse...

Será quase "delírio" que "delir" entre nos nossos vocábulos diários, mas que seria quase "delirante"...isso seria.

teresamaremar disse...

Boa noite Clara

como bem refere, Delenda est Carthago, assim se insurgia Catão, o Velho, o estadista romano

As palavras, porque têm vida própria, migram. Assim aconteceu com o delete, chegada ao inglês (ramo germânico, sim) mas por via do francês (ramo românico), tendo a sua origem no Latim

dĕleo, -evi, -etum, delere =destruir

Por mim, não concordo, integralmente, com o Dicionário Houaiss, quando este refere
o inglês delete pode e deve ser traduzido por "delir".

Poder, pode; dever, já não sei se deve, e isto porque delir implica uma ideia de dissolução, algo que se dilui, sendo usado enquanto apagar apenas em sentido figurado.

À falta de melhor, tudo bem. Contudo, porque delere remete directamente para o destruir, creio que, em breve, deletar estará nos dicionários de língua portuguesa [se é que em alguns não consta já], não como uma modernice ou atentado, mas, num retorno às origens, assim regressando a uma língua românica, o nosso Português, retomando o seu lugar de direito.

abraço

teresamaremar disse...

Encontrei, entretanto, esta página

http://www.geocities.com/gene_moutoux/latinderivatives.htm

Latin Derivatives
English Words from Latin



não consta o delete mas tem uma mostra interessante.

teresamaremar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MCA disse...

Teresa, o "pode e deve" não é do Houaiss, é meu. Peço desculpa se dei a entender isso. Mas vou já delir do texto esse equívoco :-)Muito obrigada pelo seu contributo!

teresamaremar disse...

:)) estou a sorrir... entre o delir e o deletar nada como apagar...

por curiosidade, fui`ao site abaixo e pesquisei ambos, diz que nem um nem outro constam do banco de verbos. Contudo, sugerem, tomando como base o partir, uma eventual conjugação...

Presente do Indicativo
eu delo
Mais-que-perfeito do Indicativo
eu delira
Futuro do Presente do Indicativo
eu delirei

:)) veja o resto, que é engraçado

http://linguistica.insite.com.br
/cgi-bin/conjugue

teresamaremar disse...

Peço desculpa, as sugestões anteriores referiam-se a delir, também as há, a partir do cantar, para o eventual deletar

:)

JPT disse...

a aprender. obrigado

MCA disse...

O Camilo usa várias vezes o verbo delir mas, tanto quanto me lembro, sempre no particípio passado: delido.

teresamaremar disse...

E eis quanto resta do idílio acabado

E eis quanto resta do idílio acabado,
- Primavera que durou um momento...
Como vão longe as manhãs do convento!
- Do alegre conventinho abandonado...

Tudo acabou... Anémonas, hidrângeas,
Silindras, - flores tão nossas amigas!
No claustro agora viçam as urtigas,
Rojam-se cobras pelas velhas lájeas.

Sobre a inscrição do teu nome delido!
- Que os meus olhos mal podem soletrar,
Cansados...E o aroma fenecido

Que se evola do teu nome vulgar!
Enobreceu-o a quietação do olvido.
Ó doce, ingénua, inscrição tumular.


Camilo Pessanha
Clepsidra


Pois é :) que giro, nunca me tinha dado conta. Obrigada!
Abraço

MCA disse...

Por acaso referia-me ao outro Camilo, ao Castelo-Branco! Entretanto, lembrei-me de uma situação em que usamos vulgarmente esse verbo, sem nos darmos conta: aquelas canetas para escrever no acetato (e nos sacos para o congelador... Ui! conversa de dona de casa!) são em tinta indelével.

teresamaremar disse...

:)

AP disse...

:0
Fiquei mesmo de boca aberta ;)

E ainda dizem que a língua portuguesa está desadequada ao mundo moderno (eh, eh, eh)

Sempre a aprender...