Aviso: na biblioteca de Jacinto não se aplicará o novo Acordo Ortográfico.

19 janeiro 2007

As razões da escolha XI

As acusações recíprocas têm sido uma constante no debate sobre a legalização do aborto. Era muito bom que isto acabasse. Há pessoas péssimas e sem escrúpulos de um e outro lado. Com certeza, como em relação a tudo. Mas a maioria das pessoas - e posso afirmá-lo, eu tenho acompanhado o tema - a maioria das pessoas acredita sinceramente que o seu voto é o certo, é o melhor para todos e que esse é o caminho para construir uma sociedade mais justa. As pessoas que vão votar Não deveriam pensar nos seus amigos e familiares, nas pessoas cuja opinião prezam, e tentar perceber se os que apoiam a legalização do aborto são realmente uns infanticidas sanguinários. As pessoas que tencionam votar Sim deveriam fazer o mesmo e pensar se, realmente, os seus amigos e familiares que são contra a legalização são todos um bando de nazis ou de inquisidores. Porque todos nós, sem excepção, conhecemos quem esteja contra e quem esteja a favor; e todos conhecemos quem já tenha feito um aborto. Uma amiga, uma familiar...
Fala-se pouco sobre o assunto, parece que não é de bom tom. Já tentei puxar a conversa algumas vezes e as pessoas não desenvolvem ou desviam o assunto. Acho que têm receio de se confrontar com opiniões diferentes ou, pior, têm medo de ser levadas a mudar de opinião. Não acredito que haja muitos indecisos. Acho que a maioria das pessoas já sabe há muito tempo como tenciona votar e prefere ficar com a ideia feita - uma espécie de retrato robot - das pessoas que votam em sentido contrário. Confrontar-se com a opinião contrária vinda de alguém que prezam - que não se encaixa no tal retrato robot - poderia levá-las a duvidar de si mesmas, por isso preferem não saber.
Há dias, em conversa com uma amiga, revelei a minha posição. Fiquei surpreendida com a reacção. Em tom de desafio, ela perguntou-me: «Então e porque é que vais votar...?». Digo em tom de desafio porque a pergunta parecia já pressupor a resposta. Mal consegui balbuciar as minhas razões. Para ela, só podia haver uma razão para o meu voto e essa razão estava perfeitamente estabelecida na sua cabeça. Logo derramou o seu argumentário, como se só houvesse boas razões para votar como ela e não houvesse um único bom argumento a meu favor. Não me quiz ofender nem afrontar (porque somos muito amigas) não me disse directamente «tu és...» mas dizia «as pessoas que votam assim são...». Ora, eu estou incluída nessas pessoas mas não quer dizer que eu e as outras pessoas que votam como eu pensem todas da mesma maneira.
Não fiquei a pensar mal dela (já do inverso, não tenho a certeza). Acho que está errada e gostaria de lhe conseguir explicar a minha posição. Se ela deixasse...

As razões da escolha X. IX. VIII. VII. VI. V. IV. III. II. I.

3 comentários:

Bom Garfo disse...

«Caímos tão fundo que atrever-se a proclamar aquilo que é óbvio se transformou em dever de todo o ser inteligente». (George Orwell)

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Porque todos nós, sem excepção, conhecemos quem esteja contra e quem esteja a favor; e todos conhecemos quem já tenha feito um aborto. Uma amiga, uma familiar...


Todos conhecemos alguém que roubou; salvaguardando a devida diferença entre roubo e aborto, vamos descriminalizar o roubo? Faz sentido, numa sociedade em que roubar pão para comer pode dar prisão, que se descriminalize quem aborta, matando um embrião ou um feto, porque tem que comprar um carro novo? Não cabe tudo dentro da perspectiva do aborto social? O aborto social não é “pau para toda a colher”?

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O NÃO recorre (normalmente) a factos e argumentos; o SIM recorre à emoção primária e ao slogan – em suma, à demagogia populista. Ainda ontem se assistiu à comemoração dos “julgamentos da Maia” pela televisão. Mas não se diz que os abortos realizados na Maia envolviam casos de muito mais que as dez semanas de gravidez; porque é que se esconde isto do Povo? Porque é que não se diz que, caso ganhe o SIM, que essas mulheres da Maia seriam julgadas da mesma forma? E porque é que não se diz que, em caso de aborto descriminalizado até às 10 semanas haverá quem grite que as mulheres da Maia, que abortaram aos 5 meses, deveriam ser despenalizadas? Porque é que o SIM não assume perante o Povo que quer o aborto até aos nove meses? Quem é desonesto aqui? Não concordo que se diga que os votos do SIM e do NÃO têm o mesmo valor.

Está na moda defender o aborto. O aborto livre transformou-se numa bandeira de afrontamento a uma moral. Utiliza-se a morte de um ser humano como estandarte para afrontar um sistema de valores. Não poderiam encontrar outras formas de luta? Para afrontar uma determinada moral, precisamos de prescindir da Ética? Ou, pelo contrário, devemos utilizar a Ética para criticar uma moral com que não concordamos?

Paulo Sempre disse...

Deixem as pessoas pensar por si. Sem a coação das palavras de outrém!!
Beijo
Paulo

Anónimo disse...

19 de enero de 2007: Primer aniversario del expolio del Archivo de Salamanca.